Eu
aprendi que o sagrado não mora apenas nos altares, assim como o profano não
vive apenas nas quedas. Eles se misturam no mesmo gesto, no mesmo dia, no mesmo
corpo. O café tomado em silêncio pode ser mais sagrado que uma oração distraída;
uma risada fora de hora pode ser mais verdadeira que uma reverência vazia. O
sagrado nasce quando algo nos atravessa com sentido. O profano surge quando
repetimos sem presença. No fundo, não é o lugar que decide, nem o ritual, nem a
forma — é a qualidade do olhar. E talvez a maturidade consista exatamente
nisso: perceber que o sagrado não está acima da vida, mas escondido dentro
dela, e que o profano não é o oposto do divino, mas apenas a vida quando
esquecemos de senti-la.
Blog de Filosofia e Sociologia trata de assuntos que rolaram durante a semana, tal como noticias, curiosidades, vídeos, musicas, educação, temas de filosofia, sociologia, teologia, enfim assuntos que também poderão ser discutidos em salas de aula e até nas conversas de cafeteria.
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domingo, 18 de janeiro de 2026
Sagrado e Profano
Irrealidade Fechada
Há dias em que tudo parece real demais. E, justamente por isso, começa a parecer falso.
Chamo
isso de irrealidade fechada: quando o mundo funciona, as pessoas cumprem seus
papéis, as frases saem prontas, os gestos são previsíveis — e, ainda assim,
nada atravessa a pele. É como viver dentro de um cenário perfeitamente montado,
mas com as portas trancadas por dentro.
A
irrealidade aberta é sonho, delírio, imaginação. A fechada é mais perigosa: é
quando a realidade se torna tão organizada que deixa de ser vivida. Tudo está
no lugar, menos eu.
No
cotidiano, ela aparece quando respondo “tudo bem” sem perguntar nada por
dentro. Quando trabalho, converso, caminho, sorrio — mas como quem repete um
roteiro. Não há conflito, não há surpresa, não há rachadura. E sem rachadura,
nada entra.
A
irrealidade fechada não nega o mundo. Ela o torna intransponível. O real vira
vitrine.
Jean
Baudrillard diria que vivemos no simulacro:
não na mentira, mas numa cópia sem original. Mas eu sinto algo ainda mais
íntimo: não é o mundo que é falso — é a minha relação com ele que se fechou.
Como
uma janela bem limpa, mas permanentemente trancada.
Percebo
isso em coisas pequenas. Na música que escuto sem ouvir. No livro que leio sem
ser tocado. Na conversa que termina sem deixar eco. Tudo acontece, mas nada
continua.
A
irrealidade fechada é um mundo sem depois.
E
talvez por isso ela seja tão confortável. Não exige risco. Não exige
interpretação. Não exige transformação. Basta circular.
Mas
há um custo: quando a realidade se fecha, a alma começa a procurar frestas em
lugares estranhos — no excesso, na distração, na nostalgia, na fantasia.
Eu
não quero fugir da realidade. Quero que ela volte a me atravessar.
Porque
o real só é real quando deixa marcas.
E
a irrealidade fechada é justamente isso: um mundo sem cicatrizes.
Talvez
viver seja, no fundo, aprender a reabrir o real. Mesmo que doa. Mesmo que
desorganize. Mesmo que nos tire do conforto de existir sem sentir.
sábado, 17 de janeiro de 2026
Absoluto, Inefável
Tem
coisas que a gente não explica — apenas reconhece. Como o silêncio depois de
uma perda. Como a sensação de infinito olhando o mar. Como aquele instante em
que a palavra falha, mas o sentido transborda. É aí que o absoluto se aproxima.
E é exatamente aí que ele se torna inefável.
O
absoluto não cabe na linguagem. Toda vez que tentamos descrevê-lo, ele já
escapou. A palavra chega atrasada. A frase vem como tradução imperfeita de algo
que não pediu para ser traduzido.
O
inefável no cotidiano
O
inefável não mora apenas nos templos, nos livros ou nas teorias. Ele aparece no
cotidiano:
–
No abraço que não pede explicação.
–
Na música que dói sem machucar.
–
Na lembrança que não se sabe de onde veio.
–
No amor que não cabe na biografia.
Quando
alguém pergunta “por quê?”, a resposta honesta seria: não sei dizer, só sei
que é. isso já é o inefável se
manifestando.
O
absoluto não é excesso — é totalidade
O
absoluto não é o que tem demais. É o que não depende de comparação. Ele não
precisa de outro para existir. Não é melhor, nem pior: é inteiro. Por isso ele
desconcerta. Porque nossa mente vive de contrastes, limites, oposições. O
absoluto dissolve essas fronteiras.
Spinoza
chamou isso de substância infinita. Plotino chamou de Uno. Os místicos chamaram
de Deus. Os poetas chamaram de amor. Os silenciosos apenas sentiram.
Todos
apontaram para o mesmo lugar — e erraram do mesmo modo: tentando nomear o
inominável.
A
falência da linguagem
Wittgenstein
foi direto: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Mas o ser
humano não sabe calar diante do absoluto. Ele escreve, canta, pinta, filosofa.
Não para capturá-lo, mas para não enlouquecer diante dele.
A
linguagem não revela o absoluto. Ela apenas mostra onde ele não está.
O
absoluto como experiência, não como conceito
O
absoluto não é algo que se entende. É algo que acontece. E quando acontece,
muda o modo como tudo o mais é visto. Depois dele, o mundo continua igual — mas
você não.
Por
isso ele é inefável: porque não é informação, é transformação.
