Afetos curados, silêncios programados
Começa
quase sempre assim: você abre uma tela em busca de distração e encontra, sem
procurar, exatamente aquilo que “queria”. Um vídeo que prolonga seu humor, uma
opinião que confirma sua suspeita, uma indignação que parece justa demais para
ser questionada. Nada disso é inteiramente acaso. Há uma curadoria silenciosa
operando — não editorial, mas algorítmica — que aprende a modular seus afetos
antes mesmo que você os reconheça como seus.
O
que chamamos de mediações invisíveis não é apenas a filtragem de
conteúdo, mas um regime de sensibilidade. Os algoritmos não organizam somente
informações; eles organizam a experiência. Selecionam o que aparece, calculam o
que provavelmente nos deterá, repetem o que produziu uma reação e silenciam,
por simples ausência de circulação, aquilo que não corresponde à lógica da
retenção.
A
questão filosófica, portanto, desloca-se. Já não basta perguntar: “O que
estamos vendo?” É preciso perguntar: “Quem — ou o quê — está organizando
as condições pelas quais algo pode ser visto, sentido e desejado?”
É
nesse ponto que a velha noção de mediação adquire uma dimensão nova.
Tradicionalmente, reconhecíamos os mediadores: o jornalista, o professor, o
editor, o crítico, o partido, a instituição religiosa, o Estado. Havia alguém
ou alguma instituição identificável entre o acontecimento e sua representação.
A mediação algorítmica introduz outra situação: o mediador permanece
parcialmente invisível. Ele não desaparece; torna-se infraestrutural.
O
algoritmo não precisa dizer “pense assim”. Basta organizar o ambiente no qual
determinadas coisas aparecem com maior frequência, intensidade e proximidade.
Seu poder não consiste necessariamente em proibir, mas em hierarquizar o
aparecimento.
É
aqui que Michel Foucault continua sendo indispensável. Sua análise do
poder mostra que o poder moderno não se limita à repressão. Ele produz
comportamentos, saberes, classificações e formas de subjetividade. O poder
funciona também através dos dispositivos que tornam certas condutas possíveis,
desejáveis ou normais.
A
plataforma digital pode ser compreendida, nesse sentido, como um dispositivo
contemporâneo: uma rede na qual tecnologia, economia, linguagem, dados e comportamento
se articulam. O indivíduo não está simplesmente diante da máquina; está
inserido em um sistema que aprende com ele enquanto o influencia.
Mas
a especificidade contemporânea aparece quando aproximamos Foucault de Gilles
Deleuze. Em seu célebre texto sobre as sociedades de controle, Deleuze
percebe uma transformação decisiva: o poder já não depende primordialmente de
espaços fechados e instituições disciplinares. Ele passa a operar por modulação
contínua.
O
algoritmo é uma espécie de máquina de modulação. Não precisa interromper nossa
ação; acompanha-a. Não precisa determinar absolutamente nosso comportamento;
calcula probabilidades. Não precisa ordenar: recomenda.
A
diferença é decisiva.
O
poder deixa de aparecer como uma instância exterior que diz “você deve”
e passa a funcionar como uma infraestrutura que sugere “você talvez goste
disso”.
É
justamente nesse “talvez” que a mediação algorítmica encontra uma de suas
formas mais sofisticadas.
A
passagem da disciplina à sedução
É
nesse ponto que Byung-Chul Han pode ser incorporado à discussão sem
substituir Foucault ou Deleuze, mas radicalizando uma pergunta
que ambos nos ajudam a formular: o que acontece quando o poder deixa de
precisar se apresentar como poder?
Para
Han, a sociedade contemporânea deslocou-se de um modelo baseado
predominantemente na negatividade — proibição, repressão, limite — para um
modelo de positividade. Já não somos simplesmente sujeitos que obedecem porque
alguém ordena. Somos estimulados a produzir, comunicar, expor, participar e
otimizar a nós mesmos.
O
poder torna-se mais eficiente quando consegue transformar a liberdade em
instrumento de controle.
Essa
intuição é particularmente fecunda para compreender as plataformas digitais. O
usuário aparentemente escolhe tudo: o vídeo que assiste, a postagem que
compartilha, a pessoa que segue, a opinião que comenta, o conteúdo que rejeita.
