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domingo, 11 de outubro de 2026

Ideias como Fogo


Tem uma coisa curiosa nas ideias: elas não ficam paradas. A gente gosta de pensar que tem controle sobre o que pensa, mas, na prática, muita coisa simplesmente chega — como uma faísca. Às vezes vem de uma conversa de bar, de um vídeo qualquer, de um comentário jogado sem pretensão. E pronto: acendeu. Quando você percebe, aquela ideia já não é mais só de quem falou. Ela virou sua também.

Talvez seja por isso que a metáfora do fogo funcione tão bem. Ideias queimam, aquecem, iluminam — mas também podem consumir. E, acima de tudo, se espalham. Um pensamento dito em voz baixa pode atravessar anos, atravessar pessoas, atravessar culturas. O que começou como um sussurro pode terminar como um incêndio.

No cotidiano, isso acontece o tempo todo, só que de forma quase invisível. Pense em uma expressão que você usa sem saber de onde veio. Ou uma opinião que você repete com convicção, mas nunca parou para questionar a origem. Ideias não precisam de autorização para circular. Elas passam de pessoa em pessoa como se procurassem um novo lugar para se instalar.

E aqui começa um ponto interessante: será que as ideias são realmente “nossas”? Ou somos apenas um meio por onde elas passam?

Se observarmos com atenção, percebemos que pensar é, muitas vezes, reorganizar aquilo que já recebemos. A gente escuta, absorve, transforma um pouco — e repassa. Nesse sentido, cada pessoa é como uma fogueira improvisada: pega o fogo de outro lugar, muda o formato da chama, mas continua alimentando o mesmo processo.

Mas nem todo fogo é igual. Algumas ideias aquecem — são aquelas que criam, que aproximam, que ampliam horizontes. Outras queimam no pior sentido — espalham medo, ódio, intolerância. E, no entanto, ambas seguem a mesma lógica de transmissão. O problema não está apenas na ideia em si, mas na facilidade com que ela encontra combustível.

Hoje, com redes sociais, isso fica ainda mais evidente. Uma frase mal interpretada, uma opinião impulsiva, um julgamento apressado — tudo pode ganhar proporções gigantescas em questão de horas. Nunca foi tão fácil incendiar o mundo com palavras. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil controlar o alcance desse fogo.

O que nos leva a uma questão ética inevitável: qual é a nossa responsabilidade nesse processo?

Se somos portadores de ideias, também somos, de certa forma, guardiões do fogo. Podemos escolher o que alimentamos e o que deixamos apagar. Podemos questionar antes de compartilhar, refletir antes de afirmar, interromper a propagação de ideias destrutivas — ou, pelo menos, não reforçá-las.

Mas isso exige um tipo raro de atenção. Porque o fluxo das ideias é rápido, sedutor e, muitas vezes, confortável. É mais fácil repetir do que pensar. Mais fácil aderir do que questionar. O fogo, afinal, já está aceso — basta se aproximar.

Talvez a verdadeira liberdade intelectual não esteja em criar ideias totalmente novas — algo que pode ser até impossível —, mas em escolher conscientemente quais ideias deixamos viver através de nós.

No fim, cada um de nós é menos um “dono” de pensamentos e mais um ponto de passagem. Um elo em uma corrente invisível onde o que pensamos hoje pode influenciar alguém amanhã, que influenciará outro depois, e assim por diante.

Ideias como fogo não pertencem a ninguém. Mas o modo como elas se espalham — isso, sim, depende de nós.


Tese Perversa

Ensaio filosófico sobre a arte de transformar o mal em virtude e a mentira em verdade.

E se o problema não fosse o mal, mas a maneira como o justificamos?

Vamos começar com uma ideia um tanto desconfortável: ninguém precisa se considerar perverso para praticar a perversidade. Na verdade, talvez uma das formas mais sofisticadas do mal seja aquela que consegue convencer seu autor de que está fazendo a coisa certa.

Pense no político que mente dizendo que protege a democracia, no empresário que explora trabalhadores em nome do progresso ou no indivíduo que humilha alguém alegando estar apenas dizendo a verdade. Em todos esses casos, existe algo mais interessante do que a simples oposição entre o bem e o mal: existe uma operação intelectual pela qual uma ação questionável ganha uma justificativa moralmente aceitável.

É nesse ponto que nasce a ideia de uma tese perversa: uma construção de pensamento que não precisa negar a verdade, porque pode manipulá-la; que não precisa destruir a moral, porque pode utilizá-la; e que não precisa eliminar a justiça, porque pode apresentar a própria injustiça como necessária.

A perversidade, nesse sentido, não seria apenas uma qualidade de pessoas más. Seria também uma possibilidade estrutural do pensamento humano: a capacidade de produzir razões para legitimar aquilo que, sob outro olhar, deveria ser questionado.

A questão central deste ensaio é simples, mas inquietante: e se a perversidade mais perigosa não fosse aquela que combate o bem, mas aquela que aprende a falar em nome dele?

A perversidade como inversão da verdade

Costumamos imaginar a mentira como o contrário da verdade e a perversidade como o contrário da bondade. Essa interpretação é confortável porque nos permite separar o mundo em dois campos: de um lado, aqueles que agem corretamente; do outro, aqueles que deliberadamente praticam o mal.

Entretanto, a experiência cotidiana revela uma realidade mais complexa. Muitas injustiças não são praticadas por pessoas que declaram odiar a justiça. São praticadas por pessoas que acreditam possuir razões suficientes para suspendê-la.

O funcionário que falsifica um documento para favorecer um amigo pode dizer que está apenas ajudando alguém. O governante que restringe liberdades pode afirmar que está protegendo a população. A pessoa que controla o parceiro pode chamar seu comportamento de amor.

Em todos esses exemplos, a perversidade não se manifesta necessariamente pela ausência de valores, mas pela deformação de seu significado.

O amor transforma-se em posse. A segurança converte-se em vigilância. A justiça torna-se vingança. A liberdade passa a significar o direito de fazer qualquer coisa, independentemente das consequências para os outros.

