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quinta-feira, 7 de março de 2024

Ritmo do Tempo


Ah, o tempo. Esse dançarino invisível que nos guia através dos dias, meses e anos. Mas será que somos nós que determinamos o ritmo dessa dança ou somos apenas parceiros relutantes em sua coreografia implacável?

Pense em uma manhã agitada, o despertador toca impiedosamente, arrancando-nos dos braços do sono. É o tempo nos empurrando para mais um dia frenético. Corremos para nos arrumar, engolimos o café da manhã e nos lançamos na selva de concreto, onde cada segundo parece se esvair entre compromissos e responsabilidades.

Em meio a essa corrida desenfreada, é fácil esquecer que somos os regentes do nosso próprio tempo. Podemos escolher o ritmo da nossa jornada. Podemos desacelerar quando necessário, respirar fundo e apreciar os pequenos momentos que dão cor à vida.

Lembro-me de uma tarde ensolarada no parque, onde o tempo parecia desacelerar. Sentado em um banco, observei as crianças correndo, os pássaros cantando e as árvores dançando ao sabor do vento. Naquele momento, eu era o maestro da minha própria sinfonia temporal.

Na beira do mar, há uma mágica que transcende a contagem do tempo. Quando nos permitimos perder na imensidão do oceano, cada onda se torna uma melodia que embala nossos pensamentos em uma dança serena. O horizonte distante nos convida a contemplar o infinito, enquanto o som das águas acaricia nossos sentidos. Ali, naquele momento fugaz, não há preocupações com o relógio ou o calendário. Existe apenas a imensidão do mar, convidando-nos a apreciar a beleza do presente sem sentir o peso do tempo sobre nossos ombros. Cada mate sorvido a beira mar parece uma eternidade e ao mesmo tempo passa muito rápido, é preciso mais de uma garrafa de agua quente.

Mas não pense que controlar o tempo é tarefa fácil. Muitas vezes nos vemos reféns de relógios e agendas, como se fôssemos prisioneiros de um calendário implacável. É como se estivéssemos correndo em uma esteira sem fim, sempre perseguindo algo que está além do nosso alcance.

É nesse ponto que entra o pensador, aquele sábio que observa a dança do tempo com olhos perspicazes. Ele nos lembra que o tempo é relativo, que sua passagem é moldada pelas nossas próprias percepções e experiências.

Lembro-me das palavras de um filósofo contemporâneo, que disse: "O tempo é uma ilusão criada pela mente humana, uma tentativa desesperada de dar ordem ao caos do universo". Essa frase ressoa em mim como um eco de verdade, lembrando-me que somos nós que conferimos significado ao tempo, não o contrário.

Então, como podemos tomar as rédeas dessa entidade abstrata que chamamos de tempo? A resposta está na consciência e na escolha. Devemos estar conscientes de como usamos nosso tempo, fazendo escolhas que reflitam nossos valores e prioridades.

Podemos optar por desacelerar o ritmo, reservando tempo para o autocuidado, para estar com os entes queridos, para explorar nossas paixões e interesses. Podemos aprender a apreciar o presente, sem ficar presos aos arrependimentos do passado ou às preocupações do futuro.

Então, da próxima vez que sentir o peso do tempo sobre seus ombros, lembre-se: você é o dançarino, o maestro, o arquiteto do seu próprio tempo. Você determina o ritmo dessa dança, então faça dela uma melodia que ressoe com a sua essência mais profunda. E que cada batida do relógio seja uma oportunidade para viver plenamente, sem medo do que o futuro reserva, mas com gratidão pelo presente que você tem em suas mãos.

 

Onde está?


Onde está o "eu"? É uma pergunta que muitos de nós já nos fizemos em algum momento da vida, provavelmente enquanto perdidos em pensamentos profundos ou nos confrontando com questões existenciais. É uma questão que permeia o tecido da filosofia, da psicologia e até mesmo das conversas informais entre amigos. E, para explorar essa pergunta intrigante, vamos mergulhar em algumas situações do cotidiano e trazer um pensador para nos ajudar a fundamentar nossas reflexões.

