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sábado, 10 de fevereiro de 2024

Retorno do Reprimido

Ah, o retorno do reprimido! Uma expressão que ecoa pelos corredores sombrios da psique humana, despertando curiosidade, inquietude e até mesmo um leve arrepio na espinha. Sob um véu filosófico, esse conceito mergulha nas profundezas do inconsciente, desvendando mistérios, conflitos e desejos que jazem além da nossa consciência cotidiana. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, foi um dos pioneiros a explorar as intrincadas teias do inconsciente humano. Para Freud, o retorno do reprimido é uma noção fundamental que descreve o processo pelo qual os conteúdos psíquicos que foram recalcados ou reprimidos ressurgem na consciência, muitas vezes de maneira distorcida ou disfarçada. Ora, quem ainda não ouviu tal termo e não leu algo a respeito, ainda mais que em nosso cotidiano temos uma boa pitada de situações que poderiam muito bem se encaixar.

Imagine uma caixa de Pandora, repleta de pensamentos, desejos e memórias que foram relegados ao escuro por nossa consciência. Esses conteúdos, porém, não desaparecem simplesmente; eles permanecem vivos e ativos no subterrâneo da mente, aguardando uma oportunidade para emergir. Mas por que reprimimos esses conteúdos? Aqui é onde a psicanálise lança luz sobre os recantos mais sombrios da nossa psique. Segundo Freud, a sociedade impõe uma série de regras, normas e tabus que moldam nosso comportamento desde tenra idade. Certos impulsos e desejos, considerados inaceitáveis ou perigosos, são suprimidos pela consciência em um esforço para manter a harmonia social e a integridade do ego. No entanto, o inconsciente é um terreno fértil para o que Freud chamou de "retornos do reprimido". Esses retornos podem se manifestar de várias maneiras: sonhos, lapsos freudianos, comportamentos sintomáticos e até mesmo em formas mais sutis, como hábitos compulsivos ou repetições de padrões de relacionamento.

Mas o que faz com que esses conteúdos reprimidos retornem à superfície? Aqui reside outro aspecto intrigante do retorno do reprimido: a resistência. O inconsciente não cede facilmente aos ditames da consciência; ele luta para se fazer ouvido, encontrando brechas nas defesas do ego e buscando expressão de formas muitas vezes inesperadas e desconcertantes. Como lidar com o retorno do reprimido? Essa é uma pergunta que tem intrigado não apenas psicanalistas, mas também filósofos, artistas e pensadores ao longo dos séculos. Afinal, o inconsciente não conhece limites temporais ou espaciais; suas fronteiras se estendem além do tempo presente, ecoando os ecos do passado e projetando-se para o futuro.

Talvez seja por isso que o retorno do reprimido exerce um fascínio tão duradouro sobre a imaginação humana. É um lembrete poderoso de que, por mais que tentemos controlar e domar nossa psique, sempre haverá mistérios e enigmas além do nosso alcance. Então, da próxima vez que sentir um lampejo fugaz de um desejo reprimido ou encontrar-se às voltas com um sonho enigmático, lembre-se: o retorno do reprimido está sempre à espreita, pronto para nos surpreender e desafiar nossas noções preconcebidas sobre quem somos e o que desejamos.

Eis algumas situações do cotidiano que exemplificam o retorno do reprimido, vamos começar pelos “sonhos reveladores”, você está tendo um sonho estranho e vívido sobre estar perdido em um labirinto escuro. No entanto, ao acordar, você percebe que o labirinto era na verdade uma metáfora para sua sensação de estar preso em um emprego que não te realiza. Seu inconsciente estava tentando enviar uma mensagem sobre seus sentimentos reprimidos em relação ao trabalho.

Agora pense naqueles lapsos de linguagem, durante uma discussão com um amigo, você acidentalmente o chama pelo nome de um ex-parceiro ou ex-parceira. Embora você tente disfarçar o erro, fica claro que algo mais profundo estava em jogo. Esse lapsus linguae revela possíveis sentimentos ou memórias reprimidas em relação ao seu antigo relacionamento.

