Quando as tribos voltaram — mas sem território
Outro
dia eu estava numa mesa de bar observando uma conversa que começou inocente.
Alguém comentou sobre um filme recente. Em poucos minutos, o assunto escorregou
para política, depois para economia, e logo cada pessoa parecia falar não mais
como indivíduo, mas como representante de um grupo.
Não
era mais uma conversa entre pessoas — era quase como se tribos invisíveis
tivessem sentado à mesa.
Esse
fenômeno não é apenas impressão. Muitos sociólogos e antropólogos vêm
observando que a sociedade contemporânea, apesar de hiperconectada e
globalizada, parece estar retornando a uma lógica muito antiga: o tribalismo.
Mas
as tribos de hoje não vivem em aldeias. Elas vivem em redes sociais, grupos
ideológicos, estilos de vida e identidades culturais.
As
novas tribos da vida urbana
O
sociólogo francês Michel Maffesoli foi um dos pensadores que melhor
percebeu esse fenômeno. Para ele, a sociedade moderna não eliminou as tribos —
apenas as transformou.
Ele
chamou isso de “tribos urbanas”.
Segundo
Maffesoli, as pessoas buscam pertencimento em pequenos grupos com valores,
símbolos e narrativas compartilhadas. Não é apenas uma questão racional; é
também emocional e simbólica.
Podemos
ver isso todos os dias:
- fãs apaixonados de determinado time
que se reconhecem imediatamente;
- comunidades online que defendem
certas ideias com fervor;
- grupos culturais que compartilham
estética, linguagem e referências.
Essas
tribos oferecem algo que a sociedade moderna muitas vezes enfraqueceu: a
sensação de pertencer a algo maior do que o indivíduo.
O
conforto de estar entre os iguais
Imagine
uma situação comum.
Alguém
entra em um grupo de mensagens com colegas de trabalho. Ali todos compartilham
opiniões muito semelhantes sobre política ou sobre o mundo. As mensagens se
reforçam mutuamente, criando um ambiente confortável.
Quando
surge alguém com uma visão diferente, o clima muda.
A
conversa fica tensa.
O
grupo se fecha.
A
pessoa discordante vira um estranho.
O
sociólogo Zygmunt Bauman, ao falar da modernidade líquida,
observava que vivemos num mundo onde as estruturas sociais são cada vez mais
frágeis. Nesse cenário instável, as pessoas procuram pequenos refúgios
identitários — comunidades onde suas crenças não são questionadas.
As
tribos funcionam como portos seguros psicológicos.
Mas
também podem se transformar em fortalezas contra o outro.
A
lógica do “nós” contra “eles”
O
tribalismo tem uma característica quase universal: a divisão entre “nós” e
“eles”.
A
antropologia conhece bem esse mecanismo. Desde sociedades antigas até grupos
modernos, o pertencimento muitas vezes se fortalece pela oposição.
O
filósofo francês René Girard estudou como comunidades frequentemente se
unem ao identificar um adversário comum. O conflito cria coesão.
Na
vida cotidiana isso aparece de formas curiosas.
Num
escritório:
- o departamento comercial culpa o
financeiro;
- o financeiro critica o
administrativo;
- o administrativo reclama da
diretoria.
Cada
grupo constrói sua narrativa interna.
Nas
redes sociais o fenômeno é ainda mais visível. Pequenas divergências se ampliam
rapidamente até formar campos opostos, quase como torcidas organizadas
da opinião.
As
bolhas invisíveis
Outro
fator importante no tribalismo contemporâneo são os algoritmos das plataformas
digitais.
Sem
perceber, cada pessoa começa a ver apenas conteúdos que confirmam suas
próprias ideias. Aos poucos forma-se uma espécie de bolha cognitiva.
O
sociólogo britânico Anthony Giddens dizia que a modernidade nos obriga
constantemente a refletir sobre nossas escolhas e identidades. Porém, quando
estamos dentro de bolhas sociais muito fechadas, essa reflexão pode diminuir —
porque quase ninguém ao redor pensa diferente.
É
como morar numa cidade onde todos concordam com você.
A
sensação é agradável, mas a compreensão do mundo pode ficar limitada.
Tribos
até nas pequenas coisas
O
curioso é que o tribalismo não aparece apenas em temas grandes como política ou
religião.
Ele
surge em situações bastante simples:
- pessoas que defendem com paixão um
sistema operacional de celular;
- grupos que discutem ferozmente qual é
o melhor método de treinamento físico;
- fãs de determinadas séries ou
universos culturais que se identificam como se fossem parte de um clã.
À
primeira vista parece algo trivial.
Mas
sociologicamente isso revela um traço profundo da natureza humana: precisamos
de pertencimento.
Talvez
a modernidade não tenha eliminado as tribos. Talvez apenas tenha multiplicado
elas.
Entre
o pertencimento e o fechamento
O
tribalismo não é necessariamente negativo. Sem grupos, comunidades ou
identidades compartilhadas, a vida social seria impossível.
O
problema surge quando o pertencimento vira fechamento.
Quando
a tribo deixa de ser um espaço de convivência e passa a ser um filtro que
impede qualquer diálogo com quem está fora dela.
Talvez
o desafio do nosso tempo seja justamente esse: aprender a pertencer sem se
aprisionar.
Ou,
como sugeria o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, compreender que as
culturas e os grupos humanos estão sempre em transformação e mistura.
No
fundo, nenhuma tribo é completamente pura.
E
talvez a maturidade social consista justamente em perceber isso:
somos
membros de muitas tribos ao mesmo tempo — e, às vezes, atravessar as fronteiras
entre elas é o que realmente amplia nossa visão do mundo.


