O
Silêncio que Molda o Mundo
Tem
coisas que a gente aprende sem perceber. Não vem de um livro, nem de uma aula
específica — vem do jeito como as pessoas falam, riem, interrompem, elogiam ou
ignoram. A misoginia é assim: ela raramente entra pela porta da frente dizendo
“sou o ódio às mulheres”. Ela prefere o disfarce. Às vezes vem como piada, às
vezes como “opinião sincera”, às vezes como tradição. E quando a gente vê, já
está ali, sentada à mesa, opinando sobre tudo.
Mas
talvez o mais curioso da misoginia não seja sua violência explícita — essa é
fácil de reconhecer — e sim sua capacidade de se infiltrar no cotidiano como
algo aparentemente normal. É aí que ela se torna mais filosófica: quando deixa
de ser apenas um comportamento e passa a ser uma forma de ver o mundo.
A
construção invisível do desprezo
Simone
de Beauvoir já dizia: “não se nasce mulher,
torna-se”. O que ela nos provoca a pensar é que aquilo que entendemos
como “ser mulher” não é apenas biológico, mas socialmente construído. Se o
papel feminino é construído, o desprezo por esse papel também pode ser.
A
misoginia, então, não nasce pronta — ela é ensinada, repetida, refinada. Está
nos pequenos gestos: quem fala mais numa reunião, quem é interrompido, quem
precisa provar competência o tempo todo. Ela não precisa gritar para existir;
basta se repetir.
Nesse
sentido, a misoginia não é apenas uma emoção (ódio), mas uma estrutura
simbólica. E estruturas são perigosas justamente porque parecem naturais.
O
hábito de diminuir
Pierre
Bourdieu falava de algo chamado violência simbólica:
uma forma de dominação que não precisa de força física, porque é aceita —
muitas vezes inconscientemente — por todos os envolvidos.
A
misoginia se encaixa perfeitamente aqui. Quando uma mulher duvida da própria
capacidade antes mesmo de tentar, quando alguém acha “normal” que certas
posições sejam ocupadas majoritariamente por homens, estamos diante de um
sistema que funciona sem precisar se justificar.
É
como se o mundo tivesse sido organizado de tal forma que o desequilíbrio
parecesse equilíbrio.
A
lógica fria do desprezo
Kate
Manne propõe uma visão interessante: para ela, a misoginia
não é apenas odiar mulheres, mas policiar e punir aquelas que saem do
papel esperado.
Ou
seja, não se trata de rejeitar todas as mulheres, mas de rejeitar aquelas que
não cumprem certas regras invisíveis: a mulher que fala demais, que não aceita
certas imposições, que não se encaixa.
Nesse
sentido, a misoginia funciona quase como um “sistema de controle social”. Ela
delimita o espaço do aceitável.
E
aqui surge uma pergunta incômoda: quantas vezes o desconforto com uma mulher
“difícil” não é, na verdade, desconforto com alguém que escapou desse script?
O
cotidiano como palco
Não
é preciso ir longe para ver isso. Está na forma como opiniões femininas são
tratadas como “emocionais”, enquanto as masculinas são vistas como “racionais”.
Está no elogio que vem com uma condição: “ela é boa, apesar de ser
mulher”. Está no espanto diante do que deveria ser comum.
Marilena
Chaui ajuda a iluminar esse ponto ao discutir ideologia:
aquilo que organiza nossa visão de mundo sem que percebamos. A misoginia, nesse
sentido, é ideológica — ela molda percepções antes mesmo de qualquer
reflexão consciente.
Ela
não precisa convencer; ela já está pressuposta.
Entre
o visível e o invisível
O
perigo maior da misoginia não é apenas o dano que causa — embora ele seja real
e profundo —, mas sua capacidade de se esconder naquilo que parece banal.
E
talvez seja por isso que combatê-la não seja apenas uma questão de leis ou
regras, mas de percepção. É preciso aprender a ver o que antes passava
despercebido.
Porque,
no fim das contas, a misoginia não vive apenas nos grandes atos de violência.
Ela sobrevive — e se fortalece — nos pequenos silêncios, nas risadas cúmplices,
nas ideias que ninguém questiona.
