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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Sísifo


No mito, Sísifo empurra eternamente uma rocha até o topo da montanha. Quando está quase lá, ela rola de volta. E ele recomeça.

Sempre achei que o drama estivesse no esforço físico. Hoje percebo que está na repetição.

A nova montanha não é de pedra — é de atualização

Você já reparou que nada mais termina?

Você limpa a caixa de e-mails — chegam mais.

Organiza a casa — desorganiza.

Bate a meta — surge outra.

Atualiza o currículo — o mercado muda.

A vida virou uma versão infinita de “carregando…”.

Não vivemos apenas trabalhando. Vivemos mantendo: mantendo relevância, produtividade, aparência, performance emocional. Até o descanso virou tarefa otimizada.

A pedra contemporânea tem nome: manutenção da própria existência social.

O absurdo segundo Camus — e além dele

O filósofo Albert Camus escreveu que o verdadeiro problema filosófico é o suicídio — ou seja, se a vida vale a pena diante do absurdo.

Para ele, Sísifo é o herói do absurdo.

Não porque vence a montanha.

Mas porque sabe que ela não tem fim.

A consciência transforma o castigo em revolta silenciosa.

Mas talvez hoje o drama seja outro:

não temos tempo nem de descer a montanha conscientes.

Estamos distraídos.

A distração como forma de anestesia

Enquanto empurramos a pedra, ouvimos podcast de produtividade.

Enquanto a pedra rola, abrimos redes sociais.

Enquanto recomeçamos, comparamos nossa pedra com a dos outros.

E aqui entra outro pensador fundamental: Byung-Chul Han.

Ele diz que não vivemos mais numa sociedade da repressão, mas da performance. Não há um deus nos condenando — nós mesmos nos exploramos.

Somos ao mesmo tempo Sísifo e o Olimpo.

A montanha não é imposta.

É internalizada.

Cotidiano: pequenas cenas sisifianas

  • O profissional que trabalha o dia inteiro e à noite faz cursos para “não ficar para trás”.
  • A mãe ou pai que nunca sente que fez o suficiente.
  • O jovem que mede seu valor por métricas digitais.
  • O aposentado que descobre que até o lazer precisa ser produtivo.

Nada disso é dramático isoladamente. O problema é o eterno quase.

Quase cheguei lá.

Quase estabilizei.

Quase estou satisfeito.

A pedra sempre volta alguns centímetros antes do topo.

Uma inversão inovadora: e se a pedra for nossa identidade?

Talvez o erro seja imaginar que a pedra é externa — trabalho, dinheiro, obrigações.

E se a pedra for o “eu ideal” que tentamos empurrar montanha acima?

A versão mais magra.

Mais bem-sucedida.

Mais serena.

Mais interessante.

Empurramos uma imagem de nós mesmos esperando que, no topo, ela finalmente coincida com quem somos.

Mas identidade não é topo. É travessia.

O instante secreto de Sísifo

Camus dizia que devemos imaginar Sísifo feliz.

Eu acrescentaria: talvez ele sorria não no topo, mas no meio do caminho — quando percebe que a pedra é pesada, sim, mas o passo é dele.

O mundo atual nos convence de que sentido é resultado.

Talvez sentido seja ritmo.

Empurrar a pedra pode ser alienação.

Mas pode ser também escolha lúcida.

Uma pergunta para levar da cafeteria

Se a pedra vai rolar de qualquer forma,

que tipo de pessoa você se torna enquanto a empurra?

O mundo contemporâneo talvez não seja trágico.

Talvez seja apenas repetitivo.

E a repetição, quando consciente, pode deixar de ser condenação

e virar estilo de existência.

No fundo, o mito não pergunta se a montanha tem fim.

Pergunta se você está acordado enquanto sobe.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Identidade Performática

Quem eu sou quando estou sendo visto?

