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segunda-feira, 19 de junho de 2023

Estigma por Erving Goffman



Quem gosta de Filosofia também gosta de Sociologia, isto é, falo por mim, Sociologia e a Filosofia são disciplinas irmãs, ambas se preocupam em explorar e compreender a condição humana e a sociedade, mas cada uma destas disciplinas possui seus métodos e abordagens específicas. A sociologia por exemplo se baseia em pesquisas empíricas e utiliza uma abordagem científica, enquanto a filosofia busca uma compreensão mais abstrata e conceitual por meio do questionamento e da reflexão crítica, ambas se completam e em seu conjunto nos auxiliam na compreensão do mundo.

Atualmente quem lê e estuda os clássicos de sociologia não pode deixar de ler as obras de Erving Goffman, uma sugestão de leitura deste autor é o Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada; ao final deixarei um breve resumo desta obra que é muito interessante e muito atual.

Vou falar um pouco da Sociologia e em seguida de nosso grande sociólogo, é necessário fazermos uma introdução sobre Sociologia e sua importância em nossas vidas, são muitas as razões pelas quais estudamos sociologia, vivemos num mundo cada vez mais globalizado e somos diariamente bombardeados por informações que precisam de nosso conhecimento, compreensão, analise e fundamentação. Já me perguntaram por que estudar Sociologia, motivos não faltam.

Inicialmente, a sociologia busca compreender a estrutura, as dinâmicas e os processos sociais que moldam nossas vidas. Ela nos ajuda a compreender como as instituições sociais, como a família, a educação, a economia e a política, funcionam e como elas afetam os indivíduos e grupos.

- Ela se dedica a estudar as desigualdades sociais, incluindo aquelas relacionadas à classe social, gênero, raça, etnia, orientação sexual e outros fatores. Ela fornece uma perspectiva crítica sobre as disparidades e injustiças existentes na sociedade, buscando promover uma maior igualdade e justiça social.

- Ajuda a entender fenômenos sociais complexos, como globalização, urbanização, movimentos sociais, migração, transformações tecnológicas, mudanças culturais e outros processos que moldam nossas sociedades contemporâneas.

- A pesquisa sociológica fornece insights valiosos para a formulação de políticas públicas eficazes. Por meio do estudo dos problemas sociais, da análise das necessidades das comunidades e da compreensão das consequências de políticas específicas, a sociologia pode contribuir para a tomada de decisões informadas e para a implementação de políticas mais justas e equitativas.

- Ajuda a refletir sobre identidades individuais e coletivas, como elas são construídas e como influenciam nossas experiências sociais. Ela nos permite compreender a diversidade cultural, os processos de formação de identidades e a importância do reconhecimento e respeito à pluralidade de perspectivas e vivências.

- Por fim, a sociologia permite analisar as mudanças sociais e os desafios que enfrentamos em um mundo em constante transformação. Ela nos ajuda a entender as implicações sociais de avanços tecnológicos, mudanças econômicas, crises ambientais, movimentos sociais emergentes e outros fenômenos que moldam nosso futuro coletivo.

Esses são apenas alguns aspectos que destacam a importância contínua da sociologia na compreensão e enfrentamento dos desafios sociais e na promoção de uma sociedade mais justa e inclusiva. A sociologia nos ajuda a desenvolver uma consciência crítica, questionar o status quo e buscar uma compreensão mais profunda dos sistemas sociais nos quais estamos inseridos.

Sociologia no Cotidiano

A sociologia do cotidiano é um ramo da sociologia que se concentra no estudo das interações e práticas sociais que ocorrem no dia a dia das pessoas. Ela busca compreender como as estruturas sociais, as normas e os valores influenciam e moldam as atividades cotidianas dos indivíduos.

Essa abordagem sociológica considera que a vida social não se restringe apenas a grandes eventos ou instituições, mas é construída por meio das interações diárias, dos hábitos, das rotinas e das práticas culturais que ocorrem nos espaços públicos e privados. Ela analisa como as pessoas constroem significados, estabelecem relações sociais e negociam suas identidades em contextos cotidianos.