Vamos agora aos hábitos compulsivos, você percebe que toda vez que está sob estresse, tem o hábito compulsivo de roer as unhas. Apesar de tentar parar várias vezes, o comportamento persiste. Esse hábito pode ser um retorno do reprimido, uma manifestação física de ansiedades ou tensões que você tenta reprimir conscientemente.

E aqueles esquecimentos significativos, você está prestes a apresentar um projeto importante no trabalho, mas de repente percebe que esqueceu os documentos chave em casa. Essa falha aparentemente simples pode ser um exemplo de como o retorno do reprimido se manifesta através de lapsos de memória, refletindo ansiedades profundas sobre desempenho e sucesso.

Para finalizar vamos para os padrões de relacionamento repetitivos, é quando você percebe que está atraindo repetidamente o mesmo tipo de parceiro ou parceira, mesmo que isso leve a relacionamentos insatisfatórios ou prejudiciais. Esse padrão de comportamento pode ser um retorno do reprimido, refletindo questões não resolvidas ou padrões de relacionamento internalizados desde a infância ou experiências passadas.

Essas situações cotidianas ilustram como o retorno do reprimido pode se manifestar em nossas vidas de maneiras diversas e muitas vezes surpreendentes, revelando aspectos ocultos de nossa psique que exigem reflexão e compreensão. Para muitos casos é necessário tratar o retorno do reprimido, o tratamento envolve um processo de autoconhecimento e aceitação dos conteúdos inconscientes que emergem. Após algumas leituras e pesquisas elaborei algumas estratégias que podem ajudar nesse processo:

Psicoterapia: Buscar a ajuda de um psicoterapeuta qualificado pode ser fundamental para explorar e compreender os conteúdos reprimidos que estão surgindo. A psicoterapia oferece um ambiente seguro e acolhedor para discutir questões profundas da psique e trabalhar na resolução de conflitos internos.

Autoanálise: Desenvolver a habilidade de refletir sobre seus pensamentos, emoções e comportamentos pode ajudar a identificar padrões recorrentes e compreender as origens dos conteúdos reprimidos. Manter um diário de sonhos, emoções e experiências pode ser útil nesse processo.

Mindfulness e Meditação: Práticas como mindfulness e meditação podem ajudar a aumentar a consciência sobre os processos mentais e emocionais, permitindo uma observação mais objetiva dos conteúdos que surgem na mente. Isso pode facilitar a compreensão e a integração dos aspectos reprimidos da psique.

Expressão Criativa: Encontrar formas criativas de expressão, como arte, escrita, música ou dança, pode oferecer uma saída saudável para os conteúdos reprimidos. A expressão criativa permite explorar e processar emoções de forma simbólica e não verbal.

Aceitação e Integração: Em vez de tentar reprimir ou ignorar os conteúdos que surgem do inconsciente, é importante aceitá-los como parte integrante da experiência humana. Reconhecer e integrar esses aspectos reprimidos pode promover um maior senso de autenticidade e bem-estar emocional.

Cuidado com o Autojulgamento: Evitar o autojulgamento e a autocrítica excessiva é essencial durante o processo de lidar com o retorno do reprimido. É importante cultivar uma atitude de compaixão e aceitação em relação a si mesmo, reconhecendo que todos nós temos aspectos sombrios e complexos em nossa psique.

Tratar o retorno do reprimido envolve um processo de auto exploração, aceitação e integração dos conteúdos inconscientes que surgem à tona. Ao buscar apoio profissional e adotar práticas que promovam o autoconhecimento e o cuidado emocional, é possível enfrentar esses desafios de forma construtiva e transformadora. Uma destas formas também se encontra na leitura de obras voltados para o tema. Existem várias obras em língua portuguesa que abordam questões relacionadas ao inconsciente, ao retorno do reprimido e ao processo de autoconhecimento. Aqui estão algumas sugestões:

"O Livro Vermelho" - Carl Gustav Jung: Este livro é uma espécie de diário pessoal de Jung, no qual ele registrou seus próprios processos de exploração do inconsciente. É uma obra densa e profunda, que oferece insights valiosos sobre a natureza da psique humana.

"O Inconsciente" - José Bleger: Neste livro, o psicanalista argentino José Bleger explora os conceitos fundamentais do inconsciente e sua influência no comportamento humano. É uma leitura acessível e esclarecedora para aqueles interessados ​​em compreender melhor as dinâmicas psíquicas.

