Pesquisar este blog

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Mãos de Luz


Se pararmos por um momento para observar nossas mãos, perceberemos um mundo de diversidade contido em cada dedo, em cada gesto que fazemos. As mãos são mais do que simples apêndices; são ferramentas de expressão, instrumentos de trabalho e veículos de amor. Neste papo informal, vamos dar uma visada na incrível variedade que as mãos apresentam e por que vale a pena refletir sobre essa diversidade. Elas não são apenas partes do corpo; são símbolos da complexidade da vida e, de maneiras surpreendentes, conectam filosofias, espiritualidades e culturas. Vamos refletir sobre o que nossas mãos podem nos ensinar sobre a riqueza que está escondida na diferença.

Uma sugestão de leitura que aborda o tema de maneira singular é o livro "Mãos de Luz", escrito por Barbara Ann Brennan, oferece uma perspectiva única sobre o poder das mãos no contexto da energia e da cura. Brennan, renomada terapeuta energética, nos guia por um fascinante mundo onde as mãos não são apenas instrumentos físicos, mas portadoras de luz e energia vital. É um livro de descobertas que sem dúvida nos faz pensar como podemos despertar e descobrir em nós potências que precisam ser desenvolvidas para uso em favor do bem.

As Mãos como Canais de Energia: No universo de Brennan, as mãos não são simplesmente extensões do corpo, mas canais através dos quais a energia flui. Ela explora a ideia de que nossas mãos são capazes de captar, canalizar e redistribuir energias sutis que permeiam o corpo e o ambiente ao nosso redor. Este conceito transforma a maneira como entendemos o papel das mãos, transcendendo sua função física para algo mais profundo.

A Diversidade de Toques Terapêuticos: "Mãos de Luz" destaca a diversidade de toques terapêuticos que as mãos podem oferecer. Desde toques suaves e reconfortantes até movimentos mais intensos, cada abordagem tem a capacidade única de interagir com o campo energético do indivíduo. Essa diversidade de toques reflete a necessidade de adaptação e personalização na prática da cura energética.

Imposição das Mãos e Cura: A técnica da imposição das mãos, tão presente em diversas tradições espirituais e terapêuticas, é explorada à luz dos conceitos energéticos apresentados por Brennan. Ela descreve como a transmissão intencional de energia através das mãos pode influenciar positivamente o equilíbrio energético do receptor, tocando não apenas o corpo físico, mas também os aspectos sutis da existência.

As Mãos na Percepção da Aura: Brennan introduz a fascinante ideia de que as mãos podem ser instrumentos para perceber e interagir com a aura, o campo energético que envolve o corpo. Ao aprender a sentir e interpretar as nuances da aura por meio das mãos, somos capacitados a compreender melhor as complexidades da saúde física e emocional.

"Mãos de Luz" nos convida a repensar a natureza das mãos, transcendendo a visão convencional para abraçar a riqueza da energia que possuímos. Este olhar profundo destaca como as mãos não apenas executam tarefas físicas, mas também desempenham um papel crucial na expressão e no equilíbrio da energia vital. Ao explorar os ensinamentos de Brennan, descobrimos um novo significado nas mãos - um convite para a jornada fascinante de compreender e utilizar sua luz interior.

Além de Brennan, outros já trataram sobre a diversidade que é uma característica intrínseca à natureza humana e ao mundo que nos rodeia. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que na anatomia das mãos, onde os dedos, apesar de não serem idênticos em forma, contribuem para a unidade funcional. Então vamos prosseguir analisando agora através da visão filosófica da unidade na diversidade, ancorada tanto na filosofia ocidental quanto nas perspectivas do budismo.

Filósofos ocidentais como Aristóteles e Hegel abordaram a questão da diversidade e unidade em diferentes contextos. Aristóteles, em sua filosofia, enfatizou a ideia de que a unidade emerge da diversidade, criando uma harmonia na variedade. Hegel, por sua vez, explorou a dialética entre opostos, argumentando que a contradição é essencial para o desenvolvimento da unidade. A mão, com seus dedos distintos, pode ser vista como um microcosmo que reflete as complexidades da vida. Cada dedo tem sua função única, mas é na sua cooperação que a mão atinge sua máxima eficácia. Essa analogia pode ser aplicada à sociedade, onde a diversidade de habilidades e perspectivas contribui para a riqueza coletiva.

Budismo e a Compreensão da Unidade na Diversidade: O budismo, com sua ênfase na interdependência e na natureza transitória da realidade, oferece uma perspectiva única sobre a coexistência de elementos diversos. A filosofia budista ensina que a compreensão da interconexão de todas as coisas é fundamental para alcançar a iluminação. No budismo, a mão tem um papel significativo em práticas meditativas. Mudras, gestos simbólicos feitos com as mãos, são usados para canalizar a energia e expressar conceitos espirituais. A diversidade de mudras representa a variedade de caminhos espirituais, enquanto a unidade reside na busca comum pela iluminação.

