Quando o mando se disfarça de cuidado
Outro
dia me peguei obedecendo sem perceber. Não era um policial, nem um chefe
gritando ordens. Era uma voz calma, razoável, quase pedagógica. “É melhor
assim”, dizia. E eu aceitei. Foi aí que me ocorreu: o autoritarismo raramente
chega de botas e punhos cerrados. Ele costuma vir de camisa passada, tom de
especialista e um leve sorriso de quem “sabe mais”.
Quando
falamos em aspecto autoritário, geralmente pensamos em ditaduras,
censura, violência explícita. Mas o autoritarismo mais eficaz é o que se
infiltra no cotidiano, no discurso bem-intencionado, nas pequenas hierarquias
que naturalizamos. Ele não precisa mandar — basta convencer que não há
alternativa.
O
aspecto autoritário não é apenas um regime político; é, antes de tudo, uma
forma de relação. Ele aparece sempre que o outro é reduzido à condição de
alguém que deve apenas cumprir, adaptar-se ou concordar. Nesse sentido, o
autoritarismo não vive só no Estado, mas também na família, na escola, no
trabalho e até nas amizades.
Hannah
Arendt falava da banalidade do mal: não é preciso um
monstro para produzir violência, basta alguém que pare de pensar e passe
a executar. Mas podemos ir além: o autoritarismo cotidiano se sustenta quando paramos
de dialogar. Quando a pergunta é vista como afronta, e não como busca de
sentido.
Paulo
Freire, mais próximo de nós, foi ainda mais direto: toda
relação em que um sabe tudo e o outro nada sabe já carrega um germe
autoritário. Para ele, o autoritarismo não está apenas no conteúdo da fala, mas
na estrutura da comunicação. Onde não há escuta, há dominação — mesmo
que educada.
O
aspecto autoritário, portanto, não grita: ele encerra o debate. Não
ameaça: ele define o que é “normal”, “maduro” ou “responsável”. Seu
poder está menos na força e mais na legitimação.
Situações
do cotidiano: onde o autoritarismo se esconde
No
trabalho
“Não
é o momento de questionar.”
Essa
frase, tão comum, é um clássico autoritário. Ela não nega a ideia por ser ruim,
mas por ser inconveniente. Aqui, o autoritarismo se apresenta como gestão
eficiente: alguém pensa, os outros executam. Questionar vira sinônimo de “dar
trabalho”.
Na
família
“Enquanto
você morar aqui, as coisas são assim.”
Não
se trata de limites (que são necessários), mas da ausência de explicação. O
aspecto autoritário aparece quando a autoridade não se justifica, apenas se
impõe. O poder se ancora no medo da perda — de afeto, de abrigo, de
pertencimento.
Na
escola
“Decora
para a prova, depois você entende.”
Aqui,
o autoritarismo se mascara de método. O estudante aprende cedo que compreender
é secundário; o importante é repetir. Forma-se, assim, um hábito perigoso:
aceitar sem digerir.
Nas
relações afetivas
“Estou
fazendo isso para o seu bem.”
Talvez
uma das frases mais traiçoeiras. O cuidado vira controle, e o amor se converte
em tutela. O aspecto autoritário surge quando um decide o que o outro deve
sentir, querer ou escolher.
Na
vida digital
“Todo
mundo pensa assim.”
A
multidão vira argumento. O autoritarismo contemporâneo adora estatísticas vagas
e consensos artificiais. Quem discorda não é apenas diferente — é
“problemático”.