Absoluto,
inefável — e humano
Talvez
o paradoxo mais bonito seja este: o ser humano, limitado, frágil e transitório,
é justamente quem percebe o absoluto. Como se o infinito precisasse da finitude
para ser pressentido.
O
absoluto não se impõe. Ele se insinua. Não grita. Não prova. Não argumenta.
Apenas toca.
E
quando toca, não deixa frase. Deixa silêncio.
Um
silêncio que não é vazio.
É
plenitude sem tradução.
E
talvez seja isso que nos mantém vivos: a certeza íntima de que existe algo
maior do que aquilo que conseguimos dizer — e, ainda assim, profundamente
nosso.
Férias Agitadas
Fiquei me perguntando por que muita gente prefere frequentar as mesmas praias que estão sempre super lotadas com desconforto de restaurantes lotados, dificuldade para estacionamento, hospedagens caríssimas, e poucas são as pessoas que preferem praias mais tranquilas com beleza exuberante, com espaço amplo para circular, passear e colocar seu guarda-sol, hospedagens com preço mais justo.
Pensei:
Porque, no fundo, as férias deixaram de ser só descanso — viraram também
narrativa, prova social e pertencimento.
Hoje,
viajar não é apenas ir a um lugar, é mostrar que se esteve lá. Lugares cheios
funcionam como certificados simbólicos: “se todo mundo quer, deve valer a
pena”. A multidão valida a escolha. O destino tranquilo, por outro lado, não
gera a mesma sensação de reconhecimento.
Há
também um fator psicológico curioso:
o
silêncio obriga a gente a ficar consigo mesmo. Já o lugar lotado distrai. Em
vez de escutar os próprios pensamentos, escutamos filas, música alta, conversas
alheias. Para muita gente, isso é mais confortável. (ainda bem que estão
proibindo caixa de som na beira da praia)
Outro
ponto é o medo invisível de estar “perdendo algo”. Quando vemos milhares indo
ao mesmo lugar, surge a impressão de que ali está a experiência verdadeira da
vida. O tranquilo passa a parecer incompleto, como se estivesse fora do roteiro
do mundo.
E
há ainda a estética da experiência:
lugares
cheios oferecem fotos reconhecíveis. Um fundo famoso, uma pose famosa, uma
lembrança facilmente traduzível em curtidas. O lugar calmo oferece algo mais
difícil de mostrar: sensação, silêncio, tempo dilatado — coisas que não cabem
bem numa tela.
No
fundo, não é que as pessoas rejeitem a tranquilidade.
Elas
rejeitam a invisibilidade que a tranquilidade traz.
Descansar
em paz não impressiona ninguém.
Mas
impressionar, hoje, cansa menos do que descansar.
Talvez
por isso os lugares mais cheios estejam lotados…
e
os mais vazios estejam, paradoxalmente, esperando por quem ainda lembra que
férias também podem ser um encontro consigo mesmo.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Idiotizar os Sentidos
Um ensaio sobre a anestesia cotidiana
Outro dia eu percebi que
tinha passado por uma padaria inteira sem sentir o cheiro do pão. Não por falta
de pão — ele estava lá, quente, generoso, quase gritando — mas por falta de
mim. Eu estava presente só no corpo. O resto tinha ido responder mensagens,
organizar preocupações, simular produtividade.
Foi ali que me ocorreu:
talvez a gente esteja aprendendo, com uma eficiência assustadora, a idiotizar
os sentidos.
Não no sentido clínico,
claro. Mas no sentido filosófico: torná-los incapazes de produzir experiência.
Quando sentir deixa de
ser experiência
Os sentidos não são
apenas canais biológicos. Eles são formas de pensamento. Ver não é
apenas captar luz; é interpretar. Ouvir não é apenas vibração; é atribuir
sentido. Tocar não é apenas contato; é reconhecimento.
Merleau-Ponty
dizia que o corpo é nossa forma de estar no mundo. Mas o corpo moderno foi
treinado para atravessar o mundo, não para habitá-lo.
A idiotização dos
sentidos acontece quando:
- a visão vira escaneamento,
- a audição vira ruído de fundo,
- o tato vira acidente,
- o paladar vira função,
- o olfato vira quase irrelevante.
O mundo deixa de ser
experiência e vira cenário.
Não é que os sentidos
falhem. Eles são deseducados.
A cultura da velocidade,
da repetição e da utilidade não destrói os sentidos — ela os simplifica. E tudo
que é simplificado perde profundidade.
Nietzsche
temia uma humanidade cansada demais para sentir tragédia e alegria com
intensidade. Talvez estejamos exatamente aí: não sofremos demais, nem amamos
demais, nem nos encantamos demais. Apenas administramos.
Onde os sentidos perdem a
dignidade
No ônibus, alguém escuta
música alta no fone. A música não atravessa. Ela apenas acompanha.
No almoço, mastigamos
enquanto olhamos a tela. O gosto é secundário. Comer vira logística.
No trabalho, digitamos
sem ouvir o som das teclas. As mãos não sabem mais o que fazem — apenas
executam.
No encontro, ouvimos
esperando a nossa vez de falar. A voz do outro vira intervalo.
Até o toque se tornou
apressado. Abraços com prazo. Beijos com agenda.
Os sentidos, que deveriam
ser pontes, viraram atalhos.
O efeito invisível:
quando a vida perde espessura
Quando idiotizamos os
sentidos, a vida não fica triste. Ela fica plana.
Nada dói muito. Nada
encanta muito. Nada marca muito.
