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sábado, 11 de outubro de 2025

Existência Mínima


A existência mínima não é a ausência de vida, mas a vida reduzida ao essencial. É o momento em que a gente se pergunta: “o que é que realmente importa?” Pode ser um tempo de desemprego, de luto, de ruptura ou até de escolha voluntária por simplicidade. Quando tudo se desfaz ao redor, restam só as bases: o corpo, a respiração, a memória, e talvez uma ideia de futuro — ainda que turva.

 

No cotidiano, essa existência mínima aparece mais do que se imagina. A pessoa que vive num quartinho alugado com poucos móveis, mas que acorda cedo e varre a calçada como quem cuida de um castelo. O idoso que já não pode andar muito, mas se alegra ao receber a luz da manhã na varanda. A jovem que perdeu quase tudo, menos a capacidade de rir de si mesma. Essas pessoas não vivem menos. Vivem no limite daquilo que sustenta a dignidade.

 

Não se trata de romantizar a pobreza ou o sofrimento, mas de reconhecer que há vida — e às vezes uma vida intensa — nos espaços mais estreitos da existência. O mundo moderno nos ensinou que precisamos de muito para sermos alguém. Mas há quem se torne mais inteiro quando perde quase tudo.

 

O filósofo Henry David Thoreau, que escolheu viver por um tempo numa cabana isolada no mato, escreveu:

“Simplifica, simplifica, simplifica! Eu digo: que seus assuntos sejam dois ou três, e não cem ou mil.”

 

A existência mínima pode ser esse exercício de redução, não por falta, mas por sabedoria. A chance de descobrir que entre o ter e o ser, às vezes o ser precisa de pouco — mas esse pouco tem que ser verdadeiro.

 

Se você estiver vivendo uma existência mínima agora, talvez esteja mais perto de si do que nunca.


sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Senso Invertido

Há quem diga que fulano tem “senso invertido” como quem fala de alguém que, diante de um caminho reto, decide andar de costas. O senso invertido não é exatamente burrice nem rebeldia gratuita — é uma forma de percepção que vai contra a corrente, às vezes por teimosia, outras por sensibilidade. É como ver beleza no que está fora do lugar, lógica no caos, esperança onde ninguém mais acredita.

 

Imagine a criança que prefere brincar com a caixa do presente em vez do brinquedo. Ou aquele colega de trabalho que acha os momentos mais produtivos justamente quando a reunião acaba. O senso invertido aparece em pequenas decisões cotidianas: escolher o caminho mais longo porque é mais bonito, ouvir primeiro a opinião do mais calado, desconfiar do que todos aceitam como certo.

 

Na vida prática, o senso invertido pode parecer um atraso. Mas, em muitos casos, é o que impede que nos tornemos apenas peças obedientes de uma engrenagem social. É ele que faz alguém se recusar a aceitar uma injustiça "só porque sempre foi assim". É ele que, às vezes, faz um artista pintar com a cor errada ou um inventor insistir numa ideia improvável — e mudar tudo.

 

O filósofo e sociólogo francês Roland Barthes dizia que “o óbvio é aquilo que deve ser combatido”. Nesse espírito, o senso invertido funciona como uma espécie de anticorpo contra os automatismos do mundo. Ele é, no fundo, uma forma de resistência: não aceitar o que é dado como natural, questionar o evidente, reverter a lógica do costume.

 

Claro que nem sempre ele acerta. Às vezes tropeça na própria originalidade. Mas, mesmo quando erra, o senso invertido abre novas trilhas. E isso já é muito. Porque nem todo caminho precisa ser o certo — alguns só precisam ser possíveis.


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Certeza Dúbia

O paradoxo que move

Vivemos tempos em que se espera que tenhamos certezas sobre tudo. O que queremos ser, o que pensamos sobre o mundo, de que lado estamos. E, no entanto, existe algo mais comum – e mais honesto – do que a dúvida escondida dentro das nossas convicções? A certeza dúbia é esse estado híbrido, quase poético, em que seguimos agindo como se soubéssemos, mesmo quando o chão sob nossos pés range como tábua velha.

Acordamos com o despertador e temos certeza de que precisamos ir trabalhar, mas lá no fundo a dúvida existe: “É isso mesmo que eu quero fazer da minha vida?”
Dizemos que amamos alguém, e amamos, sim, mas em certos silêncios ou ausências nos perguntamos: “Será que isso é amor ou apego?”

Vamos ao supermercado com a certeza de que não vamos comprar besteira, mas passamos pelo corredor dos chocolates e algo dentro de nós diz: “Só esse hoje...”

Essa é a matéria da qual somos feitos: um entrelaçado de segurança e hesitação. Não somos máquinas que seguem comandos; somos seres que vivem entre apostas e possibilidades. A certeza nunca é absoluta, e talvez isso seja bom. Porque é esse grau de incerteza que nos permite mudar de ideia, pedir desculpas, crescer, recomeçar.

Na vida profissional, muitos dizem ter “certeza” de sua vocação. Mas quantas vezes essa certeza é sustentada apenas pelo tempo investido, pelo medo da mudança ou pelas expectativas alheias? Um médico que sempre sonhou ser músico. Uma advogada que carrega cadernos cheios de poemas escondidos no fundo da gaveta. A dúvida pode até incomodar, mas a certeza rígida demais sufoca.

Na esfera pessoal, o mesmo se repete. Temos certeza de quem somos — até que uma experiência nova, um livro lido por acaso, uma conversa no fim de tarde, muda o jeito como vemos tudo. Somos seres em construção, mas fingimos já estar prontos.

O filósofo francês Edgar Morin defende a ideia da complexidade: a vida não é feita de opostos puros, mas de misturas. A certeza dúbia é isso — um retrato da complexidade humana. Não é contradição; é profundidade. E é justamente nessa profundidade que mora a verdade mais viva.

Podemos aprender a não ter medo da dúvida. Ter dúvidas não nos enfraquece; nos torna mais atentos. A certeza dúbia nos impede de cair no fanatismo, nos obriga a escutar o outro, e a escutar a nós mesmos de novo. Ela é incômoda, sim, mas é também um convite à honestidade.

Agir mesmo com dúvidas não é fraqueza, é coragem. É fazer o melhor possível com as ferramentas de agora, sabendo que talvez amanhã sejamos outras pessoas. A vida exige esse tipo de firmeza flexível, como o bambu que enverga sem quebrar.

No fim, talvez a certeza dúbia não seja uma falha, mas uma virtude. Um sinal de que estamos vivos, abertos, atentos. E que seguimos em frente — com o coração firme e os olhos abertos.


