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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Ansiedade na Fila

 

A fila do supermercado parece um lugar neutro. Um espaço de transição, quase sem importância — ninguém vai pra lá querendo ficar. Mas é justamente ali, entre um carrinho e outro, que a ansiedade resolve aparecer com uma naturalidade desconcertante.

Você entra na fila achando que é só esperar. Coisa simples. Só que, poucos segundos depois, começa um pequeno teatro interno.

“Escolhi a fila errada.”

“Aquela ali está andando mais rápido.”

“Por que essa pessoa trouxe tanta coisa?”

Nada aconteceu de fato — ninguém te atacou, nada deu errado — mas, dentro, alguma coisa já começou a acelerar.

A ansiedade, nesse cenário, não vem como um grande evento. Ela se instala nos detalhes. No olhar que escapa para as outras filas. No cálculo mental que tenta prever qual caixa vai liberar primeiro. Na impaciência que não é exatamente com o tempo… mas com a falta de controle sobre ele.

E é curioso como a gente tenta negociar com essa sensação. Muda de fila. Volta. Suspira. Olha o celular. Como se qualquer pequena ação pudesse dar a ilusão de que estamos retomando o comando da situação.

Mas não estamos.

Søren Kierkegaard dizia que a ansiedade é “a vertigem da liberdade”. Talvez, numa fila de supermercado, essa liberdade se manifeste de um jeito estranho: você pode sair da fila, pode trocar, pode desistir da compra… mas, ao mesmo tempo, não quer fazer nenhuma dessas coisas. Fica preso numa liberdade que não resolve.

E aí surge outra camada: a comparação.

Você observa o carrinho dos outros, o ritmo do caixa, o comportamento das pessoas. Parece que todo mundo está mais certo do que você. Mais tranquilo. Mais no lugar. Como se houvesse um jeito correto de esperar — e você tivesse perdido esse manual.

Só que não existe manual nenhum. Existe só gente tentando atravessar o mesmo intervalo de tempo.

Talvez o mais desconcertante seja perceber que a fila não é o problema. Ela só revela uma dificuldade mais funda: a de estar onde se está, sem tentar acelerar o que não depende da gente.

Porque, no fundo, a ansiedade na fila não é sobre pagar compras. É sobre querer que o futuro chegue antes do presente terminar.

E o presente, ali, é simples demais pra agradar.

Um carrinho. Um chão frio. Um visor marcando preços. Nada acontecendo. E, ainda assim, tudo acontecendo por dentro.

Pensei: Talvez o exercício mais difícil — e mais raro — seja ficar.

Ficar na fila escolhida. Ficar no tempo que existe. Ficar sem simular atalhos mentais. Só observar o movimento sem tentar corrigi-lo.

Não é passividade. É uma espécie de ajuste fino com a realidade.

Porque, em algum momento entre um cliente e outro, surge uma percepção quase silenciosa: a fila anda. Sempre andou. Não no ritmo que a gente queria, mas no ritmo que ela pode.

E talvez a vida funcione mais ou menos assim também.

A gente só não percebe… porque está ocupado demais tentando trocar de fila.

Credulidade Deplorável



Às vezes a gente se pega pensando como é fácil acreditar nas coisas. Não só nas grandes notícias ou teorias, mas nas pequenas promessas do dia a dia, nos boatos que circulam, nas opiniões que a gente repete sem nem perceber de onde vieram. Basta um vídeo bem editado, uma frase de impacto ou alguém falando com muita confiança para algo ganhar cara de verdade.

Foi nessa sensação meio incômoda — de ver como a credulidade aparece de forma quase automática — que surgiu a vontade de escrever sobre isso. Não como um ataque à “ingenuidade” das pessoas, mas como uma tentativa de entender por que, mesmo com tanto acesso à informação, a gente continua tão suscetível a acreditar rápido demais. E talvez, mais do que isso, o que isso diz sobre a forma como a nossa mente e a nossa sociedade funcionam.

A expressão “credulidade deplorável da humanidade” carrega um julgamento duro: a ideia de que o ser humano seria, por natureza, excessivamente disposto a acreditar — em histórias, autoridades, promessas, medos ou esperanças — mesmo quando faltam provas ou quando a razão sugeriria cautela.

Mas essa “credulidade”, vista com menos indignação e mais atenção, não é apenas um defeito cognitivo. Ela também é uma condição estrutural da vida social.

Desde cedo, a sobrevivência humana depende de acreditar antes de verificar. Ninguém aprende linguagem, moral, ciência ou história sem um vasto campo de confiança: nos pais, nos professores, nos livros, nas instituições. O filósofo David Hume já sugeria que a razão não governa sozinha a vida humana — ela opera sobre um solo mais profundo de hábitos, costumes e crenças compartilhadas.

Nesse sentido, a credulidade não é um “erro da humanidade”, mas o preço de sua inteligência coletiva. Sem ela, não haveria cultura acumulativa, nem ciência, nem tradição.

O problema começa quando essa disposição natural de confiar é explorada. Aí entram os mecanismos que pensadores contemporâneos como Byung-Chul Han e Zygmunt Bauman ajudam a iluminar: sociedades saturadas de informação, mas pobres em critérios sólidos de verificação; ambientes onde o excesso de dados não gera mais verdade, mas mais incerteza — e, paradoxalmente, mais facilidade para crenças simplificadoras.