Surge, então, uma hipótese filosófica: a perversidade começa quando um valor deixa de servir à vida humana e passa a servir à justificação de quem o invoca.

O problema já não é simplesmente possuir uma ideia errada. É utilizar uma ideia potencialmente legítima para proteger uma prática que não suportaria ser examinada sem disfarces.

A perversidade é, assim, uma espécie de contrabando moral: introduz-se uma injustiça dentro de uma linguagem de justiça, esperando que a nobreza das palavras esconda a natureza dos atos.

Maquiavel e a necessidade de parecer virtuoso

A política, a aparência e a conservação do poder.

Maquiavel ajuda a compreender como a imagem pública da virtude pode adquirir uma importância política independente da conduta efetiva de quem governa.

Em O Príncipe, Maquiavel examina a relação entre poder, necessidade política e aparência moral. Sua reflexão não deve ser reduzida à ideia popular de que os fins justificam os meios, mas permite investigar um problema decisivo: a distância entre parecer virtuoso e agir virtuosamente.

Um governante precisa ser percebido como justo, confiável e comprometido com o bem comum. Porém, essa percepção não garante que suas decisões correspondam às virtudes que ele representa.

É justamente nessa distância que a tese perversa encontra terreno fértil.

Imagine um governante que anuncia uma política pública em nome da proteção dos mais pobres, mas estrutura sua execução para beneficiar grupos economicamente poderosos. A linguagem oficial promete inclusão; os resultados concretos reproduzem a exclusão.

A perversidade não está apenas na eventual mentira. Está na utilização da esperança coletiva como instrumento de conservação do poder.

O cidadão não é convencido de que a injustiça é boa. É levado a acreditar que determinada injustiça nem sequer é injustiça, porque foi apresentada como uma etapa inevitável de um projeto maior.

A tese perversa, portanto, não precisa convencer todos de uma falsidade explícita. Basta organizar a interpretação dos fatos de modo que a realidade se torne moralmente invisível.

E aqui aparece uma primeira conclusão: o poder torna-se perverso quando exige que a população julgue suas intenções pelas promessas e deixa de aceitar que suas ações sejam julgadas pelas consequências.

Nietzsche: quando os valores escondem ressentimentos

A genealogia dos valores e a crítica das justificações morais.

Nietzsche convida-nos a investigar não apenas se um valor é declarado bom, mas também como surgiu, a que necessidades responde e que formas de poder pode esconder.

Nietzsche oferece uma contribuição especialmente provocadora para pensar a perversidade: os valores morais não devem ser tratados como realidades acima de qualquer suspeita. É necessário perguntar quem os formula, em quais circunstâncias e com quais efeitos.

Uma pessoa pode condenar publicamente a arrogância alheia enquanto alimenta secretamente o desejo de humilhar. Pode defender a humildade não porque respeita os outros, mas porque deseja impedir que alguém manifeste uma força ou uma liberdade que ela própria não possui.

Isso não significa que toda defesa da humildade seja ressentida, nem que os valores morais sejam necessariamente máscaras. Significa que as justificações morais também merecem investigação.

Considere as redes sociais. Alguém publica uma mensagem em defesa da dignidade humana e, logo depois, participa de uma campanha de humilhação contra uma pessoa que pensa de maneira diferente. A defesa da dignidade torna-se seletiva: vale para quem pertence ao grupo, mas deixa de valer para quem é considerado inimigo.

A moral, nesse caso, não desapareceu. Foi dividida entre os que merecem proteção e os que supostamente merecem desprezo.

É aqui que a tese perversa se revela em sua dimensão psicológica: podemos transformar nossas preferências, medos e ressentimentos em princípios aparentemente universais.

O indivíduo já não diz: “Quero punir essa pessoa porque me sinto ameaçado”. Diz: “Estou defendendo os valores da sociedade”.

A linguagem moral passa a funcionar como uma autorização para satisfazer impulsos que, apresentados em sua forma original, talvez provocassem vergonha.

A pergunta nietzschiana que devemos fazer não é apenas “isso é bom ou mau?”, mas também: que desejo se esconde por trás da necessidade de chamar isso de bom?

Hannah Arendt: a perversidade sem monstros

A banalidade do mal e a responsabilidade de pensar.

Arendt mostrou, em sua análise do julgamento de Adolf Eichmann, como a obediência burocrática e a incapacidade de julgar podem participar de crimes extremos.

Talvez a perversidade mais assustadora não seja a do indivíduo que sente prazer em praticar o mal, mas a daquele que deixa de considerar o significado moral daquilo que faz.

Em Eichmann em Jerusalém, Arendt desenvolveu a conhecida reflexão sobre a banalidade do mal. Isso não significa que o mal seja insignificante, nem que os responsáveis por crimes sejam inocentes. A questão é outra: atos terríveis podem ser executados por pessoas que se refugiam em fórmulas administrativas, ordens recebidas e justificações convencionais, sem exercer adequadamente o próprio julgamento.

Pense em um funcionário que participa de uma decisão que prejudica milhares de pessoas. Ele não se considera responsável porque apenas cumpriu o procedimento estabelecido. O superior afirma que seguiu as regras. A instituição declara que respeitou o protocolo. Cada participante apresenta uma pequena justificativa, e o resultado coletivo permanece sem um responsável disposto a reconhecê-lo.

O mal ganha eficiência quando cada pessoa reduz sua responsabilidade à parcela que lhe foi atribuída.

Esse mecanismo pode aparecer em situações muito diferentes dos crimes históricos analisados por Arendt: na empresa que mantém uma prática abusiva porque “sempre foi assim”, no serviço público que ignora cidadãos porque “não é competência deste setor” ou no ambiente digital em que milhares de pessoas compartilham uma acusação sem verificar se ela é verdadeira.

A tese perversa assume, então, uma forma institucional: não é necessário que todos desejem o resultado injusto. Basta que muitos aceitem executar suas tarefas sem questionar o resultado para o qual contribuem.