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

O Segredo do Filósofo

Pensar pode ser libertador!

Muitas vezes a gente se aproxima da filosofia com uma expectativa silenciosa: que ela nos traga respostas. Respostas para o caos, para as dúvidas existenciais, para o amor que não deu certo, para a angústia de segunda-feira. Mas quem se aventura de verdade nesse território percebe logo um segredo antigo — a filosofia não responde, ela liberta.

Parece estranho à primeira vista. Como assim libertar sem responder? Mas pense num momento da sua vida em que tudo parecia engessado: a rotina, as ideias, as opiniões ao redor. Talvez fosse o trabalho, a família, ou até você mesmo, preso em uma narrativa de “tem que ser assim”. E aí, do nada, surge uma pergunta incômoda — por que tem que ser assim?

Essa pergunta, simples e perigosa, é puro combustível filosófico.

No cotidiano, somos treinados a seguir fórmulas. Frases como “o importante é ser feliz”, “tem que trabalhar duro” ou “todo mundo faz isso” passam como verdades absolutas. Mas a filosofia vem e pergunta: o que é ser feliz? Por que o trabalho é um valor? Todo mundo quem? E quando você se permite viver com essas perguntas, não se torna mais confuso — se torna mais leve. Mais livre.

Essa liberdade não significa sair por aí rompendo com tudo. Significa escolher conscientemente os vínculos que valem a pena. Significa, por exemplo, não aceitar que o amor tem que doer, que o sucesso tem que esgotar, que o corpo tem que caber em algum padrão. A filosofia nos dá ferramentas para pensar além do óbvio — e isso é libertação.

O filósofo francês Michel Foucault dizia que a filosofia não é um saber de professor, mas um exercício espiritual, uma forma de cuidar de si. Quando a gente pensa por conta própria, mesmo que erre, mesmo que vacile, está cultivando essa liberdade interior: a de não viver sob pensamento alheio.

Isso se aplica nas pequenas decisões também. Escolher onde morar, com quem conviver, como usar o tempo — tudo isso vira exercício filosófico quando é atravessado por reflexão e não por automatismo. O mundo lá fora adora que a gente funcione no piloto automático. Mas o pensamento crítico é uma forma de resistência.

E aqui está o segredo: a filosofia não serve para resolver a vida — ela serve para abrir espaço dentro da vida. Espaço para respirar, para escolher, para perceber que o que parecia “natural” talvez seja só costume. E que viver pode ser mais leve, mais profundo, mais verdadeiro, quando a gente pensa com autonomia.

No fim, não é sobre decorar frases de Sócrates ou de Simone de Beauvoir. É sobre recuperar o direito de pensar com a própria cabeça. E isso, é o segredo, é como os filósofos sempre souberam, é uma forma poderosa de se libertar.


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Espelho Quebrado

Reflexos do Eu na Era das Telas

Há quem diga que o celular virou um espelho de bolso. Mas diferente daquele do banheiro, onde a gente se encara meio sonolento e sem filtro, esse novo espelho tem brilho, retoques e até música de fundo. Nele, a imagem aparece como queremos ser vistos — e não exatamente como somos. O problema é que, depois de tanto se olhar através desse espelho digital, muita gente já não sabe mais se está se mostrando ou se está se buscando.


Lacan chamava de “estádio do espelho” o momento em que o bebê, ainda descoordenado e fragmentado, se reconhece pela primeira vez em sua imagem refletida. Ele sorri, aponta, celebra — porque acredita ter encontrado ali uma unidade de si mesmo. Mas é uma unidade ilusória: a imagem é só uma projeção, não o corpo real. A partir daí, o sujeito passa a se construir através do olhar do outro, tentando ser aquilo que imagina ser visto.

Hoje, esse espelho se multiplicou em mil telas. Cada selfie é um pequeno estádio do espelho repetido: “sou eu ali?” — a pergunta que o bebê fez diante do reflexo agora ecoa no feed do Instagram. Só que o olhar do “outro” não é mais apenas o da mãe ou do cuidador: é o de centenas de seguidores, amigos e estranhos. Cada curtida confirma (ou nega) o reflexo que escolhemos mostrar. A identidade, que já era uma invenção instável, se torna um mosaico de olhares.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas angústias: o adolescente que apaga uma foto por não ter recebido curtidas suficientes; o adulto que se sente menor ao ver a viagem perfeita do colega; a mãe que transforma o filho em conteúdo, buscando reconhecimento materno no olhar digital. Todos, de algum modo, estão diante do mesmo espelho que Lacan descreveu — só que agora ele é coletivo e global. A fragmentação do sujeito deixou de ser teórica e virou notificação.

O filósofo e psicanalista francês via nesse momento um ponto decisivo da formação do “eu”: a imagem externa organiza o caos interno. Mas se o espelho se quebra em mil pedaços, o reflexo também se dispersa. O sujeito contemporâneo, exposto a tantas versões de si, corre o risco de não se reconhecer mais em nenhuma. A unidade, que já era ficção, se dissolve em performance.

Talvez o desafio de hoje não seja “ser visto”, mas reaprender a se ver — com todas as imperfeições que o espelho sem filtro revela. Porque, como lembrava Lacan, o “eu” não é o que se mostra, mas o que se constrói entre o olhar e o desejo, entre o reflexo e o real. E quem sabe, um dia, a gente consiga olhar o espelho — seja ele de vidro ou de tela — e dizer: “sim, esse também sou eu, ainda que incompleto”.


segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Ouvindo Pouco

Quando todo mundo fala ao mesmo tempo!

Cada novo dia uma experiência, uma observação, ou pelo menos algo que se repete e agora salta aos ouvidos. Numa roda de amigos, percebi algo curioso: todos estavam falando ao mesmo tempo — e ninguém estava escutando. Um falava sobre política, o outro sobre um problema no trabalho, outro contava uma piada velha. Parecia um coral sem maestro, cada voz num tom, numa velocidade, cada um tentando dizer “escute a minha dor, a minha graça, o meu ponto”. E aí me veio um pensamento: talvez estejamos ouvindo cada vez menos, não por falta de ouvidos, mas por excesso de vozes.

Vivemos numa época em que se valoriza muito o dizer. As redes sociais são vitrines de opiniões, desabafos, conselhos e indignações. O espaço de fala virou moeda simbólica de valor. Quem fala mais, quem é mais eloquente, quem viraliza — parece ganhar. Mas no meio desse falatório todo, quem escuta?