E então surge a sensação
estranha:
“Está tudo bem, mas algo está faltando.”
O que falta não é evento.
É presença.
A gente não vive menos
acontecimentos. A gente vive menos experiência dentro deles.
Um possível resgate
Desidiotizar os sentidos
não exige mudança radical. Exige microdesobediências:
- Comer algo em silêncio.
- Olhar um rosto até ele deixar de ser
função.
- Escutar uma música sem fazer mais
nada.
- Tocar um objeto como quem o descobre.
- Andar sem objetivo por cinco minutos.
Não para virar místico.
Mas para lembrar que existir não é só operar.
A ética de sentir
Talvez o maior gesto
revolucionário hoje seja simples e silencioso: sentir de novo.
Não como quem busca
prazer.
Mas como quem se recusa a virar superfície.
Porque idiotizar os
sentidos é perder o mundo sem que o mundo vá embora.
E recuperar os sentidos é
recuperar algo ainda mais raro:
a capacidade de estar dentro da própria vida.
Vozes Diferentes
As
caminhadas pela manhã são diferenciadas, estou mais relaxado e com expectativas
para as novidades do dia, as vozes que habitam minha mente estão mais calmas e
atentas dando ouvidos ao mundo exterior, esperando o momento para entrarem em
ação, elas são muitas. Há vozes que querem convencer. Outras só querem existir.
Algumas explicam, outras confundem, e há aquelas que apenas acompanham — como
se caminhassem ao nosso lado sem pedir nada.
A
voz da infância ainda fala baixo dentro de nós, usando palavras simples. A da
juventude fala rápido, como se o tempo estivesse sempre acabando. A da
maturidade aprende a fazer silêncio entre uma frase e outra. E a do cansaço…
essa não fala: suspira.
Também
há vozes que não são nossas. A voz da cidade, feita de buzinas e anúncios. A
voz da família, que ecoa mesmo quando ninguém está por perto. A voz da
internet, que fala em coro. E, no meio de todas elas, tentamos reconhecer qual
ainda nos pertence.
As
vozes diferentes não brigam apenas entre si — elas disputam a nossa atenção.
Uma pede coragem. Outra pede prudência. Uma diz “vai”. A outra diz “espera”. E
quase nunca concordam.
Fernando
Pessoa escreveu que “viver é ser outro”. Talvez por
isso sejamos um pequeno coral ambulante, afinado e desafinado ao mesmo tempo,
tentando transformar ruído em melodia.
No
cotidiano, aprender a viver não é escolher uma única voz. É aprender quando
cada uma deve ser escutada.
Porque
algumas vozes nos empurram. Outras nos protegem. E algumas só existem para
lembrar que ainda estamos vivos.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Ideia de Infinidade
Tentei imaginar o infinito, eu estava olhando para o céu num fim de tarde qualquer. As nuvens passavam, o azul parecia não acabar, e minha cabeça simplesmente desistiu. O infinito não cabe. Ele escorre pelos cantos do pensamento.
No
cotidiano, a gente vive cercado de infinitos disfarçados. A fila do banco
quando estamos com pressa. As notificações que nunca acabam. A promessa
silenciosa de que amanhã vou começar “uma vida nova” — como se houvesse um
número ilimitado de versões minhas esperando na gaveta do tempo.
O
curioso é que o infinito não é apenas grande demais; ele é, sobretudo,
incômodo. Porque nos lembra que não controlamos o todo. Posso contar moedas,
passos, dias, mas não consigo contar possibilidades. Cada escolha que faço abre
um corredor invisível de escolhas que deixei de fazer. Um pequeno infinito
pessoal.
Na
matemática, o infinito é elegante. Na vida, ele é meio bagunçado. Está no amor
que promete “para sempre”, no luto que parece não terminar, no desejo que nunca
se satisfaz por completo. O infinito, no fundo, é a nossa incapacidade de
fechar a experiência com um ponto final.
Às
vezes penso que buscamos o infinito não por ambição, mas por medo. Medo de que
tudo acabe simples demais. Que sejamos apenas um parágrafo curto num livro
muito grosso.
O
filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos dizia que o infinito não é
algo que se alcança, mas algo que se pressente. E talvez seja isso: o infinito
não mora no espaço, mora na intuição. Ele aparece quando a gente percebe que a
realidade é maior do que nossas explicações.
No
café da manhã, quando a xícara acaba, o café acaba. Mas a conversa não. A
memória não. A saudade não. A pergunta “e se?” não. O infinito começa
justamente aí: onde as coisas visíveis terminam e as invisíveis continuam
trabalhando em silêncio.
No
fim das contas, talvez a ideia de infinidade não seja sobre o universo, mas
sobre nós. Sobre essa estranha certeza de que somos finitos — e, mesmo assim,
insistimos em pensar como se não fôssemos.
E
é nessa contradição que o infinito respira.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Reflexos de Si
Às vezes eu me reconheço mais no que não sou do que no que sou.
Vejo
meu reflexo numa vitrine, num espelho de elevador, numa foto antiga — e sempre
há um pequeno atraso entre a imagem e a sensação. A imagem afirma: sou eu.
A sensação pergunta: será mesmo?
Os
reflexos de si não vivem apenas no espelho. Estão nas pessoas que me irritam
sem motivo claro. Nas que admiro sem entender por quê. Estão nas frases que me
doem como se eu mesmo as tivesse escrito. Estão nos silêncios alheios que
parecem meus.
Descobri,
com certo desconforto, que quase tudo o que julgo no outro é um espelho mal
polido de algo que ainda não aceitei em mim.