Entretanto, suas escolhas alimentam o sistema que, por sua vez, reorganiza o
campo de escolhas futuras.
A
liberdade, assim, torna-se circular.
Escolhemos
aquilo que o sistema aprende a nos oferecer, e o sistema aprende a nos oferecer
aquilo que escolhemos.
Não
há aqui uma conspiração secreta nem um controlador absoluto. Há algo talvez
mais inquietante: um circuito sem centro evidente.
É
nesse sentido que a psicopolítica de Han ilumina a questão. O poder
contemporâneo não necessita apenas controlar corpos; ele busca acessar desejos,
preferências, emoções e padrões de comportamento. Os dados tornam-se uma
espécie de matéria-prima para antecipar condutas.
O
sujeito acredita estar se expressando livremente, enquanto sua expressão se
converte em dado; o dado torna-se previsão; a previsão retorna como estímulo; e
o estímulo influencia novamente sua expressão.
A
subjetividade entra no circuito econômico.
A
exploração do afeto
Aqui
surge uma hipótese mais radical: o algoritmo não explora somente nossa
atenção; ele explora nossa capacidade de ser afetados.
A
atenção é apenas a superfície econômica de uma dinâmica mais profunda.
A
indignação, por exemplo, possui uma qualidade particularmente rentável:
interrompe. O medo captura. A surpresa retém. O conflito produz comentários. A
identificação estimula compartilhamentos. A confirmação de uma crença produz
satisfação. A contradição, quando suficientemente provocativa, pode produzir
ainda mais engajamento.
Dessa
perspectiva, a curadoria algorítmica não organiza simplesmente conteúdos. Ela
organiza intensidades afetivas.
O
que importa não é apenas aquilo que pensamos, mas aquilo que nos faz
permanecer.
E
aqui Han encontra Deleuze de maneira particularmente produtiva.
Se Deleuze descreve um poder que modula continuamente os fluxos, Han permite
perceber que essa modulação ocorre cada vez mais através da positividade, da
participação e do desejo.
Não
somos necessariamente obrigados a permanecer na plataforma.
Somos
convidados a permanecer.
Essa
diferença é filosoficamente enorme.
A
porta da prisão foi substituída pela interface.
O
paradoxo da transparência
Han
também ajuda a compreender outro aspecto fundamental das mediações invisíveis:
a transformação da transparência em instrumento de poder.
As
plataformas solicitam que revelemos preferências, hábitos, relações, opiniões,
deslocamentos, desejos e estados de ânimo. Quanto mais interagimos, mais
legíveis nos tornamos para os sistemas.
Mas
ocorre uma assimetria radical: nós nos tornamos transparentes para o
sistema, enquanto o sistema permanece opaco para nós.
Sabemos
cada vez mais sobre nós mesmos como usuários porque vemos nossas métricas,
recomendações e históricos. Entretanto, não sabemos plenamente por que
determinada coisa apareceu diante de nós naquele momento e outra desapareceu.
A
transparência, portanto, não é distribuída igualmente.
O
sujeito oferece visibilidade; o sistema conserva opacidade.
É
uma assimetria que transforma a própria experiência da liberdade. Posso
escolher, mas não vejo integralmente a arquitetura que organiza o campo das
minhas escolhas.
A
invisibilidade da mediação torna-se, assim, uma forma de poder.
O
silêncio também é produzido
Talvez
este seja o ponto mais importante.
Quando
falamos em censura, imaginamos uma voz sendo retirada. Mas a curadoria
algorítmica pode produzir algo muito mais sutil: um discurso pode permanecer
disponível e, ainda assim, tornar-se socialmente inaudível.
Não
é necessário apagar.
Basta
não recomendar.
Não
é necessário proibir.
Basta
reduzir a circulação.
Não
é necessário silenciar uma voz.
Basta
colocá-la numa posição em que quase ninguém a encontre.
O
silêncio algorítmico não é necessariamente o silêncio da ausência; é o silêncio
da irrelevância produzida.
Isso
modifica profundamente nossa compreensão da esfera pública. A existência de uma
opinião na internet não significa que ela participe efetivamente do espaço
público. Entre “estar disponível” e “ser encontrado” existe toda uma
arquitetura de mediações.
