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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Causamos Impactos

por menores que sejam!

Eu comecei a perceber que causamos impactos mesmo quando achamos que estamos apenas passando. Uma palavra dita sem intenção, um silêncio mantido, um gesto mínimo — tudo isso toca alguém de algum modo. Não controlamos o tamanho do efeito, apenas o cuidado do gesto. Às vezes marcamos sem saber, ferimos sem notar, curamos sem perceber. O mais curioso é que raramente lembram do que dissemos exatamente, mas quase sempre lembram de como os fizemos sentir. E talvez seja isso: não somos autores das histórias dos outros, mas somos linhas inevitáveis nelas. Causamos impactos não por sermos grandiosos, mas simplesmente por estarmos presentes.

Eu aprendi que não existe passagem neutra. Onde eu passo, algo se ajusta — mesmo que seja só um detalhe invisível. Uma palavra dita sem intenção, um olhar que não se sustenta, um gesto de cuidado quase automático. Tudo deixa rastro.

Às vezes penso que só causamos impacto quando fazemos algo grandioso. Mas não. O impacto verdadeiro costuma ser microscópico. É alguém que dorme melhor por causa de uma conversa curta. É alguém que carrega uma dúvida porque ouviu uma frase fora de hora. É alguém que se sente visto por um segundo.

O curioso é que raramente somos testemunhas do efeito que causamos. A vida não nos mostra as consequências. Ela apenas nos confia o gesto.

Por isso, começo a entender que responsabilidade não é peso — é consciência. Eu não controlo o mundo, mas participo dele. E essa participação, por menor que seja, já é transformação.

No fim, talvez não sejamos lembrados pelo que construímos, mas pelo modo como atravessamos os outros. E mesmo sem saber, deixamos pequenas ondulações em existências que jamais voltaremos a tocar.

Efeito de Posteridade

Sempre achei curioso como a gente vive para hoje, decide para amanhã, mas quase nunca pensa para depois de amanhã — aquele “depois” que já não nos inclui. É como se o futuro fosse um hóspede abstrato, que nunca chega de verdade. No entanto, tudo o que fazemos deixa rastros. Palavras, gestos, omissões, escolhas pequenas demais para parecerem históricas. E, ainda assim, é nelas que a posteridade se constrói.

Chamo isso de Efeito de Posteridade: a força silenciosa com que nossas ações continuam atuando quando já não estamos mais presentes para explicá-las, defendê-las ou corrigi-las.

O Efeito de Posteridade nasce do descompasso entre intenção e herança. Agimos a partir do que somos hoje, mas somos julgados a partir do que deixamos.

Hannah Arendt dizia que agir é sempre iniciar algo cujo fim não controlamos. A ação, uma vez lançada no mundo, torna-se independente de seu autor. Ela entra numa cadeia de consequências, interpretações e apropriações. A posteridade não herda nossa consciência; herda apenas nossos vestígios.

Nietzsche, por outro lado, desconfiava da ideia de legado como redenção. Para ele, o desejo de ser lembrado muitas vezes é apenas outra forma de medo da insignificância. Ainda assim, mesmo quem rejeita o legado não escapa dele. Até o silêncio é herdado.

O Efeito de Posteridade, portanto, não é sobre glória. É sobre continuidade involuntária. Somos causas de coisas que nunca veremos como efeitos.

Há aqui uma ironia profunda:

vivemos como se fôssemos passageiros, mas deixamos marcas como se fôssemos permanentes.

O paradoxo da responsabilidade tardia

Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo modo como isso poderá ser usado.

Uma frase escrita hoje pode inspirar amanhã — ou justificar uma violência depois.

Uma decisão política pode proteger uma geração — e comprometer outra.

Uma educação rígida pode formar caráter — ou produzir medo disfarçado de disciplina.

A posteridade não pergunta o que quisemos dizer. Ela pergunta: o que isso produziu?

Assim, o Efeito de Posteridade nos coloca diante de uma ética desconfortável:

não basta ter boas intenções; é preciso aceitar que nossas ações terão destinos que não escolhemos.

Situações cotidianas

1. Na família

Um pai que sempre diz ao filho: “engole o choro”. Ele quer formar alguém forte. Anos depois, a posteridade desse gesto é um adulto que não sabe pedir ajuda. O pai não deixou apenas uma frase; deixou uma estrutura emocional.

2. No trabalho

Um gestor que normaliza pequenas injustiças “para não criar conflito”. Sua posteridade não é a paz, mas uma cultura de medo elegante, onde todos sorriem e ninguém confia.

3. Nas redes sociais

Uma opinião publicada sem cuidado vira argumento para outros. O autor esquece. A posteridade replica. A ideia já não pertence mais a quem escreveu, mas a quem a utiliza.

4. Na educação

Um professor que incentiva um aluno dizendo: “você pensa diferente”. Aquela frase pode ecoar por décadas como identidade, coragem e escolha. Às vezes, a posteridade de um gesto é maior que uma biografia inteira.

O Efeito de Posteridade e o eu invisível

Existe uma versão nossa que nunca conheceremos:

aquela que vive apenas na memória dos outros.