Nietzsche certa vez afirmou que “o caminho mais difícil para o homem é escutar”. Porque escutar exige silenciar o ego, suspender o julgamento, abandonar — ainda que por um instante — o desejo de resposta. Escutar de verdade é um ato ético, quase subversivo, num mundo viciado em expressar-se.

Nos ambientes de trabalho, por exemplo, as reuniões são cheias de gente falando ao mesmo tempo. Poucos escutam o que está sendo dito. A comunicação se torna uma performance de presença — “eu também estou aqui”, “eu tenho algo a dizer” — mais do que um real encontro de ideias. O resultado? Decisões ruins, mal-entendidos e um ruído constante.

Em casa, algo parecido: pais falando, filhos com fones de ouvido, cada um em sua bolha sonora. Até os afetos precisam ser traduzidos em frases prontas, memes ou emojis. E quando alguém desabafa algo sério, já vem a resposta automática: “isso acontece com todo mundo”. Escutamos com pressa, como quem ouve o micro-ondas apitando.

A filosofia de Martin Buber pode nos ajudar aqui. Para ele, existem duas formas de se relacionar: a relação “Eu-Isso”, que é utilitária, e a “Eu-Tu”, que é verdadeira e vivencial. Só na relação “Eu-Tu” existe escuta real, porque o outro deixa de ser um objeto a ser interpretado ou corrigido, e passa a ser um sujeito, alguém com quem estou presente. O problema é que, para viver relações “Eu-Tu”, precisamos calar nosso barulho interno.

Estamos, talvez, presos numa cacofonia de individualidades. Cada um grita para garantir sua existência. Mas quanto mais gritamos, menos escutamos — e mais sozinhos ficamos. Escutar pode ser, então, o novo modo de resistência: contra a ansiedade de responder, contra o impulso de ter sempre uma opinião, contra o medo do silêncio.

No fim, talvez a sabedoria consista não em saber o que dizer, mas em aprender a ouvir, mesmo quando tudo à volta grita. Escutar é, paradoxalmente, a forma mais profunda de falar com o mundo. Um mundo onde, finalmente, alguém escutou. 

domingo, 5 de outubro de 2025

Expressão Íntima

Pensar, falar e escrever: uma dança da consciência, da linguagem e da emoção

Vira e mexe retomo o tema, cada tentativa de falar me parece ter uma mesma dificuldade, entrar na expressão com sentido e se possível reunir tudo, (pensar, falar e escrever) numa palavra só, a moda dos egípcios, não é fácil, mas é saboroso pensar e escrever a respeito, então vamos lá saborear mais esta tentativa. Em principio a palavra que talvez reúna isto tudo seja “expressão”, uma palavra forte e carrega outras formas de demonstrar e externar o vai dentro de nós.

A tríade pensar, falar e escrever pode parecer, à primeira vista, uma sequência simples: primeiro nasce o pensamento, depois ele é expresso na fala, e finalmente fixado na escrita. Mas essa cadeia esconde uma complexidade fascinante, onde corpo, linguagem e emoção se entrelaçam para revelar a condição humana em sua plenitude.

Para aprofundar essa reflexão, recorremos a dois filósofos centrais do século XX: Ludwig Wittgenstein e Maurice Merleau-Ponty. Enquanto Merleau-Ponty nos ajuda a compreender a dimensão encarnada e emocional do pensamento e da expressão, Wittgenstein nos convida a pensar o funcionamento e os limites da linguagem no mundo.

O pensamento e seus limites: a visão de Wittgenstein

Em seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein afirmou que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Para ele, o pensamento é intrinsecamente ligado à linguagem — ou melhor, ao uso da linguagem. Não existe um pensamento puramente separado da linguagem, pois pensar é, em grande medida, articular sentidos e possibilidades dentro de um sistema linguístico.

Mas Wittgenstein também nos adverte que nem tudo pode ser dito; há aspectos do pensar que ficam “para além” das palavras — os sentimentos, as experiências vividas, o que é mostrado, mas não pode ser explicado. Isso cria um espaço entre pensar e falar, onde a emoção e a experiência pessoal são vividas, mas nem sempre verbalizadas com precisão.

Falar: o jogo da linguagem e a expressão

Wittgenstein propõe que a linguagem é um “jogo”, com regras que variam conforme o contexto e a prática social. Falar é, portanto, mais do que transmitir informações — é participar de um jogo que dá sentido e valor às palavras. O falar transforma o pensamento em algo público e compartilhado, mas sempre limitado pelo jogo de regras, pela interpretação e pela intenção.

A fala é um ato performativo, e a emoção permeia esse ato, colorindo o tom, o ritmo e a força das palavras. Essa dimensão de vivência torna o falar uma ponte entre o mundo interior do pensamento e o mundo exterior da comunicação.

Escrever: a materialização do sentido e da subjetividade

A escrita, por sua vez, é uma fixação da linguagem — uma forma de tornar permanente o que na fala é efêmero. No entanto, essa fixação traz a ambivalência de solidificar sentidos e, ao mesmo tempo, abrir espaços para novas interpretações, pois a escrita existe para além do momento da criação, sendo relida e ressignificada.

Merleau-Ponty acrescenta que escrever é um gesto do corpo, um ato que contém emoção e intenção, e que revela a subjetividade do autor mesmo nos traços das letras.

Merleau-Ponty e a corporeidade da tríade

Para Merleau-Ponty, pensar, falar e escrever são manifestações da consciência encarnada — um corpo que sente, percebe e se expressa. Pensar é um processo vivo, cheio de emoções e sensações que se manifestam no falar e no escrever, unindo corpo e linguagem.

A emoção, portanto, é o fio invisível que conecta pensar, falar e escrever, dando vida e profundidade ao processo de comunicação.

Entre limites e sentidos, o movimento da linguagem

Integrar Wittgenstein e Merleau-Ponty nos ajuda a compreender que a tríade pensar, falar e escrever é uma dinâmica complexa, onde:

  • O pensamento é tanto possível quanto limitado pela linguagem (Wittgenstein).
  • A fala é um jogo de sentidos permeado pela emoção e pelo corpo (Wittgenstein e Merleau-Ponty).
  • A escrita é a materialização da subjetividade e do fluxo emocional da consciência (Merleau-Ponty).

