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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Silencioso Solilóquio


Agora a noite, sentado olhando as luzes da rua através da janela comecei a divagar, a pensar que há dias em que a gente acorda conversando — mas não com ninguém. O diálogo acontece inteiro por dentro, sem som, sem plateia. Enquanto o corpo segue no automático (escova os dentes, olha o celular, atravessa a rua), alguma coisa lá dentro está sentada numa cadeira invisível, falando baixo, quase cochichando. É o tal do solilóquio silencioso: essa conversa íntima que não pede resposta imediata, mas insiste em acontecer.

Não é exatamente pensar, nem refletir de forma organizada. É mais parecido com quando a mente se encosta na própria sombra e fica ali, em silêncio, dizendo coisas que só ela entende.

O eu que fala quando ninguém escuta

Michel de Montaigne, nos Ensaios, já intuía algo muito próximo disso quando dizia que “somos mais nós mesmos quando estamos a sós”. Para ele, a solidão não era isolamento, mas um espaço de honestidade radical. Longe do olhar dos outros, o sujeito deixa de representar papéis e passa a escutar o que realmente pensa — mesmo quando não gosta do que ouve.

O solilóquio silencioso é esse território montaigniano: um lugar onde o eu fala sem precisar convencer, justificar ou agradar. Não há argumento, só confissão. Não há performance, só presença.

E talvez por isso ele assuste tanto. Porque ali não existe o conforto das máscaras sociais.

 

Onde o silêncio fala alto

No cotidiano, esse solilóquio aparece disfarçado de banalidade:

  • No ônibus, olhando pela janela, enquanto o corpo está cercado de gente, mas a mente atravessa décadas em poucos segundos.
  • No banho, quando a água cai e, junto com ela, caem defesas, desculpas, versões editadas de si mesmo.
  • Na fila do mercado, quando uma pergunta surge do nada: “é isso mesmo que estou fazendo da minha vida?” — e ninguém percebe que, por dentro, um terremoto começou.
  • Antes de dormir, quando o silêncio do quarto amplifica vozes internas que passaram o dia inteiro reprimidas.

São momentos em que não há reflexão filosófica formal, mas há filosofia viva acontecendo.

 

O perigo de fugir desse diálogo

Vivemos numa época que trata o silêncio como falha. Sempre que ele aparece, a gente corre para preenchê-lo: música, podcast, vídeo curto, notificação. Não é distração inocente — é fuga.

O solilóquio silencioso tem um problema sério: ele revela contradições. Ele mostra que nem sempre somos coerentes, que desejamos coisas incompatíveis, que temos medos que não cabem em frases bonitas. Fugir desse diálogo interno é uma forma elegante de permanecer superficial.

Hannah Arendt, ao falar do pensar, dizia que pensar é dialogar consigo mesmo. Quem abandona esse diálogo, dizia ela, corre o risco de agir sem consciência — não por maldade, mas por vazio.

 

O silêncio como morada, não como ausência

O silencioso solilóquio não é um sintoma de solidão triste. É, muitas vezes, sinal de maturidade interior. Ele não exige resposta rápida, nem conclusão. Ele apenas pede espaço.

Talvez organizar a vida não seja apenas planejar agendas, mas reservar pequenos territórios de silêncio onde esse eu interno possa falar. Nem para ser obedecido, nem para ser corrigido — apenas para existir.

No fim das contas, pensar não é fazer barulho por dentro. Pensar é aprender a escutar esse solilóquio discreto que acontece quando o mundo cala um pouco.

Penso que talvez verdadeira filosofia comece exatamente aí: quando ninguém está ouvindo, mas algo essencial insiste em dizer.