É essa versão que a posteridade carrega.

Somos lembrados menos pelo que fomos e mais pelo que despertamos.

Menos pelo que dissemos e mais pelo que ficou.

Nesse sentido, o Efeito de Posteridade é uma espécie de biografia escrita por terceiros, sem nosso controle editorial.

Uma ética da delicadeza

Talvez o caminho não seja tentar controlar a posteridade — isso é impossível —, mas agir com a consciência de que tudo o que fazemos é uma semente. Algumas germinam como flores, outras como espinhos. Muitas brotam em terrenos que jamais veremos.

Agir com delicadeza, então, não é romantismo. É lucidez histórica.

Porque o futuro não nos deve fidelidade.

Mas nós devemos alguma responsabilidade ao futuro.

O Efeito de Posteridade nos ensina que viver não é apenas ocupar o presente, mas assinar contratos invisíveis com o tempo. Cada gesto é uma cláusula. Cada escolha, uma condição.

E talvez a verdadeira maturidade não seja querer ser lembrado, mas agir como quem respeita quem ainda vai lembrar.

No fim, não seremos julgados por aquilo que pretendemos ser,

mas por aquilo que deixamos continuar.


domingo, 18 de janeiro de 2026

Sagrado e Profano


Eu aprendi que o sagrado não mora apenas nos altares, assim como o profano não vive apenas nas quedas. Eles se misturam no mesmo gesto, no mesmo dia, no mesmo corpo. O café tomado em silêncio pode ser mais sagrado que uma oração distraída; uma risada fora de hora pode ser mais verdadeira que uma reverência vazia. O sagrado nasce quando algo nos atravessa com sentido. O profano surge quando repetimos sem presença. No fundo, não é o lugar que decide, nem o ritual, nem a forma — é a qualidade do olhar. E talvez a maturidade consista exatamente nisso: perceber que o sagrado não está acima da vida, mas escondido dentro dela, e que o profano não é o oposto do divino, mas apenas a vida quando esquecemos de senti-la.

Irrealidade Fechada

Há dias em que tudo parece real demais. E, justamente por isso, começa a parecer falso.

Chamo isso de irrealidade fechada: quando o mundo funciona, as pessoas cumprem seus papéis, as frases saem prontas, os gestos são previsíveis — e, ainda assim, nada atravessa a pele. É como viver dentro de um cenário perfeitamente montado, mas com as portas trancadas por dentro.

A irrealidade aberta é sonho, delírio, imaginação. A fechada é mais perigosa: é quando a realidade se torna tão organizada que deixa de ser vivida. Tudo está no lugar, menos eu.

No cotidiano, ela aparece quando respondo “tudo bem” sem perguntar nada por dentro. Quando trabalho, converso, caminho, sorrio — mas como quem repete um roteiro. Não há conflito, não há surpresa, não há rachadura. E sem rachadura, nada entra.

A irrealidade fechada não nega o mundo. Ela o torna intransponível. O real vira vitrine.

Jean Baudrillard diria que vivemos no simulacro: não na mentira, mas numa cópia sem original. Mas eu sinto algo ainda mais íntimo: não é o mundo que é falso — é a minha relação com ele que se fechou.

Como uma janela bem limpa, mas permanentemente trancada.

Percebo isso em coisas pequenas. Na música que escuto sem ouvir. No livro que leio sem ser tocado. Na conversa que termina sem deixar eco. Tudo acontece, mas nada continua.

A irrealidade fechada é um mundo sem depois.

E talvez por isso ela seja tão confortável. Não exige risco. Não exige interpretação. Não exige transformação. Basta circular.

Mas há um custo: quando a realidade se fecha, a alma começa a procurar frestas em lugares estranhos — no excesso, na distração, na nostalgia, na fantasia.

Eu não quero fugir da realidade. Quero que ela volte a me atravessar.

Porque o real só é real quando deixa marcas.

E a irrealidade fechada é justamente isso: um mundo sem cicatrizes.

Talvez viver seja, no fundo, aprender a reabrir o real. Mesmo que doa. Mesmo que desorganize. Mesmo que nos tire do conforto de existir sem sentir.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Absoluto, Inefável


Tem coisas que a gente não explica — apenas reconhece. Como o silêncio depois de uma perda. Como a sensação de infinito olhando o mar. Como aquele instante em que a palavra falha, mas o sentido transborda. É aí que o absoluto se aproxima. E é exatamente aí que ele se torna inefável.

O absoluto não cabe na linguagem. Toda vez que tentamos descrevê-lo, ele já escapou. A palavra chega atrasada. A frase vem como tradução imperfeita de algo que não pediu para ser traduzido.

O inefável no cotidiano

O inefável não mora apenas nos templos, nos livros ou nas teorias. Ele aparece no cotidiano:

– No abraço que não pede explicação.

– Na música que dói sem machucar.

– Na lembrança que não se sabe de onde veio.

– No amor que não cabe na biografia.

Quando alguém pergunta “por quê?”, a resposta honesta seria: não sei dizer, só sei que é.  isso já é o inefável se manifestando.