Desenhar essa tríade é tentar capturar um movimento que é interior e exterior, um gesto de criação que nos conecta a nós mesmos e aos outros, numa dança contínua entre o que se pode dizer e o que permanece para além da palavra.


sábado, 4 de outubro de 2025

Banalidades do Mundo

Situações do cotidiano e um olhar filosófico

Acordamos, tomamos café, pegamos o mesmo ônibus, ouvimos as mesmas piadas no trabalho, respondemos "tudo bem?" sem sequer pensar. A banalidade do mundo se revela não apenas nas repetições, mas também na anestesia que se instala sobre os dias. Tudo vai se tornando automático, como se a existência estivesse no modo piloto, e a vida deixasse de ser vivida para apenas... passar.

Essa banalidade não é ausência de acontecimentos. Pelo contrário: o mundo está cheio deles — notícias, conflitos, memes, brigas de trânsito, aniversários, boletos, séries novas. Mas, em meio a tanta coisa, muitas vezes sentimos que nada realmente nos toca. O excesso se transforma em indiferença. É como se a alma estivesse cheia demais para sentir.

Na fila do banco, no trem lotado, alguém diz "a vida é essa mesmo". No elevador, outro completa: "todo dia a mesma coisa". E no fundo da frase, há um peso, quase um lamento. Não é só rotina: é uma espécie de cansaço de estar no mundo. De se ver sempre em situações onde tudo parece previsível e vazio de sentido.

A filósofa Hannah Arendt falava da banalidade do mal ao analisar a obediência cega de Eichmann no regime nazista. Mas seu conceito nos alerta para algo maior: o perigo de deixar de pensar, de simplesmente seguir ordens, normas, costumes — mesmo que sejam banais. No fundo, ela nos convida a refletir sobre o quanto a banalidade do mundo também pode ser uma forma de crise: a crise de não questionar, de não agir, de não sentir.

Essa banalidade cotidiana pode esconder tanto uma zona de conforto quanto uma zona de alienação. Quando deixamos de perceber o que comemos, o que dizemos, quem somos, estamos empobrecendo a experiência. E a experiência é o que nos mantém humanos.

Mas há uma fresta. Um cachorro que cruza a rua de maneira engraçada, uma criança que canta no ônibus, uma árvore florida onde antes havia só concreto. Esses detalhes têm o poder de furar o véu da banalidade e nos lembrar que o mundo ainda pulsa. Que ainda estamos aqui, e que viver exige presença — mesmo nas coisas mais simples.

Talvez o antídoto para a banalidade do mundo esteja na atenção. Não uma atenção forçada, mas um olhar curioso, um espanto discreto, um interesse renovado. Como diz o poeta Manoel de Barros: "o mundo não foi feito em alfabeto, senão a gente podia saber o que ele diz". Ou seja: talvez ele diga mais do que imaginamos, mesmo quando parece banal.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Nunca Chega

...porque a vida é agora

 

Tem gente que vive esperando. Espera o amor da vida, o emprego dos sonhos, a coragem pra mudar de cidade, o momento certo pra ser feliz. Outros esperam a aposentadoria pra finalmente descansar, o fim de semana pra viver de verdade, ou um sinal místico de que agora sim, pode começar. Mas a vida não é essa fila de supermercado onde só depois da senha chamada a gente pode viver. A vida já começou, e o agora é o único tempo que ela conhece.

Essa ideia – nunca chega, porque a vida é agora – parece simples, quase uma frase de agenda motivacional. Mas por trás dela há camadas profundas de filosofia e sociologia. Porque não estamos apenas lidando com o tempo cronológico. Estamos diante de um modo de viver construído culturalmente, alimentado por ideologias de produtividade, promessas de futuro e um medo imenso do presente.

 

O tempo adiado: um vício moderno

O sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos em uma modernidade líquida, onde tudo escorre antes de tomar forma. Isso inclui nossas expectativas de futuro. Sempre estamos planejando, organizando, projetando. Mas, paradoxalmente, essa obsessão pelo amanhã rouba o sentido do agora. O presente vira só um degrau, e nunca um lugar de morada.

O filósofo francês Michel Foucault ajudaria a entender como essa lógica do tempo está a serviço de uma estrutura de poder. Ao internalizarmos a ideia de que só depois teremos valor (quando formos promovidos, quando tivermos um diploma, quando emagrecermos, quando tivermos filhos), estamos nos sujeitando a um controle que nos distancia de nós mesmos. A espera se torna ferramenta de dominação.

 

Viver esperando é viver ausente

No campo mais existencial, Kierkegaard já alertava para o perigo de uma vida em suspenso. Para ele, a angústia nasce exatamente quando nos afastamos do presente em nome de algo idealizado que nunca se concretiza. É como se estivéssemos sempre “ensaiando” para a vida, mas nunca subíssemos ao palco.

Quantas vezes dissemos "quando eu terminar isso, vou ser feliz"? E depois, adiamos de novo. Isso cria um ciclo de insatisfação, em que o tempo real – o agora – é apenas um meio e nunca um fim.

Há quem queira pular alguma etapa por sentir que é muito doloroso vivenciar o que a vida apresentou, no entanto, não tem como pular etapas, caso contrário ficará parado até que resolva enfrentar, adiando o desfecho que é inevitável, seja qual for, é necessário o enfrentamento para seguir em frente. Já ouviu ou disse que agora não, não quero fazer isto neste momento, no entanto fica olhando para o lado e enxergando a procrastinação consumindo o pensamento?

 

A sociologia do instante

A sociedade contemporânea, com sua velocidade e excesso de estímulos, nos convida à dispersão, mas raramente à presença. As redes sociais, os aplicativos de produtividade, o culto à eficiência: tudo isso forma o cenário ideal para que o agora seja descartável. O "momento presente" é muitas vezes vivido como obstáculo – algo que precisa ser superado para que o futuro, glorioso e cheio de promessas, finalmente chegue.

Mas ele nunca chega. Porque ele não existe. Só existe o agora.

 

Uma alternativa possível: o tempo experienciado

N. Sri Ram, pensador da tradição teosófica, dizia que “a realidade é aquilo que está sendo vivido com atenção”. Em outras palavras, só é real o que é percebido, sentido, atravessado com consciência. Isso nos leva a uma ideia de tempo mais experiencial do que linear. O agora não é um ponto entre passado e futuro. É o palco onde tudo acontece.

Talvez viver bem seja justamente isso: aceitar que não há depois. Não há linha de chegada onde tudo fará sentido. Há sim, o café que esfria enquanto você pensa em coisas demais, o pôr do sol que você não vê respondendo mensagens, o abraço que adia porque acha que amanhã será melhor.