A sociologia do cotidiano se baseia em teorias e conceitos sociológicos, como a teoria da ação social de Max Weber, a teoria interacionista de George Herbert Mead e a análise do simbólico de Erving Goffman. Essas perspectivas teóricas fornecem ferramentas para compreender como os indivíduos interpretam o mundo ao seu redor, como se relacionam com os outros e como negociam suas identidades em situações cotidianas.

Alguns temas de pesquisa na sociologia do cotidiano incluem a interação social em espaços públicos, as práticas de consumo, os rituais e cerimônias, as relações familiares, o trabalho e a construção de identidades sociais. Esses estudos podem revelar as formas como as estruturas sociais, como gênero, classe social, etnia e idade, influenciam as experiências cotidianas e as relações sociais.

Em suma, a sociologia do cotidiano busca entender como as interações e práticas sociais ordinárias moldam a vida social, contribuindo para uma compreensão mais completa das dinâmicas sociais e das relações entre indivíduos e sociedade.

Análise do simbólico de Erving Goffman

A análise do simbólico de Erving Goffman é uma abordagem teórica desenvolvida pelo sociólogo canadense Erving Goffman (1922 – 1982), que se concentra no estudo das interações sociais e na maneira como os indivíduos constroem significados e negociam suas identidades em situações cotidianas. Goffman argumenta que as interações sociais são como performances teatrais, em que os indivíduos desempenham papéis e utilizam símbolos para transmitir informações e estabelecer relações com os outros.

Segundo Goffman, a interação social ocorre em cenários específicos chamados de "frentes", que podem ser espaços físicos, como uma sala de aula ou um escritório, ou espaços virtuais, como as redes sociais. Nestas frentes, os indivíduos desempenham papéis sociais, como o de professor, aluno, colega de trabalho, amigo, etc. Esses papéis são moldados pelas expectativas sociais e pelas normas culturais, e os indivíduos devem seguir certas regras para desempenhá-los adequadamente.

Goffman introduziu o conceito de "manutenção da face" para descrever os esforços que os indivíduos fazem para preservar uma imagem positiva de si mesmos durante as interações sociais. Ele argumenta que as pessoas estão constantemente envolvidas em um processo de gestão de impressões, tentando controlar a maneira como são percebidas pelos outros. Isso envolve a apresentação de uma "fachada" social, que consiste nas expressões faciais, linguagem corporal, vestimentas e outros sinais visíveis que projetam uma imagem desejada.

Além disso, Goffman também destaca a importância dos "significados compartilhados" na interação social. Ele argumenta que os símbolos e os significados culturais desempenham um papel crucial na comunicação e na construção de realidades sociais. Os indivíduos interpretam os sinais e símbolos presentes na interação para atribuir significado às ações e comportamentos dos outros. A compreensão compartilhada desses símbolos é fundamental para a cooperação e para o estabelecimento de uma ordem social.

A análise do simbólico de Goffman tem sido aplicada em várias áreas de estudo, como a sociologia da saúde, a sociologia da educação, a sociologia do gênero e a sociologia das organizações. Sua abordagem enfatiza a importância das interações sociais cotidianas na construção da realidade social e destaca a agência dos indivíduos na construção de suas identidades por meio de performances simbólicas.

A análise do simbólico de Erving Goffman enfatiza a natureza performática da interação social, o papel dos símbolos na comunicação e a importância da gestão de impressões na construção das identidades sociais. Essa abordagem oferece uma perspectiva rica para compreender as dinâmicas das interações sociais e a maneira como os indivíduos se engajam na construção de significados compartilhados.

Erving Goffman não define uma lista específica de símbolos em sua análise do simbólico. No entanto, ele enfatiza a importância dos símbolos na comunicação e na construção de significados compartilhados durante as interações sociais. Esses símbolos podem variar de acordo com o contexto social e cultural, e sua interpretação depende da compreensão coletiva entre os participantes da interação.