Os dedos não são idênticos, mas são iguais na medida em que a diversidade formal dos singulares atinge a igualdade, por potência, no envoltório da mão, esta metáfora dos dedos da mão ilustra de maneira poderosa a filosofia da unidade na diversidade. Seja na tradição filosófica ocidental ou na perspectiva budista, a compreensão de que a diversidade é essencial para a harmonia e a unidade oferece insights valiosos para a forma como percebemos o mundo ao nosso redor. Assim como os dedos colaboram para a função integral da mão, a humanidade, ao abraçar e celebrar suas diferenças, pode alcançar uma maior realização coletiva.

Como vimos, as mãos, com sua diversidade intrínseca, têm sido fonte de reflexão filosófica e espiritual em várias tradições. Além das perspectivas filosóficas ocidentais e budistas, a visão do kardecismo adiciona uma dimensão espiritual à análise da unidade na diversidade. No contexto do kardecismo, as mãos são frequentemente vistas como instrumentos através dos quais a energia espiritual é canalizada. Allan Kardec, fundador do espiritismo, destacou a mediunidade como uma forma pela qual as mãos podem servir como veículo de comunicação entre o mundo físico e espiritual.

Assim como os dedos desempenham funções específicas na mão, as mãos no kardecismo são vistas como instrumentos versáteis para diferentes tarefas espirituais. Seja na imposição das mãos para transmissão de energias curativas ou na psicografia, a diversidade de usos reflete a variedade de dons espirituais presentes na prática kardecista. O kardecismo enfatiza a prática da caridade como um caminho espiritual. Neste contexto, as mãos são instrumentos de auxílio e apoio ao próximo. A diversidade de habilidades e ações solidárias unem-se na expressão máxima de caridade, demonstrando como a unidade pode emergir da diversidade.

A abordagem kardecista, ao valorizar a diversidade de dons espirituais e o papel das mãos como instrumentos de transmissão energética, converge de certa forma com a filosofia budista. Ambas as tradições reconhecem a interdependência e a coexistência de diversas manifestações na busca espiritual.

A metáfora das mãos, ao integrar as perspectivas filosóficas ocidentais, budistas e kardecistas, revela uma complexidade única. Enquanto as mãos representam a diversidade funcional na esfera física, elas transcendem para servir como instrumentos de conexão espiritual e manifestação da caridade. Nesse entendimento, a unidade na diversidade ganha uma dimensão mais profunda, ilustrando a riqueza que surge quando diferentes tradições se entrelaçam em busca de compreensão e elevação espiritual.

Fonte:

Brennan, Barbara Ann. Mãos de Luz. Um guia para a cura através do campo de energia humana. Trad. Octávio Mendes Cajado. Ed. Pensamento, São Paulo, 1987.

Sodré, Muniz. Pensar Nagô. Ed. Vozes. Petrópolis, RJ, 2017

 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Minha Akpalô

Neste mês de dezembro com a chegada do Natal e a virada para o novo ano, fazemos nossa reflexões sobre o passado, presente e o olhar para o futuro com fé e tranquilidade, nestas reflexões estão presentes os ensinamentos de minha Akpalô que foi minha mãe, uma grande mestra sábia da vida espiritual e material, vieram a tona recordações das histórias que me contou ao longo de minha vida, uma delas muito especial vou compartilhar pois entendo que tem muita importância para aqueles que estejam aflitos principalmente nesta data de reflexões.

Na suave penumbra da noite riograndina, a Akpalô, minha mãe, mulher de baixa estatura mas de coração imenso, era uma guardiã da tradição iorubá (nagô). Em meio às muitas histórias que fluíam de seus lábios, uma narrativa especial se destacava, uma que ecoava com o batuque dos tambores sagrados e a sabedoria das entidades umbandistas e da nação, contada mais de uma vez desde minha infância, constituindo e construindo minha personalidade e minha fé.

Minha Akpalô em sua sabedoria de contadora de histórias contava a história da Cabocla Jurema, uma entidade espiritual que, segundo a Akpalô, tinha sua origem nas matas profundas, onde a magia e a natureza dançavam em harmonia. A Cabocla Jurema, com seus olhos que brilhavam como estrelas e sua pele adornada com as cores da floresta, era uma presença divina que envolvia os corações daqueles que buscavam seu auxílio. Em sua vida de médium trabalhou desde muito jovem com a permissão de nosso Deus, incorporava a Cabocla Jurema trazendo para este mundo alivio para as dores da alma, espírito e corpo, solidificando a nossa fé nas entidades de luz, através das reuniões mediúnicas nos traziam sua sabedoria e nos ensinavam que independente das agruras da vida a fé é a maior arma e ao mesmo uma bênção que nos conecta com o mundo superior.