O absoluto não é excesso — é totalidade

O absoluto não é o que tem demais. É o que não depende de comparação. Ele não precisa de outro para existir. Não é melhor, nem pior: é inteiro. Por isso ele desconcerta. Porque nossa mente vive de contrastes, limites, oposições. O absoluto dissolve essas fronteiras.

Spinoza chamou isso de substância infinita. Plotino chamou de Uno. Os místicos chamaram de Deus. Os poetas chamaram de amor. Os silenciosos apenas sentiram.

Todos apontaram para o mesmo lugar — e erraram do mesmo modo: tentando nomear o inominável.

A falência da linguagem

Wittgenstein foi direto: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.” Mas o ser humano não sabe calar diante do absoluto. Ele escreve, canta, pinta, filosofa. Não para capturá-lo, mas para não enlouquecer diante dele.

A linguagem não revela o absoluto. Ela apenas mostra onde ele não está.

O absoluto como experiência, não como conceito

O absoluto não é algo que se entende. É algo que acontece. E quando acontece, muda o modo como tudo o mais é visto. Depois dele, o mundo continua igual — mas você não.

Por isso ele é inefável: porque não é informação, é transformação.

Absoluto, inefável — e humano

Talvez o paradoxo mais bonito seja este: o ser humano, limitado, frágil e transitório, é justamente quem percebe o absoluto. Como se o infinito precisasse da finitude para ser pressentido.

O absoluto não se impõe. Ele se insinua. Não grita. Não prova. Não argumenta. Apenas toca.

E quando toca, não deixa frase. Deixa silêncio.

Um silêncio que não é vazio.

É plenitude sem tradução.

E talvez seja isso que nos mantém vivos: a certeza íntima de que existe algo maior do que aquilo que conseguimos dizer — e, ainda assim, profundamente nosso.

Férias Agitadas

Fiquei me perguntando por que muita gente prefere frequentar as mesmas praias que estão sempre super lotadas com desconforto de restaurantes lotados, dificuldade para estacionamento, hospedagens caríssimas, e poucas são as pessoas que preferem praias mais tranquilas com beleza exuberante, com espaço amplo para circular, passear e colocar seu guarda-sol, hospedagens com preço mais justo.

Pensei: Porque, no fundo, as férias deixaram de ser só descanso — viraram também narrativa, prova social e pertencimento.

Hoje, viajar não é apenas ir a um lugar, é mostrar que se esteve lá. Lugares cheios funcionam como certificados simbólicos: “se todo mundo quer, deve valer a pena”. A multidão valida a escolha. O destino tranquilo, por outro lado, não gera a mesma sensação de reconhecimento.

Há também um fator psicológico curioso:

o silêncio obriga a gente a ficar consigo mesmo. Já o lugar lotado distrai. Em vez de escutar os próprios pensamentos, escutamos filas, música alta, conversas alheias. Para muita gente, isso é mais confortável. (ainda bem que estão proibindo caixa de som na beira da praia)

Outro ponto é o medo invisível de estar “perdendo algo”. Quando vemos milhares indo ao mesmo lugar, surge a impressão de que ali está a experiência verdadeira da vida. O tranquilo passa a parecer incompleto, como se estivesse fora do roteiro do mundo.

E há ainda a estética da experiência:

lugares cheios oferecem fotos reconhecíveis. Um fundo famoso, uma pose famosa, uma lembrança facilmente traduzível em curtidas. O lugar calmo oferece algo mais difícil de mostrar: sensação, silêncio, tempo dilatado — coisas que não cabem bem numa tela.

No fundo, não é que as pessoas rejeitem a tranquilidade.

Elas rejeitam a invisibilidade que a tranquilidade traz.

Descansar em paz não impressiona ninguém.

Mas impressionar, hoje, cansa menos do que descansar.

Talvez por isso os lugares mais cheios estejam lotados…

e os mais vazios estejam, paradoxalmente, esperando por quem ainda lembra que férias também podem ser um encontro consigo mesmo.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Idiotizar os Sentidos

Um ensaio sobre a anestesia cotidiana

Outro dia eu percebi que tinha passado por uma padaria inteira sem sentir o cheiro do pão. Não por falta de pão — ele estava lá, quente, generoso, quase gritando — mas por falta de mim. Eu estava presente só no corpo. O resto tinha ido responder mensagens, organizar preocupações, simular produtividade.

Foi ali que me ocorreu: talvez a gente esteja aprendendo, com uma eficiência assustadora, a idiotizar os sentidos.

Não no sentido clínico, claro. Mas no sentido filosófico: torná-los incapazes de produzir experiência.

 

Quando sentir deixa de ser experiência

Os sentidos não são apenas canais biológicos. Eles são formas de pensamento. Ver não é apenas captar luz; é interpretar. Ouvir não é apenas vibração; é atribuir sentido. Tocar não é apenas contato; é reconhecimento.

Merleau-Ponty dizia que o corpo é nossa forma de estar no mundo. Mas o corpo moderno foi treinado para atravessar o mundo, não para habitá-lo.