É importante, contudo, distinguir a obediência irrefletida da perversidade deliberada. Nem todo erro burocrático é perverso, e nem toda pessoa que cumpre uma regra é moralmente culpada. O ponto crítico surge quando a regra passa a servir de escudo contra evidências claras de dano e contra a obrigação de reconsiderar a própria conduta.

Uma sociedade torna-se moralmente vulnerável quando seus integrantes sabem executar procedimentos, mas desaprendem a perguntar se aquilo que executam é justo.

A inteligência artificial e a nova arquitetura da perversidade

A tese perversa adquire uma dimensão inédita na sociedade digital. Hoje, não é necessário controlar diretamente aquilo que as pessoas pensam. Em muitas situações, basta influenciar o que elas veem, a ordem em que recebem informações e as emoções que são estimuladas a cada interação.

Imagine uma plataforma que afirma aproximar pessoas e ampliar o conhecimento, mas que recompensa conteúdos capazes de produzir indignação, hostilidade e dependência. O discurso institucional fala em conexão; o mecanismo de distribuição pode favorecer aquilo que mantém os usuários continuamente envolvidos, mesmo quando esse envolvimento é prejudicial.

Não é necessário supor que todos os responsáveis desejem deliberadamente o sofrimento humano. O problema pode estar na combinação entre incentivos econômicos, decisões de projeto e ausência de responsabilidade suficiente pelas consequências.

A perversidade contemporânea pode ser menos uma conspiração secreta do que uma arquitetura de incentivos que transforma vulnerabilidades humanas em recursos exploráveis.

A mesma lógica aparece na desinformação política. Uma mensagem emocionalmente atraente pode ser divulgada porque favorece determinado grupo, mesmo quando sua veracidade é duvidosa. Depois de compartilhada milhares de vezes, a repetição cria familiaridade; a familiaridade é confundida com credibilidade; e a credibilidade passa a justificar novas repetições.

Nesse processo, a mentira não precisa vencer definitivamente a verdade. Precisa apenas ocupar espaço suficiente para tornar a verdade menos capaz de orientar as decisões.

A inteligência artificial amplia essas possibilidades, pois permite produzir textos, imagens e vozes artificiais em grande escala. Essas tecnologias também podem ajudar a verificar informações, ampliar o acesso ao conhecimento e identificar manipulações. Seu significado moral depende, entre outros fatores, de como são desenvolvidas, utilizadas e fiscalizadas.

O perigo, portanto, não reside na tecnologia como se ela tivesse uma vontade perversa própria. Reside na possibilidade de empregar sua capacidade de persuasão e produção para afastar a aparência da realidade.

Surge uma formulação atualizada da tese:

Na sociedade digital, a perversidade pode consistir em organizar a percepção dos outros de tal maneira que eles participem voluntariamente de decisões contrárias aos próprios interesses, acreditando que estão exercendo sua liberdade.

A questão não é apenas quem controla a informação. É quem controla as condições pelas quais uma informação passa a parecer verdadeira, urgente ou moralmente indispensável.

A perversidade íntima: quando o amor se torna instrumento de domínio

Seria fácil localizar a tese perversa apenas na política, na economia ou na tecnologia. Entretanto, sua expressão mais cotidiana pode aparecer nas relações pessoais.

Uma pessoa diz amar outra, mas utiliza esse amor como justificativa para vigiar suas conversas, limitar suas amizades e decidir o que ela pode fazer. Quando questionada, responde que age assim porque se preocupa.

A preocupação pode ser genuína. Mas, quando se transforma em controle sistemático, deixa de proteger a liberdade do outro e começa a substituí-la.

O perverso, nesse sentido filosófico, não é necessariamente alguém que desconhece o amor. Pode ser alguém que reivindica o amor para legitimar a posse.

O mesmo ocorre quando alguém afirma dizer a verdade, mas seleciona deliberadamente as palavras mais humilhantes para ferir outra pessoa. A sinceridade, que deveria favorecer a compreensão, torna-se uma arma cuja agressividade é absolvida pela alegação de honestidade.

Esses exemplos revelam uma característica importante: os valores humanos são ambivalentes. A verdade pode esclarecer ou ferir; a proteção pode amparar ou controlar; a lealdade pode sustentar uma amizade ou exigir cumplicidade com uma injustiça.

Não é o nome do valor que determina sua legitimidade, mas a relação entre a intenção, a ação, as consequências e o respeito devido às outras pessoas.

Uma boa pergunta para examinar qualquer relação é esta: o valor que invoco amplia a dignidade do outro ou apenas torna o meu poder sobre ele mais aceitável?

A resposta nem sempre será simples. Relações humanas exigem limites, compromissos e responsabilidades. Nem todo desconforto é violência, nem toda discordância é opressão. A análise começa quando deixamos de usar palavras nobres como provas automáticas de inocência.

A tese perversa como método de pensamento

Até aqui, examinamos diferentes manifestações da perversidade. Podemos agora formular sua estrutura conceitual.

A tese perversa não é simplesmente uma ideia falsa, porque uma ideia falsa pode nascer de um erro honesto. Tampouco é necessariamente uma mentira consciente, porque alguém pode acreditar sinceramente em uma justificativa que protege seus privilégios.

Ela se caracteriza, em sua forma mais forte, pela combinação de quatro operações:

1.     Seleção: escolhem-se os fatos que favorecem a própria posição e minimizam-se os que a contradizem.

2.     Inversão: uma prática prejudicial é apresentada como necessária para proteger um valor legítimo.

3.     Imunização: toda crítica é interpretada como ameaça, ignorância ou má-fé, evitando-se qualquer possibilidade de revisão.

4.     Transferência: a responsabilidade pelos danos é atribuída às vítimas, aos subordinados, às circunstâncias ou a um inimigo externo.

Essas operações não constituem uma lei universal sobre o comportamento humano. São uma proposta de análise que ajuda a reconhecer determinados padrões de justificação.