A credulidade “deplorável”, então, não é universal nem constante. Ela é modulada por contexto: medo, crise econômica, instabilidade política, solidão social e excesso de estímulos digitais aumentam a vulnerabilidade a narrativas fáceis. O ser humano não se torna mais “ingênuo” por essência, mas mais exposto.

Ainda assim, reduzir tudo à ingenuidade humana seria perder o ponto central: a mesma capacidade que nos faz acreditar em falsidades também nos permite sustentar confiança, cooperação e projetos de longo prazo. O desafio não é eliminar a credulidade — isso seria impossível — mas educá-la, refiná-la, torná-la mais exigente.

Penso que talvez o problema não seja a credulidade em si, mas sua falta de disciplina crítica. Uma humanidade sem confiança seria inviável; uma humanidade sem crítica seria manipulável. O equilíbrio entre ambas é menos um estado alcançado do que uma tensão permanente.


domingo, 30 de agosto de 2026

Noites Brancas

Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, é uma pequena obra com a densidade de um romance inteiro — não pela ação, mas pela intensidade do que se passa dentro de um único coração.

Se você nunca leu Noites Brancas, talvez esteja perdendo uma daquelas histórias curtas que ficam ecoando por muito tempo depois da última página: escrita por Fiódor Dostoiévski, ela acompanha um jovem sonhador que, em poucas noites de verão quase eternamente claras, vive um encontro simples e ao mesmo tempo transformador — é um livro sobre solidão, esperança e aquele tipo de amor que pode durar só um instante, mas ainda assim marcar uma vida inteira, com uma delicadeza e uma melancolia que fazem a leitura ser rápida, mas a sensação permanecer.


Um breve resumo

O narrador é “um” jovem solitário de São Petersburgo, um “sonhador” que vive mais em seus pensamentos do que na realidade. Em uma de suas caminhadas noturnas — nessas noites em que o céu nunca escurece por completo — ele conhece Nástienka, uma jovem simples, presa a uma vida igualmente limitada.

Eles passam quatro noites juntos, conversando. Ele se apaixona. Ela, porém, espera outro homem — alguém que prometeu voltar. O narrador, ainda assim, se entrega àquele breve encontro como se fosse toda uma vida.


O sonhador: entre o desejo e a evasão

O jovem narrador de Noites Brancas não tem nome — Fiódor Dostoiévski escolhe deixá-lo anônimo de propósito.

Isso reforça a ideia de que ele é um “tipo” universal: o sonhador solitário, alguém em quem qualquer leitor pode se reconhecer. A ausência de nome torna a experiência mais íntima e simbólica, como se a história pudesse acontecer com qualquer pessoa.

Do ponto de vista psicológico, o protagonista não é apenas solitário — ele é alguém que substitui a vida pela imaginação. Sua condição não é só social, mas existencial. Ele teme o mundo real porque nele há risco, rejeição e imprevisibilidade. Já o mundo interior oferece controle, beleza e sentido.

O amor por Nástienka nasce nesse território: ele não ama apenas quem ela é, mas aquilo que ela representa — uma possibilidade de ruptura com sua própria inércia.

Há aqui uma tensão profunda:

  • viver implica sofrer, mas também transformar-se;
  • sonhar protege, mas aprisiona.

O encontro: quando dois vazios se reconhecem

Nástienka também carrega sua forma de limitação. Presa à avó, literalmente atada por um alfinete à roupa, ela simboliza alguém que quer viver, mas ainda depende de promessas externas.

O encontro dos dois não é exatamente um encontro de plenitudes, mas de carências:

  • ele precisa de um sentido;
  • ela precisa de esperança.

E, por algumas noites, cada um oferece ao outro o que falta. Mas isso não basta para sustentar a realidade.


Filosofia do instante: felicidade como lampejo

A obra sugere algo delicado: a felicidade não precisa ser duradoura para ser verdadeira.

O narrador vive, em poucas noites, algo que nunca havia experimentado — conexão, emoção, entrega. Mesmo sabendo que é frágil, ele aceita esse momento com intensidade quase absoluta.

Aqui surge um ponto filosófico central:

é melhor viver uma ilusão intensa ou uma realidade vazia?

Dostoiévski não responde diretamente — mas mostra que, para o sonhador, o instante vivido já justifica a dor futura.


💔 O final: perda, gratidão e amadurecimento

Quando o homem esperado retorna, Nástienka corre para ele. O narrador é deixado para trás — não com crueldade, mas com inevitabilidade.

E então vem o que torna o final tão poderoso.

Ele não reage com amargura ou revolta. Em vez disso, escolhe agradecer. A experiência, embora breve e unilateral, foi real para ele. Ele prefere preservar a beleza do que viveu do que destruí-la com ressentimento.

Psicologicamente, isso marca um ponto de virada:

  • ele deixa de ser apenas um sonhador passivo;
  • ele experimenta, ainda que pela dor, um contato genuíno com a realidade.

Filosoficamente, o final propõe uma espécie de ética da memória:

há momentos que não são feitos para durar, mas para transformar.


A poesia que permanece

Noites Brancas não é sobre um amor que dá certo — é sobre um amor que acontece. E isso já é suficiente para mudar alguém.

O narrador termina sozinho, sim. Mas não é mais o mesmo homem. Ele agora sabe que pode sentir — e isso, em Dostoiévski, é o primeiro passo para existir de verdade.

 

E você já teve alguma experiência assim?