A idiotização dos sentidos acontece quando:

  • a visão vira escaneamento,
  • a audição vira ruído de fundo,
  • o tato vira acidente,
  • o paladar vira função,
  • o olfato vira quase irrelevante.

O mundo deixa de ser experiência e vira cenário.

Não é que os sentidos falhem. Eles são deseducados.

A cultura da velocidade, da repetição e da utilidade não destrói os sentidos — ela os simplifica. E tudo que é simplificado perde profundidade.

Nietzsche temia uma humanidade cansada demais para sentir tragédia e alegria com intensidade. Talvez estejamos exatamente aí: não sofremos demais, nem amamos demais, nem nos encantamos demais. Apenas administramos.

 

Onde os sentidos perdem a dignidade

No ônibus, alguém escuta música alta no fone. A música não atravessa. Ela apenas acompanha.

No almoço, mastigamos enquanto olhamos a tela. O gosto é secundário. Comer vira logística.

No trabalho, digitamos sem ouvir o som das teclas. As mãos não sabem mais o que fazem — apenas executam.

No encontro, ouvimos esperando a nossa vez de falar. A voz do outro vira intervalo.

Até o toque se tornou apressado. Abraços com prazo. Beijos com agenda.

Os sentidos, que deveriam ser pontes, viraram atalhos.

 

O efeito invisível: quando a vida perde espessura

Quando idiotizamos os sentidos, a vida não fica triste. Ela fica plana.

Nada dói muito. Nada encanta muito. Nada marca muito.

E então surge a sensação estranha:
“Está tudo bem, mas algo está faltando.”

O que falta não é evento. É presença.

A gente não vive menos acontecimentos. A gente vive menos experiência dentro deles.

 

Um possível resgate

Desidiotizar os sentidos não exige mudança radical. Exige microdesobediências:

  • Comer algo em silêncio.
  • Olhar um rosto até ele deixar de ser função.
  • Escutar uma música sem fazer mais nada.
  • Tocar um objeto como quem o descobre.
  • Andar sem objetivo por cinco minutos.

Não para virar místico. Mas para lembrar que existir não é só operar.

 

A ética de sentir

Talvez o maior gesto revolucionário hoje seja simples e silencioso: sentir de novo.

Não como quem busca prazer.
Mas como quem se recusa a virar superfície.

Porque idiotizar os sentidos é perder o mundo sem que o mundo vá embora.

E recuperar os sentidos é recuperar algo ainda mais raro:
a capacidade de estar dentro da própria vida.


Vozes Diferentes


As caminhadas pela manhã são diferenciadas, estou mais relaxado e com expectativas para as novidades do dia, as vozes que habitam minha mente estão mais calmas e atentas dando ouvidos ao mundo exterior, esperando o momento para entrarem em ação, elas são muitas. Há vozes que querem convencer. Outras só querem existir. Algumas explicam, outras confundem, e há aquelas que apenas acompanham — como se caminhassem ao nosso lado sem pedir nada.

A voz da infância ainda fala baixo dentro de nós, usando palavras simples. A da juventude fala rápido, como se o tempo estivesse sempre acabando. A da maturidade aprende a fazer silêncio entre uma frase e outra. E a do cansaço… essa não fala: suspira.

Também há vozes que não são nossas. A voz da cidade, feita de buzinas e anúncios. A voz da família, que ecoa mesmo quando ninguém está por perto. A voz da internet, que fala em coro. E, no meio de todas elas, tentamos reconhecer qual ainda nos pertence.

As vozes diferentes não brigam apenas entre si — elas disputam a nossa atenção. Uma pede coragem. Outra pede prudência. Uma diz “vai”. A outra diz “espera”. E quase nunca concordam.

Fernando Pessoa escreveu que “viver é ser outro”. Talvez por isso sejamos um pequeno coral ambulante, afinado e desafinado ao mesmo tempo, tentando transformar ruído em melodia.

No cotidiano, aprender a viver não é escolher uma única voz. É aprender quando cada uma deve ser escutada.

Porque algumas vozes nos empurram. Outras nos protegem. E algumas só existem para lembrar que ainda estamos vivos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Ideia de Infinidade

Tentei imaginar o infinito, eu estava olhando para o céu num fim de tarde qualquer. As nuvens passavam, o azul parecia não acabar, e minha cabeça simplesmente desistiu. O infinito não cabe. Ele escorre pelos cantos do pensamento.

No cotidiano, a gente vive cercado de infinitos disfarçados. A fila do banco quando estamos com pressa. As notificações que nunca acabam. A promessa silenciosa de que amanhã vou começar “uma vida nova” — como se houvesse um número ilimitado de versões minhas esperando na gaveta do tempo.

O curioso é que o infinito não é apenas grande demais; ele é, sobretudo, incômodo. Porque nos lembra que não controlamos o todo. Posso contar moedas, passos, dias, mas não consigo contar possibilidades. Cada escolha que faço abre um corredor invisível de escolhas que deixei de fazer. Um pequeno infinito pessoal.