O
reflexo não é cópia. É distorção com intimidade.
No
cotidiano, isso aparece em gestos mínimos: quando me vejo paciente num amigo e
percebo minha própria impaciência; quando admiro a coragem de alguém e sinto a
minha própria covardia pedindo tradução; quando critico uma vaidade e reconheço
a minha pedindo desculpa.
Carl
Jung
dizia que não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas tornando
consciente a escuridão. E talvez os reflexos de si sejam exatamente isso:
pequenas lanternas apontadas para dentro por mãos que não são nossas.
O
problema é que preferimos espelhos confortáveis. Queremos reflexos que
confirmem, não que revelem. Queremos nos ver inteiros quando ainda estamos em
construção.
Mas
o reflexo verdadeiro sempre vem um pouco torto. Ele não mostra quem eu sou —
mostra quem estou sendo.
E
isso dói.
Porque
o reflexo de si não acusa, mas também não protege. Ele apenas devolve. E o que
ele devolve nem sempre combina com a história que conto sobre mim.
Talvez
maturidade seja aprender a conversar com os próprios reflexos sem quebrar o
espelho.
Aceitar
que não somos unidade, mas composição. Que não somos rosto, mas coleção de
ângulos. Que não somos identidade, mas tentativa.
No
fim, percebo algo simples e estranho: eu não me encontro quando me afirmo — eu
me encontro quando me reconheço nos lugares onde não queria estar.
E
então entendo que os reflexos de si não servem para confirmar quem somos.
Servem para nos lembrar que ainda estamos nos tornando.
Desgarrados
Fiquei
remoendo no pensamento a palavra “desgarrados”, certamente associada as minhas
observações, percebi que nem toda solidão nasce da ausência de pessoas —
algumas nascem da ausência de sentido. Comecei a notar rostos presentes e almas
deslocadas, risos que não repousavam em ninguém, conversas que não encontravam
morada. E então entendi que havia um tipo de humano que não estava perdido, mas
desalojado por dentro. Não por fracasso, mas por excesso de lucidez. Foi desse
incômodo silencioso, dessa sensação de não caber sem querer fugir, que surgiu a
necessidade de pensar os desgarrados. Não como excluídos, mas como consciências
que já não conseguem habitar as certezas que o mundo oferece.
Há
pessoas que não se perdem — se desgarram. E há uma diferença profunda entre uma
coisa e outra. Quem se perde quer voltar. Quem se desgarra, muitas vezes, nem
sabe mais de onde saiu.
Os
desgarrados não fazem barulho. Eles caminham à margem, com uma estranha mistura
de lucidez e cansaço. Não pertencem por inteiro, mas também não se rebelam o
suficiente para romper. São estrangeiros dentro da própria rotina.
O
desgarro no cotidiano
O
desgarrado pode estar na mesa do almoço em família e sentir-se visitante. Pode
estar no trabalho e não se reconhecer no que faz. Pode estar entre amigos e
ainda assim sentir solidão. Não por rejeição externa, mas por deslocamento
interno.
Ele
não se sente excluído. Ele se sente fora de eixo.
E
isso é mais silencioso que a exclusão.
Desgarrar-se
não é fraqueza
Vivemos
numa cultura que exalta pertencimento: tribos, grupos, lados, rótulos,
identidades rígidas. O desgarrado é visto como indeciso, estranho, instável.
Mas talvez ele seja apenas alguém que percebeu cedo demais que nenhum lugar é
completo.
Desgarrar-se
é perceber que o mundo oferece papéis, mas não garante sentido.
Albert
Camus descreveu esse estado como o sentimento do absurdo: o
momento em que o ser humano percebe a distância entre o desejo de sentido e o
silêncio do mundo. Para Camus, o desgarrado não é um derrotado, mas alguém que
acordou. Ele não foge da vida, mas se recusa a mentir para ela. O desgarro,
então, não é alienação — é lucidez sem anestesia.
O
risco e a dignidade do desgarro
O
risco do desgarrado é o cinismo. A dignidade é a honestidade. Ele pode cair na
indiferença ou transformar o desencaixe em busca. O mesmo desgarro que isola
também pode libertar.
Porque
quem não pertence por inteiro a lugar nenhum pode, finalmente, pertencer a si.
Desgarrados
não são vazios
Eles
apenas não aceitam preenchimentos fáceis. Não se contentam com respostas
prontas, com pertencimentos automáticos, com verdades herdadas. Eles carregam
uma solidão que não é ausência — é espaço.
Espaço
para pensar.
Espaço
para sentir.
Espaço
para reconstruir.
No
fim, todos somos um pouco desgarrados
Em
algum momento da vida, todos nos soltamos de algo: de uma crença, de uma
pessoa, de uma versão de nós mesmos. Alguns chamam isso de crise. Outros chamam
de maturidade. Talvez seja apenas o preço de deixar de viver emprestado.
Os
desgarrados não têm mapa.
Mas
têm direção: para dentro.
E
às vezes, isso já é a forma mais rara de pertencimento.
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Vozes Abstratas
Estava
em minha caminhada diária e no trajeto entre as arvores do parque dei atenção ao
barulho das folhas, elas queriam conversar comigo, em minhas abstrações comecei
a dar-lhes ouvidos. Há vozes que não vêm da garganta. Não pedem microfone, não
fazem eco nas paredes, mas atravessam o dia como um vento leve que muda a
direção do pensamento. São abstratas porque não têm rosto, mas são íntimas
porque sabem exatamente onde tocar.
