Agora
a noite, sentado olhando as luzes da rua através da janela comecei a divagar, a
pensar que há dias em que a gente acorda conversando — mas não com ninguém. O
diálogo acontece inteiro por dentro, sem som, sem plateia. Enquanto o corpo
segue no automático (escova os dentes, olha o celular, atravessa a rua), alguma
coisa lá dentro está sentada numa cadeira invisível, falando baixo, quase
cochichando. É o tal do solilóquio silencioso: essa conversa íntima que não
pede resposta imediata, mas insiste em acontecer.
Não
é exatamente pensar, nem refletir de forma organizada. É mais parecido com
quando a mente se encosta na própria sombra e fica ali, em silêncio, dizendo
coisas que só ela entende.
O eu que fala quando
ninguém escuta
Michel
de Montaigne, nos Ensaios, já intuía algo muito
próximo disso quando dizia que “somos mais nós mesmos quando estamos a sós”.
Para ele, a solidão não era isolamento, mas um espaço de honestidade radical.
Longe do olhar dos outros, o sujeito deixa de representar papéis e passa a escutar
o que realmente pensa — mesmo quando não gosta do que ouve.
O
solilóquio silencioso é esse território montaigniano: um lugar onde o eu fala
sem precisar convencer, justificar ou agradar. Não há argumento, só confissão.
Não há performance, só presença.
E talvez por isso ele
assuste tanto. Porque ali não existe o conforto das máscaras sociais.
Onde o silêncio fala alto
No cotidiano, esse
solilóquio aparece disfarçado de banalidade:
- No ônibus, olhando pela janela,
enquanto o corpo está cercado de gente, mas a mente atravessa décadas em
poucos segundos.
- No banho, quando a água cai e, junto
com ela, caem defesas, desculpas, versões editadas de si mesmo.
- Na fila do mercado, quando uma
pergunta surge do nada: “é isso mesmo que estou fazendo da minha vida?”
— e ninguém percebe que, por dentro, um terremoto começou.
- Antes de dormir, quando o silêncio do
quarto amplifica vozes internas que passaram o dia inteiro reprimidas.
São
momentos em que não há reflexão filosófica formal, mas há filosofia viva
acontecendo.
O perigo de fugir desse
diálogo
Vivemos
numa época que trata o silêncio como falha. Sempre que ele aparece, a gente
corre para preenchê-lo: música, podcast, vídeo curto, notificação. Não é
distração inocente — é fuga.
O
solilóquio silencioso tem um problema sério: ele revela contradições. Ele
mostra que nem sempre somos coerentes, que desejamos coisas incompatíveis, que
temos medos que não cabem em frases bonitas. Fugir desse diálogo interno é uma
forma elegante de permanecer superficial.
Hannah
Arendt, ao falar do pensar, dizia que pensar é dialogar
consigo mesmo. Quem abandona esse diálogo, dizia ela, corre o risco de agir sem
consciência — não por maldade, mas por vazio.
O silêncio como morada,
não como ausência
O
silencioso solilóquio não é um sintoma de solidão triste. É, muitas vezes,
sinal de maturidade interior. Ele não exige resposta rápida, nem conclusão. Ele
apenas pede espaço.
Talvez
organizar a vida não seja apenas planejar agendas, mas reservar pequenos
territórios de silêncio onde esse eu interno possa falar. Nem para ser
obedecido, nem para ser corrigido — apenas para existir.
No
fim das contas, pensar não é fazer barulho por dentro. Pensar é aprender a
escutar esse solilóquio discreto que acontece quando o mundo cala um pouco.
Penso
que talvez verdadeira filosofia comece exatamente aí: quando ninguém está
ouvindo, mas algo essencial insiste em dizer.