 

Nunca chega, porque não tem onde chegar. A vida não é uma estrada com destino, mas um campo onde se pisa, se sente, se colhe. Esperar o momento certo é a forma mais sutil de fugir dele. Filosoficamente, é uma traição ao ser; sociologicamente, é uma obediência cega à lógica do capital e do progresso. Romper com isso talvez seja o ato mais revolucionário do nosso tempo: simplesmente estar aqui, agora.


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Medos

O que fazemos com o que nos paralisa

Tem dias em que a gente acorda com medo e nem sabe bem do quê. Medo de sair de casa, medo de falar o que pensa, medo de que descubram quem a gente é de verdade. Às vezes o medo se esconde atrás de um aperto no peito, às vezes grita por socorro num silêncio desconfortável. Nem sempre sabemos dar nome a ele, mas sentimos. E sentimos muito. E talvez o mais curioso seja isso: mesmo sendo tão íntimo, o medo é também uma construção social. Vamos olhar para ele com calma?

Desde o nascimento, carregamos dois medos que não nos foram ensinados: o medo de alturas e o medo de sons altos. Eles não dependem da cultura, da família ou da experiência — são respostas instintivas, enraizadas em nossa biologia como mecanismos de autopreservação. O medo de cair protege o corpo antes mesmo de sabermos andar, enquanto o susto diante de um barulho repentino alerta o sistema nervoso para um possível perigo iminente. Esses dois medos, simples e primitivos, são como sensores de sobrevivência herdados de nossos ancestrais. Todo o resto — medo de escuro, de errar, de ser rejeitado ou de não dar conta da vida — aprendemos depois, à medida que crescemos, nos relacionamos e somos atravessados pelo mundo.

Na perspectiva filosófica, o medo já foi pensado como algo que define o ser humano. Para Heidegger, o medo é um dos modos de manifestação da angústia – aquele sentimento que surge quando percebemos que estamos lançados num mundo imprevisível, sem manual de instruções. O medo, nesse sentido, revela nossa fragilidade diante da liberdade e da responsabilidade de existir. Tememos porque somos conscientes. E ao mesmo tempo em que isso nos limita, também nos torna capazes de criar, imaginar, projetar futuros.

Mas não vivemos sozinhos. A sociedade em que estamos imersos molda o que devemos temer e o que devemos ignorar. Michel Foucault nos ajuda a entender como os medos são fabricados e administrados como forma de controle. Medo da doença, medo do crime, medo do outro. Esses medos não surgem do nada — eles são organizados, disseminados por discursos, fortalecidos por instituições, servindo muitas vezes para justificar políticas, exclusões e vigilâncias. O medo, aqui, não é apenas uma emoção: é uma ferramenta.

E o mais interessante é que os medos se adaptam. Em tempos digitais, tememos o cancelamento mais do que o castigo físico. O julgamento passou das praças públicas para as timelines. O medo contemporâneo está cada vez mais psicológico, simbólico e veloz. É um medo de ser visto de maneira errada, ou pior, de não ser visto. Uma espécie de pânico do esquecimento. E isso transforma nossos comportamentos, nossas relações, nossas escolhas.

Entender o medo é também entender como ele nos movimenta. Ele nos protege, sim, mas também pode nos paralisar. A inovação sociológica aqui talvez seja pensar o medo como um contrato: um acordo tácito entre indivíduo e sociedade sobre os limites do possível e do desejável. Um acordo que pode ser rompido. Quando passamos a examinar nossos medos — de onde vieram, quem os alimenta, a quem eles servem — abrimos uma fresta de liberdade. Podemos começar a transformá-los em coragem, em crítica, em movimento.

No fim das contas, talvez não se trate de vencer o medo, mas de saber o que fazer com ele. Porque se o medo nos pertence, que ao menos possamos escolher o que fazer com esse inquilino que habita nossas entranhas.


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Zaratustra

Zaratustra desce da montanha

Dizem que toda boa filosofia começa com uma caminhada. No caso de Zaratustra, personagem criado por Friedrich Nietzsche, tudo começa com uma descida. Ele viveu dez anos no alto da montanha, em silêncio, refletindo, até que um dia resolveu descer. Por quê? Porque tinha algo a dizer. Mas o que ele diz não é fácil de ouvir — e por isso quase ninguém entende.

Zaratustra de Nietzsche não vem ensinar o caminho para o céu, mas para a terra. Ele não fala de pecado, redenção ou moral absoluta. Ele vem anunciar que Deus está morto — uma metáfora poderosa, que aponta para o fim das certezas religiosas que por séculos sustentaram a cultura ocidental. A morte de Deus significa que os velhos valores não nos servem mais. E agora?

Agora, diz Zaratustra, é preciso criar novos valores. É preciso tornar-se além-do-homem (Übermensch), alguém que não vive segundo mandamentos prontos, mas que se arrisca a ser autor da própria existência.

 

Na prática, o que isso significa?

Significa, por exemplo, sair de casa todo dia e enfrentar o mundo sem o consolo fácil de que “tudo vai dar certo porque Deus quis assim”. Significa encarar o absurdo do trânsito, da fila do banco, do chefe autoritário, sem esperar recompensa no céu, mas tentando fazer algo significativo agora, neste mundo.

Zaratustra diria a alguém que odeia seu trabalho: “Então crie outro. Ou pelo menos encontre uma forma de dizer sim à sua vida, mesmo quando ela parece sem sentido.” Dificilmente ele recomendaria paciência passiva. Ele incentivaria a coragem de criar sentido, mesmo no caos.

 

O eterno retorno das pequenas coisas

Outro conceito forte que aparece na obra é o eterno retorno. Imagine viver a sua vida exatamente como ela é — com todos os erros, medos e repetições — eternamente. Você suportaria isso? Mais ainda: você amaria isso?

Nietzsche usa essa ideia para testar o quanto afirmamos a vida. Não basta suportá-la — o desafio é abraçá-la. É como lavar louça, cuidar de filho, receber críticas ou enfrentar o fim de um relacionamento e, ainda assim, dizer: “Sim, eu escolho isso de novo.” É pesado — mas também é libertador.

 

Zaratustra como poema filosófico

Assim Falou Zaratustra não é um tratado, nem um ensaio tradicional. Nietzsche escolhe uma forma híbrida: mistura de fábula, evangelho, poesia e tragédia grega. O resultado é um texto simbólico, cheio de repetições rítmicas, imagens potentes e uma linguagem que às vezes soa profética, às vezes enigmática.