Na matemática, o infinito é elegante. Na vida, ele é meio bagunçado. Está no amor que promete “para sempre”, no luto que parece não terminar, no desejo que nunca se satisfaz por completo. O infinito, no fundo, é a nossa incapacidade de fechar a experiência com um ponto final.

Às vezes penso que buscamos o infinito não por ambição, mas por medo. Medo de que tudo acabe simples demais. Que sejamos apenas um parágrafo curto num livro muito grosso.

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos dizia que o infinito não é algo que se alcança, mas algo que se pressente. E talvez seja isso: o infinito não mora no espaço, mora na intuição. Ele aparece quando a gente percebe que a realidade é maior do que nossas explicações.

No café da manhã, quando a xícara acaba, o café acaba. Mas a conversa não. A memória não. A saudade não. A pergunta “e se?” não. O infinito começa justamente aí: onde as coisas visíveis terminam e as invisíveis continuam trabalhando em silêncio.

No fim das contas, talvez a ideia de infinidade não seja sobre o universo, mas sobre nós. Sobre essa estranha certeza de que somos finitos — e, mesmo assim, insistimos em pensar como se não fôssemos.

E é nessa contradição que o infinito respira.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Reflexos de Si

Às vezes eu me reconheço mais no que não sou do que no que sou.

Vejo meu reflexo numa vitrine, num espelho de elevador, numa foto antiga — e sempre há um pequeno atraso entre a imagem e a sensação. A imagem afirma: sou eu. A sensação pergunta: será mesmo?

Os reflexos de si não vivem apenas no espelho. Estão nas pessoas que me irritam sem motivo claro. Nas que admiro sem entender por quê. Estão nas frases que me doem como se eu mesmo as tivesse escrito. Estão nos silêncios alheios que parecem meus.

Descobri, com certo desconforto, que quase tudo o que julgo no outro é um espelho mal polido de algo que ainda não aceitei em mim.

O reflexo não é cópia. É distorção com intimidade.

No cotidiano, isso aparece em gestos mínimos: quando me vejo paciente num amigo e percebo minha própria impaciência; quando admiro a coragem de alguém e sinto a minha própria covardia pedindo tradução; quando critico uma vaidade e reconheço a minha pedindo desculpa.

Carl Jung dizia que não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a escuridão. E talvez os reflexos de si sejam exatamente isso: pequenas lanternas apontadas para dentro por mãos que não são nossas.

O problema é que preferimos espelhos confortáveis. Queremos reflexos que confirmem, não que revelem. Queremos nos ver inteiros quando ainda estamos em construção.

Mas o reflexo verdadeiro sempre vem um pouco torto. Ele não mostra quem eu sou — mostra quem estou sendo.

E isso dói.

Porque o reflexo de si não acusa, mas também não protege. Ele apenas devolve. E o que ele devolve nem sempre combina com a história que conto sobre mim.

Talvez maturidade seja aprender a conversar com os próprios reflexos sem quebrar o espelho.

Aceitar que não somos unidade, mas composição. Que não somos rosto, mas coleção de ângulos. Que não somos identidade, mas tentativa.

No fim, percebo algo simples e estranho: eu não me encontro quando me afirmo — eu me encontro quando me reconheço nos lugares onde não queria estar.

E então entendo que os reflexos de si não servem para confirmar quem somos.
Servem para nos lembrar que ainda estamos nos tornando.

Desgarrados


Fiquei remoendo no pensamento a palavra “desgarrados”, certamente associada as minhas observações, percebi que nem toda solidão nasce da ausência de pessoas — algumas nascem da ausência de sentido. Comecei a notar rostos presentes e almas deslocadas, risos que não repousavam em ninguém, conversas que não encontravam morada. E então entendi que havia um tipo de humano que não estava perdido, mas desalojado por dentro. Não por fracasso, mas por excesso de lucidez. Foi desse incômodo silencioso, dessa sensação de não caber sem querer fugir, que surgiu a necessidade de pensar os desgarrados. Não como excluídos, mas como consciências que já não conseguem habitar as certezas que o mundo oferece.

Há pessoas que não se perdem — se desgarram. E há uma diferença profunda entre uma coisa e outra. Quem se perde quer voltar. Quem se desgarra, muitas vezes, nem sabe mais de onde saiu.

Os desgarrados não fazem barulho. Eles caminham à margem, com uma estranha mistura de lucidez e cansaço. Não pertencem por inteiro, mas também não se rebelam o suficiente para romper. São estrangeiros dentro da própria rotina.

O desgarro no cotidiano

O desgarrado pode estar na mesa do almoço em família e sentir-se visitante. Pode estar no trabalho e não se reconhecer no que faz. Pode estar entre amigos e ainda assim sentir solidão. Não por rejeição externa, mas por deslocamento interno.

Ele não se sente excluído. Ele se sente fora de eixo.

E isso é mais silencioso que a exclusão.

Desgarrar-se não é fraqueza

Vivemos numa cultura que exalta pertencimento: tribos, grupos, lados, rótulos, identidades rígidas. O desgarrado é visto como indeciso, estranho, instável. Mas talvez ele seja apenas alguém que percebeu cedo demais que nenhum lugar é completo.