Pense em uma organização que prejudica deliberadamente seus trabalhadores. Primeiro, seleciona indicadores de produtividade e ignora os relatos de sofrimento. Depois, afirma que as exigências excessivas são necessárias para garantir o futuro de todos. Quando surgem críticas, acusa os críticos de não compreenderem a realidade do negócio. Por fim, responsabiliza os próprios trabalhadores por não conseguirem suportar as condições impostas.

O sistema não precisa declarar que o sofrimento é bom. Precisa apenas impedir que o sofrimento seja reconhecido como uma razão suficiente para mudar o sistema.

Eis o núcleo da perversidade: ela não procura necessariamente eliminar a contradição, mas administrá-la de modo que a própria contradição deixe de ameaçar a legitimidade de quem age.

A tese perversa é, portanto, uma forma de fechamento moral. Ela admite argumentos, desde que nenhum argumento possa efetivamente obrigá-la a rever suas conclusões.

É possível escapar da perversidade?

Se a perversidade pode infiltrar-se na política, na tecnologia, nas relações afetivas e até em nossas convicções mais sinceras, a pergunta inevitável é: como combatê-la?

A resposta não pode ser simplesmente eliminar as pessoas que consideramos perversas. Isso apenas reproduziria a estrutura que estamos criticando: a divisão entre os moralmente puros e os que podem ser tratados sem consideração.

O primeiro passo é restituir à crítica sua função legítima. Uma pessoa ou instituição precisa poder ser questionada sem que o questionamento seja automaticamente tratado como hostilidade.

O segundo passo é separar intenções declaradas de consequências observáveis. Não basta que uma decisão prometa proteger os vulneráveis; é necessário examinar se realmente os protege, quem se beneficia dela e quem suporta seus custos.

O terceiro é preservar a capacidade de reconhecer erros. Uma convicção que nunca pode ser revista transforma-se facilmente em instrumento de dominação. A disposição para corrigir o próprio julgamento não é sinal de fraqueza intelectual, mas uma condição da responsabilidade.

Por fim, precisamos reconhecer que ninguém está inteiramente protegido contra a autojustificação. Podemos condenar a manipulação alheia e manipular informações em nosso favor. Podemos exigir transparência dos outros e esconder nossos próprios interesses. Podemos denunciar a intolerância e considerar intolerável qualquer opinião que nos contrarie.

A autocrítica não torna todas as pessoas igualmente culpadas, nem elimina a necessidade de responsabilizar quem causa danos. Ela apenas impede que a crítica moral se transforme em mais uma forma de superioridade incontestável.

A verdadeira resistência à tese perversa começa quando aceitamos submeter nossas próprias razões ao mesmo exame que aplicamos às razões dos outros.

Concluindo — O mal que precisa parecer bem

Talvez a característica mais perturbadora da perversidade seja sua capacidade de sobreviver sem assumir o próprio nome.

A injustiça apresenta-se como necessidade. A dominação apresenta-se como cuidado. A manipulação apresenta-se como persuasão legítima. A indiferença apresenta-se como neutralidade. A obediência apresenta-se como inocência.

Em cada caso, uma palavra respeitável é convocada para impedir que uma realidade incômoda seja reconhecida.

Maquiavel ajuda-nos a perceber o poder das aparências; Nietzsche ensina-nos a investigar a origem e a função dos valores; Arendt recorda-nos que o pensamento e o julgamento são indispensáveis para resistir à normalização do mal. Nenhum desses filósofos oferece, isoladamente, uma teoria completa da tese perversa aqui proposta. Em diálogo, porém, suas ideias permitem compreender como o poder, a moral e a ausência de reflexão podem combinar-se para legitimar práticas destrutivas.

A perversidade não está em toda contradição, em todo erro ou em toda decisão moralmente difícil. Ela aparece com maior nitidez quando a linguagem do bem é utilizada para proteger uma prática de danos, quando as evidências contrárias são sistematicamente afastadas e quando a responsabilidade é transferida para que ninguém precise mudar.

Talvez, por isso, a pergunta decisiva não seja se somos pessoas boas ou más. Essa classificação pode oferecer uma tranquilidade enganosa.

A pergunta mais difícil é se somos capazes de reconhecer o momento em que nossas melhores justificativas começam a servir aos nossos piores interesses.

Porque o indivíduo que sabe que está mentindo ainda pode ser confrontado com a verdade. Mas aquele que transforma sua mentira em princípio moral constrói uma defesa muito mais resistente: passa a acreditar que reconhecer a verdade seria, em si mesmo, uma forma de traição.

E é nesse instante que a perversidade alcança sua expressão mais sofisticada.

A tese perversa não é aquela que ensina o mal a parecer aceitável. É aquela que convence o sujeito de que abandonar o mal seria abandonar o próprio bem.

Talvez a liberdade humana comece justamente quando recuperamos a capacidade de desconfiar das ideias que mais nos favorecem — sobretudo quando elas nos permitem ferir alguém sem deixar de nos considerar justos.


sábado, 10 de outubro de 2026

O Reacionário


 

A nostalgia como ideologia, o medo da liberdade e a tentativa de restaurar um mundo que já não existe, o tema parece simples, mas não é, muito se fala, muito se ouve agressões verbais chamando alguém de reacionário, portanto para escrever este ensaio foi necessário pesquisar e buscar os diferentes olhares. Vamos lá.

Afinal, o que o reacionário quer recuperar?

Vamos começar com uma pergunta aparentemente simples: por que algumas pessoas, diante das transformações do mundo, preferem acreditar que a solução está em voltar ao passado?

Quando a sociedade muda, mudam também os costumes, as relações familiares, os valores morais, as formas de trabalhar, as identidades e até a maneira como entendemos a autoridade. Para alguns, essas mudanças representam conquistas. Para outros, significam a perda de um mundo no qual sabiam exatamente quem eram, qual era o seu lugar e quem tinha o direito de mandar.

É nesse segundo movimento que encontramos o reacionário.

