Tem dias em que a gente percebe um sumiço estranho — não de alguém, mas da gente mesmo.
Não
é dramático como nos romances, tipo O Estrangeiro, em que o personagem
parece já nascer deslocado. É mais sutil. Acontece numa terça-feira qualquer:
você responde mensagens no automático, ri no momento certo, cumpre tarefas… e,
ainda assim, sente que não está exatamente ali. Como se estivesse ocupando o
próprio corpo por contrato, não por convicção.
O Estrangeiro é a história de Meursault, um homem que
vive de forma quase automática, indiferente às normas emocionais e sociais que
organizam a vida em sociedade, o que fica evidente desde a abertura do livro,
quando ele reage com estranha frieza à morte da própria mãe; ao longo da
narrativa, sua incapacidade de fingir sentimentos ou aderir às expectativas
coletivas o coloca em choque com o mundo ao redor, culminando em um julgamento
onde ele é condenado menos pelo crime que comete e mais por não “jogar o jogo”
humano — e é justamente aí que Albert Camus revela o absurdo da
existência: não é o mundo que é estranho, mas a tentativa de impor sentido a
uma realidade que simplesmente é, enquanto Meursault, ao aceitar isso sem
ilusões, torna-se ao mesmo tempo o mais deslocado e talvez o mais honesto de
todos.
Retornando
as reflexões, eu comecei a reparar nisso em pequenas situações. No elevador,
olhando meu reflexo no espelho: “sou eu mesmo ou só uma versão funcional de
mim?” No trabalho, repetindo opiniões que nem parei para pensar direito. Num
almoço em família, concordando com tudo só para não criar atrito. Aos poucos, a
gente vai se ajustando tanto ao mundo que começa a desaparecer dentro dele.
Martin
Heidegger chamaria isso de cair no “impessoal”, no domínio do
“se”: faz-se isso, pensa-se aquilo, vive-se assim. A vida
vira uma espécie de manual invisível que seguimos sem perceber. E o problema
não é seguir regras — é esquecer que fomos nós que deveríamos escolhê-las.
Tem
também um outro tipo de desaparecimento, mais moderno, que Byung-Chul Han
talvez reconheceria: o excesso de exposição que apaga o interior. A gente se
mostra tanto — stories, opiniões rápidas, reações instantâneas — que já não
sobra espaço para digerir quem se é. Paradoxalmente, quanto mais visível, mais
invisível para si mesmo.
E
aí entra uma intuição interessante do David Le Breton: ele fala de uma
espécie de “desaparecimento de si” como resposta ao cansaço de existir sob
pressão constante. Não é exatamente um colapso, mas uma retirada. Como se a
pessoa, sem sair do mundo, diminuísse sua presença nele. Em vez de confronto,
ela escolhe o apagamento suave — menos exposição, menos implicação, menos risco
de ser afetado.
Uma
das imagens mais delicadas que ele sugere é a do desaparecer no sono.
Dormir, nesse caso, não é só uma necessidade biológica — é quase um refúgio
existencial. Quem nunca sentiu vontade de dormir não por cansaço físico, mas
para suspender a vida por algumas horas? Como se o sono fosse um lugar onde as
cobranças cessam, as identidades se dissolvem, e a gente finalmente deixa de
“ter que ser alguém”.
Isso
aparece no cotidiano de um jeito silencioso. A pessoa que prolonga o tempo na
cama além do necessário. Aquela soneca no meio da tarde que não é só descanso,
mas fuga. Ou mesmo o hábito de se afundar no sono para adiar decisões,
conversas, conflitos. É um desaparecimento temporário — legítimo, humano — mas
que também revela o quanto estar desperto, às vezes, pesa.
Mas
talvez exista um pensamento ainda mais inquietante aqui: e se desaparecer de si
não for apenas perda… mas também uma forma de resistência?
Num
mundo que exige presença constante, opinião imediata e identidade definida,
desaparecer pode ser um gesto silencioso de recusa. Não responder, não se
expor, não performar o tempo todo — tudo isso pode ser uma maneira de proteger
algo mais profundo que ainda não quer ou não pode ser nomeado.
Talvez
o “eu” não desapareça por fraqueza, mas por estratégia. Como certas coisas
vivas que se recolhem para sobreviver — sementes no inverno, animais em
hibernação — há momentos em que não aparecer é a única forma de não se
deformar.
Nesse
sentido, o desaparecimento de si deixa de ser apenas um problema a ser
resolvido e passa a ser um enigma a ser escutado: o que, em mim, está se
recusando a existir desse jeito?
E
o curioso é que esse desaparecimento não dói de imediato. Ele é confortável. É
leve. Não exige confronto, não exige escolha difícil. Você só vai… indo. Até
que, um dia, surge uma pergunta incômoda: “em que momento eu parei de
participar da minha própria vida?”
Ou,
talvez, uma pergunta ainda mais radical: “será que eu realmente desapareci… ou
apenas me escondi de um modo de existir que já não me serve?”
Talvez
o reaparecimento de si não seja um grande evento, mas um gesto pequeno. Um
desacordo dito em voz alta. Um silêncio mantido quando todos esperam resposta.
Um tempo sozinho sem distração. Um pensamento que você sustenta até o fim,
mesmo que ele desorganize tudo.
Porque
desaparecer de si não acontece de uma vez — é um processo. Mas voltar também
pode ser.
E
quase sempre começa quando a gente estranha o próprio sumiço.
Sugestão
de Leitura:
Le
Breton, David. Desaparecer de Si: uma tentação contemporânea;
tradução Francisco Morás. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.
Camus,
Albert. O Estrangeiro; tradução Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro,
RJ: Record, 1979

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