Desgarrar-se é perceber que o mundo oferece papéis, mas não garante sentido.

Albert Camus descreveu esse estado como o sentimento do absurdo: o momento em que o ser humano percebe a distância entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo. Para Camus, o desgarrado não é um derrotado, mas alguém que acordou. Ele não foge da vida, mas se recusa a mentir para ela. O desgarro, então, não é alienação — é lucidez sem anestesia.

O risco e a dignidade do desgarro

O risco do desgarrado é o cinismo. A dignidade é a honestidade. Ele pode cair na indiferença ou transformar o desencaixe em busca. O mesmo desgarro que isola também pode libertar.

Porque quem não pertence por inteiro a lugar nenhum pode, finalmente, pertencer a si.

Desgarrados não são vazios

Eles apenas não aceitam preenchimentos fáceis. Não se contentam com respostas prontas, com pertencimentos automáticos, com verdades herdadas. Eles carregam uma solidão que não é ausência — é espaço.

Espaço para pensar.

Espaço para sentir.

Espaço para reconstruir.

No fim, todos somos um pouco desgarrados

Em algum momento da vida, todos nos soltamos de algo: de uma crença, de uma pessoa, de uma versão de nós mesmos. Alguns chamam isso de crise. Outros chamam de maturidade. Talvez seja apenas o preço de deixar de viver emprestado.

Os desgarrados não têm mapa.

Mas têm direção: para dentro.

E às vezes, isso já é a forma mais rara de pertencimento.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Vozes Abstratas


Estava em minha caminhada diária e no trajeto entre as arvores do parque dei atenção ao barulho das folhas, elas queriam conversar comigo, em minhas abstrações comecei a dar-lhes ouvidos. Há vozes que não vêm da garganta. Não pedem microfone, não fazem eco nas paredes, mas atravessam o dia como um vento leve que muda a direção do pensamento. São abstratas porque não têm rosto, mas são íntimas porque sabem exatamente onde tocar.

Elas aparecem no silêncio do ônibus, na pausa antes de responder uma mensagem, naquele instante em que o café já esfriou e a gente percebe que estava pensando em outra coisa. Não dizem frases completas. Sugerem. Insinuam. Às vezes só perguntam: é isso mesmo?

As vozes abstratas não mandam — convidam. Uma lembra quem fomos. Outra aponta quem poderíamos ser. Há também a que mente, a que exagera, a que dramatiza. E há a mais rara: a que simplifica.

No cotidiano, a gente aprende a valorizar vozes concretas — chefes, professores, especialistas, algoritmos. Mas são as abstratas que organizam o mapa interno. Elas não explicam o mundo; explicam nossa posição nele.

Talvez por isso incomodem tanto. Porque não podem ser desligadas. Não têm botão, nem volume. Só escuta quem para.

Como diria um filósofo brasileiro pouco lembrado, Vicente Ferreira da Silva, o homem não é apenas aquele que pensa, mas aquele que escuta o sentido se formando dentro dele. As vozes abstratas são justamente esse ensaio de sentido, ainda sem forma, ainda sem nome.

E talvez amadurecer seja aprender a não confundi-las com ordens, nem a ignorá-las como ruído. É deixá-las falar — sem transformá-las imediatamente em certezas.

Porque, no fundo, toda decisão começa como uma voz abstrata. E toda identidade também.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Indivisível e Impassível


Escrevo sobre o indivisível e o impassível porque comecei a perceber o quanto o mundo insiste em nos fragmentar. Em papéis, funções, opiniões, versões editadas de nós mesmos. E, ao mesmo tempo, o quanto ele exige que sintamos tudo, o tempo todo, como se a sensibilidade fosse uma obrigação pública. Entre a fragmentação e a exposição, algo essencial parecia se perder. Foi desse desconforto que nasceu a necessidade de pensar aquilo que não se parte e aquilo que não se deixa ferir.

O indivisível no cotidiano

Ser indivisível não é ser rígido. É ser inteiro. É quando aquilo que se pensa, se sente e se faz não vivem em guerra permanente. O indivisível aparece quando alguém recusa agir contra a própria consciência, mesmo quando isso custa aceitação. Ele se manifesta na coerência silenciosa, não na perfeição.

Uma pessoa indivisível pode errar, mas não se vende em pedaços.

O impassível não é indiferença

Ser impassível não é ser frio. É não permitir que qualquer vento governe o centro. O impassível sente, mas não se dissolve. Chora, mas não se perde. Ama, mas não se anula. Ele não é impermeável à dor — apenas não se deixa definir por ela.

Os estóicos chamavam isso de apatheia: não ausência de emoção, mas soberania sobre ela.

Marco Aurélio escreveu que a alma humana pode tornar-se inexpugnável quando aprende a não se deixar ferir por aquilo que não depende dela. Para ele, a verdadeira força não está em endurecer, mas em manter a integridade diante do caos. O indivisível e o impassível, em sua filosofia, não são virtudes de isolamento, mas de liberdade interior: ninguém pode quebrar aquilo que não se entrega em fragmentos.