Em algum momento, sem data marcada, a gente percebe que não está apenas vivendo — está se apresentando. Não é um teatro clássico, com cortina e aplausos. É mais sutil: um ajuste no vocabulário, uma opinião suavizada, um silêncio estratégico. O problema não é atuar. O problema é quando não há mais bastidor.

A pergunta que surge não é dramática, é desconfortável: se ninguém estivesse olhando, eu continuaria sendo essa pessoa?

Da máscara social à identidade administrada

Erving Goffman dizia que toda vida social envolve papéis. Há o palco, onde nos mostramos, e o bastidor, onde relaxamos. O que mudou não foi a existência da máscara — foi o desaparecimento do bastidor.

Byung-Chul Han observa que, hoje, não somos obrigados a representar algo imposto. Representamos o que acreditamos ser desejável. Não há censura explícita, mas há uma curadoria constante de si mesmo. A identidade deixa de ser descoberta e passa a ser otimizada.

O sujeito não pergunta mais:

“Isso sou eu?”

Pergunta:

“Isso funciona para esse ambiente?”

O eu como projeto permanente

A performance moderna não exige apenas coerência — exige melhoria contínua. É o eu como startup: sempre em atualização, sempre em avaliação.
Aqui, a identidade vira tarefa. E tarefa que nunca termina.

Nietzsche já alertava para o perigo de viver em função do olhar alheio: quando a vida se orienta pelo aplauso, ela perde gravidade própria. O valor vem de fora; o centro se desloca.

O resultado não é hipocrisia consciente, mas desconexão interna. A pessoa não mente — ela se adapta tanto que deixa de saber o que realmente pensa.

No cotidiano: pequenas concessões que se acumulam

No trabalho, você tem uma discordância, mas calcula o risco. No grupo de amigos, ri de algo que não achou graça. Nas redes, evita temas que “não performam bem”.
Nada disso é grave isoladamente. O problema é o acúmulo.

Aos poucos, surge uma fadiga estranha: não do mundo, mas de si mesmo. Um cansaço de sustentar versões ajustadas da própria identidade. A pessoa não sabe mais se está sendo estratégica ou apenas distante de si.

O paradoxo da visibilidade

Nunca fomos tão vistos — e nunca tão inseguros sobre quem somos.

Quanto mais o olhar externo se intensifica, mais a identidade depende de validação. Curtidas, feedbacks, aceitação silenciosa. O eu passa a existir em resposta, não por afirmação.

Hannah Arendt ajuda a entender esse ponto ao diferenciar aparecer de existir. Aparecer demais, sem interioridade, dissolve a singularidade. A pessoa vira imagem, perfil, função.

Onde mora a violência invisível

A identidade performática não grita, não oprime explicitamente. Ela seduz. Promete pertencimento, reconhecimento, segurança. O preço é alto: a erosão lenta da autenticidade.

Não é que o sujeito não tenha mais um eu verdadeiro. É que ele não encontra mais tempo, silêncio ou espaço para escutá-lo.

Existe saída?

Não há retorno a uma “pureza original”. Sempre haverá papéis. A diferença está em reconstruir bastidores:

  • lugares onde não se precisa agradar
  • relações onde o erro não vira falha moral
  • momentos onde ninguém avalia

A liberdade não está em abolir a performance, mas em não confundir o papel com o ator.

Fechamento

A questão não é “quem eu sou?”, mas algo mais honesto:

Em quantos lugares eu preciso deixar de ser eu para continuar pertencendo?

Talvez o gesto mais radical hoje não seja se expor — mas se recolher, nem que seja por instantes, para lembrar que a identidade não nasce do olhar do outro, mas da possibilidade de, às vezes, não ser visto.


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Ansiedade da Performance

Exaustos de Nós Mesmos: a obrigação de performar o eu na era digital

Numa manhã qualquer, abrimos o celular e já somos lançados num universo de vidas editadas. Sorrisos, conquistas, corpos, viagens, produtividade — tudo embalado num brilho de sucesso contínuo. Não é mais necessário ser feliz; basta parecer. E parecer muito. De preferência com carisma, autenticidade e filtros bem escolhidos. Nessa maratona silenciosa de aprovação, o eu se transforma num projeto de marketing. Vivemos, muitas vezes, menos para estar e mais para mostrar. E o resultado não é glória — é exaustão.