Diante dos olhos


O que não se percebe

Há uma ironia silenciosa na nossa existência: passamos a vida olhando, mas raramente vemos. A rotina nos treina a reconhecer formas, rostos, caminhos — mas não necessariamente a perceber o sentido que pulsa por trás deles. É como atravessar diariamente a mesma rua e, ainda assim, não notar que há algo ali que nos interpela, que nos chama, que insiste em ser compreendido. O mais curioso é que aquilo que não percebemos não está escondido — está, justamente, diante dos olhos.

No plano filosófico, isso toca diretamente o problema da percepção e da consciência. Martin Heidegger já sugeria que vivemos numa espécie de “esquecimento do ser”: lidamos com as coisas apenas como instrumentos, utilidades, funções. A cadeira serve para sentar, o relógio para ver as horas, a pessoa para cumprir um papel social. Nesse processo, deixamos escapar aquilo que as coisas — e as pessoas — são em sua profundidade. O mundo se torna funcional, mas perde densidade ontológica.

Esse fenômeno não é apenas intelectual, é existencial. Quantas vezes ouvimos alguém sem realmente escutar? Quantas vezes vemos uma dor e a reduzimos a um detalhe inconveniente? O olhar, quando domesticado pela pressa ou pelo hábito, torna-se superficial. Ele passa por cima do real como quem folheia um livro sem ler.

Aqui, a teologia entra não como fuga, mas como aprofundamento. A tradição cristã, por exemplo, está repleta de episódios em que o essencial passa despercebido. No relato dos discípulos a caminho de Emaús, após a ressurreição, eles caminham ao lado de Jesus Cristo sem reconhecê-lo. Falam com Ele, escutam-no, mas não o percebem. O que faltava? Não era visão física — era uma espécie de abertura interior.

Santo Agostinho descreve algo semelhante ao afirmar que Deus estava “mais íntimo do que o mais íntimo meu”. Ou seja, aquilo que buscamos fora, em evidências grandiosas, já estava presente — mas invisível ao olhar distraído. O problema não é a ausência do divino, mas a incapacidade humana de percebê-lo no ordinário.

Isso nos leva a um ponto delicado: talvez não percebamos porque não queremos perceber. Ver de verdade implica responsabilidade. Reconhecer a dor do outro exige resposta. Perceber a própria contradição exige mudança. Há um certo conforto em não ver — uma anestesia que preserva a rotina e evita rupturas.

Por isso, tanto na filosofia quanto na teologia, surge um convite recorrente: olhar para dentro. Não como um gesto de isolamento, mas como um ajuste de foco. O que está diante dos olhos muitas vezes só se revela quando algo em nós se reorganiza. A percepção externa depende de uma disposição interna. Não é apenas o mundo que precisa ser iluminado — é o olhar que precisa ser educado.

Simone Weil dizia que a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade. Talvez porque ela nos obriga a suspender automatismos e realmente nos colocar diante do que é. E isso, no fundo, é um ato espiritual: perceber o real como ele se apresenta, sem reduzi-lo às nossas expectativas ou distrações.

Assim, aquilo que não percebemos diante dos olhos não é necessariamente invisível — é negligenciado. Está ali, insistente, silencioso, esperando um olhar que não apenas passe, mas permaneça. Um olhar que não apenas registre, mas compreenda. E, quem sabe, ao aprender a ver, descubramos que o mundo nunca foi pobre de sentido — nós é que estávamos pobres de atenção.

sábado, 29 de agosto de 2026

Despertar a Solidariedade

O paradoxo do desvio

Há algo de desconfortável — quase provocador — na ideia de que o crime não é apenas uma falha da sociedade, mas também um de seus ingredientes. Intuitivamente, queremos um mundo sem desvios, sem violência, sem transgressões. Ainda assim, Émile Durkheim sugeriu o oposto: uma sociedade completamente “sem crime” seria impossível — e, talvez, até indesejável. O crime, para ele, não é um acidente; é um fenômeno normal que cumpre uma função social. A questão então deixa de ser “como eliminar o crime?” e passa a ser “o que o crime faz pela coesão social?”.


O crime como espelho moral coletivo

Durkheim argumenta que o crime ajuda a definir os limites do aceitável. Ao condenarmos um ato, reafirmamos valores compartilhados. Quando a sociedade reage a uma transgressão, ela não apenas pune o infrator, mas reforça sua própria identidade moral. Em outras palavras, o crime atua como um espelho: revela aquilo que somos ao mostrar aquilo que rejeitamos.

Essa ideia dialoga com o conceito de “consciência coletiva”, central em Durkheim. Sem desvios, essa consciência poderia se tornar invisível — como o ar que só notamos quando falta. Assim, o criminoso, paradoxalmente, contribui para a manutenção da ordem ao desafiar seus limites.


A tensão produtiva: conflito e mudança

Se Durkheim vê o crime como funcional, outros pensadores ampliam essa visão ao enfatizar o papel do conflito. Karl Marx, por exemplo, não celebraria o crime, mas o interpretaria como sintoma das desigualdades estruturais. Para ele, a transgressão pode emergir de condições materiais injustas — e, nesse sentido, aponta para a necessidade de transformação social.

Michel Foucault desloca o foco para os mecanismos de controle. Em sua análise, o crime e sua punição fazem parte de uma rede de poder que disciplina corpos e comportamentos. A resposta social ao crime, portanto, não apenas une — ela também normaliza, vigia e molda.

A convergência desses pensadores revela um ponto crucial: o crime não é apenas um ato individual, mas um fenômeno relacional. Ele emerge da tensão entre normas e indivíduos, entre estrutura e agência. E é nessa tensão que a sociedade se redefine continuamente.