A fragmentação como doença moderna

Vivemos em uma cultura que nos divide: trabalho de um lado, afeto de outro, imagem pública de um lado, vazio privado de outro. Essa divisão contínua gera exaustão. O indivisível é um gesto de resistência contra essa esquizofrenia cotidiana.

Ser inteiro hoje é um ato revolucionário.

Indivisível e impassível — mas humano

Essas palavras não falam de deuses. Falam de tentativas. De pessoas que aprendem, aos poucos, a não se romper para caber. A não se violentar para agradar. A não se abandonar para sobreviver.

Porque, no fundo, o indivisível não é quem nunca se parte.

É quem, mesmo ferido, se recompõe sem se trair.

E o impassível não é quem não sente.

É quem sente sem deixar que o mundo decida quem ele é.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Tempo Segue


Vamos ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão. A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história que ainda nos cabe escrever.

Sentimentos e emoções dos que ficam

Quem fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma coisa não continua.

Os que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa, raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos:

— no lugar vazio à mesa;

— na mensagem que quase enviamos;

— na música que não dá para ouvir até o fim;

— no aniversário que vira um parêntese no calendário.

Os que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.

Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.

Com o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.

Os que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias, risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o outro dentro de si.

Porque, no fundo, ficar não é só permanecer.

É aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de companhia.

Mais velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me aguarda, assim espero!

Renovações Sociais


A sociedade não muda de uma vez. Ela muda aos poucos, quase sempre sem perceber. Não é quando uma lei é assinada, nem quando uma revolução estoura. É quando alguém começa a agir diferente do que era esperado. Toda renovação social começa como um desvio pequeno.

A história, depois, chama isso de avanço.

O novo nasce do incômodo

Toda renovação social nasce de um desconforto silencioso. Alguém olha para o que sempre foi feito e pensa: isso já não faz sentido. E esse pensamento, que parece individual, é na verdade coletivo em gestação.

Foi assim com o fim da escravidão, com os direitos das mulheres, com a dignidade do trabalho, com a liberdade religiosa, com a ideia de que crianças não são adultos em miniatura. Antes de virar pauta, tudo isso foi apenas incômodo.

O cotidiano como laboratório social

As verdadeiras renovações não começam no discurso, mas no gesto.

Quando um chefe escuta mais do que manda.

Quando um professor ensina a pensar, não só a repetir.

Quando um pai aprende com o filho.

Quando uma empresa percebe que pessoas não são recursos.

Quando alguém respeita uma diferença que não entende.

Esses gestos não viralizam, mas sedimentam.

Renovar não é destruir

Existe uma ilusão romântica de que renovar é romper. Mas as sociedades não sobrevivem apenas de ruptura. Elas sobrevivem de releitura. Renovar é preservar o que é vivo e abandonar o que virou hábito sem sentido.

Hannah Arendt dizia que toda ação humana inaugura algo novo no mundo. Mesmo o menor gesto carrega potencial político. A renovação social não depende apenas de sistemas, mas de consciências que recusam a anestesia.

O conflito entre tradição e renovação

Toda renovação é vista, no início, como ameaça. Porque ela desloca certezas. Mas tradição não é aquilo que se repete — é aquilo que continua fazendo sentido. Quando não faz mais, vira apenas costume.

Renovar é respeitar o passado sem ser prisioneiro dele.

A lentidão da mudança real

As redes dão a impressão de que tudo muda rápido. Mas a ética muda devagar. A mentalidade muda devagar. O respeito muda devagar. A empatia muda devagar.

Por isso, toda renovação social verdadeira é invisível no começo. Ela só se torna evidente quando já se tornou inevitável.

Renovar-se para renovar

Não há renovação social sem renovação individual. A sociedade não é um corpo abstrato: é o somatório das pequenas escolhas cotidianas.

Quando você escuta mais do que julga, a sociedade muda.

Quando você divide em vez de acumular, ela muda.

Quando você pensa antes de repetir, ela muda.

E quando isso se repete em muitos, a história chama de transformação.

 

Paulo Freire lembrava que a educação não transforma o mundo: transforma as pessoas, e as pessoas transformam o mundo. Essa frase sintetiza com precisão a lógica das renovações sociais. Para Freire, não existe mudança verdadeira sem consciência crítica, e não existe consciência crítica sem diálogo. A sociedade se renova quando deixa de tratar indivíduos como recipientes de ideias prontas e passa a reconhecê-los como sujeitos capazes de interpretar, questionar e recriar a realidade. Renovar, nesse sentido, não é impor um novo modelo, mas libertar a capacidade humana de pensar e agir.

Renovações sociais são, antes de tudo, renovações humanas

No fim, nenhuma sociedade se renova apenas por novas ideias. Ela se renova quando novas formas de convivência se tornam possíveis.

A verdadeira renovação social não grita.

Ela reorganiza.