Retomar este tema para reflexão me parece importante, visto que não temos como negar a inundação de situações reais que a cada dia a quantidade supera a do dia anterior, por isto vamos explorar a questão.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, argumenta que a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho trouxe um novo tipo de opressão: a autoexploração disfarçada de liberdade. Hoje, somos pressionados a ser produtivos, criativos, positivos, resilientes e excepcionais — o tempo todo. Não há mais um patrão externo exigindo resultados; somos nós mesmos que nos cobramos, num ciclo ininterrupto de superação. “Yes, we can” (Sim, nós podemos) virou sentença. A liberdade de ser se converteu na prisão do dever constante de melhorar.

No campo da sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender como essa lógica do desempenho se estrutura socialmente. O prestígio nas redes sociais, por exemplo, é uma forma de capital simbólico — aquele que dá visibilidade e reconhecimento. Curtidas, comentários, seguidores e compartilhamentos são novas formas de moeda. Quem acumula, ganha poder. Quem não participa, some. A obrigação de estar sempre visível cria uma economia da atenção em que a subjetividade se curva aos algoritmos. Não basta viver: é preciso performar a própria existência com consistência e carisma.

Essa lógica de espetáculo já havia sido anunciada por Guy Debord, em sua obra A Sociedade do Espetáculo. Para ele, o mundo moderno substituiu o ser pelo parecer: tudo se torna imagem, inclusive a dor. O luto, a solidão, a superação — tudo pode e deve ser exibido, com a devida estética. Nesse contexto, a vida só ganha sentido social se puder ser consumida. Assim, cada pessoa se torna uma vitrine, e o “eu” vira mercadoria.

Há também um efeito existencial profundo. Em Ser e Tempo, Heidegger discute a existência inautêntica — quando vivemos segundo o que os outros esperam, e não segundo nossa própria verdade interior. Nas redes, essa inautenticidade se amplifica: passamos a nos moldar de acordo com as expectativas alheias, com o que é mais comentado, compartilhado, desejado. O “eles”, como diz o filósofo, passa a nos habitar. Deixamos de ser para nos tornarmos personagens de um script coletivo.

Esse movimento não se restringe aos jovens ou aos influenciadores. Ele se espalha pelo mundo do trabalho, onde cada profissional precisa “vender sua imagem” com inteligência emocional, marca pessoal e presença digital ativa. Os currículos foram substituídos por portfólios públicos. A naturalidade, pelo networking constante. Mesmo a pausa virou performance: descanso com propósito, viagem com storytelling, silêncio com legenda.

Na juventude, a pressão é pelo destaque. Ninguém quer ser mediano. O ordinário virou sinônimo de fracasso. Na velhice, o dilema é outro: manter-se relevante. Muitos se sentem expulsos de um jogo cuja linguagem já não dominam. A obsolescência social não é mais só tecnológica — é existencial. O tempo se tornou um concorrente, e a idade, um risco de invisibilidade.

Mas talvez ainda haja uma saída. Não grandiosa, não revolucionária, mas sutil e silenciosa. Pode começar com um gesto pequeno: escolher não publicar um feito, não responder uma provocação, não performar o descanso. Recuperar o gosto pelo anonimato, pela insignificância produtiva, pela liberdade de simplesmente existir — sem que isso precise virar conteúdo. Como escreveu o poeta Manoel de Barros:

“O que a gente não inventa, vira.”

E talvez seja isso que nos falte: menos invenção de si e mais vir-a-ser.

Menos brilho e mais verdade.