"A Interpretação dos Sonhos" - Sigmund Freud: Considerada uma das obras mais importantes de Freud, "A Interpretação dos Sonhos" explora o papel dos sonhos na revelação dos conteúdos inconscientes. Embora seja uma leitura desafiadora, oferece uma visão profunda sobre a mente humana.

"O Complexo de Édipo" - Sigmund Freud: Neste livro, Freud introduz e discute o conceito do complexo de Édipo, um dos pilares da teoria psicanalítica. É uma leitura fundamental para compreender as dinâmicas familiares e os conflitos psíquicos que surgem durante o desenvolvimento humano.

"A Arte de Sonhar" - Carlos Castaneda: Embora não seja estritamente uma obra psicológica, "A Arte de Sonhar" oferece uma perspectiva interessante sobre o papel dos sonhos e da imaginação na busca de autoconhecimento. Castaneda explora técnicas para explorar conscientemente os sonhos e acessar os conteúdos do inconsciente.

Essas são apenas algumas sugestões de leitura que podem ajudar na compreensão e no tratamento do retorno do reprimido e questões relacionadas à psique humana. É importante ressaltar que a jornada de autoconhecimento é única para cada indivíduo, e diferentes obras e abordagens podem ressoar de maneira diferente em cada pessoa. Cada indivíduo tem sua própria dose de necessidade, o processo pode levar algum tempo, geralmente é uma jornada de uma vida de autoconhecimento, ainda mais que somos uma caixa de pandora, cada vez que resolvemos abrir uma frestinha, salta lá de dentro alguma coisa pedindo nossa atenção. Então, boas leituras, que cada uma delas lhe proporcione um salto de descobertas.

 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Desconstrução de Heróis

Você já parou para pensar como algumas ideias simplesmente pipocam em nossa mente e nos instigam a explorá-las mais a fundo? Pois é, isso aconteceu comigo recentemente enquanto eu folheava um artigo online (Vide abaixo o link da entrevista) e me deparei com uma entrevista intrigante. A conversa, foi como um estopim para uma série de reflexões sobre um tema que permeia não só a nossa sociedade brasileira, mas também diversas outras culturas ao redor do mundo: a desconstrução de heróis. Na entrevista, Oziris Silva foi entrevistado no Programa Roda Viva e compartilhou sua conclusão do porque o Brasil não tem um prêmio Nobel, em razão de quem quando surge algum possível candidato ele não tem apoio dos brasileiros e ainda é alvo de forças contrárias, coisa que alavanca a desconstrução do herói.

Dito isto, comecei a refletir sobre a ideia que temos e a visão de como nossa percepção de heróis está em constante mutação, e como a realidade muitas vezes contrasta com as idealizações que construímos ao redor de determinadas figuras públicas. Suas palavras não só me provocaram a pensar sobre as figuras que admiramos, mas também sobre os processos sociais e culturais que moldam essas percepções.

É a partir dessa faísca de inspiração que decidi mergulhar mais fundo nesse tema fascinante e, de certa forma, controverso, porém sem dar razão ou deixar de dar as palavras de Oziris, afinal o tema é complexo e em parte também penso que não somos muito crédulos nas façanhas dos brasileiros. Afinal, o que acontece quando os heróis que idolatramos são confrontados com suas próprias falhas e limitações? Como lidamos com a desconstrução dessas figuras em quem depositamos nossa confiança e admiração?

Neste artigo os convido a explorar essas questões e tentar lançar alguma luz sobre a dinâmica complexa que permeia a construção e desconstrução de heróis em nossa sociedade. Então, prepare-se para uma jornada de reflexão e análise enquanto nos aventuramos pelo labirinto das expectativas, realidades e decepções que acompanham o processo de idealização e queda de nossos heróis contemporâneos. Quando se pensa em heróis, é comum visualizar figuras que transcendem a mediocridade comum, que inspiram e nos fazem acreditar em algo maior do que nós mesmos. No entanto, no contexto brasileiro, essa ideia de herói muitas vezes é submetida a um processo de desconstrução e desilusão que parece ser inerente à nossa sociedade.