A história começava com o amanhecer de um novo dia na vastidão verde da floresta. A Cabocla Jurema, nascida da essência das árvores antigas e das águas cristalinas, cresceu em meio às canções dos pássaros e à dança suave das folhas ao vento. Seus cabelos negros eram entrelaçados com segredos ancestrais, e sua voz era a melodia da própria natureza. Cabocla Jurema filha valente de Tupinambá, adotada pelo mundo, foi encontrada aos pés do arbusto da planta encantada que lhe deu o nome, Ela cresceu forte, linda, como formosura da noite e firmeza do dia, corajosa, a Cabocla tornou-se a primeira guerreira mulher da tribo, pois sua força, agilidade, manejo das armas e da ciência da mata, tornara-se uma lenda por todo o continente, onde contadores de histórias, aos pés das fogueiras, falavam da indígena de pena dourada, que era a própria mãe divina encarnada. Nada causava medo a Cabocla, até que um dia ela encontrou seu amor num jovem indígena, adversário de sua tribo, Ela apaixonou-se por um caboclo chamado Huascar, de uma tribo inimiga chamada filhos do sol, que por sua vez fora preso em uma batalha. Jurema que aprendera a resistir ao conto do boto, ao veneno das cascavel e da amadeira, já resistira bravamente a centenas de emboscadas e que sentia o cheiro a distância de ciladas, não conseguiu resistir ao amor que fluía do seu peito por aquele guerreiro, observando o caboclo preso, ela viu nos olhos dele, as mil vidas que eles passaram juntos, viu seus filhos, o amor que os unia além da carne e percebeu que não foi por acaso, que ele fora o único caboclo capturado vivo, e decidiu libertá-lo, mesmo sabendo que seria expulsa da sua tribo. Seu amor proibido pelo jovem indígena foi marcado em seu rosto, com uma ponta de flecha incandescente deixando uma marca como também é conhecida. No entanto, Jurema em sua fuga com seu amado, foi perseguida por seu próprio povo e em meio a chuva de flechas voando em direção do caboclo fugitivo, foi Jurema que caiu, salvando o seu amado e recebendo a ponta da morte que era para ele, no seu próprio peito. No lugar onde Jurema caiu, nasceu uma planta rebusca e muito resistente que dá flor o ano inteiro, cujo formato exótico e o tom amarelo-alaranjado intenso chamou atenção de todas as tribos, pois tudo dessa planta poderia ser utilizado, desde as sementes, até as flores e o caule, e porque as flores dessa planta estão sempre viradas para o astro maior, a flor ficou conhecida como girassol.


Jurema tornou-se uma guardiã das ervas curativas e uma protetora das criaturas que habitavam os recantos escondidos da floresta. Sua sabedoria era buscada por xamãs e curandeiros, e sua presença era invocada em rituais sagrados para trazer cura e equilíbrio às vidas dos devotos.

Em uma noite de lua cheia, Jurema revelou sua história à Akpalô em um sonho vívido e também através dos mestres contadores de histórias vindo a confirmar sua veracidade. Ela contou sobre desafios enfrentados, batalhas travadas contra forças sombrias e a necessidade de preservar a conexão sagrada entre a humanidade e a natureza. A Akpalô, despertando com a mensagem da Cabocla, sentiu-se chamada a compartilhar essa narrativa como uma lição valiosa para todos aqueles que estivessem com seus ouvidos e mentes abertos para o conhecimento e sabedoria.

A história da Cabocla Jurema tornou-se parte integrante do repertório da Akpalô, entrelaçada com as narrativas iorubás que ela contava com tanta maestria. Cada detalhe da vida da Cabocla era contado com reverência, como um tributo às entidades espirituais que habitam os reinos além do nosso alcance sensorial. Em nosso pais onde a espiritualidade escolheu para transmitir sua sabedoria as religiões se mesclam, tudo porque o Deus único assim quer. Essa história, contada com o mesmo colorido especial que caracterizava todas as histórias da Akpalô, transmitiu não apenas o mito da Cabocla Jurema, mas também a importância de honrar as forças espirituais que guiam nossos caminhos. Assim, a Akpalô, mulher de estatura pequena mas de alma gigante, continuou a ser uma ponte entre mundos, compartilhando as riquezas de suas experiências e enriquecendo as vidas daqueles que a cercavam. Por fim, cabe apenas agradecer a Deus por nos conceder a benção de ter saído do seu ventre e aprendido com esta mestra Akpalô a beleza da vida. Deus que já a levou para as querências superiores a esta preparando para retornar a este mundo e seguir com seus ensinamentos, queira Deus que eu seja novamente um de seus filhos. Deixo aqui um dos maiores ensinamentos de minha Akpalô, “Tenha fé, sempre fé em Deus que Ele irá prover todas nossas necessidades conhecidas e desconhecidas”!