Mas seria superficial definir o reacionário simplesmente como alguém conservador ou contrário às novidades. O conservador pode desejar preservar instituições que considera importantes; o reacionário vai além: frequentemente deseja reconstruir uma ordem anterior, real ou imaginada, na qual acredita encontrar a solução para as angústias do presente.

O problema começa quando o passado deixa de ser uma experiência a compreender e se transforma numa autoridade que não pode ser questionada.

O reacionário não quer apenas que as coisas mudem menos. Em determinadas circunstâncias, quer que a história desfaça o caminho percorrido. Pretende recuperar hierarquias, certezas e formas de obediência que as transformações sociais tornaram discutíveis. Sua promessa é restauradora: se o presente parece caótico, basta retornar à ordem antiga.

Mas há uma contradição nessa promessa: como restaurar um mundo cujo desaparecimento foi justamente o resultado da própria história?

Este ensaio parte de uma hipótese: o reacionarismo não é apenas uma posição política, mas uma atitude diante do tempo, da liberdade e da incerteza. É uma tentativa de resolver os conflitos do presente por meio da idealização do passado. Para compreender essa atitude, precisamos recorrer à filosofia e à sociologia contemporâneas, observando como o medo, o ressentimento, a desigualdade e a disputa pela identidade podem transformar a nostalgia em projeto político.

O reacionário e a fabricação de um passado perfeito

Todo ser humano tem alguma relação afetiva com o passado. Recordamos a infância, valorizamos tradições e procuramos referências que deem continuidade à nossa existência. Isso, por si só, não tem nada de reacionário.

A questão aparece quando a memória deixa de reconhecer as contradições do passado e começa a selecioná-las de maneira conveniente.

A sociedade antiga passa a ser descrita como mais honesta, a família de ontem como mais sólida, a juventude como mais respeitosa e a autoridade como mais legítima. Desaparecem da narrativa a violência doméstica naturalizada, a exclusão das mulheres, o racismo institucional, a falta de direitos trabalhistas e o silenciamento de grupos inteiros.

O passado é reconstruído como um paraíso perdido.

O reacionário realiza, assim, uma operação curiosa: critica a sociedade contemporânea por suas imperfeições, mas compara essa realidade concreta com uma representação idealizada de outra época. O presente é julgado por seus problemas reais; o passado, por suas lembranças seletivas.

Essa assimetria produz a ilusão de que antigamente tudo funcionava melhor.

A pergunta sociológica, portanto, não é somente por que as pessoas sentem saudade, mas quem ganha autoridade quando determinada versão do passado é apresentada como modelo obrigatório para o presente?

Quando a antiga organização familiar é proclamada como a única legítima, por exemplo, não se está apenas celebrando uma tradição. Pode-se estar reivindicando a restauração de papéis de gênero específicos. Quando a disciplina do passado é apresentada como solução universal, talvez se esteja defendendo o retorno de relações de obediência que dispensavam a participação dos subordinados.

A memória torna-se ideologia quando esconde aquilo que precisa ser esquecido para que uma ordem pareça natural.

Zygmunt Bauman: o reacionário diante de um mundo líquido

Modernidade líquida, insegurança e busca por estabilidade.

Bauman ajuda a compreender como a fragilidade dos vínculos sociais e a aceleração das transformações podem alimentar a procura por certezas.

Na interpretação de Bauman, a modernidade líquida é marcada pela instabilidade das relações, pela transformação constante das instituições e pela dificuldade de construir segurança duradoura.

O trabalho muda, as profissões desaparecem, as relações afetivas se reorganizam e as identidades deixam de parecer destinos fixos. Aquilo que antes era apresentado como permanente passa a exigir negociação.

Para algumas pessoas, essa liberdade abre possibilidades. Para outras, produz desorientação.

É nesse cenário que o discurso reacionário pode adquirir força. Ele oferece respostas simples para uma realidade complexa: a sociedade está desorganizada porque abandonou a tradição; as famílias estão em crise porque perderam os antigos valores; os jovens estão perdidos porque deixaram de obedecer.

A promessa reacionária é devolver solidez a um mundo percebido como instável.

Imagine um trabalhador que perde o emprego em razão de mudanças tecnológicas, enfrenta dificuldades econômicas e percebe que sua posição social já não lhe oferece o reconhecimento de antes. Sua angústia é material, mas também simbólica. Ele pode sentir que perdeu não apenas renda, mas dignidade, pertencimento e influência.

Um discurso político pode interpretar essa experiência como consequência de decisões econômicas, concentração de riqueza e precarização do trabalho. Outro pode atribuí-la à decadência moral, à presença de estrangeiros ou à perda dos costumes tradicionais.

A segunda explicação pode ser emocionalmente sedutora porque oferece culpados identificáveis e uma narrativa de restauração.

Isso não significa que todo indivíduo inseguro se torne reacionário, nem que todo apelo à tradição seja manipulador. Significa que a insegurança pode criar condições favoráveis para projetos políticos que prometem uma ordem simples em troca da redução da pluralidade.

A liberdade assusta quando a pessoa não dispõe dos recursos materiais e simbólicos necessários para exercê-la. O reacionarismo pode transformar esse medo em desejo de autoridade.

Wendy Brown: quando a liberdade se transforma em ressentimento

Neoliberalismo, democracia e reação política.

Brown investiga como transformações econômicas e políticas podem enfraquecer a democracia e alterar a maneira como as pessoas compreendem sua liberdade.

Uma contribuição importante de Wendy Brown é mostrar que o neoliberalismo não deve ser entendido somente como um conjunto de políticas econômicas. Ele também pode funcionar como uma racionalidade que submete diferentes esferas da vida à competição, à lógica do mercado e à avaliação individual de desempenho.

Nesse contexto, problemas coletivos passam a ser interpretados como fracassos pessoais. O indivíduo é responsabilizado por sua pobreza, sua insegurança e sua incapacidade de competir, mesmo quando enfrenta estruturas sociais profundamente desiguais.