Alguns exemplos de símbolos que podem ser relevantes na análise do simbólico de Goffman incluem:

- Expressões faciais: As expressões faciais, como sorrisos, franzir a testa ou levantar uma sobrancelha, são símbolos que comunicam emoções e atitudes. Esses sinais faciais podem ser usados para expressar felicidade, raiva, surpresa, entre outros sentimentos, e desempenham um papel importante na interação social.

- Linguagem corporal: A postura, gestos, movimentos do corpo e a distância física entre os indivíduos são exemplos de símbolos não verbais que transmitem mensagens e informações durante a interação. Por exemplo, uma pessoa cruzando os braços pode indicar uma atitude defensiva ou de fechamento, enquanto alguém se inclinando para frente pode demonstrar interesse e envolvimento.

- Vestimentas e adereços: A maneira como as pessoas se vestem e os acessórios que usam também podem ser símbolos que comunicam informações sobre sua identidade, status social, filiação a grupos e valores pessoais. A escolha de roupas formais ou informais, o estilo, as marcas e os objetos que uma pessoa usa podem transmitir mensagens simbólicas sobre sua posição na sociedade e seu pertencimento a determinados grupos.

- Espaço físico: A maneira como as pessoas ocupam e organizam o espaço físico durante a interação também é um elemento simbólico importante. Por exemplo, a posição de destaque em uma sala de reuniões pode indicar autoridade ou poder, enquanto a escolha de sentar ao lado de alguém pode sinalizar proximidade ou intimidade.

Os símbolos podem ser interpretados de maneira diferente por diferentes indivíduos ou em diferentes contextos culturais. A análise do simbólico de Goffman enfoca a negociação desses símbolos durante as interações sociais e como eles contribuem para a construção de significados compartilhados entre os participantes.

Erving Goffman, como sociólogo que desenvolveu a análise do simbólico, não pôde abordar diretamente os símbolos atuais, já que sua obra foi publicada principalmente nas décadas de 1950 e 1960. No entanto, a análise do simbólico de Goffman continua sendo aplicada e adaptada por pesquisadores contemporâneos para entender os símbolos e as práticas simbólicas nas sociedades atuais.

Na sociedade atual, os símbolos e as práticas simbólicas podem variar dependendo do contexto social, cultural e tecnológico. Alguns exemplos de símbolos atuais que podem ser analisados dentro do quadro teórico de Goffman incluem:

- Símbolos digitais: Com o advento da era digital e das mídias sociais, surgiram novos símbolos e práticas simbólicas relacionadas à comunicação online. Emojis, hashtags, memes e GIFs são exemplos de símbolos digitais que as pessoas utilizam para expressar emoções, identificar-se com comunidades específicas e comunicar mensagens rápidas e concisas.

- Autoapresentação nas redes sociais: As redes sociais desempenham um papel significativo na construção das identidades online. As pessoas selecionam cuidadosamente as fotos, postagens, atualizações de status e descrições de perfil para criar uma imagem desejada de si mesmas e gerenciar a percepção dos outros. Essa autoapresentação nas redes sociais envolve o uso de símbolos visuais, como fotos e vídeos, além de símbolos textuais, como palavras e hashtags.

- Marcas e produtos: As marcas e os produtos continuam a desempenhar um papel importante como símbolos na sociedade atual. Roupas de grife, logotipos de marcas famosas e produtos icônicos podem transmitir mensagens sobre status, estilo de vida, preferências e afiliações. O consumo de determinadas marcas e produtos também pode servir como uma forma de expressão simbólica e identidade social.

- Movimentos sociais e ativismo: Os símbolos também são utilizados nos movimentos sociais e no ativismo contemporâneo como formas de identificação e mobilização. Bandeiras, logotipos, cores e gestos simbólicos são usados para representar causas, expressar solidariedade e chamar a atenção para questões específicas.