O Brasil é um país que tem uma rica tradição de figuras públicas que, em algum momento, foram consideradas heróis. Seja no campo da política, do esporte, da cultura ou mesmo da ciência, sempre houve aqueles que foram elevados ao status de ídolos. No entanto, é notável como muitos desses ícones acabam caindo do pedestal em que foram colocados. Um pensador brasileiro que refletiu sobre essa questão de maneira perspicaz foi o sociólogo e filósofo Gilberto Freyre. Em suas obras, Freyre explorou as complexidades da sociedade brasileira, destacando tanto suas qualidades quanto suas contradições. Ele argumentava que a cultura brasileira era marcada por uma mistura única de elementos, mas também por profundas desigualdades e tensões sociais.

No contexto da desconstrução de heróis, Freyre poderia nos lembrar que a construção de ídolos muitas vezes está ligada a idealizações que não resistem à realidade. O Brasil, com sua diversidade e complexidade, é um terreno fértil para a emergência de figuras que são rapidamente alçadas ao status de heróis, apenas para serem derrubadas quando expostas às suas próprias fraquezas e contradições. Olhando para a história recente do país, podemos ver inúmeros exemplos desse fenômeno. Figuras políticas que foram celebradas como redentoras acabam envolvidas em escândalos de corrupção; atletas que foram reverenciados como deuses do esporte se veem envolvidos em polêmicas e problemas pessoais; artistas que foram idolatrados como gênios criativos são confrontados com suas próprias sombras.

Essa desconstrução de heróis no Brasil não é apenas um reflexo da fragilidade humana, mas também de questões estruturais mais profundas. A desigualdade social, a corrupção sistêmica, a falta de transparência e accountability nas instituições públicas e privadas são apenas algumas das forças que contribuem para essa dinâmica. No entanto, apesar das decepções e desilusões que inevitavelmente acompanham a queda de nossos heróis, é importante lembrar que esse processo também pode ser uma oportunidade para o amadurecimento e o crescimento coletivo. Ao confrontar as imperfeições de nossos ídolos, somos desafiados a questionar nossas próprias idealizações e a buscar uma compreensão mais realista e complexa do mundo ao nosso redor.

Acredito que nenhum brasileiro recebeu o Prêmio Nobel na categoria de Física, Química, Medicina, Economia ou Literatura. No entanto, alguns brasileiros foram agraciados com o Prêmio Nobel da Paz, embora não tenham sido premiados como indivíduos, mas sim como parte de organizações internacionais ou movimentos. Um exemplo notável é o ex-presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1992, como presidente do Instituto da Cidadania, uma organização dedicada à promoção da paz e ao combate à pobreza. Além disso, o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que trabalhou em missões de paz da ONU, recebeu postumamente o Prêmio Nobel da Paz em 2003, como representante da organização. É importante ressaltar que, até o momento, nenhum indivíduo brasileiro recebeu o Prêmio Nobel em campos como Física, Química, Medicina, Economia ou Literatura.

A desconstrução de heróis no Brasil pode nos lembrar da importância de cultivar uma cultura de responsabilidade e accountability, tanto em nível individual quanto coletivo. Somente reconhecendo e enfrentando as nossas fraquezas e contradições podemos verdadeiramente aspirar a construir um país mais justo, ético e inclusivo para todos os seus cidadãos. Então, ao final destas reflexões sobre a desconstrução de heróis no Brasil, fica claro que a idealização de figuras públicas está longe de ser uma narrativa linear. Nossa sociedade é complexa, repleta de nuances e contradições, e os heróis que veneramos muitas vezes refletem essas mesmas ambiguidades.

Ao longo destas reflexões, procurei explorar como algumas figuras brasileiras, embora nunca tenham sido agraciadas com o Prêmio Nobel, ainda assim desempenharam papéis de destaque em suas respectivas áreas, enfrentando tanto a admiração quanto a desconstrução de suas imagens. É importante lembrar que a desconstrução de heróis não deve ser vista como um fim em si mesma, mas sim como uma oportunidade para um olhar mais crítico e reflexivo sobre as estruturas de poder, as narrativas dominantes e as expectativas que moldam nossa percepção do que é ser um herói.