Elas
aparecem no silêncio do ônibus, na pausa antes de responder uma mensagem,
naquele instante em que o café já esfriou e a gente percebe que estava pensando
em outra coisa. Não dizem frases completas. Sugerem. Insinuam. Às vezes só
perguntam: é isso mesmo?
As
vozes abstratas não mandam — convidam. Uma lembra quem fomos. Outra aponta quem
poderíamos ser. Há também a que mente, a que exagera, a que dramatiza. E há a
mais rara: a que simplifica.
No
cotidiano, a gente aprende a valorizar vozes concretas — chefes, professores,
especialistas, algoritmos. Mas são as abstratas que organizam o mapa interno.
Elas não explicam o mundo; explicam nossa posição nele.
Talvez
por isso incomodem tanto. Porque não podem ser desligadas. Não têm botão, nem
volume. Só escuta quem para.
Como
diria um filósofo brasileiro pouco lembrado, Vicente Ferreira da Silva,
o homem não é apenas aquele que pensa, mas aquele que escuta o sentido se
formando dentro dele. As vozes abstratas são justamente esse ensaio de
sentido, ainda sem forma, ainda sem nome.
E
talvez amadurecer seja aprender a não confundi-las com ordens, nem a ignorá-las
como ruído. É deixá-las falar — sem transformá-las imediatamente em certezas.
Porque,
no fundo, toda decisão começa como uma voz abstrata. E toda identidade também.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Indivisível e Impassível
Escrevo
sobre o indivisível e o impassível porque comecei a perceber o quanto o mundo
insiste em nos fragmentar. Em papéis, funções, opiniões, versões editadas de
nós mesmos. E, ao mesmo tempo, o quanto ele exige que sintamos tudo, o tempo
todo, como se a sensibilidade fosse uma obrigação pública. Entre a fragmentação
e a exposição, algo essencial parecia se perder. Foi desse desconforto que
nasceu a necessidade de pensar aquilo que não se parte e aquilo que não se
deixa ferir.
O
indivisível no cotidiano
Ser
indivisível não é ser rígido. É ser inteiro. É quando aquilo que se pensa, se
sente e se faz não vivem em guerra permanente. O indivisível aparece quando
alguém recusa agir contra a própria consciência, mesmo quando isso custa
aceitação. Ele se manifesta na coerência silenciosa, não na perfeição.
Uma
pessoa indivisível pode errar, mas não se vende em pedaços.
O
impassível não é indiferença
Ser
impassível não é ser frio. É não permitir que qualquer vento governe o centro.
O impassível sente, mas não se dissolve. Chora, mas não se perde. Ama, mas não
se anula. Ele não é impermeável à dor — apenas não se deixa definir por ela.
Os
estóicos chamavam isso de apatheia: não ausência de emoção, mas
soberania sobre ela.
Marco
Aurélio escreveu que a alma humana pode tornar-se
inexpugnável quando aprende a não se deixar ferir por aquilo que não depende
dela. Para ele, a verdadeira força não está em endurecer, mas em manter a
integridade diante do caos. O indivisível e o impassível, em sua filosofia, não
são virtudes de isolamento, mas de liberdade interior: ninguém pode quebrar
aquilo que não se entrega em fragmentos.
A
fragmentação como doença moderna
Vivemos
em uma cultura que nos divide: trabalho de um lado, afeto de outro, imagem
pública de um lado, vazio privado de outro. Essa divisão contínua gera
exaustão. O indivisível é um gesto de resistência contra essa esquizofrenia
cotidiana.
Ser
inteiro hoje é um ato revolucionário.
Indivisível
e impassível — mas humano
Essas
palavras não falam de deuses. Falam de tentativas. De pessoas que aprendem, aos
poucos, a não se romper para caber. A não se violentar para agradar. A não se
abandonar para sobreviver.
Porque,
no fundo, o indivisível não é quem nunca se parte.
É
quem, mesmo ferido, se recompõe sem se trair.
E
o impassível não é quem não sente.
É
quem sente sem deixar que o mundo decida quem ele é.
domingo, 11 de janeiro de 2026
Tempo Segue
Vamos
ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais
sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas
por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o
trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão.
A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo
bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar
pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar
vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história
que ainda nos cabe escrever.
Sentimentos
e emoções dos que ficam
Quem
fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é
um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as
ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma
coisa não continua.
Os
que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa,
raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem
ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente
lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.
No
cotidiano isso aparece em gestos pequenos:
—
no lugar vazio à mesa;
—
na mensagem que quase enviamos;
—
na música que não dá para ouvir até o fim;
—
no aniversário que vira um parêntese no calendário.
Os
que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos
cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É
como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.
Rubem
Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E
talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando
entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.
Com
o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas
menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença
invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.
Os
que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias,
risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o
outro dentro de si.
Porque,
no fundo, ficar não é só permanecer.
É
aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de
companhia.
Mais
velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me
aguarda, assim espero!
Renovações Sociais
A
sociedade não muda de uma vez. Ela muda aos poucos, quase sempre sem perceber.
Não é quando uma lei é assinada, nem quando uma revolução estoura. É quando
alguém começa a agir diferente do que era esperado. Toda renovação social começa
como um desvio pequeno.
A
história, depois, chama isso de avanço.
O
novo nasce do incômodo
Toda
renovação social nasce de um desconforto silencioso. Alguém olha para o que
sempre foi feito e pensa: isso já não faz sentido. E esse pensamento,
que parece individual, é na verdade coletivo em gestação.