Imagine-se sentado em um café, observando as pessoas ao seu redor. Você vê sorrisos, expressões sérias, olhares distraídos. Cada pessoa parece ter uma história única, uma perspectiva própria sobre o mundo. Mas onde está o "eu" em cada uma delas? Será que o "eu" reside nos pensamentos, nas emoções, ou em algum lugar mais profundo?

Vamos trazer para a conversa um dos grandes pensadores da filosofia ocidental: René Descartes. Descartes, em sua busca pelo conhecimento seguro, lançou as bases do pensamento moderno com sua famosa frase "Cogito, ergo sum" ("Penso, logo existo"). Para Descartes, o "eu" reside na capacidade de pensar, na consciência que temos de nossas próprias experiências. É essa consciência que nos torna seres pensantes e, portanto, seres conscientes de nossa própria existência.

Mas será que a simples capacidade de pensar é suficiente para definir o "eu"? O que dizer das emoções, das experiências sensoriais que nos fazem sentir vivos? Aqui entra outro pensador importante: o filósofo alemão Martin Heidegger. Para Heidegger, o "eu" não é algo que possuímos, mas sim algo que vivemos. Em sua obra magistral "Ser e Tempo", Heidegger argumenta que o "eu" emerge da interação entre o ser humano e o mundo ao seu redor. Somos seres-no-mundo, imersos em um contexto que molda nossa percepção de nós mesmos e dos outros.

Mas mesmo com essas reflexões, o "eu" ainda parece escapar de nossas tentativas de definição. Às vezes, nos perdemos em pensamentos tão profundos que nos esquecemos de quem somos. Outras vezes, somos inundados por emoções tão intensas que perdemos de vista nossa própria identidade. E então, onde está o "eu" nessas situações?

Podemos encontrar uma pista na psicologia, mais especificamente na teoria do self de Carl Rogers. Rogers acreditava que o "eu" é um processo em constante evolução, uma busca contínua pela congruência entre quem somos e quem queremos ser. Para Rogers, o "eu" não é uma entidade fixa, mas sim uma jornada de autodescoberta e autenticidade.

No budismo, a ideia do "eu" é como um daqueles truques de ilusionismo que nos fazem coçar a cabeça. Eles dizem que não existe um "eu" fixo, algo constante e imutável dentro de nós. É como se estivéssemos todos numa montanha-russa de pensamentos, sensações e experiências, sempre em movimento. Os caras do budismo, especialmente o Buda, nos ensinam que essa busca por um "eu" permanente é meio que um beco sem saída, tipo tentar agarrar um punhado de água. Eles dizem que somos feitos de um monte de coisas em constante transformação - nossos corpos, nossas sensações, nossas mentes. Nada disso é estático. Então, onde está o "eu" nisso tudo? Bem, para eles, não existe. É meio louco, né? Mas a ideia é que quando percebemos essa falta de um "eu" sólido, podemos ficar mais leves, mais livres. Afinal, se não há um "eu" para segurar, não há nada pra carregar. É como se a vida fosse uma grande peça de teatro e o "eu" fosse apenas mais um personagem na plateia.

Um livro que aborda o tema do "eu" e da identidade de uma forma profunda e reflexiva é "O Estranho Caso do Cachorro Morto", escrito por Mark Haddon. Embora seja uma obra de ficção, a história é contada através da perspectiva de um jovem autista chamado Christopher Boone, que possui uma visão única do mundo e de si mesmo. Um dia Christopher Boone encontra o cachorro da vizinha morto, transpassado por um forcado de jardim. Fã das histórias de Sherlock Holmes, o adolescente de 15 anos decide iniciar sua própria investigação e escrever um livro relatando o passo a passo para a resolução do mistério. Apesar de sonhar em ser astronauta, Christopher nunca foi além de seu próprio mundo e a busca pelo assassino do cãozinho Wellington o fará descobrir um universo inteiramente novo. Analisar fatos e seguir pistas é fácil para Christopher. Afinal, ele é esperto, conhece todos os países do mundo e suas capitais, consegue dizer todos os números primos até 7.057 e tem extrema facilidade com matemática e física. Mas a coisa complica na hora de precisar entender as emoções humanas, as piadas ou, ainda, as metáforas. E ainda por cima ele tem muita dificuldade para interpretar a mais simples expressão facial de qualquer pessoa — o que pode dificultar um pouco a sua missão. Criado entre professores e pais que definitivamente não sabem lidar com suas necessidades especiais, Christopher é autista e observa com inocência a confusão emocional da vida dos adultos ao redor. Narrado em primeira pessoa, O estranho caso do cachorro morto convida o leitor a conhecer o singular mundo de Christopher a partir de seu próprio olhar com muita sensibilidade.