Neste processo, talvez possamos aprender a abraçar a humanidade de nossos ídolos, reconhecendo que todos nós, independentemente de nossas realizações, somos seres falíveis e imperfeitos. E, ao fazê-lo, podemos abrir espaço para uma cultura mais inclusiva, empática e compassiva, onde a verdadeira grandeza não reside na perfeição, mas sim na capacidade de reconhecer e aceitar nossas próprias limitações. Portanto, que possamos continuar questionando, desafiando e reconstruindo nossas noções de heroísmo, sempre com um olhar crítico, mas também com compaixão e empatia. Pois, no final das contas, são as histórias imperfeitas e humanas que nos conectam e nos inspiram a buscar um mundo melhor para todos.

Como não poderia encerrar o artigo sem falar naquele que é fonte de inspiração, faço menção a uma obra fundamental de Gilberto Freyre, esta obra me veio a mente quando estava lendo o artigo citado, é "Casa-Grande & Senzala". Publicada em 1933, essa obra é um marco na sociologia brasileira e oferece uma análise profunda das relações sociais, culturais e raciais no Brasil colonial.

"Casa-Grande & Senzala" explora as complexidades da formação da sociedade brasileira, destacando a influência das culturas africana, indígena e europeia na construção da identidade nacional. Freyre aborda temas como escravidão, patriarcado, sincretismo religioso e a dinâmica das relações entre senhores e escravos. Ao examinar as estruturas sociais e culturais do Brasil colonial, Freyre lança luz sobre as contradições e ambiguidades que permeiam a história do país, oferecendo insights valiosos sobre a construção e desconstrução de ícones e heróis culturais ao longo do tempo. Então pensei que ao incorporar ideias e conceitos de "Casa-Grande & Senzala" em um artigo sobre a desconstrução de heróis, é possível enriquecer a discussão com uma compreensão mais profunda das raízes históricas e socioculturais desse fenômeno no contexto brasileiro.

Ficam as dicas de leituras.

Site Entrevista:

(https://tribunadepetropolis.com.br/noticias/ozires-silva-premio-nobel-e-nossos-herois/#google_vignette) visitado em 09/02/2024

Fonte:

Freyre, Gilberto. 1900-1987. Casa-grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal; apresentação de Fernando Henrique Cardoso 51ª ed. Ver. – São Paulo: Global, 2006

 

Congruência na Percepção

Na correria do dia a dia, muitas vezes nos vemos imersos em um turbilhão de percepções, interpretações e experiências que moldam a maneira como vemos o mundo ao nosso redor. No entanto, será que aquilo que percebemos corresponde realmente à realidade objetiva? Essa questão intrigante nos leva a uma jornada filosófica em busca da congruência na percepção. Ao longo da história da filosofia, pensadores de diversas escolas e tradições têm se debruçado sobre a natureza da percepção e sua relação com a realidade. Um dos filósofos que nos convida a refletir sobre esse tema é Immanuel Kant, com sua teoria da fenomenologia. Para Kant, a percepção é uma atividade mental que organiza e estrutura os dados sensoriais brutos, moldando nossa compreensão do mundo. Segundo ele, nossa percepção é filtrada por categorias a priori da mente, o que pode distorcer a maneira como percebemos a realidade.

À luz dessa perspectiva kantiana, surge uma interessante reflexão: até que ponto nossas percepções refletem a verdade objetiva? A congruência na percepção torna-se então uma busca constante pela harmonia entre aquilo que percebemos e aquilo que é verdadeiramente real. No entanto, como navegantes em um mar de ilusões sensoriais, muitas vezes nos vemos desafiados a distinguir entre a aparência e a essência das coisas.

Outro filósofo que lança luz sobre essa questão é Maurice Merleau-Ponty, com sua fenomenologia da percepção. Para Merleau-Ponty, a percepção não é apenas uma atividade cognitiva, mas uma experiência corporificada e enraizada em nossa existência no mundo. Nossa percepção é moldada por nossos corpos, nossas experiências e nossas relações com o ambiente ao nosso redor. Assim, a congruência na percepção torna-se não apenas uma questão de correspondência entre sujeito e objeto, mas também uma questão de integração e harmonia entre corpo e mundo.