Foi
assim com o fim da escravidão, com os direitos das mulheres, com a dignidade do
trabalho, com a liberdade religiosa, com a ideia de que crianças não são
adultos em miniatura. Antes de virar pauta, tudo isso foi apenas incômodo.
O
cotidiano como laboratório social
As
verdadeiras renovações não começam no discurso, mas no gesto.
Quando
um chefe escuta mais do que manda.
Quando
um professor ensina a pensar, não só a repetir.
Quando
um pai aprende com o filho.
Quando
uma empresa percebe que pessoas não são recursos.
Quando
alguém respeita uma diferença que não entende.
Esses
gestos não viralizam, mas sedimentam.
Renovar
não é destruir
Existe
uma ilusão romântica de que renovar é romper. Mas as sociedades não sobrevivem
apenas de ruptura. Elas sobrevivem de releitura. Renovar é preservar o que é
vivo e abandonar o que virou hábito sem sentido.
Hannah
Arendt dizia que toda ação humana inaugura algo novo no mundo. Mesmo o menor
gesto carrega potencial político. A renovação social não depende apenas de
sistemas, mas de consciências que recusam a anestesia.
O
conflito entre tradição e renovação
Toda
renovação é vista, no início, como ameaça. Porque ela desloca certezas. Mas
tradição não é aquilo que se repete — é aquilo que continua fazendo sentido.
Quando não faz mais, vira apenas costume.
Renovar
é respeitar o passado sem ser prisioneiro dele.
A
lentidão da mudança real
As
redes dão a impressão de que tudo muda rápido. Mas a ética muda devagar. A
mentalidade muda devagar. O respeito muda devagar. A empatia muda devagar.
Por
isso, toda renovação social verdadeira é invisível no começo. Ela só se torna
evidente quando já se tornou inevitável.
Renovar-se
para renovar
Não
há renovação social sem renovação individual. A sociedade não é um corpo
abstrato: é o somatório das pequenas escolhas cotidianas.
Quando
você escuta mais do que julga, a sociedade muda.
Quando
você divide em vez de acumular, ela muda.
Quando
você pensa antes de repetir, ela muda.
E
quando isso se repete em muitos, a história chama de transformação.
Paulo
Freire lembrava que a educação não transforma o mundo:
transforma as pessoas, e as pessoas transformam o mundo. Essa frase sintetiza
com precisão a lógica das renovações sociais. Para Freire, não existe mudança
verdadeira sem consciência crítica, e não existe consciência crítica sem
diálogo. A sociedade se renova quando deixa de tratar indivíduos como
recipientes de ideias prontas e passa a reconhecê-los como sujeitos capazes de
interpretar, questionar e recriar a realidade. Renovar, nesse sentido, não é
impor um novo modelo, mas libertar a capacidade humana de pensar e agir.
Renovações
sociais são, antes de tudo, renovações humanas
No
fim, nenhuma sociedade se renova apenas por novas ideias. Ela se renova quando
novas formas de convivência se tornam possíveis.
A
verdadeira renovação social não grita.
Ela
reorganiza.
E
quando percebemos, já estamos vivendo em um mundo que, silenciosamente, começou
a ser outro.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Poço de Solidão
Há
dias em que a solidão não é um quarto vazio, mas um poço. Não um poço
assustador — daqueles de filme de terror —, mas um poço fundo, silencioso, onde
a gente escuta melhor o próprio eco. Eu caio nele sem perceber: quando o
celular fica mudo, quando a conversa termina cedo demais, quando percebo que
ninguém vai notar se eu demorar um pouco mais para voltar.
O
curioso é que, nesse poço, não estou exatamente só. Estou comigo. E isso, às
vezes, é mais difícil do que lidar com os outros.
No
cotidiano, o poço aparece em formas discretas: na mesa do almoço, quando todo
mundo fala e eu apenas mastigo; no ônibus, quando olho os reflexos no vidro e
não reconheço muito bem quem está ali; na noite em que não tenho vontade de
ligar para ninguém, mas também não quero ficar em silêncio. É uma solidão que
não dói como abandono — dói como espelho.
Mário
Quintana dizia que “a solidão é uma ilha com saudade de
continente”. Acho bonito, mas incompleto. Porque há dias em que a ilha não
quer continente nenhum. Quer apenas entender por que existe. O poço, então, não
é fuga: é descida.
E
toda descida tem risco. A gente pode se perder no fundo, confundir silêncio com
vazio, introspecção com desistência. Mas também pode encontrar algo que o
barulho da vida esconde: perguntas que nunca fizemos, vontades que nunca
admitimos, medos que fingimos não ter.
Já
percebi que há dois tipos de solidão. A que nos empobrece — quando nos sentimos
invisíveis. E a que nos afina — quando começamos a ouvir camadas mais profundas
de nós mesmos. O poço de solidão pode ser túmulo ou nascente. Depende do que
fazemos lá embaixo.
Às
vezes eu volto com pouco: uma frase, uma lembrança, uma vontade de mudar algo
pequeno. Às vezes volto apenas mais leve, como quem não resolveu nada, mas
entendeu melhor o problema.
Talvez
a solidão não seja ausência de companhia, mas excesso de interior.
E
talvez o poço não exista para nos engolir, mas para nos ensinar a subir com
mais consciência de quem somos.
Porque
no fundo do poço, descobri uma coisa simples: não é a solidão que assusta — é o
encontro que ela provoca.