Mas existe uma consequência adicional: quando a promessa de autonomia individual não se realiza, a frustração pode ser convertida em ressentimento político.

O indivíduo que se imaginava merecedor de reconhecimento sente que perdeu algo que lhe pertencia. A ampliação dos direitos de outros grupos pode ser percebida, equivocadamente, como a causa dessa perda. Em vez de questionar as estruturas que distribuem poder e riqueza, ele pode passar a combater aqueles que considera responsáveis pela transformação da sociedade.

Pensemos no debate sobre a igualdade de gênero. A conquista de maior autonomia pelas mulheres não elimina automaticamente as dificuldades econômicas dos homens, nem resolve as crises familiares. Entretanto, discursos reacionários podem apresentar essa autonomia como uma ameaça à ordem social e à identidade masculina.

A questão deixa de ser como construir relações mais justas e passa a ser como restaurar uma hierarquia anterior.

A mesma lógica pode aparecer nos debates sobre direitos raciais, diversidade cultural e reconhecimento de minorias. O avanço de direitos que antes eram negados pode ser interpretado por setores privilegiados como uma perda de status, mesmo quando não representa a supressão de seus direitos fundamentais.

Aqui surge uma distinção decisiva: perder um privilégio não é necessariamente perder um direito; deixar de ocupar uma posição superior não significa ser tratado injustamente.

O reacionarismo tende a confundir essas duas situações quando apresenta a igualdade como inversão da ordem natural.

A contribuição de Brown permite perceber que o ressentimento não nasce apenas do ódio. Pode nascer também da incapacidade de compreender uma transformação social sem interpretá-la como humilhação pessoal.

Albert O. Hirschman: a retórica da reação

A retórica reacionária e os argumentos contra a mudança.

Em The Rhetoric of Reaction (1991), Hirschman analisa padrões argumentativos recorrentes usados para combater reformas sociais e políticas.

Hirschman oferece uma ferramenta especialmente útil para identificar o reacionarismo sem depender de rótulos ideológicos.

Ele descreve três grandes argumentos que reaparecem em discursos contrários a mudanças sociais: a perversidade, a futilidade e o risco.

  • Perversidade: a reforma produzirá o contrário do que pretende. Uma política de inclusão, por exemplo, acabaria gerando mais exclusão.
  • Futilidade: a mudança não alterará verdadeiramente a estrutura social. A luta por direitos seria inútil porque as coisas permaneceriam essencialmente iguais.
  • Risco: a transformação ameaçaria conquistas anteriores. Ampliar direitos ou reformar instituições colocaria em perigo a estabilidade da sociedade.

Esses argumentos não são necessariamente falsos em todas as situações. Reformas podem produzir consequências inesperadas, ser ineficazes ou ameaçar valores legítimos. O problema está em empregá-los como respostas automáticas, sem examinar evidências ou admitir a possibilidade de melhorias.

Imagine uma discussão sobre a ampliação do acesso à universidade. O argumento da perversidade afirma que a inclusão prejudicará a qualidade do ensino; o da futilidade sustenta que ela não mudará a desigualdade; o do risco diz que o sistema existente será destruído.

Cada afirmação exige investigação. Quais indicadores definem qualidade? Que resultados a política produziu? Quais riscos podem ser reduzidos por meio de ajustes?

O pensamento crítico transforma essas alegações em hipóteses verificáveis. A retórica reacionária, quando dogmática, transforma-as em razões suficientes para rejeitar a mudança antes mesmo de examiná-la.

Hirschman nos ajuda, portanto, a reconhecer uma característica fundamental do reacionarismo: não é apenas a preferência pelo passado, mas a tendência a considerar que as tentativas de construir um futuro diferente estão condenadas de antemão.

Byung-Chul Han: o cansaço de ser livre

Desempenho, exaustão e crise da subjetividade.

Han examina como a pressão por desempenho e a autoexploração afetam a experiência contemporânea da liberdade.

Em Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han descreve uma sociedade na qual o indivíduo é pressionado a produzir, melhorar a si mesmo e transformar cada capacidade em oportunidade de desempenho.

A dominação já não precisa aparecer sempre como uma ordem externa. O sujeito pode tornar-se o próprio fiscal, cobrando produtividade, sucesso e aperfeiçoamento permanentes.

Embora Han não formule uma teoria geral do reacionarismo, sua análise permite compreender uma de suas condições subjetivas: o esgotamento diante da obrigação de escolher continuamente.

A liberdade contemporânea pode ser experimentada como uma tarefa interminável. É preciso escolher uma carreira, construir uma identidade, administrar relações, posicionar-se diante de debates públicos e demonstrar competência em um mundo competitivo.

O reacionarismo oferece uma saída aparentemente simples: devolver a decisão à autoridade, substituir a negociação pela obediência e transformar a complexidade em mandamentos.

Em vez de perguntar como formar cidadãos capazes de lidar com a incerteza, pergunta-se como restaurar uma sociedade na qual cada pessoa conhecia seu lugar.

A nostalgia pela disciplina pode, nesse sentido, esconder um desejo de descanso. Quem se sente sobrecarregado pela multiplicidade de escolhas pode encontrar alívio na promessa de uma ordem que decida por ele.

Mas há uma ironia: ao entregar sua autonomia a uma autoridade que promete eliminar a incerteza, o indivíduo pode perder justamente os recursos de que precisaria para enfrentar as dificuldades do presente.

A liberdade não elimina a angústia. Porém, eliminar a liberdade tampouco elimina as causas sociais da angústia.

O reacionário e a política do medo: uma análise do presente brasileiro

No Brasil, o reacionarismo deve ser compreendido dentro de uma história marcada por desigualdades persistentes, autoritarismo, escravidão, concentração de renda e disputas sobre a memória nacional.

A idealização de uma época anterior pode apagar as experiências daqueles que nunca tiveram acesso aos benefícios da ordem celebrada.