Solidariedade por contraste: um mecanismo ambíguo

A ideia de que o crime fortalece a solidariedade pode ser compreendida como um processo de “união por contraste”. Quando um ato considerado inaceitável ocorre, indivíduos que talvez divergiriam em outros aspectos encontram um terreno comum na condenação daquele ato.

Mas essa solidariedade não é neutra. Ela pode ser inclusiva — reforçando valores de justiça e proteção coletiva — ou excludente, criando estigmas e marginalizações. Aqui, a crítica contemporânea se impõe: até que ponto a coesão social construída em torno da punição não reproduz desigualdades?


Uma leitura contemporânea: solidariedade reflexiva

Em sociedades complexas e plurais, talvez seja necessário ir além da solidariedade automática descrita por Durkheim. Em vez de uma coesão baseada apenas na reação ao desvio, podemos imaginar uma “solidariedade reflexiva” — uma forma de vínculo social que reconhece o conflito, mas busca compreendê-lo antes de simplesmente condená-lo.

Essa perspectiva dialoga com a ideia de justiça restaurativa, na qual o crime não é apenas punido, mas analisado em seu contexto, envolvendo vítimas, ofensores e comunidade. Aqui, a solidariedade deixa de ser apenas reativa e passa a ser construtiva.


O incômodo necessário

O pensamento de Durkheim continua provocador porque nos obriga a encarar um paradoxo: a ordem social depende, em certa medida, daquilo que a ameaça. O crime, longe de ser apenas destrutivo, pode desempenhar um papel estruturante — desde que a sociedade seja capaz de refletir sobre suas próprias respostas.

Talvez o verdadeiro desafio não seja eliminar o desvio, mas transformar a maneira como reagimos a ele. Em vez de uma solidariedade que nasce apenas da exclusão do outro, podemos aspirar a uma solidariedade que emerge da compreensão — uma que não precise do crime para existir, mas que saiba aprender com ele.

Penso que temos criminosos demais, além do tolerável, não temos prisões suficientes para prender todos, o número é desproporcional, sinal de uma sociedade doente que ameaça a si mesma.

Ao mesmo tempo penso que seja compreensível sentir que a sociedade está “doente” diante da percepção de corrupção recorrente no Brasil, mas essa leitura é ampla demais e pode distorcer a realidade: a corrupção existe em muitos países e costuma refletir falhas institucionais, incentivos e níveis de impunidade, não um defeito essencial da população; ao mesmo tempo, há grande parcela da sociedade que rejeita essas práticas, além de órgãos de controle, imprensa e investigações — como a Operação Lava Jato — que expõem e combatem irregularidades, o que pode até aumentar a sensação de que o problema é maior do que antes; assim, o quadro é mais bem descrito como um conjunto de problemas estruturais relevantes convivendo com mecanismos de correção, e não como uma “doença generalizada” da sociedade.

Em vez de concluir que a sociedade do Brasil está “doente”, vale encarar a corrupção como um problema estrutural que pode ser enfrentado com pressão por transparência, fortalecimento das instituições e atitudes cotidianas mais íntegras — afinal, se há falhas que se repetem, também existem mecanismos e pessoas dispostas a corrigi-las, e é nesse equilíbrio que reside a possibilidade real de mudança, que ganha força quando se soma à solidariedade entre cidadãos comprometidos com um país mais justo.Parte superior do formulário

 

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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Autoestima do Mal


Existe uma estranha distorção moral no mundo contemporâneo: nem sempre o mal se apresenta como culpa, remorso ou sombra. Às vezes ele entra pela porta da frente, olha nos olhos e ainda se cumprimenta com orgulho. A isso poderíamos chamar, provocativamente, de “autoestima do mal” — não como essência metafísica do mal, mas como fenômeno psicológico e social em que ações destrutivas são acompanhadas de uma narrativa interna de valor, grandeza e até heroísmo.

O que deveria produzir vergonha, produz identidade. O que deveria fragmentar o sujeito, o organiza.

Byung-Chul Han ajuda a iluminar esse cenário quando descreve a sociedade contemporânea como uma “sociedade do desempenho”. Nela, o sujeito não é mais apenas disciplinado por fora, como no modelo clássico de repressão, mas se autoexplora por dentro. O resultado paradoxal é que até a destrutividade pode ser convertida em performance. Até o crime, em certos contextos, vira linguagem de poder, reputação e visibilidade. O mal deixa de ser apenas transgressão e passa a ser narrativa de si.

Criminosos famosos, figuras violentas ou moralmente destrutivas muitas vezes não operam com uma consciência de “queda”, mas com uma consciência de “ascensão”. Não se veem como falhas éticas, mas como exceções superiores, inteligências incompreendidas ou agentes de um mundo que “não os merecia”. Aqui a autoestima não é um saldo de virtudes, mas uma engenharia simbólica: ela se sustenta mesmo quando o mundo externo colapsa moralmente ao redor do sujeito.

Hannah Arendt, ao falar da banalidade do mal, desloca esse problema para outro eixo: o mal nem sempre exige monstruosidade, às vezes exige apenas ausência de pensamento crítico. Mas há um complemento contemporâneo importante: hoje o mal não é só banal — ele pode ser também autocongratulatório. Ele não apenas acontece; ele se narra como necessário, inevitável ou até virtuoso.

