Carregam Sonhos inacabados
Tem gente que cresce como quem veste
uma história pronta. Não percebe no começo — afinal, aquilo parece natural: os
gostos “que sempre teve”, os caminhos “que foram acontecendo”, as escolhas
“óbvias”. Mas, olhando com mais calma, tudo já estava meio desenhado antes
mesmo de existir consciência suficiente para escolher.
O filho projetado é aquele que carrega,
sem perceber, os sonhos inacabados dos pais. Às vezes é o pai que não pôde
estudar e transforma o filho no estudante exemplar. Às vezes é a mãe que abriu
mão de si e, silenciosamente, ensina a filha a fazer o mesmo. Outras vezes é
mais sutil: expectativas de sucesso, de comportamento, de felicidade — todas
embaladas como se fossem desejos próprios.
No cotidiano, isso aparece de formas
quase invisíveis. A escolha do curso que “faz mais sentido”, o desconforto ao
pensar em mudar de caminho, a culpa ao decepcionar expectativas que nunca foram
explicitamente cobradas, mas sempre estiveram ali, no ar. O filho projetado
aprende cedo a ler o ambiente, a ajustar suas decisões para manter uma harmonia
que, no fundo, não nasceu dele.
O problema é que essa harmonia tem um
preço. Porque, em algum ponto, surge um ruído interno — uma sensação de
deslocamento difícil de nomear. Como se a vida estivesse funcionando, mas não
estivesse sendo vivida de dentro.
O antropólogo David Le Breton
fala sobre a necessidade de “desaparecer de si” em certos
momentos — não como fuga, mas como pausa, como suspensão das identidades
impostas. No caso dos filhos projetados, esse desaparecimento pode ser a
primeira forma de resistência: um afastamento silencioso das expectativas, uma
tentativa de ouvir algo que nunca teve espaço para falar.
Mas esse movimento não é simples.
Porque romper com uma projeção não é apenas mudar de caminho — é, muitas vezes,
enfrentar o medo de decepcionar, de perder pertencimento, de não saber quem se
é sem aquele roteiro. É sair de um papel bem ensaiado para um palco onde não há
falas prontas.
E aí entra uma questão delicada: até
que ponto aquilo que você chama de “você” é realmente seu? Não é uma pergunta
confortável. Mas talvez seja necessária.
Filhos projetados costumam ser bons em
muitas coisas — justamente porque aprenderam a corresponder. Só que viver não é
apenas corresponder. Existe uma diferença sutil entre dar continuidade a algo e
apenas reproduzir.
Talvez o verdadeiro trabalho de quem
foi projetado seja, aos poucos, reescrever a própria narrativa. Não negando
completamente o que veio antes — porque isso também faz parte —, mas escolhendo
o que permanece e o que precisa ser deixado.
Penso que no fim, não se trata de
romper com os pais, mas com a ideia de que você precisa ser aquilo que
imaginaram. E isso exige uma coragem silenciosa: a de desapontar expectativas
externas para finalmente encontrar uma coerência interna.
Porque há um momento em que a vida
deixa de perguntar “o que esperam de mim?” e começa, finalmente, a perguntar “o
que, de fato, faz sentido para mim?”.
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