O próprio Nietzsche dizia que não havia “filosofia sem estilo” — e em Zaratustra ele colocou tudo o que sabia sobre ritmo, metáfora e provocação. O livro é cheio de capítulos curtos com títulos sugestivos como “Das três metamorfoses”, “Do novo ídolo”, “Do arrependimento” ou “Da visão e do enigma”. Cada um é quase um sermão — mas um sermão que desobedece todos os moldes religiosos.

 

A linguagem como desafio

O estilo elevado, poético, muitas vezes simbólico, tem um efeito curioso: ao invés de facilitar a compreensão, ele obriga o leitor a se envolver mais. É como se Nietzsche quisesse testar nossa disposição para o pensamento. Ele não explica — ele provoca. Ele não ensina — ele inquieta.

E por isso o livro é, muitas vezes, mal interpretado. Quem lê esperando regras claras ou frases prontas de autoajuda pode se frustrar. Zaratustra não quer que você acredite nele, quer que você se transforme ao lê-lo.

 

Entre o sagrado e o subversivo

O tom de escritura sagrada que permeia o texto — com repetições, ritmo oracular, e até certa solenidade — não é acidental. Nietzsche ironiza a forma dos evangelhos, mas não para ridicularizá-los. Ele usa esse tom para dar peso às suas ideias, como se dissesse: “Aqui está um novo evangelho — não de salvação, mas de superação”.

Zaratustra é, assim, um falso profeta — ou melhor, um anti-profeta, que fala como os antigos mestres espirituais, mas ao invés de oferecer redenção, oferece um espelho. Quem lê Zaratustra vê a si mesmo — e nem sempre gosta do que vê.

 

Leitura que se repete — e que muda com o tempo

Há algo curioso em Assim Falou Zaratustra: ele muda a cada leitura. Há dias em que parece um delírio, outros em que parece uma revelação. Às vezes incompreensível, às vezes luminoso. Isso porque a linguagem, como a própria vida, está cheia de camadas.

Zaratustra exige um leitor disposto a retornar, a reler, a tropeçar nas palavras como quem tropeça em verdades que ainda não pode compreender. Nietzsche escreve para o futuro — e para leitores que ainda não nasceram, como ele mesmo dizia.

 

Zaratustra como estilo de vida

Zaratustra desceu da montanha porque sabia que viver é risco. Que viver com autenticidade é mais difícil do que seguir regras. E que, no fundo, cada um de nós é responsável por construir o valor das próprias ações.

O estilo literário de Assim Falou Zaratustra não é apenas uma estética: ele é um convite a viver de outro modo. A ler com coragem, a pensar sem muletas, a enfrentar a ambiguidade das palavras como quem enfrenta o abismo de si mesmo.

Nietzsche, por meio de Zaratustra, escreve como quem sopra brasas num mundo que já achava estar apagado. E talvez o papel do leitor seja este: não apagar esse fogo com explicações apressadas, mas deixá-lo arder — e, quem sabe, iluminar.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Homens Ocos

Um ensaio sobre o vazio entre o gesto e a alma a partir do poema de T. S. Eliot

 

Talvez você conheça alguém assim.

Uma pessoa que parece inteira, mas algo não encaixa. Não é ausência de fala, nem de gestos. É como se faltasse espessura. Gente que vive com precisão — trabalha, sorri, opina — mas não se deixa atravessar pela vida. Como bonecos bem montados, porém vazios por dentro. São os homens ocos. Não monstros, não maus. Apenas esvaziados.

Ler o poema The Hollow Men de T. S. Eliot — em português, Os Homens Ocos — é como olhar nos olhos de uma estátua: está tudo ali, menos o essencial. O poema é sombrio, mas não apocalíptico no sentido tradicional — ele fala da apatia que precede o fim, da alma que evapora enquanto o corpo ainda está em movimento. E é nesse abismo entre aparência e substância que podemos enxergar um problema filosófico crucial da modernidade: a erosão do ser.

 

O poema — Os Homens Ocos (tradução de Ivan Junqueira)

Epígrafe
Mistah Kurtz — he dead
A penny for the Old Guy

I
Somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
Cheios de palha. Ai de nós!
Nossas vozes secas, quando
Sussurramos juntos,
São calmas e sem sentido
Como vento na grama seca
Ou pés de ratos sobre vidro estilhaçado
Em nossa cave seca.

Figura sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;

Aqueles que atravessaram
Com olhos retos, para o outro Reino da morte,
Lembram-nos — se é que o fazem — não como almas perdidas
Violentas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II
Olhos que não me encaram na vida
Aparecem como o sol
Sobre uma coluna partida
No outro Reino da morte,
Evitam-me a vida do desejo
Em um campo que não se move.

Ali, a pedra erguida está sob o sol,
E há árvores sussurrantes,
E há um rumor de águas.
E no vento uma canção...
Mais distante e mais solene
Que uma estrela.

Deixai-me mais perto da minha indumentária,
Deixai-me também usar
Tão deliberadamente
Tais disfarces de pele de rato, de vento cruzado,
De um campo moribundo,
De figuras contornadas e reverentes,
No crepúsculo
Este Reino vago.

III
Não é este o Reino final
Andando sozinhos à hora em que estamos
Tremendo com ternura
Lábios que beijariam
Formam orações a pedras quebradas.

IV
Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta mandíbula partida de nossos Reinos perdidos

Neste último dos locais de encontro
Tateamos juntos
E evitamos a fala
Reunidos à margem do rio inchado
Sem ver — a não ser
Pelo resplendor dos olhos que reaparecem
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do Reino crepuscular da morte
A esperança apenas
Dos homens ocos.

V
Aqui vamos nós em volta da figueira
Figueira, figueira
Aqui vamos nós em volta da figueira
Às cinco da manhã.

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o ato
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Cai a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a queda
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino

Pois Teu é
A vida é
Pois Teu é o

É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro.

 

Entre a forma e a sombra: o intervalo que nos esvazia

Cada estrofe do poema faz vibrar uma sensação de descompasso. Eliot aponta para uma espécie de falha espiritual da modernidade: estamos cercados por estruturas — de linguagem, de trabalho, de ritos — mas desprovidos de densidade interior.

“Entre o desejo e o espasmo, entre a essência e a queda, cai a sombra.”

Aqui, a sombra é o vazio que se instala entre o que se é e o que se faz. O homem oco é aquele que vive no intervalo entre a potência e o ato. Ele poderia ser, mas não se atualiza. Ele fala, mas não comunica. Ele ama, mas não se entrega. É o sujeito funcional que abandonou a alma em algum ponto do percurso.