A “autoestima do mal” nasce quando o sujeito consegue converter suas ações destrutivas em justificativas morais privadas. É o momento em que a consciência deixa de ser tribunal e passa a ser assessoria de imprensa. Cada ato encontra uma legenda: “foi por respeito”, “foi por sobrevivência”, “foi justiça”, “foi destino”. O mal não precisa mais negar a moral — ele apenas a reescreve.

Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade líquida, já sugeria que as referências estáveis de valor se dissolveram. Nesse terreno fluido, identidades podem ser construídas com grande liberdade narrativa. E onde tudo pode ser reconstruído, até a culpa perde densidade. O sujeito não precisa mais carregar seus atos como peso; ele pode editá-los, reinterpretá-los, reposicioná-los no mercado simbólico da própria história.

Mas há um ponto mais inquietante: essa autoestima não é apenas individual. Ela pode ser socialmente reforçada. Certos ambientes celebram a transgressão como inteligência, a crueldade como força, e a dominação como sucesso. Assim, o mal deixa de ser apenas um desvio e passa a ser um estilo reconhecido. Quando isso acontece, a autoestima do mal não é mais exceção — é cultura.

O problema filosófico central aqui não é que o mal exista, mas que ele consiga se sentir bem consigo mesmo sem confrontar-se. Uma ética saudável pressupõe fricção interna: dúvida, hesitação, vergonha possível. Quando essa fricção desaparece, o sujeito não se torna apenas perigoso — torna-se impermeável.

Penso que talvez o desafio contemporâneo não seja apenas punir o mal, mas devolver-lhe a capacidade de se estranhar. Porque um mal que se orgulha de si mesmo já não se percebe como mal. E um mal que não se percebe, não encontra limite interno — apenas expansão narrativa.


Superficial como Batom

Um ensaio sobre a estética da desculpa

A gente adora culpar alguma coisa. Antes era o destino, depois os deuses, mais tarde a sociedade — hoje, se possível, a culpa recai até na química do cérebro. “Não sou eu, é a serotonina.” Parece sofisticado, científico, quase elegante. Mas, no fundo, essa troca de culpados tem algo de cosmético: muda a aparência da explicação, não a sua profundidade. É como passar batom numa ferida — chama atenção pela cor, mas não resolve o corte.

Este ensaio parte dessa intuição: a modernidade não abandonou a superficialidade moral, apenas a atualizou. E, para sustentar essa crítica, vale recorrer a pensadores que enfrentaram, cada um à sua maneira, a tentação humana de fugir de si mesmo.

A maquiagem das causas

Friedrich Nietzsche já desconfiava profundamente das justificativas que o homem cria para escapar da responsabilidade. Para ele, muitas explicações morais são, na verdade, racionalizações — formas de dar um verniz nobre a impulsos e fraquezas. O que hoje chamamos de “condição neuroquímica” pode, em certos casos, repetir esse padrão: uma linguagem mais técnica para um velho hábito.

Isso não significa negar a biologia ou a psicologia. Seria absurdo. Mas há uma diferença crucial entre compreender as condições que nos influenciam e usá-las como álibi total. Quando toda ação vira efeito inevitável de um processo externo — seja ele divino, social ou químico — o sujeito desaparece. E, com ele, desaparece também a responsabilidade.

Nietzsche diria: não estamos apenas explicando o comportamento humano, estamos nos escondendo dele.

A fuga da liberdade

Jean-Paul Sartre radicaliza essa ideia ao afirmar que o ser humano está condenado à liberdade. Mesmo cercado por condicionamentos, ainda é ele quem escolhe — nem que seja escolher não escolher. Para Sartre, culpar algo externo de forma absoluta é cair naquilo que ele chama de “má-fé”: fingir que somos objetos determinados, quando, na verdade, somos sujeitos que se definem pelas próprias ações.

Dizer “foi a serotonina” pode ser, nesse sentido, uma forma contemporânea de má-fé. Não porque a serotonina não exista ou não influencie, mas porque a frase pode funcionar como um escudo: uma tentativa de transformar uma decisão complexa em um simples mecanismo inevitável.

A superficialidade aqui não está no conhecimento científico, mas no uso que fazemos dele.

O contrato social da superficialidade

Se antes a fuga da responsabilidade se manifestava em explicações grandiosas, hoje ela também aparece nas pequenas interações cotidianas. Surge, silenciosamente, um “novo contrato social “— não aquele de Jean-Jacques Rousseau, fundado na vontade geral, mas um acordo tácito muito mais modesto e, talvez, mais inquietante: eu finjo que me interesso pelas suas trivialidades, desde que você finja que se interessa pelas minhas.

Nesse pacto, a profundidade é substituída por reciprocidade superficial. Não buscamos compreender o outro, mas manter o fluxo da convivência sem fricção. A escuta torna-se performance, e o diálogo, um teatro de aparências.

Aqui, a superficialidade não é apenas individual, mas compartilhada. É uma cumplicidade silenciosa: ninguém acredita totalmente no interesse do outro, mas todos concordam em sustentar a encenação. Esse acordo reduz o risco de conflito, mas também empobrece a experiência humana, transformando relações em trocas de cortesias vazias.

A corrida pela atenção

Nesse cenário, emerge outro fenômeno decisivo: uma corrida permanente pela atenção. Cada indivíduo, cada discurso, cada gesto compete por alguns segundos do olhar alheio. A atenção torna-se moeda escassa — e, justamente por isso, objeto de disputa incessante.