A
democracia digital, nesse sentido, não depende apenas do direito de falar.
Depende também das condições técnicas de aparecimento da fala.
Quando
o algoritmo aprende nossos afetos
Há
ainda uma inversão particularmente inquietante.
O
algoritmo começa observando nossos comportamentos. Depois identifica padrões.
Em seguida, passa a prever nossas preferências. Finalmente, começa a oferecer
estímulos capazes de reproduzir o comportamento previsto.
Nesse
momento, a máquina deixa de ser apenas observadora.
Ela
participa da formação daquilo que observa.
Se
uma pessoa reage frequentemente a conteúdos de indignação, recebe mais
indignação. Ao receber mais indignação, reage ainda mais. O sistema interpreta
essa reação como confirmação de uma preferência. A preferência reforça a
recomendação. A recomendação intensifica a disposição afetiva.
Forma-se
um circuito:
afeto
→ interação → dado → previsão → recomendação → novo afeto.
A
mediação torna-se então produtiva. Ela não apenas representa um sujeito que já
existia; participa da fabricação de suas disposições.
É
aqui que a hipótese das mediações invisíveis alcança sua consequência mais
radical: o algoritmo não precisa saber exatamente quem somos para
influenciar quem nos tornamos.
Basta
reconhecer padrões em nossos comportamentos.
A
bolha não é apenas cognitiva
Costumamos
falar em “bolhas” como se fossem fenômenos essencialmente intelectuais: pessoas
recebem apenas opiniões semelhantes às suas e passam a acreditar cada vez mais
nelas.
Mas
existe uma dimensão afetiva ainda mais profunda.
Podemos
viver dentro de uma bolha emocional.
Não
apenas vemos ideias semelhantes; experimentamos repetidamente atmosferas
semelhantes. Se o sistema percebe que determinada indignação nos prende, ele
pode nos manter dentro de uma atmosfera de indignação. Se percebe que
determinado tipo de humor nos satisfaz, pode reproduzir continuamente aquela
tonalidade emocional.
Assim,
a personalização não personaliza apenas o conteúdo.
Ela
pode personalizar o clima afetivo da existência.
É
possível que duas pessoas habitem a mesma cidade, atravessem as mesmas ruas e
compartilhem o mesmo acontecimento histórico, mas experimentem atmosferas
digitais radicalmente diferentes.
Uma
vive em permanente emergência.
Outra
vive em permanente entretenimento.
Outra
em permanente indignação.
Outra
em permanente nostalgia.
A
cidade é a mesma.
O
mundo, não.
O
desaparecimento do inesperado
Há
algo ainda mais profundo nessa lógica.
Uma
experiência humana rica não é feita apenas daquilo que desejamos encontrar. Ela
também depende do encontro com aquilo que não sabíamos desejar.
A
surpresa possui valor justamente porque não foi antecipada.
O
outro é importante porque não coincide conosco.
A
descoberta começa muitas vezes quando encontramos algo que não corresponde ao
nosso perfil.
Mas
a curadoria algorítmica possui uma tendência estrutural à previsibilidade.
Quanto melhor consegue prever aquilo que nos prenderá, mais eficiente se torna
comercialmente.
O
problema é que aquilo que é eficiente para a previsão pode ser empobrecedor
para a experiência.
A
máquina aprende nosso gosto; o risco é começarmos a viver dentro dele.
Nesse
ponto, a crítica às mediações algorítmicas não deve ser reduzida a uma
nostalgia de um passado sem tecnologia. O problema não é existir mediação. Toda
experiência humana é mediada. Linguagem, cultura, memória, instituições e
relações sociais sempre filtraram o mundo.
O
problema é uma forma de mediação que se apresenta como neutralidade técnica
enquanto realiza escolhas econômicas, políticas e afetivas.
A
questão política
A
política do século XXI talvez precise deslocar parte de sua atenção.
Não
basta perguntar quem controla os governos, os meios de comunicação ou as
instituições.
É
preciso perguntar:
quem
controla as condições de visibilidade?
Quem
decide o que aparece primeiro?
O
que merece repetição?
O
que será recomendado?
O
que será esquecido?
Quais
afetos são economicamente valiosos?
Quais
comportamentos são transformados em padrões?