Neste livro, Christopher embarca em uma jornada para investigar a morte de um cachorro na vizinhança, e suas reflexões e observações ao longo do caminho nos levam a questionar o que realmente significa ter uma identidade, compreender o "eu" e lidar com as complexidades da mente humana.

"O Estranho Caso do Cachorro Morto" é uma leitura envolvente e comovente, que nos faz refletir sobre temas profundos enquanto nos prende com uma história cativante, especialmente porquê está relacionada ao tópico principal do artigo, que é a busca pela compreensão do "eu" e da identidade. A inclusão de perspectivas diversas, como a experiência de pessoas no espectro do autismo, enriquece a discussão e amplia a compreensão do tema. Por exemplo, a percepção do "eu" pode ser moldada de maneiras únicas para pessoas no espectro autista. Podemos discutir como as diferenças sensoriais, as habilidades sociais e as formas de comunicação podem influenciar a construção da identidade e a compreensão do próprio "eu" para indivíduos autistas. Essa abordagem adiciona uma dimensão importante à discussão sobre o "eu" e a identidade, demonstrando como diferentes experiências de vida podem moldar nossa compreensão de quem somos.

Assim, voltamos à pergunta inicial: onde está o "eu"? Talvez a resposta não seja uma localização específica, mas sim um processo dinâmico de interação entre pensamentos, emoções e experiências. O "eu" é uma jornada, uma busca incessante por significado e identidade em um mundo em constante mudança. E, talvez, essa seja a beleza e o mistério de ser humano: nunca sabermos completamente onde está o "eu", mas estarmos sempre em busca de encontrá-lo.

 

 

quarta-feira, 6 de março de 2024

Ser o Que

 


Hoje, vamos conversar sobre uma daquelas perguntas que vez ou outra nos atormentam: podemos realmente ser o que queremos na vida? É uma pergunta profunda que nos leva a explorar os cantos escuros da autodeterminação e da realidade que enfrentamos todos os dias.

Imagine isso: você tem sonhos, ambições, metas que gostaria de alcançar. Quer ser um músico famoso, um cientista renomado, um empresário bem-sucedido ou talvez apenas uma pessoa feliz e realizada. A ideia de ser capaz de ser quem você quer é incrivelmente atraente, não é mesmo? Mas o que a realidade tem a dizer sobre isso?

Vamos considerar a história de Joana. Ela cresceu em uma família com poucos recursos, em um bairro onde as oportunidades eram escassas. Joana sonhava em ser médica desde que era pequena. Ela sabia que teria que lutar contra muitas adversidades para alcançar seu objetivo, mas estava determinada a seguir seu sonho. Estudou duro, conseguiu bolsas de estudo, trabalhou meio período para pagar os livros e, eventualmente, entrou na faculdade de medicina.

Parece um final feliz, certo? Mas a realidade é que Joana teve que enfrentar obstáculos que muitos de nós nem sequer imaginamos. Ela teve que superar o preconceito, a falta de recursos e o desânimo. No entanto, sua determinação e paixão pela medicina a levaram a alcançar seu objetivo.

Aqui está o ponto: ser o que queremos muitas vezes implica lutar contra as circunstâncias que nos cercam. É como se estivéssemos navegando em um mar cheio de correntes, às vezes favoráveis, outras vezes desafiadoras. Mas não estamos totalmente à mercê das marés da vida.

Vamos dar uma olhada em uma perspectiva interessante. O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre tem algo a dizer sobre isso. Ele argumenta que somos essencialmente seres livres, capazes de escolher e moldar nossas próprias identidades. Para Sartre, somos responsáveis por nossas escolhas e, portanto, por quem nos tornamos.

