Tem dias
em que a gente cruza com dezenas de pessoas — no trabalho, na rua, em casa — e,
ainda assim, fica com a sensação de que ninguém realmente se encontrou. Como se
houvesse sempre uma camada invisível entre olhar e ver de verdade. Foi pensando
nesse tipo de distância silenciosa que surgiu este ensaio: sobre o olhar que,
em vez de aproximar, acaba isolando.
Existe
um tipo de olhar que não aproxima — separa.
Não é o
olhar distraído de quem passa na rua, nem o olhar cansado de fim de dia. É
outro tipo de coisa. É aquele olhar que, no instante em que encontra o outro,
já o reduz a alguma coisa: um rótulo, uma função, uma impressão rápida demais
para ser justa.
Você já
sentiu isso. Entra em um lugar e percebe que não está sendo visto como alguém
inteiro, mas como “mais um”, ou pior, como algo já definido antes mesmo de você
abrir a boca. É um olhar que não pergunta — conclui.
E o
curioso é que esse mesmo olhar também mora na gente.
No
cotidiano, ele aparece em pequenos gestos quase automáticos. No trabalho,
quando alguém vira só “o problema” ou “o incompetente”. Na família, quando um
parente fica preso para sempre em um papel antigo, como se nunca pudesse mudar.
Até nas relações mais próximas, quando deixamos de ver o outro como alguém em
transformação e passamos a vê-lo como uma versão fixa.
Esse
olhar isola porque congela.
Jean-Paul
Sartre tocou nesse ponto de um jeito direto: quando somos olhados
pelo outro, corremos o risco de nos tornar objeto naquele olhar. Deixar de ser
liberdade viva e virar “algo definido”. E isso cria uma tensão estranha — ao
mesmo tempo em que precisamos do olhar do outro para existir socialmente,
também podemos ser aprisionados por ele.
Mas o
mais sutil não é quando somos vítimas desse olhar — é quando passamos a
adotá-lo sem perceber.
A gente
começa a se olhar com os mesmos filtros rígidos. “Eu sou assim”, “eu não
consigo”, “isso não é para mim”. De tanto repetir essas frases, o olhar que
antes vinha de fora se instala por dentro. E aí o isolamento se aprofunda: não
é mais só entre pessoas, é dentro da própria experiência de viver.
Você
continua vivendo, mas dentro de um personagem fixo.
E aqui
entra um ponto delicado: esse olhar não surge do nada. Ele muitas vezes nasce
da pressa. Ver alguém de verdade exige tempo, exige suspensão de julgamento,
exige aceitar que o outro (e nós mesmos) é mais contraditório do que
gostaríamos.
Então a
gente simplifica.
Só que
essa simplificação cobra um preço alto: ela empobrece o mundo. Porque um mundo
onde as pessoas já estão definidas de antemão é um mundo sem descoberta — e, no
limite, sem encontro real.
Talvez o
movimento mais difícil — e mais necessário — seja reaprender a olhar.
Olhar
alguém como se ainda não estivesse pronto. Como se houvesse algo ali que você
ainda não captou. E fazer isso consigo mesmo também: suspender, por um momento,
as definições antigas e permitir que algo novo apareça.
Não é um
gesto grandioso. É quase invisível.
Mas é
justamente esse pequeno deslocamento que quebra o isolamento.
Porque,
no fundo, o olhar que isola não é o que vê demais — é o que vê de menos.

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