Menos performance e mais presença.


domingo, 29 de junho de 2025

Novas Subjetividades

Acorda, toma café, põe o óculos de realidade virtual, entra numa sala com outras pessoas que também estão em casa, sozinhas — mas todas juntas, com corpos escolhidos, vozes filtradas, rostos recriados. É uma reunião de trabalho? Uma conversa entre amigos? Um jogo? Ou tudo isso ao mesmo tempo?

Vivemos um tempo curioso: o corpo está aqui, mas o "eu" parece expandido — ou, talvez, fragmentado. A realidade virtual (RV) não é apenas uma tecnologia: é um novo campo de experiência do eu, um laboratório de subjetividades.

Dia destes estava ouvindo nossa filósofa Marilena Chauí falando sobre o tema, realmente temos de pensar a respeito, ela alerta para este mundo novo que já faz parte de nossas vidas.

Mas afinal o que é subjetividade?

Subjetividade é o conjunto de experiências internas e singulares que compõem o modo como alguém percebe o mundo, a si mesmo e os outros. É uma construção histórica, social e afetiva — não nasce pronta, mas se forma a partir de vivências, relações, discursos e tecnologias.

Como explica Michel Foucault, o sujeito não é um ponto fixo de origem, mas o efeito de práticas discursivas e sociais. Já para Maurice Merleau-Ponty, a subjetividade está encarnada: não somos pura mente ou consciência, mas um corpo-sujeito que percebe e age no mundo.

Portanto, falar de subjetividade é falar da maneira como nos tornamos alguém, como experienciamos o que somos — e como isso pode mudar.

Quando o sujeito se descentra

A subjetividade moderna, desde Descartes, se ancorava em um "eu penso, logo existo" — racional, centrado, individual. Com Freud, esse "eu" começou a tremer: há desejos inconscientes, pulsões, zonas obscuras. Com a pós-modernidade, o sujeito se liquefaz, como apontou Zygmunt Bauman, e agora, com a realidade virtual, ele talvez se disperse em identidades múltiplas, performáticas e temporárias.

O sujeito não é mais uno: ele é "loginável", programável, personalizável.

Num ambiente virtual, alguém pode viver como um guerreiro viking, um gato falante ou um avatar neutro, sem gênero definido. E, às vezes, se sente mais verdadeiro assim. O "real" deixa de ser o critério da autenticidade. Como já dizia Jean Baudrillard, o simulacro ultrapassa o original — o virtual se torna mais significativo do que o real.

Cotidianos que nos escapam pelas telas

Quantas vezes você entrou numa sala virtual para uma reunião e sentiu que o ambiente — os olhares, os gestos, o tempo — não seguia mais as mesmas regras da vida física? Ali, a subjetividade é outra: somos falas, expressões faciais artificiais, reações digitadas. E mesmo assim, sentimos. Rimos. Ficamos tensos. Temos vergonha. A subjetividade se adapta.

Exemplo: uma criança de nove anos, tímida na escola, descobre-se desinibida num jogo em RV. Ela cria um personagem falante, criativo e ousado. Seus pais a observam e se perguntam: "é ela mesma ou uma outra pessoa?"

O corpo como memória virtual

Mesmo quando a realidade é virtual, o corpo reage. O coração acelera. A mão sua. Os músculos se contraem. A filosofia do corpo, como nos lembra Maurice Merleau-Ponty, insiste: não temos um corpo — somos um corpo. E esse corpo, mesmo imerso em bits e avatares, continua sendo nosso ponto de contato com o mundo.

Mas agora é um corpo intermediado, reconfigurado — que sente, mas não se mostra por inteiro. A nova subjetividade é um jogo entre o que se quer mostrar e o que se deseja esconder.

A subjetividade como performance

A filósofa Judith Butler trouxe a ideia de que a identidade é performativa — ou seja, ela se constrói na repetição de atos. Na RV, isso é ainda mais literal. A cada login, a cada escolha de avatar, a cada gesto encenado num mundo virtual, o sujeito se constitui. Não por essência, mas por performance em rede.