E quando percebemos, já estamos vivendo em um mundo que, silenciosamente, começou a ser outro.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Poço de Solidão


Há dias em que a solidão não é um quarto vazio, mas um poço. Não um poço assustador — daqueles de filme de terror —, mas um poço fundo, silencioso, onde a gente escuta melhor o próprio eco. Eu caio nele sem perceber: quando o celular fica mudo, quando a conversa termina cedo demais, quando percebo que ninguém vai notar se eu demorar um pouco mais para voltar.

O curioso é que, nesse poço, não estou exatamente só. Estou comigo. E isso, às vezes, é mais difícil do que lidar com os outros.

No cotidiano, o poço aparece em formas discretas: na mesa do almoço, quando todo mundo fala e eu apenas mastigo; no ônibus, quando olho os reflexos no vidro e não reconheço muito bem quem está ali; na noite em que não tenho vontade de ligar para ninguém, mas também não quero ficar em silêncio. É uma solidão que não dói como abandono — dói como espelho.

Mário Quintana dizia que “a solidão é uma ilha com saudade de continente”. Acho bonito, mas incompleto. Porque há dias em que a ilha não quer continente nenhum. Quer apenas entender por que existe. O poço, então, não é fuga: é descida.

E toda descida tem risco. A gente pode se perder no fundo, confundir silêncio com vazio, introspecção com desistência. Mas também pode encontrar algo que o barulho da vida esconde: perguntas que nunca fizemos, vontades que nunca admitimos, medos que fingimos não ter.

Já percebi que há dois tipos de solidão. A que nos empobrece — quando nos sentimos invisíveis. E a que nos afina — quando começamos a ouvir camadas mais profundas de nós mesmos. O poço de solidão pode ser túmulo ou nascente. Depende do que fazemos lá embaixo.

Às vezes eu volto com pouco: uma frase, uma lembrança, uma vontade de mudar algo pequeno. Às vezes volto apenas mais leve, como quem não resolveu nada, mas entendeu melhor o problema.

Talvez a solidão não seja ausência de companhia, mas excesso de interior.

E talvez o poço não exista para nos engolir, mas para nos ensinar a subir com mais consciência de quem somos.

Porque no fundo do poço, descobri uma coisa simples: não é a solidão que assusta — é o encontro que ela provoca.

Real ou Figurado

Entre a Pedra e o Sinal

Há um momento curioso em toda conversa humana: aquele instante em que precisamos decidir se a frase deve ser acreditada ou interpretada. Quando alguém diz “estou no fundo do poço”, ninguém oferece uma corda literal. Ainda assim, algo ali é profundamente real. Esse pequeno desvio revela um dos jogos mais antigos da linguagem: o vaivém entre o real e o figurado. Após uma conversa com um colega fiquei a pensar sobre isto, ele bastante ansioso em busca de alternativas para enfrentar os problemas naquele momento delicado, o que ele falou me fez refletir a respeito do tanto que falamos com linguagem profunda carregada de sentido emocional.

O sentido real tranquiliza. Ele fixa o mundo, dá contornos, permite medir, pesar, provar. Uma pedra é uma pedra. Um corpo ocupa espaço. O dia começa e termina. Mas o ser humano nunca se contentou com isso. A realidade literal é insuficiente para dar conta da experiência. Sofrimento, desejo, esperança e tempo não cabem inteiros em palavras literais. É aí que o figurado entra como contrabando existencial: ilegal, mas necessário.

Curiosamente, chamamos de “figurado” aquilo que mais se aproxima do vivido. Ninguém sente a dor como um dado técnico; sente como um peso, um vazio, um nó. A linguagem figurada não embeleza a realidade — ela a torna suportável. Talvez por isso as sociedades que tentam expulsar a metáfora acabem empobrecendo o pensamento. Onde tudo precisa ser exato, quase nada é compreendido.

O real, isolado, é mudo. Uma lágrima, em si, é apenas sal e água. Ela só fala quando dizemos que carrega um mundo. O figurado, então, não é fuga do real, mas sua tradução. É a tentativa de dar forma comunicável ao que, de outro modo, permaneceria preso ao silêncio interno.

Mas há um risco: quando esquecemos que o figurado aponta para algo, e não é o algo. Quando metáforas viram dogmas, quando símbolos se solidificam, nasce a confusão. Passamos a defender imagens como se fossem fatos e a negar fatos porque ferem nossas imagens. Nesse ponto, o figurado deixa de iluminar o real e passa a substituí-lo — e toda substituição excessiva gera cegueira.

Talvez viver seja aprender a alternar. Saber quando a pedra é apenas pedra e quando ela pesa como o mundo. Saber quando alguém pede um copo d’água e quando pede, sem saber, um gesto de cuidado. A sabedoria não está em escolher entre o real e o figurado, mas em reconhecer o momento exato de cada um.

No fim, o humano é esse ser que anda com um pé no chão e outro no símbolo. Demasiado real, torna-se bruto. Demasiado figurado, perde-se em névoa. Entre a pedra e o sinal, entre o fato e a imagem, seguimos tentando dizer o indizível — e chamamos isso, modestamente, de linguagem.