Esses são apenas alguns exemplos de como os símbolos e as práticas simbólicas continuam a desempenhar um papel importante na sociedade atual. A análise do simbólico de Goffman pode ser aplicada para compreender como esses símbolos são utilizados, interpretados e negociados nas interações sociais contemporâneas. No entanto, é importante adaptar a análise às mudanças sociais, culturais e tecnológicas que ocorreram desde a época em que Goffman desenvolveu sua teoria.

Erving Goffman é considerado um dos principais sociólogos do século XX, e sua obra continua sendo relevante e influente na sociologia contemporânea. Embora tenha sido publicada principalmente nas décadas de 1950 e 1960, suas ideias e conceitos ainda são amplamente estudados, debatidos e aplicados atualmente.

A análise do simbólico de Goffman, em particular, é uma abordagem teórica que continua sendo aplicada em diversos campos da sociologia, como sociologia da interação, sociologia da comunicação, sociologia da cultura e sociologia das emoções. Sua ênfase nas interações sociais cotidianas, na performance social, na gestão de impressões e na construção de identidades permanece relevante para compreender as dinâmicas sociais contemporâneas.

Além disso, a obra de Goffman também oferece insights valiosos para a compreensão das mídias sociais, da sociedade digital e das novas formas de interação social que surgiram com a tecnologia. Pesquisadores têm adaptado e aplicado os conceitos de Goffman para analisar a construção de identidades online, a apresentação de si mesmo nas redes sociais, as interações virtuais e as práticas simbólicas no ambiente digital.

Embora Goffman não tenha abordado diretamente os desenvolvimentos mais recentes da sociedade, suas teorias e conceitos fundamentais continuam sendo uma referência importante para analisar as dinâmicas sociais contemporâneas. Os sociólogos ainda se baseiam em suas contribuições teóricas para entender a vida social e as interações humanas. Portanto, pode-se dizer que Goffman é considerado um autor clássico cujas ideias permanecem relevantes e aplicáveis no contexto atual da sociologia.

Goffman tem varia obras publicadas: A Representação do Eu na vida cotidiana; Manicômios, Prisões e Conventos; Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada; Os Quadros da Experiência Social: Uma Perspectiva de analise entre outros.

O livro “Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada” é relevante e atual

Vivemos numa sociedade que luta contra os diversos tipos de preconceitos e estigmas, vez por outra nos vemos diante de notícias que nos deixam atônitos, para entendermos melhor do que se trata o estigma social, é preciso entender o sofrimento do estigmatizado, a dor é emocional e psicológica experimentada por pessoas que são estigmatizadas ou marginalizadas devido a certas características, comportamentos ou identidades que são percebidas como diferentes, inferiores ou socialmente inaceitáveis pela sociedade em geral.

Erving Goffman escreveu e publicou em 1963, o livro "Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada", escrito por, ele é pedagógico e continua sendo relevante e atual. Nesta obra, Goffman analisa o conceito de estigma social e examina como a sociedade lida com pessoas que possuem características ou identidades consideradas desviantes ou negativamente estigmatizadas.

O conceito de estigma, como definido por Goffman, refere-se a um atributo pessoal que é profundamente desvalorizado e leva à desqualificação social. Ele aborda diferentes formas de estigma, como estigma físico (deficiências, deformidades), estigma moral (comportamentos considerados moralmente condenáveis) e estigma tribal (pertencer a um grupo estigmatizado).

A análise de Goffman sobre o estigma continua sendo relevante para a compreensão de como as pessoas são estigmatizadas e marginalizadas em várias esferas da vida social, como o emprego, a educação, o sistema de justiça criminal e os relacionamentos pessoais. O estigma pode ter impactos significativos na vida das pessoas, afetando sua autoestima, oportunidades de vida e interações sociais.

Além disso, o livro de Goffman destaca como os indivíduos estigmatizados gerenciam sua identidade e lidam com as percepções negativas que a sociedade tem sobre eles. Ele explora estratégias de gerenciamento de impressões, como a criação de fachadas para esconder ou minimizar o estigma, ou a busca por espaços e grupos onde possam encontrar apoio e aceitação.