Quais
diferenças são classificadas como ruído?
Essas
perguntas indicam que o poder contemporâneo não está apenas no conteúdo das
mensagens, mas na arquitetura de sua circulação.
A
disputa política desloca-se, então, da propriedade da informação para a governança
da atenção e da sensibilidade.
Para
além da denúncia
Entretanto,
seria insuficiente concluir que estamos simplesmente dominados pelos
algoritmos.
A
crítica filosófica não deve produzir outro fatalismo.
Foucault
nos ensina que onde há poder há também possibilidades de resistência. Deleuze
sugere que os dispositivos de controle nunca esgotam completamente os
fluxos da vida. Han, apesar de seu diagnóstico sombrio, permite perceber
que a liberdade contemporânea precisa ser repensada não apenas como ausência de
coerção, mas como capacidade de interromper os circuitos que nos capturam.
A
resistência às mediações invisíveis talvez comece por uma prática aparentemente
simples: recuperar a capacidade de não responder imediatamente.
Não
clicar.
Não
compartilhar.
Não
transformar toda emoção em publicação.
Não
aceitar toda recomendação como descoberta.
Procurar
deliberadamente aquilo que o sistema não ofereceu.
Escutar
aquilo que não confirma.
Encontrar
o que não foi otimizado para nós.
Talvez
seja necessário recuperar o direito filosófico à desorientação.
Uma
política do desvio
Se
a lógica algorítmica procura prever nossos próximos movimentos, uma forma
elementar de resistência consiste em produzir movimentos que não sejam
facilmente previsíveis.
Não
se trata de sabotagem tecnológica, mas de uma ética do desvio.
Ler
contra a recomendação.
Conversar
com quem pensa diferente.
Abandonar
temporariamente o fluxo.
Frequentar
espaços onde não existem métricas de engajamento.
Permitir
que uma experiência permaneça sem ser transformada imediatamente em dado.
Recuperar
o tédio.
Recuperar
o silêncio.
Recuperar
o tempo não produtivo.
Nesse
sentido, a resistência pode começar exatamente onde Han identifica uma
das patologias do presente: na recusa da obrigação permanente de produzir,
comunicar e expor.
Talvez
seja preciso produzir menos sinais para recuperar alguma opacidade.
Conclusão:
devolver o mundo ao inesperado
As
mediações invisíveis representam uma transformação profunda na relação entre
tecnologia e subjetividade. O algoritmo não é apenas uma ferramenta que
organiza conteúdos; ele participa da organização das condições de aparecimento
do mundo.
Foucault
nos
permite compreender o poder como produção de subjetividades.
Deleuze
nos ajuda a perceber sua passagem para a modulação contínua.
Han
mostra
como essa modulação pode abandonar a aparência da repressão e penetrar na
subjetividade através da liberdade, da exposição, do desejo e da participação.
Juntos,
esses autores permitem formular uma hipótese contemporânea:
o
poder mais sofisticado talvez não seja aquele que nos impede de ver, mas aquele
que faz com que desejemos ver repetidamente aquilo que ele já aprendeu a nos
oferecer.
Nesse
cenário, a liberdade não desaparece. Ela se torna mais ambígua.
Continuamos
escolhendo — mas nossas escolhas acontecem dentro de ambientes previamente
modulados.
Continuamos
sentindo — mas alguns sentimentos encontram uma infraestrutura muito mais
favorável à sua circulação do que outros.
Continuamos
falando — mas nem toda fala recebe a mesma possibilidade de aparecer.
E
continuamos acreditando que estamos simplesmente encontrando o mundo.
Talvez,
entretanto, estejamos encontrando apenas uma versão do mundo que aprendeu a nos
encontrar.
A
tarefa filosófica do presente, portanto, não é sonhar com uma experiência sem
mediações. Isso seria impossível. É tornar perceptíveis as mediações que
pretendem permanecer invisíveis.
Pois
talvez a liberdade contemporânea comece no instante em que conseguimos
perguntar, diante daquilo que aparece em nossa tela:
por
que justamente isto?
E,
sobretudo:
o
que não estou vendo porque aprendeu-se que eu não deveria querer vê-lo?
A
primeira pergunta desconfia do algoritmo.
A
segunda começa a recuperar o mundo.