Feminicídios
No
entanto, quando saímos do plano das ideias e olhamos para a realidade concreta
— especialmente aqui no Rio Grande do Sul — em nosso estado, a misoginia deixa
de ser apenas um conceito e se revela como tragédia cotidiana: mulheres estão
sendo mortas, muitas vezes, por aqueles que deveriam protegê-las. Os dados são
duros e não permitem romantização: em 2025, cerca de 80 mulheres foram
vítimas de feminicídio no estado, muitas delas assassinadas dentro de casa,
no espaço que deveria ser de segurança ; e o início de 2026 já aponta um
crescimento alarmante, com aumento de mais de 50% em relação ao mesmo período
do ano anterior . Mais perturbador ainda é o padrão: a maioria desses crimes é
cometida por parceiros ou ex-companheiros, revelando que o perigo não está no
desconhecido, mas na intimidade. Trata-se de uma inversão brutal do sentido de
cuidado — onde o vínculo afetivo se transforma em domínio, e o amor,
distorcido, vira posse. Filosoficamente, isso expõe uma contradição radical da
nossa sociedade: construímos discursos de proteção enquanto toleramos
estruturas que permitem que a violência floresça justamente onde deveria haver
abrigo. E talvez o mais inquietante seja perceber que esses números não são
exceções — são sintomas de um sistema que ainda não aprendeu a reconhecer
plenamente a vida das mulheres como inviolável. Constatamos que o sistema é
falho e insuficiente para protegê-las, é urgente criarmos outros mecanismos
mais eficientes, condizentes com nossa triste e alarmante realidade.
O
que Podemos Fazer
Se
a tragédia já revelou o tamanho do problema, então a resposta precisa ser mais
do que reativa — precisa ser estrutural, contínua e inteligente. Proteger
melhor as mulheres não depende de uma única medida, mas de um conjunto de
mecanismos que funcionem como uma rede, não como pontos isolados.
Um
primeiro eixo fundamental é antecipar a violência, e não apenas
puni-la depois. Isso significa fortalecer o uso de monitoramento eletrônico de
agressores, com tornozeleiras integradas a aplicativos que alertem a vítima e a
polícia quando há aproximação indevida. Em paralelo, medidas protetivas
precisam deixar de ser apenas documentos formais e se tornarem instrumentos
ativos, com acompanhamento em tempo real e resposta policial rápida — algo que
ainda falha na prática.
Outro
ponto decisivo é a proteção no momento mais perigoso: a ruptura.
Estatísticas mostram que o risco aumenta quando a mulher tenta sair da relação.
Aqui, políticas públicas poderiam oferecer abrigos seguros e discretos, apoio
financeiro emergencial e suporte jurídico imediato. Não basta dizer “denuncie”;
é preciso garantir que, ao denunciar, ela tenha para onde ir e como recomeçar.
Também
é essencial investir na integração de dados. Muitas vezes,
diferentes órgãos já têm sinais do risco — histórico de violência, ameaças,
denúncias anteriores —, mas essas informações não conversam entre si. Um
sistema unificado permitiria identificar padrões e agir antes que o pior
aconteça. É a lógica da prevenção baseada em evidências, não em suposições.
No
campo cultural, a mudança é mais lenta, mas indispensável.
Como aponta Pierre Bourdieu, estruturas simbólicas sustentam práticas
concretas. Isso implica trabalhar desde cedo, nas escolas e na mídia, para
desmontar a ideia de posse sobre o outro. Já Marilena Chaui nos
lembraria que a ideologia se combate tornando visível o que parecia “normal” —
ou seja, questionando comportamentos naturalizados no cotidiano.
Por
fim, há um ponto delicado, mas crucial: responsabilizar e reeducar
agressores. Programas obrigatórios de acompanhamento psicológico e
grupos reflexivos para homens que já apresentaram comportamento violento podem
reduzir reincidência. Punir é necessário, mas interromper o ciclo é ainda mais.
No
fundo, proteger mulheres exige uma mudança de lógica: sair de um modelo
que reage à violência para um que previne, acompanha e sustenta.
Porque, se o perigo nasce muitas vezes dentro de relações íntimas, a proteção
também precisa entrar nelas — com presença do Estado, da comunidade e de uma
consciência social que não tolere mais o intolerável.
Um
último desconforto
Talvez
o exercício mais difícil seja reconhecer que ninguém está totalmente fora desse
sistema. Todos fomos, em alguma medida, expostos a ele. A questão não é apontar
culpados absolutos, mas perceber padrões.
E
aqui a filosofia cumpre seu papel mais incômodo: não oferecer respostas
confortáveis, mas revelar aquilo que preferíamos não ver.
A
misoginia, quando observada de perto, deixa de ser apenas um problema “dos
outros” e passa a ser um espelho — imperfeito, mas insistente — da forma como
organizamos nossas relações, nossos valores e, no fundo, nossa própria ideia de
humanidade.
E
talvez seja justamente aí que começa qualquer mudança: quando o que era
invisível finalmente se torna impossível de ignorar.