O conceito de estigma continua sendo aplicado em diversas áreas da sociologia contemporânea, como estudos sobre preconceito e discriminação, estudos de gênero, estudos sobre saúde mental, estudos de deficiência e estudos de minorias. O livro de Goffman fornece uma base teórica para entender as dinâmicas do estigma e sua influência nas interações sociais e na vida das pessoas estigmatizadas.

Embora tenha sido escrito há várias décadas, o trabalho de Goffman sobre o estigma ainda é considerado uma leitura fundamental para entender os processos de estigmatização na sociedade atual e as consequências para aqueles que são estigmatizados.

Erving Goffman não especificou uma lista específica de estigmas em seu livro "Estigma", publicado em 1963. No entanto, o conceito de estigma que ele discute pode ser aplicado a uma ampla gama de características ou identidades que são socialmente desvalorizadas ou desqualificadas em contextos contemporâneos, como por exemplo temos os estigmas atuais que incluem:

- Estigma relacionado à saúde mental: Pessoas que lidam com transtornos mentais, como depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtornos alimentares ou vícios, podem enfrentar estigmas e discriminação, resultando em marginalização social e dificuldades em buscar tratamento adequado.

- Estigma relacionado à orientação sexual e identidade de gênero: Indivíduos que são lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros ou que possuem identidades de gênero não conformes podem enfrentar estigmas e preconceitos, levando a formas de exclusão social, discriminação e violência.

- Estigma relacionado à aparência física: Pessoas que não se enquadram nos padrões de beleza socialmente aceitos podem ser estigmatizadas com base em sua aparência, peso, altura, cor da pele, cicatrizes ou características físicas diferentes, enfrentando discriminação e exclusão.

- Estigma relacionado a doenças e deficiências: Indivíduos que vivem com doenças crônicas, deficiências físicas ou mentais podem ser estigmatizados, encontrando barreiras no acesso a oportunidades educacionais, emprego, serviços de saúde e inclusão social.

- Estigma racial e étnico: Pessoas pertencentes a grupos raciais ou étnicos minoritários podem enfrentar estigmas, preconceitos e discriminação sistêmica com base em sua origem racial ou étnica, limitando suas oportunidades e experiências de vida.

- Estigma relacionado ao vício: Indivíduos que lutam contra o vício em substâncias, como drogas ilícitas ou álcool, muitas vezes enfrentam estigmas que podem dificultar o acesso ao tratamento adequado, apoio social e reintegração na sociedade.

Esses são apenas alguns exemplos de estigmas atuais que as pessoas podem enfrentar. É importante ressaltar que os estigmas podem variar em diferentes contextos sociais, culturais e geográficos. A compreensão e a análise dos estigmas atuais exigem um exame cuidadoso dos contextos específicos em que ocorrem e das consequências sociais, emocionais e econômicas que eles podem impor sobre aqueles que são estigmatizados.

Então fica aí a sugestão de leitura para entender um pouco do pensamento de Erving Goffman:

- Resumo do livro: Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada, o resumo do livro é o seguinte:

Estigma, marca ou impressão, desde os gregos emprega-se como indicativo de uma degenerescência: os estigmas do mal, da loucura, da doença. Na Antiguidade Clássica, através do estigma, procurava-se tornar visível qualquer coisa de extraordinário, mau, sobre o status de quem o apresentasse. O estigma "avisava" a existência de um escravo, de um criminoso, de uma pessoa cujo contato deveria ser evitado.

Na Era Cristã, dois níveis foram acrescentados à metáfora do estigma: num, de natureza sagrada, o estigma era sinal corporal de graça divina; no outro, era uma alusão médica de distúrbio físico. Com o desenvolvimento dos estudos de patologia social, a palavra voltou a ser conotada à degradação. Fez-se esse retorno ao sentido condenatório do termo, mas não se procedeu ao estudo ou mesmo à simples descrição das precondições estruturais do estigma, nem se cuidou de precisar o conceito. Tomou-se o estigmatizado como protótipo do banido social, banido por exclusiva culpa sua. Ao defini-lo, penalizaram-no, colocando-o à margem da sociedade. Nesse incessante forjar de proscritos, não se cuidou sequer de perguntar, por exemplo, quem verdadeiramente é o marginal: o estigmatizado que a sociedade marginaliza ou a própria sociedade.