Somos aquilo que repetimos: o modo como clicamos, falamos, gesticulamos — mesmo no ambiente simulado.

E afinal, quem somos?

O que muda com tudo isso? Talvez não sejamos mais sujeitos estáveis, como se acreditava. Somos experiências conectadas, em constante mutação, criando realidades internas e externas ao mesmo tempo. A realidade virtual não cria só um outro mundo — ela recria o eu.

O filósofo brasileiro José Gil, ao falar sobre o corpo e a imagem, nos lembra que a subjetividade não está presa ao corpo, mas se expande em zonas de visibilidade e presença. Com a RV, ganhamos novas zonas. Novos rostos. Novas máscaras. E, talvez, novos espelhos.

Em tempo: talvez estejamos todos nos tornando um pouco mais plurais, um pouco menos fixos. O mundo virtual não é um escape da realidade — é uma realidade a mais, onde a subjetividade se torna múltipla, instável, e, quem sabe, mais verdadeira em sua própria inconstância.


segunda-feira, 9 de junho de 2025

Manejo da Impressão

“Quem é você quando ninguém está olhando?”

Aqui vamos trabalhar num ensaio sobre o manejo da impressão e os palcos da vida cotidiana

Você já parou para pensar que, na vida, somos todos atores? Não do tipo que sobe ao palco com aplausos — mas daqueles que atuam em reuniões, em jantares de família, no elevador com o vizinho, até mesmo no grupo do WhatsApp. Às vezes o papel exige bom humor, outras vezes impaciência contida, e, com frequência, um certo esforço para parecer que estamos bem, mesmo quando não estamos. Nesse grande teatro da vida, o sociólogo Erving Goffman (1922-1982) acende as luzes do palco e revela uma verdade incômoda: não somos um “eu”, somos muitos.

No livro A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Goffman apresenta a ideia de que o “eu” que mostramos é fruto de uma performance cuidadosamente gerida — o que ele chama de manejo da impressão. Mas e se formos além? E se esse manejo não for apenas uma adaptação ao social, mas também um modo de sobrevivência filosófica em um mundo que exige máscaras como forma de reconhecimento?

A sociedade como plateia ansiosa

Cada encontro social nos pede um papel. Não um papel escrito por nós, mas roteirizado pelas expectativas alheias. O funcionário precisa parecer produtivo mesmo nos dias de cansaço; o estudante simula interesse diante de um conteúdo que não compreende; a mãe que esconde o choro para sorrir ao filho. Não é mentira. É um acordo tácito: se você performar o suficiente, será aceito.

O manejo da impressão, nesse sentido, não é apenas controle de imagem — é negociação simbólica de pertencimento. A sociedade não quer apenas ver o “eu verdadeiro”; ela deseja ver o que reconhece como normal, funcional e confortável. Assim, ajustamos os gestos, os silêncios, os emojis.

O eu como ficção em construção

Se o mundo é um palco, o “eu” que mostramos é um personagem. Mas seria esse personagem uma farsa? Talvez não. A filosofia contemporânea já não acredita tanto em essências fixas. Para pensadores como Judith Butler, o sujeito se constrói performativamente — ou seja, ele é o que faz repetidamente. E se Goffman nos mostrou o teatro social, Butler revela que essa atuação não é uma máscara sobre um rosto verdadeiro, mas o próprio rosto se formando com cada papel que representamos.

O eu, então, seria uma espécie de remix constante entre o que sentimos e o que o outro exige que mostremos. Um mosaico de pequenos “eus” que se ajustam conforme o palco muda — do metrô à sala de jantar, do encontro romântico ao boletim médico.

O bastidor como espaço de reconciliação

Nos bastidores, longe do público, caem as máscaras — ou pelo menos, trocam-se por outras. Mas será que ainda existe um “eu autêntico” nesse lugar escondido? Goffman não responde com clareza, mas nos convida a pensar que mesmo nos bastidores há performance, ainda que mais relaxada. A solidão, o espelho, o travesseiro à noite — são também palcos, embora com luzes mais suaves.