 

O cotidiano como campo de palha

Esse poema parece um delírio poético? Basta observar a vida comum:
– Reuniões cheias de palavras, mas sem escuta.

– Relacionamentos cheios de regras, mas sem presença.

– Redes sociais cheias de imagens, mas sem verdade.

A palha de Eliot é nossa repetição. Nossas frases automáticas. Nossa performance social. E há um risco: que a vida se torne uma sucessão de gestos sem alma, até o ponto em que o sujeito ainda respira, mas não vibra mais.

O filósofo Byung-Chul Han fala do “esvaziamento da interioridade” como marca do nosso tempo. O homem oco é esse homem adaptado à transparência, à hiperconexão e ao cansaço. Ele já não resiste, apenas repete.

 

A sombra que substitui o grito

Eliot anuncia que o mundo não acaba com uma explosão, mas com um suspiro.

“É este o modo como o mundo acaba / Não com um estrondo, mas com um suspiro.”

O fim que nos ameaça não é o da guerra, mas o do sentido. Um fim morno, sem convulsões. O apocalipse não como catástrofe, mas como esvaziamento. É como se a vida, aos poucos, fosse se tornando cenário, sem enredo. E nós, espectadores de nós mesmos.

Nietzsche gritava. Eliot sussurra. E nesse sussurro há algo mais trágico: a desistência. O niilismo aqui não é rebelde — é resignado.

 

Como escapar do oco?

Será possível escapar do destino dos ocos?

O filósofo Kierkegaard dizia que o salto da fé é o único movimento verdadeiro do espírito. É preciso atravessar o medo, escolher mesmo sem garantias, viver com responsabilidade existencial.

Simone Weil propunha uma saída silenciosa: atenção. Estar presente de verdade. Recolher-se da pressa, do ruído, da distração — e ouvir. Olhar. Habitar o gesto com consciência.

Talvez, então, o oposto do homem oco não seja o homem cheio — mas o homem desperto. Aquele que, mesmo ferido, mesmo cansado, ainda ousa sentir.

 

O suspiro que resiste à morte interior

Ler Os Homens Ocos é encarar um espelho escuro. Reconhecemos traços nossos ali. Não para nos culpar, mas para nos despertar.

A tragédia de Eliot é um convite: perceber o oco já é resistir a ele. O gesto reencontra a alma quando não é mais só performance, mas presença.

Se ainda pudermos colocar verdade no olhar, intenção na palavra, amor no gesto — mesmo que breve — talvez o poema ganhe outro fim. Talvez o mundo ainda possa recomeçar. Não com um estrondo, mas com um novo sussurro. Um sussurro que não seja vazio. Um sussurro cheio de ser.


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Passos Constantes

Vou falar sobre persistência, repetição e transformação

 

Tem dias em que parece que nada acontece. Acordamos, fazemos o café, respondemos mensagens, voltamos ao trabalho — e o mundo continua igual. Mas, se olharmos de perto, veremos que o chão sob nossos pés já não é o mesmo. Mesmo o passo repetido sobre a calçada de sempre carrega algo de diferente, mesmo que sutil: uma sensação nova, um pensamento que brota, uma dor que antes não existia. É sobre isso que vou falar aqui — sobre os passos constantes, essas batidas ritmadas que desenham nossa vida sem alarde, mas com profundidade. Então, por que não retornar a este tema como alguém que também observa o passar do tempo, e cada vez que escreve alguma coisa que já escreveu, sinto que muda e/ou já mudou como teria dito Heráclito.

 

A Constância como Ato Filosófico

A modernidade nos ensinou a valorizar a mudança brusca, a inovação disruptiva, os saltos que transformam tudo da noite para o dia. No entanto, há uma filosofia silenciosa que emerge do que permanece. Não do que estagna, mas do que insiste. O passo constante, nesse sentido, não é um hábito automático, mas uma postura de resistência e maturação.

Nietzsche dizia que nos tornamos quem somos através de longas repetições — e não por rupturas. Para ele, o “eterno retorno” não é punição, mas oportunidade: repetir não é apenas repetir, é reencontrar a si mesmo sob novas luzes.

 

Exemplos Cotidianos: Onde Moram os Passos Constantes

1. A mãe que repete gestos silenciosos

Ela acorda antes de todos, prepara o café, organiza a lancheira, põe o uniforme na cadeira. Ninguém vê esse roteiro como algo heroico, mas é nele que se constrói o vínculo, a presença, a sustentação da casa. Ela repete porque ama — e amar, nesse nível, é insistir.

2. O trabalhador que pega o mesmo ônibus

Todos os dias, o mesmo trajeto, o mesmo banco da janela, as mesmas ruas. E, ainda assim, há algo novo: uma música diferente nos fones, uma pessoa nova que senta ao lado, uma paisagem que muda com a luz do dia. O passo constante não é sempre igual — ele permite o surgimento do novo.

3. O terapeuta que escuta as mesmas dores

Em sessões semanais, durante meses ou anos, o psicólogo ouve relatos que parecem repetir-se. Mas nesse movimento de repetição, algo amadurece — uma palavra que antes não era dita, um gesto de compreensão que antes não vinha. A constância aqui é o solo da escuta verdadeira.

4. O estudante que não desiste

Ele não tem talento fácil, não entende rápido, mas continua. Refaz provas, busca ajuda, estuda quando ninguém mais acredita. O mundo gosta dos gênios relâmpago, mas é esse que caminha devagar que carrega uma sabedoria silenciosa: a de não desistir de si.

 

Quando a Constância se Torna Coragem

Seguir em frente, mesmo sem grandes recompensas imediatas, exige coragem. Num mundo de estímulos instantâneos, manter o passo é uma espécie de ato subversivo. É negar a pressa imposta e confiar num tempo mais orgânico, em que os frutos não brotam por exigência, mas por amadurecimento.

Como nos lembra Simone Weil, “a atenção prolongada é a forma mais rara e pura de generosidade”. E atenção é isso: manter-se presente, passo a passo, mesmo quando tudo nos distrai ou convida à fuga.

 

O Olhar de Rubem Alves: Constância como Espera Fecunda

Rubem Alves, educador e pensador brasileiro, falava da educação como um ato de “esperança paciente”. Em seus textos, ele recorria à metáfora do jardineiro: quem planta não tem poder sobre o tempo da colheita, apenas sobre o cuidado diário. A constância, portanto, não é controle — é confiança.