Este impressionante, veemente e lúcido livro reexamina os conceitos de estigma e identidade social, o alinhamento grupal e a identidade pessoal, o eu e o outro, o controle da informação, os desvios e o comportamento desviante, detendo-se em todos os aspectos da situação da pessoa estigmatizada: dos boêmios aos delinquentes, das prostitutas aos músicos de jazz, dos ciganos aos malandros de praia, do mendigo a quantos são considerados "engajados numa espécie de negação coletiva da ordem social", os que integram a "comunidade dos estigmatizados", todos têm, neste livro, sua imagem humanamente explicada à luz da antropologia social.

Fonte:

Goffman, Erving: Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada; Editora ‏LTC; 4ª edição (7 janeiro 2021)

 

sexta-feira, 16 de junho de 2023

A Natureza Ama se Esconder – Heráclito Espiritualizado!


Sou do tempo que levávamos a máquina fotográfica a tiracolo ainda com rolo de filme, revelávamos as fotos em papel fotográfico e ficávamos na expectativa pelo resultado das fotos reveladas, gosto até hoje de pegar as fotos impressas e manuseá-las sem a necessidade de abrir arquivos que sabe-se lá onde estão, sabe-se lá onde está “aquela” fotografia, por isto tenho uma mala de lembranças.

Revirando fotografias na minha velha mala de lembranças me deparei com algumas fotos tiradas em pescarias, sempre gostei de pescar, ao ver as fotos sinto até hoje conexão com a natureza, tenho presente em minha memória o poder revigorante e por me proporcionar uma sensação de paz e tranquilidade, o ato de lançar a linha e esperar calmamente por uma captura sempre me ajudou a aliviar o estresse e a tensão acumulados, é um momento para desacelerar, se desconectar das preocupações do dia a dia e encontrar um equilíbrio com a natureza, melhor ainda com a captura de um peixe é um momento de grande emoção e satisfação. A sensação de conquista ao pegar um peixe desejado, especialmente aqueles considerados difíceis de serem capturados, é muito gratificante, estas emoções relembradas foram aflorando e aos poucos fui resgatando lembranças em meu arquivo de memórias.

 

Minha infância foi vivida próximo e em contato quase diário com o mar, sou riograndino papareia, sempre senti uma conexão profunda com o mar e naturalmente desenvolvi uma paixão pela pesca. Sempre que tinha um tempinho livre me dirigia ao ponto mais próximo e aproveitava para arremessar a linha, como é natural nem sempre fisgava algum peixe, esperava pescar algo, mas esperava pelo inesperado, esperava fisgar aquele peixe ideal, nenhum dia era igual ao outro, nenhuma pescaria era igual a outra, quem é pescador sabe disso.

Observador que sou aprendi a encontrar os melhores lugares para pescar, tinha lugares especiais e não gostava de compartilhar a descoberta, conhecia os recifes escondidos e as correntes favoráveis, nenhum dia era igual ao outro, havia sempre algo de inesperado, minha curiosidade e desejo por uma captura inesquecível me impulsionavam a descobrir outros lugares interessantes, sempre esperava pacientemente por um sinal de que minha busca por outro lugar especial havia valido a pena, por tudo isto estava implícito muita aprendizagem. A curiosidade não é suficiente para desvendar os lugares especiais, pois nossa curiosidade é limitada por nossa miopia e muitas vezes queremos ver mais do que podemos é porque precisamos desenvolver confiança na beleza do inesperado.

Aprendi que pescar não é depredar, esgotar o local especial ou não, Deus me livre, desde muito tempo aprendi sobre a importância da pesca sustentável e da preservação dos ecossistemas marinhos, aprendi a respeitar o mar, o respeito me é retribuído com o carinho das ondas mansas, com a brisa com sabor de mar, com sua beleza e encanto, o mar é um presente da natureza e lá em suas profundezas esconde muitos segredos.