Real ou Figurado
Entre a Pedra e o Sinal
Há
um momento curioso em toda conversa humana: aquele instante em que precisamos
decidir se a frase deve ser acreditada ou interpretada. Quando alguém diz “estou
no fundo do poço”, ninguém oferece uma corda literal. Ainda assim, algo ali
é profundamente real. Esse pequeno desvio revela um dos jogos mais antigos da
linguagem: o vaivém entre o real e o figurado. Após uma conversa com um colega
fiquei a pensar sobre isto, ele bastante ansioso em busca de alternativas para
enfrentar os problemas naquele momento delicado, o que ele falou me fez
refletir a respeito do tanto que falamos com linguagem profunda carregada de
sentido emocional.
O
sentido real tranquiliza. Ele fixa o mundo, dá contornos, permite medir, pesar,
provar. Uma pedra é uma pedra. Um corpo ocupa espaço. O dia começa e termina.
Mas o ser humano nunca se contentou com isso. A realidade literal é
insuficiente para dar conta da experiência. Sofrimento, desejo, esperança e
tempo não cabem inteiros em palavras literais. É aí que o figurado entra como
contrabando existencial: ilegal, mas necessário.
Curiosamente,
chamamos de “figurado” aquilo que mais se aproxima do vivido. Ninguém sente a
dor como um dado técnico; sente como um peso, um vazio, um nó.
A linguagem figurada não embeleza a realidade — ela a torna suportável. Talvez
por isso as sociedades que tentam expulsar a metáfora acabem empobrecendo o
pensamento. Onde tudo precisa ser exato, quase nada é compreendido.
O
real, isolado, é mudo. Uma lágrima, em si, é apenas sal e água. Ela só fala
quando dizemos que carrega um mundo. O figurado, então, não é fuga do
real, mas sua tradução. É a tentativa de dar forma comunicável ao que, de outro
modo, permaneceria preso ao silêncio interno.
Mas
há um risco: quando esquecemos que o figurado aponta para algo, e não é o algo.
Quando metáforas viram dogmas, quando símbolos se solidificam, nasce a
confusão. Passamos a defender imagens como se fossem fatos e a negar fatos
porque ferem nossas imagens. Nesse ponto, o figurado deixa de iluminar o real e
passa a substituí-lo — e toda substituição excessiva gera cegueira.
Talvez
viver seja aprender a alternar. Saber quando a pedra é apenas pedra e quando
ela pesa como o mundo. Saber quando alguém pede um copo d’água e quando pede,
sem saber, um gesto de cuidado. A sabedoria não está em escolher entre o real e
o figurado, mas em reconhecer o momento exato de cada um.
No
fim, o humano é esse ser que anda com um pé no chão e outro no símbolo.
Demasiado real, torna-se bruto. Demasiado figurado, perde-se em névoa. Entre a
pedra e o sinal, entre o fato e a imagem, seguimos tentando dizer o indizível —
e chamamos isso, modestamente, de linguagem.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Incorruptível e Eterno
Há palavras que possuem força ao serem ditas, pronunciadas, carregadas de energia. Há coisas que envelhecem com o tempo. Outras apodrecem. Outras se transformam. Mas existem algumas — raras, silenciosas — que não se deixam corroer. Elas não brilham, não se anunciam, não disputam espaço. Apenas permanecem. Incorruptíveis. Eternas. Não no sentido do que dura para sempre no calendário, mas no sentido do que não perde o sentido.
O
incorruptível no cotidiano
Você
já percebeu como certos gestos não envelhecem?
Um
pedido sincero de perdão.
Uma
verdade dita sem cálculo.
Um
amor que não exige retorno.
Um
olhar que respeita.
Essas
coisas atravessam o tempo sem se deformar. Podem ser esquecidas na memória, mas
não se corrompem no valor. Elas continuam sendo o que sempre foram.
O
incorruptível não é o que resiste à matéria, mas o que resiste à conveniência.
A
eternidade que não depende do tempo
A
eternidade não é uma linha infinita no futuro. É uma qualidade de presença.
Algo é eterno quando não depende do instante para existir. Quando poderia ter
acontecido ontem, hoje ou há mil anos — e ainda assim faria sentido.
Platão
chamou isso de mundo das ideias. Santo Agostinho chamou de tempo
interior. Bergson chamou de duração. Todos tentaram dizer a mesma coisa:
há algo em nós que não passa, mesmo quando tudo passa.
O
que se corrompe não é o ser, é o uso
Nada
se perde por ser verdadeiro. Perde-se quando é usado como instrumento. A fé se
corrompe quando vira poder. A justiça, quando vira discurso. O amor, quando
vira posse. A verdade, quando vira estratégia.
O
incorruptível é aquilo que se recusa a servir à mentira.
A
eternidade do que é simples
Curiosamente,
o que mais se aproxima do eterno é o simples. A criança que confia. O velho que
perdoa. O silêncio que acolhe. O gesto que não pede registro.
Nietzsche
dizia que o eterno retorno não é a repetição do mesmo, mas a capacidade de
afirmar a vida mesmo quando ela se repete. O eterno, então, não é o que nunca
muda — é o que nunca deixa de valer.
Incorruptível
e eterno — dentro de nós
Talvez
não exista nada absolutamente incorruptível fora do humano. Mas existe algo
incorruptível no humano: a capacidade de reconhecer o que não pode ser
comprado, manipulado ou destruído sem que algo essencial morra junto.
Quando
você escolhe não trair a própria consciência, mesmo perdendo, algo eterno
acontece em você.
E
isso não precisa durar para sempre.
Basta
não se corromper enquanto existe.
Porque,
no fundo, o eterno não é aquilo que nunca termina.
É
aquilo que, enquanto existe, não se vende.