O paradoxo é evidente: quanto mais todos falam para serem ouvidos, menos alguém de fato escuta. É uma competição sem vencedores. Ganha-se visibilidade momentânea, perde-se densidade. Multiplicam-se vozes, dissolve-se o sentido.

Guy Debord, ao falar da sociedade do espetáculo, antecipou esse movimento: a vida se converte em representação, e a representação exige audiência constante. Mas, numa arena saturada, a vitória é sempre provisória — e o custo, cumulativo. O sujeito se fragmenta na tentativa de manter-se relevante.

O oceano de verborragia

A corrida pela atenção desemboca inevitavelmente em um excesso de linguagem — um verdadeiro oceano de verborragia. Palavras se acumulam, discursos se sobrepõem, opiniões se multiplicam em ritmo vertiginoso. Fala-se muito, diz-se pouco.

Nesse mar, o significado se dilui. A repetição esvazia o conteúdo, a velocidade impede a reflexão, e a abundância de fala cria uma ilusão de profundidade. Como o batom do início, a linguagem colore a superfície, mas raramente alcança a estrutura.

O silêncio, que poderia funcionar como espaço de elaboração, torna-se incômodo — quase suspeito. É preciso falar, opinar, reagir. Não participar desse fluxo é, de certa forma, desaparecer.

O conforto do raso

Por que essa tendência persiste? Porque o raso é confortável. Explicações profundas exigem confronto — com nossas contradições, desejos, incoerências. Já as explicações superficiais oferecem alívio imediato: uma causa clara, um culpado externo, uma narrativa pronta.

Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, mostrou como pessoas comuns podem cometer atos terríveis não por monstruosidade, mas por ausência de reflexão. A superficialidade, nesse caso, não é apenas estética — é ética. É a incapacidade (ou recusa) de pensar até o fundo.

O novo contrato social da trivialidade, aliado à corrida pela atenção e ao oceano de verborragia, reforça esse movimento: quanto menos nos aprofundamos, mais fácil é sustentar a convivência — e menos autêntica ela se torna.

Entre o corpo e a escolha

Nada disso implica negar que somos atravessados por forças biológicas, sociais e históricas. O erro não está em reconhecer essas influências, mas em absolutizá-las. Entre o determinismo total e a liberdade pura, há uma tensão — e é nela que a vida humana acontece.

O mesmo vale para nossas relações: entre a honestidade radical e a cordialidade superficial, existe um espaço difícil, onde o interesse pelo outro não é fingido, mas também não é automático. Exige esforço, presença e, sobretudo, disposição para sair do script — e, talvez, falar menos para escutar mais.

“Superficial como batom” não é apenas uma crítica à vaidade, mas à maneira como explicamos a nós mesmos — e como nos relacionamos com os outros. Trocar o destino pela serotonina não resolve o problema se continuarmos usando explicações como maquiagem. E fingir interesse mútuo não resolve a solidão se o encontro nunca ultrapassa a superfície.

A corrida pela atenção e o oceano de verborragia apenas aprofundam essa condição: todos falam, poucos escutam; todos aparecem, poucos se encontram.

Talvez a tarefa mais difícil — e mais honesta — seja abandonar o conforto dessas camadas e encarar a profundidade incômoda da própria condição humana. Menos cosmética, mais consciência. Menos encenação, mais presença. Menos ruído, mais sentido. Menos desculpa elegante, mais responsabilidade imperfeita.

No fim, o batom pode até colorir a superfície — mas a verdade, quando aparece, exige mais do que aparência: exige silêncio, escuta e encontro.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O Homem Devasso

Entre Astros e Neurotransmissores

Há algo quase cômico — e profundamente humano — na necessidade que temos de culpar alguma coisa fora de nós. Ontem eram o Sol que ardia demais, a Lua que enlouquecia, as estrelas que traçavam destinos inevitáveis. Hoje, com a mesma convicção, apontamos o dedo para a serotonina, a dopamina, os circuitos neuronais. Mudam os nomes, permanece o gesto: deslocar a responsabilidade. Este ensaio não pretende julgar o homem devasso, mas compreendê-lo — não como um desvio moral isolado, e sim como um sintoma recorrente da condição humana.

O homem devasso, aqui, não é apenas o libertino vulgar ou o hedonista caricatural. Ele é o sujeito que se recusa a assumir a autoria de seus impulsos. Sua devassidão não está tanto no excesso de prazer, mas na terceirização da culpa. Em tempos antigos, ele era astronômico: seu comportamento era explicado pelas marés celestes, pelas conjunções planetárias, pela vontade dos deuses. A responsabilidade era cósmica. Hoje, ele se tornou bioquímico: seu humor oscila por causa da serotonina, seu desejo é produto da dopamina, sua ansiedade nasce de um “desequilíbrio químico”. A responsabilidade tornou-se molecular.

O que une essas duas versões — a antiga e a contemporânea — é a mesma estrutura narrativa: a negação da liberdade plena. Quando o homem culpa os astros, ele se dissolve no universo; quando culpa a química cerebral, dissolve-se no corpo. Em ambos os casos, ele evita o peso angustiante de ser livre.

Aqui, a filosofia encontra um ponto delicado. Desde Jean-Paul Sartre, sabemos que a liberdade humana não é um privilégio confortável, mas um fardo inevitável. “Estamos condenados a ser livres”, diria ele. O homem devasso, porém, busca escapar dessa condenação. Ele não nega seus atos — ele nega sua autoria. É uma fuga sofisticada: não se trata de ignorância, mas de uma escolha inconsciente de autoabsolvição.