 

domingo, 17 de dezembro de 2023

Sociedade de Controle

Gilles Deleuze, filósofo francês, e o sociólogo Félix Guattari abordaram o conceito da "sociedade de controle" em seu livro "O que é a Filosofia?" (1991). Neste contexto, a ideia de sociedade de controle é uma extensão e uma crítica à sociedade disciplinar proposta por Michel Foucault. Na sociedade disciplinar, o poder é exercido por instituições centralizadas, como prisões, escolas e fábricas, que impõem disciplina e controle sobre os indivíduos. No entanto, Deleuze e Guattari argumentam que, na contemporaneidade, estamos passando de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle.

Na sociedade de controle, as instituições tradicionais de disciplina não desaparecem, mas são complementadas por mecanismos mais flexíveis e difusos de controle. Deleuze usa a metáfora do "dividu" em vez do "indivíduo" para destacar como a identidade se torna fragmentada e fluida. Os sistemas de controle atuam de maneira mais sutil e abrangente, utilizando tecnologias de informação, vigilância eletrônica e redes de comunicação. A ideia principal é que, na sociedade de controle, não estamos mais lidando com confinamento físico, mas sim com monitoramento constante e uma sensação de estar sempre sob observação. As fronteiras entre trabalho, lazer e vida pessoal se tornam mais permeáveis, e as pessoas são constantemente rastreadas e categorizadas por algoritmos e sistemas de vigilância.

Deleuze não fornece uma análise detalhada da sociedade de controle, mas sua obra inspirou muitos pensadores a explorar as transformações sociais contemporâneas e os efeitos da tecnologia na forma como vivemos e nos relacionamos. Essa perspectiva crítica ajuda a compreender melhor as mudanças nas estruturas de poder e controle na era digital.

No turbilhão da sociedade contemporânea, onde nossas vidas são tecidas na teia digital, as ideias de Gilles Deleuze sobre a "sociedade de controle" ganham relevância como nunca antes. Ao lado de seu comparsa filosófico, Félix Guattari, Deleuze nos presenteou com uma lente única para entender como o poder se transformou na era da informação. Em vez de correntes físicas, agora enfrentamos o olhar penetrante das câmeras e algoritmos. Vamos explorar essa transformação esmiuçando alguns exemplos do nosso cotidiano.

Imagine-se por um momento como um "dividu". Não, não é um erro de digitação, é a forma como Deleuze nos convida a repensar a ideia de indivíduo. Nas redes sociais, somos fragmentados em diferentes personas online. No Facebook, somos profissionais exemplares; no Instagram, artistas criativos; e no Twitter, comediantes espontâneos. Cada plataforma exige uma máscara diferente, criando uma versão digital de nós mesmos.

Se antigamente o poder estava nas mãos daqueles que controlavam os meios de produção, agora está nas mãos daqueles que controlam a atenção. Os algoritmos das redes sociais são os mestres de cerimônia nessa festa, decidindo o que merece um like, compartilhamento ou, pior ainda, o ostracismo digital. Nessa economia da atenção, quem dita as regras são as métricas de engajamento, e somos todos atores em busca de aplausos virtuais.

Antes, temíamos as prisões e as câmeras de segurança nas esquinas. Agora, ansiamos pelas selfies e pelos momentos Instagramáveis. A sociedade de controle não precisa de grades para nos manter alinhados; ela se infiltra nas nossas vidas de maneira mais sutil. Cada check-in, cada foto geolocalizada é um ato de autovigilância. Estamos sempre sendo observados, mas é nossa escolha estar na vitrine, sorrindo para a câmera.

Em um mundo onde nossos dados valem mais que ouro, e a atenção é a moeda corrente, a sociedade de controle de Deleuze emerge das entranhas do nosso Wi-Fi. As selfies são as novas barricadas, as hashtags são os slogans da revolução digital. A cada like, estamos assinando nosso contrato de participação nesse espetáculo interminável. A sociedade de controle não está mais no horizonte; ela está no nosso bolso, na ponta dos nossos dedos. E enquanto continuamos a postar, clicar e compartilhar, devemos nos perguntar: quem está realmente no controle?