Em seu livro Ostra Feliz Não Faz Pérola, Alves escreve:

“O que nos transforma não são os grandes acontecimentos, mas as repetições pequenas e silenciosas, como o trabalho do tempo sobre a pedra.”

Para ele, os passos constantes são também uma forma de amar: só ama de verdade quem é capaz de permanecer, de repetir gestos aparentemente inúteis, de continuar quando não há aplausos.

 

Filosofia dos Ciclos

Os passos constantes têm a sabedoria das estações. São como as ondas do mar que esculpem a pedra, como o vento que molda a montanha ao longo dos séculos. É por isso que não devemos desprezar o que se repete: ele guarda dentro de si a potência de tudo o que muda.

Se há uma revolução verdadeira, talvez ela esteja menos nos gritos e mais na persistência de quem faz o que precisa ser feito, mesmo quando ninguém vê.

 

Epílogo: O Poder de Continuar

Se o mundo de hoje celebra o instantâneo, talvez devêssemos reaprender o valor do demorado. Dos processos. Das escadas em vez dos elevadores. Dos livros relidos, das amizades cultivadas, das ideias maturadas com o tempo.

A vida não é feita apenas de clímax — mas de passagens discretas, de pequenos avanços quase invisíveis. E talvez a filosofia dos passos constantes seja essa: viver não como quem corre atrás de tudo, mas como quem caminha fielmente com aquilo que importa.

Há uma beleza modesta e poderosa em continuar. Em não desistir. Em repetir os passos, não como quem gira em círculos, mas como quem sobe uma espiral invisível. Os passos constantes não são estáticos — eles são discretamente ascendentes.
E é neles que mora a verdadeira transformação.

domingo, 28 de setembro de 2025

Esquecimento de Si

Uma Forma Ignóbil de Existir

Um ensaio filosófico informal sobre a ausência íntima

Tem dias que a gente se pega no automático. Já são quatro da tarde, e você nem sabe dizer o que sentiu desde que acordou. O corpo foi, as tarefas foram feitas, talvez até tenha sorrido ou se irritado — mas não estava lá. Estava onde, então? É como se uma parte de nós tivesse ficado de fora do próprio dia. Não por distração apenas, mas por ausência. Uma ausência funda, que não se resolve com um café forte nem com um banho demorado. Isso tem nome: esquecimento de si. Isto me lembra da tarde de domingo.

Parece inofensivo. A gente se adapta, funciona, entrega. Mas há algo de ignóbil nisso. Não no sentido moralista da palavra, mas no sentido de degradação silenciosa da dignidade de estar vivo e presente em si mesmo.

 

O esquecimento de si como vício contemporâneo

Vivemos tempos em que lembrar-se de si é quase um luxo. Entre notificações, prazos e expectativas alheias, ser alguém virou mais urgente do que estar consigo. A sociedade do desempenho — como bem analisou Byung-Chul Han — exige que cada um se transforme em produto e gestor de si mesmo. A performance substitui a presença. A pressa ocupa o lugar do pensamento. O “eu” vira uma figura de marketing.

E, nessa lógica, o esquecimento de si não é apenas um efeito colateral. Ele é um modo de viver estimulado. A cada vez que evitamos o silêncio, que trocamos uma inquietação íntima por um rolar infinito de tela, que vestimos um papel para agradar ou para sobreviver, estamos praticando esse esquecimento. E o mais perigoso: estamos nos acostumando a ele.

 

Ignóbil: a erosão da dignidade interna

A palavra ignóbil, do latim ignobilis, carrega a ideia de algo sem nobreza, sem valor reconhecido. Esquecer-se de si é isso: tornar-se estrangeiro da própria história, viver aquém do que se poderia ser, sem sequer notar.

Nietzsche dizia que “tornar-se quem se é” exige coragem. Ou seja, ser fiel a si mesmo não é espontâneo nem simples — é um processo árduo, cheio de perdas e rupturas. Por isso mesmo, o esquecimento de si é uma forma de covardia invisível: cedemos à facilidade de viver no reflexo do que esperam, ao invés de no brilho torto do que somos.

Há uma espécie de indiferença que vai se instalando, como poeira sobre móveis que antes brilhavam. E quando vemos, aquela vitalidade íntima foi embora. O pior é que, por fora, nada parece errado. Continuamos eficientes, funcionais, sociáveis. Só que o centro ficou oco.

 

O abismo e a superfície

É possível viver na superfície durante anos — repetir opiniões de outros, ocupar cargos que não dizem nada, cumprir rotinas como quem segue um roteiro que não escreveu. Mas o abismo que somos não desaparece só porque é ignorado. Ele apenas deixa de ser visitado. E o que não é visitado — apodrece ou se revolta.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia: “Eu sou eu e minha circunstância.” Mas quando esquecemos de nós, sobra só a circunstância. Somos a roupa que usamos, o trabalho que temos, o que postamos. E essa dissociação cobra um preço: a perda da inteireza. Não há pior solidão do que não estar consigo mesmo, mesmo cercado de gente.

 

O retorno ao si: um gesto revolucionário

O oposto do esquecimento de si não é narcisismo, nem uma jornada mágica de autoconhecimento vendido em cursos online. É mais simples, mais sutil e muito mais profundo. Trata-se de estar atento. Simone Weil dizia que “a atenção pura é oração”. Estar atento ao que sentimos, ao que pensamos, ao que nos atravessa, é uma forma de resgate espiritual, ainda que não religioso.

N. Sri Ram, pensador da tradição teosófica, afirmava que “a alma só se reconhece em momentos de quietude”. E esses momentos estão cada vez mais raros. Mas são neles que o “eu” reaparece. Que lembramos que temos escolhas. Que percebemos que nem tudo precisa ser feito do jeito que o mundo quer.

Talvez um ritual simples já seja suficiente: caminhar sem distrações, escrever o que se sente, fazer uma pausa antes de aceitar um convite, perguntar-se “isso é mesmo meu desejo?”. São gestos que parecem pequenos, mas são revolucionários numa era de dispersão.

 

Reencontrar a nobreza perdida

Esquecer-se de si é viver com dignidade emprestada. É funcionar sem alma. E isso, mais do que trágico, é ignóbil. Não porque nos torna maus — mas porque nos torna ausentes da única coisa que realmente nos pertence: a presença viva em nós mesmos.

Reencontrar-se não é fácil. Mas é possível. Talvez com menos barulho. Com menos pressa. Com menos máscaras. Com mais verdade, mesmo que ela assuste. Porque só quem se lembra de si pode, um dia, ser inteiro.