Mas será que a ciência moderna realmente fornece essa absolvição? A neurociência, ao revelar os mecanismos do cérebro, parece oferecer uma linguagem mais precisa — e, portanto, mais convincente — do que os mitos antigos. No entanto, há um risco conceitual: confundir explicação com justificação. Saber que a serotonina influencia o humor não equivale a dizer que o sujeito está isento de responsabilidade por suas ações. Explicar não é absolver.

O problema central não está na ciência, mas no uso existencial que fazemos dela. O homem devasso contemporâneo instrumentaliza o conhecimento científico como outrora instrumentalizava os mitos. Ele substitui o destino escrito nas estrelas por um destino inscrito nos neurotransmissores. Em ambos os casos, ele constrói uma narrativa de inevitabilidade.

Essa narrativa, contudo, entra em conflito com uma dimensão fundamental da experiência humana: a possibilidade de escolha. Mesmo que condicionados por fatores biológicos, sociais ou históricos, ainda operamos em um espaço de decisão. É nesse intervalo — por menor que seja — que a ética emerge. O homem devasso tenta apagar esse intervalo, transformando tudo em causalidade.

Podemos, então, reinterpretar a devassidão não como excesso de desejo, mas como déficit de responsabilidade. O devasso não é aquele que sente demais, mas aquele que se exime demais. Sua vida é uma sucessão de justificativas elegantes: ontem astrológicas, hoje neuroquímicas.

Talvez a questão mais provocadora seja esta: o progresso do conhecimento nos tornou mais livres ou apenas mais sofisticados em nossas desculpas? Ao abandonar os deuses, não abandonamos a necessidade de explicação — apenas a refinamos. E, com isso, o homem devasso evoluiu: deixou de ser supersticioso para tornar-se cientificamente autoindulgente.

No entanto, há uma possibilidade de ruptura. Reconhecer os condicionamentos — sejam cósmicos ou biológicos — não precisa levar à negação da liberdade. Pelo contrário, pode aprofundá-la. Saber que somos influenciados não implica que somos determinados. A maturidade filosófica talvez resida justamente em sustentar essa tensão: somos, ao mesmo tempo, condicionados e responsáveis.

Assim, o homem devasso pode ser redimido não pela negação de seus impulsos, mas pela reintegração de sua autoria. Não se trata de rejeitar a ciência nem de retornar aos mitos, mas de recusar o uso de ambos como álibis. Entre o Sol e a serotonina, há algo que persiste — e que não pode ser terceirizado: a responsabilidade de existir.

E talvez seja aí que reside a verdadeira liberdade: não em escapar das causas, mas em assumir as consequências.

Verbo e Carne


Há uma estranheza silenciosa na ideia de que algo eterno, invisível e absoluto possa, de repente, ganhar corpo, peso, cansaço… rotina. É como imaginar que um pensamento resolvesse virar gente, pegar fila, sentir frio. E, no entanto, é exatamente isso que está condensado na antiga afirmação do Evangelho de João: “o Verbo se fez carne”.

Essa frase, aparentemente religiosa, é na verdade uma das mais densas intuições filosóficas já formuladas.


O Verbo: mais do que palavra

Antes de virar carne, o Verbo — o Logos — já era uma ideia carregada de sentido na filosofia grega. Em Heráclito, o Logos é a ordem invisível que estrutura o caos do mundo. Em Platão, é o reino das ideias perfeitas.

Ou seja: o Verbo não é só linguagem. É estrutura, razão, sentido.

Quando o cristianismo afirma que esse Logos encarna na figura de Jesus Cristo, ele está propondo algo radical:

o sentido não ficou no céu — ele se arriscou na vida concreta.

 

A Carne: o lugar do risco

A carne, aqui, não é apenas corpo físico. Ela representa tudo aquilo que escapa ao controle:

  • o erro
  • o tempo
  • o desgaste
  • a ambiguidade

A carne é onde as ideias falham.

E é justamente aí que o Verbo decide habitar. Isso inverte completamente a lógica espiritual tradicional. Não é mais subir para o abstrato — é descer para o cotidiano.

 

O escândalo filosófico

Para muitos pensadores, essa união é quase um escândalo.

Søren Kierkegaard dizia que a encarnação é o “paradoxo absoluto”: o infinito tornando-se finito. Já Slavoj Žižek interpreta esse movimento como uma espécie de “queda de Deus no mundo”, um abandono da perfeição em nome da experiência.

Mas talvez o ponto mais provocador seja outro:

se o Verbo virou carne, então o sentido da vida não está fora dela. Está dentro dela.

 

No cotidiano: quando o Verbo tenta viver

A ideia ganha força quando sai da teologia e entra na vida comum.

  • Quando você tenta ser justo num ambiente injusto
  • Quando tenta ser verdadeiro numa conversa difícil
  • Quando tenta manter um princípio mesmo cansado

Ali, o “verbo” (a ideia do que é certo, belo ou verdadeiro) está tentando se fazer “carne”.

E quase sempre… falha parcialmente.

Porque a carne não é perfeita. E talvez nunca tenha sido a intenção que fosse.

 

Entre o ideal e o possível

O drama humano nasce exatamente dessa tensão:

sabemos o que deveríamos ser, mas somos atravessados pelo que conseguimos ser.