Contudo, é nesse momento íntimo que talvez surja a chance de uma autoescuta. De pensar: “será que me tornei aquilo que performei por tanto tempo?” A pergunta não é retórica. A vida tem o poder de nos transformar pelas repetições que aceitamos. É o risco da performance: virar o papel que foi criado para agradar o outro.

Viver é atuar — mas com consciência

Não há como viver fora do teatro social. Somos seres em relação, e isso exige ajustes, cortes, improvisos. Mas o perigo não está em representar. O risco mora na inconsciência do papel. Quando esquecemos que estamos atuando, entregamos o volante da nossa identidade a uma plateia que nem sempre aplaude com justiça.

Por isso, o manejo da impressão, mais do que uma técnica social, deve ser também uma ferramenta filosófica de autoconhecimento. Reconhecer o personagem que estamos sendo, entender por que o escolhemos, e nos perguntar, vez ou outra: quem seríamos se o palco estivesse vazio?

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Liberdade na Impermanência

 

Vamos pensar como dançar no fluxo da vida

Outro dia, esperando o sinal abrir, vi uma folha seca rodopiar no asfalto. Não seguia em linha reta, tampouco sabia onde iria parar. Mas havia algo belo ali. Não por ser frágil ou por voar, mas pela leveza com que se entregava ao vento. Pensei: talvez isso seja liberdade — não o controle absoluto, mas a entrega consciente ao movimento das coisas.

Somos criados com a ideia de que liberdade é escolher: decidir o curso da vida, traçar objetivos, manter coerência, garantir permanência. Mas, e se estivermos olhando na direção errada? E se a verdadeira liberdade estiver, paradoxalmente, na impermanência — nesse terreno instável onde nada é fixo, tudo escapa e nada nos pertence?

A impermanência é desconfortável. Derruba certezas, desfaz promessas, modifica rotas. Mas também é ela quem nos salva da prisão das repetições, dos papéis sociais eternizados, dos vínculos que já não têm sentido. É na instabilidade que nos abrimos ao novo — e talvez, por isso, sejamos mais livres quando não estamos em controle, mas em presença.

O filósofo coreano Byung-Chul Han, crítico da sociedade da performance, alerta para o esgotamento provocado pelo excesso de liberdade entendida como autonomia produtiva. Segundo ele, tornamo-nos senhores e escravos de nós mesmos. Em contrapartida, talvez a liberdade que nos cura não seja aquela da vontade tirânica, mas a da fluidez — aceitar que tudo muda, inclusive nós.

Na prática cotidiana, quem já não se reinventou após uma perda? Um emprego que acaba, um amor que não continua, um lugar que já não é mais lar. No início, o chão some. Depois, o espaço se abre. A impermanência rasga o véu das ilusões e, com isso, revela outra coisa: que não somos um "eu fixo", mas uma constelação de momentos, gestos, escolhas, arrependimentos e recomeços.

O budismo, milenar nesse saber do efêmero, ensina que tudo o que surge está destinado a desaparecer. E que é justamente esse caráter transitório que deve nos libertar do apego, não por desinteresse, mas por compaixão — porque o que é passageiro merece ser vivido com delicadeza, e não com posse.

Ser livre, então, pode ser menos uma conquista e mais uma postura: dançar com o que vem, em vez de resistir. Permitir que as coisas fluam, inclusive as partes de nós que já não cabem mais. Liberdade, nessa chave, não é um estado estático, mas uma dança silenciosa entre o que somos e o que deixamos de ser.

Assim como a folha que rodopia no ar sem saber onde vai cair, talvez sejamos mais autênticos quando aceitamos o vento. Não como fraqueza, mas como arte de se mover com o mundo. Liberdade na impermanência — uma filosofia que não promete segurança, mas oferece leveza. E, quem sabe, isso já seja o suficiente.