Estas pescarias tinham algo a mais, para mim tinham um significado mais profundo, não sabia e hoje sei que sou do tipo de pescador heraclitiano, sou do tipo que gosta de sentar na beira do mar, contemplando as águas que se estendem diante de mim, e me descobri um pensador profundo em busca de sabedoria nas marés e nas ondas, na verdade não é para pegar peixe que me leva ao mar, a pescaria é como um portal que me permite vislumbrar tanto os fenômenos naturais como nosso mundo interior, quem me conhece ou leu alguns de meus artigos sabe que também curto aquele cafezinho e chimarrão na companhia de Deus, enquanto alguns buscam meditar em cerimônias de chá, surfando, caminhando, andando de bicicleta, eu também tenho minhas peculiaridades.

Enquanto observo o vai e vem das águas, posso refletir sobre as palavras do antigo filósofo, Heráclito, que afirmava que tudo está em constante mudança, ele percebeu a verdade nessas palavras ao olhar para as ondas quebrando na praia, assim como ele percebi que nenhum dia de pescaria, assim como cada pescaria não eram e não são iguais.

Cada onda é única, nunca igual à anterior. Elas surgem do mar profundo e, por um breve momento, tomam forma antes de retornarem ao oceano. Este pescador não cansa em contemplar a transitoriedade de cada onda, assim como a efemeridade da própria vida.

Percebi um paralelo entre as ondas e os momentos da existência humana. Assim como as ondas, os momentos passam, dando lugar a outros. Percebi que a vida é uma sucessão de momentos fugazes, cada um diferente do anterior, mas todos destinados a se fundir no fluxo contínuo do tempo, assim como as ondas que vem e retornam ao mar.

Enquanto observava as marés, este pescador heraclitiano entendeu que não se pode segurar as ondas nem deter o tempo, com o passar do tempo compreendi a importância de viver plenamente no momento presente, sabendo que tudo está em constante mudança e que a impermanência é uma característica fundamental da existência.

Percebi que a beleza da vida está na apreciação dos momentos efêmeros, na aceitação da impermanência e na compreensão de que cada instante é valioso e único, assim como cada onda quebrando na praia.

Sempre apreciei passear a beira mar com tempo nublado ou sob o sol, melhor sob sol que cria uma atmosfera cálida e agradável, com sua luz refletida nas águas proporcionando uma paisagem deslumbrante, com brilhos dourados proporcionando cenários perfeitos para minhas caminhadas ou simplesmente apreciar sua beleza natural, as gaivotas com sua presença graciosa e elegante, com seus voos suaves e chamados característicos. Suas asas brancas contrastando com o azul do céu e do mar, adicionando uma atmosfera pitoresca ao cenário com seu som ao fundo criando uma sensação de tranquilidade.

Até hoje este pescador heraclitiano continua a contemplar as águas e, com o coração cheio de serenidade, sigo meu caminho como um observador atento das mudanças do mundo. Hoje sei que, assim como as ondas, também faço parte desse fluxo eterno, navegando pelas águas da existência, sempre em busca de sabedoria e compreensão.

E ali, na beira do mar, este pescador heraclitiano encontrou um lugar de quietude e reflexão, conectando-se profundamente com a natureza e as verdades universais que ela revela, percebi que Deus é um filósofo natural, que Ele sempre esteve e está em todos lugares especiais ou não, fisgando peixes ou não, Deus está na natureza e Ele como a natureza amam se esconder, logo vou explicar o que penso a partir do pensamento heraclitiano.

A frase "a natureza ama se esconder" é uma citação atribuída ao filósofo pré-socrático Heráclito nascido em Éfeso na Turquia. Essa citação é uma parte da filosofia heraclitiana que aborda a ideia de que a natureza opera de maneiras sutis e ocultas, assim como Deus, assim é Deus.