Quando alguém afirma que antigamente havia mais respeito, por exemplo, é necessário perguntar: respeito entre quem? Garantido por quais instituições? E quem podia contestar uma autoridade sem sofrer punições?

Em sociedades profundamente desiguais, a aparente harmonia pode ter dependido do silêncio daqueles que não possuíam poder suficiente para contestá-la.

Isso não significa que todo apelo à segurança, à religião, à família ou à disciplina seja reacionário. Essas dimensões podem representar fontes legítimas de solidariedade e sentido. A questão é saber se são defendidas como valores que convivem com a liberdade alheia ou como instrumentos para impor uma única forma legítima de existência.

Considere três exemplos contemporâneos.

Primeiro: as redes sociais. Algoritmos e dinâmicas de engajamento podem favorecer conteúdos que despertam indignação, medo e sensação de ameaça. Quando uma mudança cultural é apresentada como prova de que a sociedade inteira está desmoronando, o debate público pode ser substituído por uma narrativa de emergência permanente. Não se deve concluir que toda plataforma favorece necessariamente o reacionarismo; trata-se de reconhecer que a indignação pode ser convertida em atenção, audiência e influência.

Segundo: a educação. Debates sobre currículo, gênero, história e autoridade docente podem se transformar em conflitos sobre quem tem o direito de definir o conhecimento legítimo. Defender a qualidade do ensino é uma preocupação legítima. Já presumir que qualquer revisão crítica da história representa uma conspiração contra a sociedade é uma forma de bloquear a investigação antes de conhecer seus resultados.

Terceiro: a segurança pública. Diante do medo real da violência, discursos que prometem restaurar a ordem podem ganhar força. O problema aparece quando a segurança é reduzida à exibição de força, sem atenção equivalente à prevenção, à investigação, à justiça e às condições sociais que alimentam a criminalidade. A promessa de autoridade absoluta pode ser politicamente atraente, mas não substitui a avaliação dos resultados.

Nos três casos, a mesma operação pode ocorrer: um problema complexo é convertido em sinal de decadência moral; a decadência é atribuída a um inimigo; e a solução é apresentada como retorno a uma ordem anterior.

O reacionarismo ganha força quando oferece identidade e culpados para sofrimentos que exigiriam investigação, políticas públicas e reflexão coletiva.

O reacionário não é apenas um indivíduo: é uma posição dentro da sociedade

Uma análise sociológica inovadora precisa ir além da psicologia individual. Não basta dizer que o reacionário tem medo, é ressentido ou sente saudade. É necessário perguntar quais estruturas sociais tornam essa posição atraente, quais grupos a legitimam e quais instituições podem transformá-la em poder.

A sociologia de Pierre Bourdieu, por exemplo, permite investigar como posições sociais, capitais culturais e disputas por reconhecimento influenciam a maneira pela qual os indivíduos interpretam as mudanças.

Pierre Bourdieu

A noção de habitus ajuda a compreender como disposições incorporadas ao longo da vida orientam nossas percepções e práticas. Mudanças sociais podem tornar antigas competências e certezas menos valorizadas, provocando conflitos de reconhecimento.

Uma pessoa educada para acreditar que autoridade, gênero, classe ou tradição definem lugares relativamente estáveis pode experimentar a transformação dessas relações como desorientação. Não se trata de uma reação mecânica: pessoas em condições sociais semelhantes podem responder de maneiras muito diferentes. Mas a experiência acumulada influencia o que cada uma percebe como ameaça ou oportunidade.

O reacionarismo também pode funcionar como uma aliança entre interesses distintos. Alguns atores desejam preservar vantagens econômicas; outros buscam reafirmar uma autoridade cultural; outros encontram pertencimento numa comunidade que compartilha os mesmos símbolos e adversários.

Esses grupos não precisam ter exatamente os mesmos interesses. Basta que reconheçam uma narrativa comum: o presente está em decadência e a restauração de uma ordem tradicional resolverá o problema.

É assim que a nostalgia individual pode converter-se em projeto coletivo.

O ponto sociológico decisivo é este: o reacionarismo não se explica somente pelo que as pessoas perderam, mas também pela posição que acreditam merecer e pelo mundo social que desejam ver reconhecido novamente.

A contradição central: o reacionário também quer mudar o mundo

Eis um paradoxo que merece atenção.

O reacionário frequentemente se apresenta como defensor da ordem contra a transformação. No entanto, restaurar uma ordem antiga exige uma ação política intensa: reformar instituições, alterar leis, disputar a educação, mobilizar organizações e redefinir comportamentos.

Em outras palavras, para fazer o mundo voltar a ser como antes, o reacionário precisa transformá-lo profundamente.

Além disso, o passado que pretende restaurar pode nunca ter existido da maneira como o imagina. A família ideal, a sociedade homogênea e a autoridade incontestável são frequentemente construções narrativas que misturam experiências reais, lembranças seletivas e expectativas atuais.

A restauração, portanto, não recupera simplesmente o passado. Ela inventa uma versão do passado adequada às disputas do presente.

Esse ponto permite distinguir a tradição viva da tradição convertida em instrumento político.

A tradição viva admite interpretação, transmissão, crítica e adaptação. Ela continua existindo porque as pessoas a reelaboram. A tradição reacionária, ao contrário, pode ser apresentada como um conjunto imutável de verdades cuja legitimidade não depende do debate.

A primeira reconhece que a continuidade exige transformação. A segunda trata a transformação como ameaça à continuidade.

É importante não confundir essa crítica com a ideia de que todo projeto de restauração é necessariamente ilegítimo. Algumas instituições antigas podem merecer recuperação, e determinadas transformações podem ser prejudiciais. A questão não é proibir o retorno, mas exigir que a defesa de qualquer ordem seja submetida à investigação de seus custos, benefícios e consequências para os diferentes grupos sociais.

O reacionarismo como recusa do futuro

Até aqui, vimos que o reacionarismo pode nascer da insegurança, do ressentimento, da idealização histórica e das disputas por reconhecimento. Mas existe uma dimensão ainda mais profunda: sua relação com o futuro.