Luiz Felipe Pondé costuma lembrar que a espiritualidade real não é heroica — ela é precária, imperfeita, quase sempre contraditória. E talvez seja isso que torna a encarnação uma ideia tão potente:

ela legitima o imperfeito como lugar do sagrado.

 

Uma espiritualidade do chão

Se o Verbo virou carne, então:

  • o café da manhã pode ser um ato filosófico
  • uma conversa banal pode carregar verdade
  • um erro pode conter aprendizado real

A transcendência não desaparece — ela muda de endereço.

Sai do inalcançável e passa a habitar o ordinário.

 

O risco de existir

Talvez o maior ensinamento desse tema não seja teológico, mas existencial:

viver é encarnar ideias imperfeitas em um mundo imperfeito.

Não há pureza total. Não há coerência absoluta. Há tentativa.

O Verbo não veio para eliminar a fragilidade da carne — veio para habitá-la.

E isso muda tudo.

Porque, no fim, a pergunta deixa de ser “qual é o sentido da vida?”

e passa a ser:

o que, em mim, está tentando se tornar real — apesar de tudo?

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O Problema do Mal



Tem coisa que a gente não pergunta em voz alta, mas carrega o tempo todo. Tipo quando vê uma injustiça absurda, uma tragédia gratuita, ou até uma pequena maldade cotidiana — alguém sendo cruel sem motivo. A pergunta vem quase como um reflexo:

Se existe ordem no mundo… por que existe o mal?

E quando essa ordem é pensada como um Deus bom e poderoso, a pergunta fica ainda mais incômoda. Porque aí ela vira quase um impasse:

Se Deus é bom, não quer o mal.

Se é poderoso, pode impedir o mal.

Mas o mal existe.

Então… o que está acontecendo aqui?


Um nó antigo demais

Esse problema não é novo. Epicuro já colocava a questão de forma quase cirúrgica:

Se Deus quer impedir o mal, mas não pode, não é todo-poderoso.

Se pode, mas não quer, não é bom.

Se pode e quer, por que o mal existe?

Séculos depois, Agostinho de Hipona tentou responder de um jeito que marcou profundamente a tradição ocidental: o mal não seria uma “coisa” em si, mas uma ausência de bem, uma espécie de falha, como um buraco numa parede.

Parece elegante. Mas no dia a dia… não convence tão fácil.

Porque quando você vê sofrimento real, perda, violência — aquilo não parece ausência de nada. Parece muito presente.


A liberdade como preço

Uma das respostas mais comuns é: o mal existe porque somos livres.

A ideia é simples: se Deus nos deu liberdade, então abriu espaço para escolhas erradas. Sem essa possibilidade, não haveria amor verdadeiro, nem bondade genuína — só um mundo de robôs programados para fazer o bem.

Alvin Plantinga defendeu algo nessa linha: um mundo com liberdade, mesmo com mal, pode ser melhor do que um mundo perfeitamente controlado.

Faz sentido… até certo ponto.

Porque aí surge outra pergunta:

e o mal que não depende da escolha humana?

Terremotos, doenças, acidentes absurdos. Quem escolheu isso?


O silêncio do mundo

Aqui a coisa fica mais desconfortável. Porque talvez o problema do mal não seja só um problema lógico — seja um problema existencial.

Albert Camus olhava para o mundo e via algo mais radical: não há resposta. O universo é indiferente. O mal não é explicado — ele simplesmente acontece.

E diante disso, o ser humano tem duas opções: fugir para explicações reconfortantes… ou encarar o absurdo de frente.

Camus escolhe a segunda. Para ele, a dignidade está em continuar vivendo, criando sentido, mesmo sem uma justificativa final.


O mal cotidiano

Mas talvez o problema do mal não esteja só nas grandes tragédias. Ele aparece nas pequenas coisas também.

Na palavra que você não precisava ter dito.

Na indiferença diante de alguém que precisava de ajuda.

Na inveja silenciosa, no prazer discreto com o fracasso alheio.

E isso complica ainda mais a questão.

Porque o mal deixa de ser só um problema filosófico distante — e vira algo íntimo. Algo que passa por nós.

Hannah Arendt chamou isso de “banalidade do mal”: não são monstros extraordinários que fazem o mal, mas pessoas comuns, vivendo no automático, sem pensar profundamente sobre o que fazem.

Ou seja: o mal não é só um mistério do universo. É também um descuido da consciência.


E se a pergunta mudar?

Talvez o problema do mal nunca tenha uma resposta definitiva. Talvez toda tentativa de explicação seja, no fundo, uma tentativa de tornar o mundo mais suportável.

Mas existe um pequeno deslocamento possível.

Em vez de perguntar apenas:

“por que o mal existe?”

talvez possamos perguntar também:

“o que faço diante dele?”

Não resolve o enigma. Mas muda a posição.

Você deixa de ser apenas espectador de um problema cósmico — e passa a ser alguém implicado na resposta, ainda que parcial, ainda que imperfeita.


Um último pensamento, sem solução

O problema do mal é, talvez, uma das poucas perguntas que não se deixam domesticar. Ele resiste a sistemas, escapa de respostas prontas.

E talvez seja justamente isso que o torna tão humano.

Porque no fim, entre explicações incompletas e silêncios desconfortáveis, o que sobra é essa tensão:

o mundo não é como deveria ser…

mas ainda assim, a gente insiste em agir como se pudesse, de algum modo, melhorá-lo.

E talvez — só talvez — seja nesse gesto que alguma resposta começa a aparecer.