Diante dessas reflexões, somos desafiados a questionar nossas próprias percepções e a nos abrir para novas maneiras de ver e compreender o mundo. A busca pela congruência na percepção não é apenas uma busca por uma verdade objetiva e imutável, mas também uma jornada de autoconhecimento e expansão da consciência. Nesse sentido, a filosofia não apenas nos convida a questionar o mundo ao nosso redor, mas também a questionar a nós mesmos e nossas próprias maneiras de perceber e interpretar a realidade. Ao abraçarmos essa jornada filosófica, podemos nos tornar navegantes mais hábeis em meio às marés turbulentas da percepção, buscando sempre a congruência entre aquilo que vemos e aquilo que é verdadeiramente real.

Aqui vão algumas situações do dia a dia que mostram como é importante buscar a congruência na percepção:

Mensagens de Texto Mal-Entendidas: Sabe quando você manda uma mensagem para um amigo e ele interpreta completamente errado? Isso acontece direto! Às vezes, usamos emojis ou sarcasmo, mas a outra pessoa não pega o tom certo. Aí rola um mal-entendido. A busca pela congruência aqui envolve tentar entender o contexto da conversa e, se necessário, explicar melhor o que queremos dizer.

Opiniões Sobre Filmes ou Livros: Imagine assistir a um filme ou ler um livro e amar, mas quando você compartilha sua opinião, seus amigos discordam totalmente. Isso é super comum! Cada um tem sua própria interpretação e gosto pessoal. A busca pela congruência na percepção nesse caso é respeitar a opinião dos outros e entender que as experiências são subjetivas.

Julgamentos Rápidos: Às vezes, vemos alguém agindo de forma estranha e já tiramos conclusões precipitadas. Por exemplo, alguém pode estar quieto em uma reunião e pensamos que está desinteressado, mas na verdade pode estar apenas refletindo sobre o assunto. A busca pela congruência aqui é dar o benefício da dúvida e tentar entender o contexto da situação antes de julgar.

Percepção de Imagens e Arte: Quantas vezes você olhou para uma obra de arte e pensou: "Isso é arte de verdade?" É normal! Às vezes, o que é considerado arte por alguns pode não fazer sentido para outros. A busca pela congruência nesse caso é aceitar que a arte é subjetiva e que cada um tem sua própria interpretação.

Interpretação de Notícias: Com tantas fontes de notícias por aí, é fácil interpretar informações de maneiras diferentes. Uma notícia pode ser vista como positiva por alguns e negativa por outros, dependendo da perspectiva. A busca pela congruência aqui envolve verificar as fontes, considerar diferentes pontos de vista e formar sua própria opinião com base em informações confiáveis.

Essas situações do dia a dia mostram como a busca pela congruência na percepção é uma jornada constante. Às vezes, erramos, interpretamos errado, mas o importante é estar aberto para entender diferentes pontos de vista e aprender com as experiências. Afinal, é isso que nos ajuda a crescer e a nos conectar melhor com o mundo ao nosso redor.

E é assim que caminhamos na jornada da vida, entre mal-entendidos em mensagens de texto, debates apaixonados sobre filmes e livros, julgamentos rápidos e interpretações subjetivas da arte e das notícias. Às vezes, é difícil encontrar a congruência na percepção em um mundo tão diverso e cheio de nuances. No entanto, é essa diversidade de perspectivas que torna a vida interessante.

Entender que nossas percepções são moldadas por nossas experiências, valores e contextos culturais nos ajuda a cultivar empatia, compreensão e respeito pelas diferentes formas de ver o mundo. A busca pela congruência na percepção não é apenas uma questão de encontrar a verdade absoluta, mas sim de aprender a valorizar e respeitar a diversidade de opiniões e experiências que enriquecem nosso convívio diário.

Então, da próxima vez que nos depararmos com uma situação em que nossas percepções parecem estar em desacordo, lembremo-nos de que cada pessoa tem sua própria história, sua própria bagagem e sua própria maneira única de ver o mundo. E é isso que torna cada conversa, cada experiência e cada encontro tão especial e enriquecedor. Vamos continuar navegando por esse mar de percepções, abertos para aprender, crescer e nos conectar mais profundamente com aqueles ao nosso redor. Porque, no final das contas, é na diversidade de perspectivas que encontramos a verdadeira riqueza da experiência humana.