Normalização da Instabilidade
Durante
muito tempo, a instabilidade foi tratada como uma exceção: uma fase ruim, um
desvio temporário, algo a ser rapidamente corrigido para que a vida “voltasse
ao normal”. O curioso é que, silenciosamente, fizemos o caminho inverso. Hoje,
o que era exceção virou regra. O instável se normalizou.
Percebo
isso nas conversas mais banais. Ninguém mais pergunta “como vai o trabalho?”,
mas “até quando dura esse projeto?”. Relações começam já com data de
validade implícita. Moradia, carreira, amizades — tudo vem acompanhado de um
asterisco invisível: sujeito a mudanças.
No
cotidiano, a instabilidade ganhou uma estética própria. Currículos não contam
histórias contínuas, mas colagens. Vidas são administradas como aplicativos em
constante atualização. A sensação não é mais a de estar perdido, mas a de estar
permanentemente provisório. E isso cansa de um jeito novo: não pela queda, mas
pela ausência de chão.
O
problema não é a instabilidade em si — afinal, o mundo sempre foi móvel.
Heráclito já dizia que não se entra duas vezes no mesmo rio. O problema começa
quando transformamos a instabilidade em valor moral, quase uma virtude.
Adaptar-se vira obrigação constante; cansar-se, um defeito; desejar
permanência, um sinal de atraso.
No
trabalho, isso aparece quando a insegurança é vendida como “flexibilidade”. Na
vida pessoal, quando o medo de se comprometer é rebatizado de “liberdade
emocional”. Tudo é compreensível, tudo é fluido — exceto a necessidade humana
de algum tipo de continuidade.
Zygmunt
Bauman chamou esse cenário de modernidade líquida: relações,
instituições e identidades que não mantêm forma por tempo suficiente para criar
raízes. Mas talvez hoje já tenhamos ido além da liquidez. Não é só que tudo
muda; é que esperamos que tudo mude — e rápido. Quando algo permanece, causa
estranhamento.
Mesmo
assim, há pequenos gestos de resistência quase invisíveis: o hábito mantido
apesar da agenda caótica, a amizade que atravessa fases, o trabalho feito com
cuidado mesmo sem garantias. São formas discretas de dizer que nem tudo precisa
ser instável para ser vivo.
Talvez
a questão não seja eliminar a instabilidade — isso seria ilusório —, mas
recusar sua normalização total. Reconhecer que há algo de profundamente humano
no desejo por continuidade, por vínculos que não precisem ser renegociados a
cada semana.
Em
um mundo que se orgulha de não prometer nada, talvez o verdadeiro ato radical
seja sustentar alguma coisa. Mesmo que seja pequena. Mesmo que seja frágil.
Mesmo que não esteja na moda.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Fadiga de Sentido
Cansaço
Moral e Fadiga de Sentido
Há
um tipo de cansaço que não melhora com sono. A gente dorme, acorda, toma banho,
cumpre o roteiro do dia — e mesmo assim algo continua pesado. Não é o corpo: é
o sentido. Ou melhor, a falta dele. Esse é o território onde o cansaço moral
encontra a fadiga de sentido.
O
cansaço moral nasce quando tudo exige uma posição. Opinar, reagir, escolher
lados, demonstrar indignação correta, empatia calibrada, discurso ajustado. O
mundo virou um teste contínuo de caráter — público, rápido e sem direito a
silêncio. Não é que faltem causas justas; é que falta intervalo. Falta o
direito de não responder imediatamente a tudo, de não transformar cada
acontecimento em identidade.
Já
a fadiga de sentido aparece quando, mesmo fazendo “as coisas certas”, nada
parece realmente necessário. Trabalha-se, consome-se, fala-se, compartilha-se —
mas a pergunta silenciosa insiste: para quê? Não é niilismo declarado; é
um esvaziamento discreto. A vida continua funcionando, mas sem densidade.
Byung-Chul
Han chama isso de uma sociedade do desempenho que nos adoece não pela
proibição, mas pelo excesso de possibilidade. Tudo pode, tudo deve, tudo é
projeto. O resultado não é liberdade, é exaustão. Eu acrescentaria: uma
exaustão moral, porque até descansar parece um dever mal cumprido.
No
cotidiano isso aparece em gestos pequenos. A mensagem que você responde por
obrigação, não por desejo. A opinião que você repete porque “é o que se
espera”. O incômodo difuso de estar sempre atrasado em relação a alguma causa,
algum debate, alguma versão melhor de si mesmo. Não é culpa no sentido clássico
— é desgaste ético.
Ailton
Krenak oferece um desvio interessante: talvez estejamos cansados porque fomos
convencidos de que a vida precisa justificar-se o tempo todo. Produzir,
explicar, provar utilidade. Quando o sentido vira planilha, ele cansa. Quando
tudo precisa servir para algo maior, nada serve para nos sustentar por dentro.
Talvez
a saída não seja encontrar mais sentido, mas reduzir o ruído que o
sufoca. Aceitar que nem toda experiência precisa virar posicionamento. Que o
silêncio também é uma forma de cuidado. Que não responder já é, às vezes, uma
resposta ética.
O
cansaço moral não se cura com slogans motivacionais. A fadiga de sentido não se
resolve com produtividade. Ambos pedem algo mais simples e mais difícil:
reconectar-se com aquilo que não precisa ser exibido, defendido ou explicado.
Aquilo que, quando acontece, não cansa — mesmo quando dá trabalho.
No
fim, talvez descansar seja reaprender a viver sem estar o tempo todo se
justificando para o mundo.