O futuro é, por definição, aquilo que não controlamos inteiramente. Ele abre possibilidades, mas também ameaça expectativas. Obriga-nos a aceitar que instituições consideradas naturais podem ser transformadas e que pessoas antes excluídas podem reivindicar participação.

O reacionário radical tende a interpretar essa abertura como perda de orientação. Em vez de perguntar que sociedade poderia ser construída a partir das contradições presentes, procura um modelo anterior capaz de encerrar a incerteza.

Nesse aspecto, podemos aproximar a análise de Bauman da reflexão de Hartmut Rosa sobre a aceleração social e a relação do indivíduo com o mundo.

Hartmut Rosa

Rosa investiga a aceleração da vida moderna e propõe o conceito de ressonância para pensar uma relação com o mundo que não se reduza ao controle e à disponibilidade permanente.

A aceleração social pode produzir a sensação de que o mundo se transforma mais depressa do que nossa capacidade de compreendê-lo. O reacionarismo pode responder a essa experiência tentando recuperar referências consideradas estáveis.

Entretanto, recuperar referências não exige interromper a história. Uma sociedade pode preservar vínculos comunitários, valorizar sua memória e manter práticas culturais sem transformar o passado em uma lei absoluta para o futuro.

A alternativa à aceleração desorientadora não precisa ser a restauração autoritária. Pode ser a construção de instituições mais democráticas, de ritmos de vida menos exaustivos e de relações sociais que ofereçam segurança sem exigir submissão.

O desafio consiste em produzir estabilidade suficiente para que as pessoas possam enfrentar a mudança, em vez de prometer uma estabilidade impossível baseada na eliminação das diferenças.

Uma distinção fundamental: conservar, reformar ou reagir?

Para compreender melhor o fenômeno, convém estabelecer três posições que frequentemente se confundem.

Posição

Relação com o passado

Relação com a mudança

Conservadora

Considera que tradições e instituições podem conter conhecimentos importantes.

Prefere mudanças cautelosas e procura preservar continuidades valiosas.

Reformadora

Reconhece problemas nas instituições existentes e busca corrigi-los.

Aceita transformações graduais ou profundas conforme as necessidades e as evidências.

Reacionária

Tende a idealizar uma ordem anterior e a apresentá-la como referência superior.

Procura reverter mudanças e restaurar hierarquias ou instituições consideradas perdidas.

Essas categorias são tipos analíticos, não caixas rígidas. Uma mesma pessoa pode defender a preservação de uma tradição num contexto, apoiar uma reforma noutro e assumir uma postura reacionária em determinada disputa.

Tampouco a defesa da tradição implica automaticamente autoritarismo. O sinal mais preocupante aparece quando a restauração exige reduzir direitos, impedir a contestação ou estabelecer que determinados grupos não merecem a mesma liberdade que os demais.

O critério democrático não é a idade de uma ideia. É a possibilidade de justificá-la publicamente, avaliar suas consequências e permitir que aqueles afetados por ela participem da discussão.

Concluindo — O passado deve ser uma raiz, não uma prisão

O reacionário é uma figura complexa porque sua força não depende exclusivamente de mentiras ou de preconceitos conscientes. Pode mobilizar sofrimentos reais: insegurança econômica, perda de pertencimento, desconfiança nas instituições, sensação de abandono e medo de um futuro imprevisível.

O erro começa quando esses sofrimentos são explicados por uma narrativa que transforma o passado em perfeição e a mudança em culpada universal.

Bauman ajuda a compreender a busca por segurança num mundo instável. Wendy Brown permite investigar a conversão de frustrações e ressentimentos em reações políticas. Hirschman revela os argumentos recorrentes que deslegitimam reformas. Han ilumina o esgotamento de uma liberdade vivida sob pressão permanente. Bourdieu mostra como disposições sociais e lutas por reconhecimento influenciam nossas respostas às transformações. Rosa, por sua vez, permite imaginar uma relação com o mundo que não dependa nem do controle absoluto nem da fuga para um passado idealizado.

Juntos, esses pensadores oferecem instrumentos para compreender o reacionarismo como um fenômeno que articula subjetividade, estrutura social, linguagem política e disputa histórica.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja por que o reacionário deseja voltar. É por que tantas sociedades oferecem às pessoas tão poucas maneiras de enfrentar o presente sem desejar escapar dele.

Quando o trabalho se torna precário, as relações se fragilizam, as instituições perdem credibilidade e o futuro parece ameaçador, a promessa de restaurar uma ordem conhecida pode adquirir enorme força. Combater essa tendência exige mais do que ridicularizar quem sente nostalgia. Exige enfrentar as condições que tornam a nostalgia politicamente sedutora.

Isso significa construir segurança sem autoritarismo, pertencimento sem exclusão, autoridade sem arbitrariedade e continuidade sem imobilidade.

Uma sociedade democrática não precisa desprezar seu passado. Precisa aprender a interrogá-lo. Não precisa abandonar suas tradições. Precisa distinguir aquelas que produzem solidariedade daquelas que dependem da subordinação de outros. Não precisa celebrar toda novidade. Precisa preservar a capacidade coletiva de avaliar o que merece ser transformado.

A maturidade histórica começa quando reconhecemos que o passado pode ensinar, mas não pode decidir sozinho.

A tese central deste ensaio é que o reacionarismo representa uma tentativa de resolver as incertezas do presente pela restauração de uma ordem idealizada. Sua força nasce quando a necessidade legítima de segurança se transforma em recusa da pluralidade e quando a memória deixa de iluminar a história para se tornar instrumento de poder.

O verdadeiro desafio não é escolher entre viver no passado ou destruir tudo o que veio antes. É construir um futuro no qual as pessoas não precisem abrir mão da liberdade para recuperar a sensação de pertencimento.

Porque uma sociedade que só consegue imaginar a própria salvação olhando para trás ainda não encontrou uma maneira suficientemente justa de caminhar para a frente.