Heráclito acreditava que o mundo era um eterno devir, ele acreditava que a natureza é caracterizada por uma constante mudança e transformação, onde tudo está em fluxo. Ele via a realidade como um processo dinâmico, onde opostos se encontram e se transformam mutuamente. Nesse contexto, a frase "a natureza ama se esconder" pode ser interpretada como a ideia de que a natureza não se revela completamente, mas sim se oculta em seu constante movimento e transformação.

Para Heráclito, a compreensão da natureza exige uma observação atenta e uma percepção das mudanças sutis e ocultas que ocorrem ao nosso redor. Ele acreditava que a verdadeira sabedoria consistia em compreender a natureza mutável do mundo e se adaptar a ela.

Essa citação de Heráclito reflete sua visão filosófica sobre a natureza como um fenômeno em constante movimento e transformação, que exige uma atenção cuidadosa para ser compreendido em sua totalidade, para mim este filósofo pré-socrático é um dos mais brilhantes por perceber o mundo e a vida em seus movimentos esperados ou inesperados, tal como um pescador que diante do poderoso mar está atento a sua movimentação.

Estamos longe de perceber o que realmente ocorre a nossa volta, sei que vemos pouco do que ocorre seja do micro, seja do macro, quando conseguimos perceber é porque já houveram mudanças, é quando nossa percepção foi arrebatada pelo estranhamento causado pela dinâmica da constante transformação, a passagem do tempo é percebida pela transformação da natureza que nos cerca, muitas vezes damo-nos conta tardiamente, há complexidade em torno de nós, a dimensão da natureza é esmagadora, a resposta para tanta beleza na criação é de haver um Criador.

Acredito na corrente de pensamento que Deus é o criador do universo e, portanto, possui um conhecimento profundo e perfeito de todas as leis naturais e fenômenos que ocorrem nele. Nessa visão, Deus é um filósofo natural supremo, que possui uma compreensão completa e abrangente da natureza e de como ela funciona.

Na minha perspectiva, Deus é a fonte de toda sabedoria e conhecimento, incluindo aqueles relacionados à filosofia natural. Acredito que Deus tenha estabelecido as leis naturais que regem o universo e que sua sabedoria transcende a compreensão humana.

As pescarias seja onde forem no mar ou rio são ambientes propícios para a conexão espiritual. Durante as pescarias aproveito o tempo em meio à tranquilidade da natureza para refletir, meditar e até mesmo conversar com Deus, buscando uma conexão mais profunda com o divino, tentando em minha humildade descortinar os segredos que a natureza procura esconder.

As pescarias me oferecem um espaço de silêncio e serenidade, onde é possível me sentir mais próximo da presença divina, diante da imensidão do mar, a beleza dos rios ou a calma dos lagos evocam em mim um senso de reverência e admiração, me proporcionando um ambiente propício para a espiritualidade, nesta vibração percebo que o véu que cobre os segredos da natureza é tirado aos poucos me revelando uma face divina.

Aproveito para agradecer pelas bênçãos recebidas, faço minhas orações, busco orientação, as vezes procuro encontrar conforto ou simplesmente vou para compartilhar meus pensamentos e emoções com Deus. Essa comunicação com o divino me traz uma sensação de paz interior, propósito e conexão com algo maior.


 

Acredito que cada pessoa tenha sua própria forma de vivenciar e expressar sua espiritualidade, as pescarias são místicas e podem ser um momento especial para esse encontro com o divino. É uma oportunidade para unir a paixão pela pesca à busca por uma conexão espiritual mais profunda, permitindo que a natureza seja o cenário para essa conversa com Deus, lembrando que a “natureza ama se esconder”, as descobertas são como presentes e brindes, aprendi a apreciar minhas conquistas, as pescarias tem sua própria dinâmica de autodescobrimentos, o devir é incerto e os acontecimentos inesperados são aguardados por simples beleza e confiança, aprendi a presentear-me com um pouco do meu tempo, neste tempo de presente me foi possível desvendar segredos e conquistar um pouco mais de mim, como disse não é para pegar peixe que me leva ao mar.