Mas espera aí, Sartre! E as influências externas, as limitações sociais e econômicas que enfrentamos? Elas não têm um papel importante em moldar nossas vidas? Sim, têm. E é aí que as coisas ficam complicadas. Porque, enquanto somos seres livres, somos também seres sociais, inseridos em contextos que muitas vezes estão além do nosso controle.

Então, onde isso nos deixa? Bem, acredito que nos deixa com uma mistura complexa de liberdade e determinismo. Podemos ter objetivos, sonhos, aspirações, mas também precisamos ser realistas sobre as barreiras que enfrentamos. No entanto, isso não significa que devemos desistir dos nossos sonhos. Significa apenas que precisamos ser persistentes, resilientes e, às vezes, criativos em nossa busca pelo que queremos.

Então, voltando à pergunta inicial: podemos ser o que queremos? Minha resposta é um sólido "talvez". Depende de uma série de fatores, incluindo nossas próprias escolhas, as oportunidades que surgem e nossa capacidade de enfrentar os desafios que encontramos pelo caminho.

No final das contas, a vida é uma jornada de autodescoberta e crescimento. Não sabemos exatamente onde vamos acabar, mas podemos fazer o melhor para nos tornarmos a melhor versão de nós mesmos. E isso, meus amigos, é uma aventura que vale a pena viver.

Agora sob outro olhar me ocorreu o seguinte: “Ser, o Que Quer? ”, afinal uma virgula faz toda a diferença.

 Todo mundo já ouviu aquele ditado "seja você mesmo", não é mesmo? Mas o que realmente significa ser você mesmo? Será que é algo que podemos alcançar sem reservas ou estamos fadados a ser uma mistura de influências externas, expectativas sociais e nossa própria natureza?

Imagine a seguinte situação: você está sentado em um café, olhando pela janela enquanto saboreia seu café ou chá favorito. Você se pega pensando sobre a sua vida, sobre as escolhas que fez, as oportunidades que deixou passar e aquelas que agarraram. Você se pergunta: "Será que estou sendo verdadeiramente quem eu quero ser?"

Essa pergunta pode desencadear uma série de reflexões profundas sobre autenticidade e autodeterminação. Afinal, o que queremos ser é muitas vezes moldado por uma miríade de influências: nossa família, amigos, cultura, mídia e experiências pessoais.

Vamos trazer novamente para a mesa Jean-Paul Sartre, o filósofo existencialista francês, tinha algumas coisas a dizer sobre isso. Como já disse anteriormente ele acreditava que somos seres livres, responsáveis por nossas próprias escolhas e que somos definidos por essas escolhas. Em outras palavras, Sartre argumentava que somos o resultado de nossas ações, e é através dessas ações que nos tornamos quem somos.

Então, voltando àquela pergunta incômoda sobre ser quem você quer ser, talvez Sartre estivesse nos dizendo para olhar para nossas escolhas. Estamos vivendo de acordo com nossos próprios valores e crenças, ou estamos simplesmente seguindo o fluxo das expectativas alheias?

Pense nas pequenas decisões do dia a dia. Desde a escolha do que vestir pela manhã até as decisões de carreira e relacionamento, cada escolha molda nossa jornada e contribui para quem nos tornamos. Às vezes, é fácil se perder no turbilhão de influências externas e esquecer quem realmente queremos ser.

Mas, e se a resposta não for tão simples quanto escolher um caminho e segui-lo? E se ser quem queremos for mais sobre aceitar a complexidade de quem somos, com todas as nossas falhas e contradições?

Aqui está uma ideia: talvez ser quem queremos seja mais sobre autenticidade do que sobre alcançar um estado ideal. Talvez seja sobre abraçar nossas imperfeições e abraçar a jornada de autodescoberta e crescimento pessoal.

Então, da próxima vez que você se encontrar questionando se está sendo quem quer ser, lembre-se de que a vida é uma jornada de autodescoberta e que ser autêntico consigo mesmo é um ato de coragem.

Então, levante sua xícara, respire fundo e lembre-se: ser quem queremos pode ser um trabalho em progresso, mas é um trabalho que vale a pena.

E lembre-se das palavras de Sartre: "Somos nossas escolhas." Então, que escolhas você fará hoje para se tornar quem quer ser?