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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Limites Perceptivos

Já pensou quanto nossos sentidos são limitados?

Nossos sentidos são como lanternas: iluminam só uma parte da realidade. O resto não deixa de existir — só fica fora do alcance do nosso “equipamento biológico”.

Vamos refletir sobre alguns exemplos bem claros do que existe, mas não conseguimos perceber diretamente:

1) Ondas de rádio e Wi-Fi

Neste exato momento, nosso ambiente está cheio de sinais de rádio, internet, Bluetooth…
Eles atravessam paredes, passam pelo seu corpo, e não sentimos absolutamente nada.

Mas eles existem de forma concreta — tanto que seu celular capta e transforma isso em mensagens, vídeos e chamadas.

Sem aparelhos, porém, nossos sentidos seriam totalmente cegos a esse mundo invisível.

2) Micro-organismos (bactérias e vírus)

Uma mesa aparentemente limpa pode estar cheia de vida microscópica.
Nossos olhos simplesmente não têm resolução para enxergar esse nível de existência.

Antes do microscópio, a humanidade vivia cercada por micróbios sem saber que eles estavam ali influenciando a saúde, a decomposição e até a história das epidemias.

3) O tempo (como fluxo real)

Não vemos o tempo.

Não ouvimos o tempo.

Não tocamos o tempo.

Percebemos apenas seus efeitos: envelhecimento, mudanças, memórias.

É como observar o vento pelas folhas que se movem, nunca o vento em si.

4) Emoções alheias e pensamentos

Os pensamentos de outra pessoa existem — e podem ser intensos — mas são invisíveis aos nossos sentidos.

Nós inferimos por gestos, palavras e expressões, mas nunca percebemos diretamente o conteúdo interno da mente do outro.

5) Campos invisíveis (gravidade e magnetismo)

Não sentimos a gravidade como “algo visível”, mas ela mantém tudo no lugar.
O magnetismo também age silenciosamente, guiando bússolas e influenciando tecnologias, sem ser visto ou ouvido.

No fundo, isso revela algo curioso:

a realidade é maior que a nossa percepção.

Nossos sentidos não captam o mundo inteiro — apenas a parte que foi útil para sobreviver.
O restante precisa de instrumentos, razão ou reflexão para ser percebido.

Como diria Mário Ferreira dos Santos, a realidade não se reduz ao que é sensível; o sensível é apenas a porta de entrada, não a totalidade do ser.

Ou, em termos bem cotidianos:

só porque não vemos algo, não significa que não esteja agindo silenciosamente ao nosso redor.

O que dizer do mundo espiritual?

Penso seja uma pergunta delicada — e profunda.

Quando falamos de “mundo espiritual”, entramos numa região que, por definição, não é acessível aos sentidos físicos. Ou seja, não é algo que se veja com os olhos, nem se toque com as mãos, nem se meça com instrumentos comuns.

Mas isso não significa automaticamente que seja inexistente.

Significa apenas que, se existir, pertence a outra ordem de percepção.

1) A ideia do mundo espiritual nas tradições

Quase todas as culturas falaram de uma dimensão invisível: alma, espírito, consciência superior, planos sutis, etc.

No cristianismo, por exemplo, fala-se em alma; no hinduísmo, em planos sutis; no espiritismo brasileiro, em mundo espiritual coexistindo com o material.

O ponto comum é sempre o mesmo:

não é um “lugar físico”, mas uma realidade não material.

2) A limitação dos sentidos humanos

Nossos sentidos foram feitos para sobrevivência, não para captar toda a realidade.

Nós não vemos:

  • ondas eletromagnéticas invisíveis
  • partículas subatômicas
  • campos gravitacionais

Então, filosoficamente, existe uma abertura para a hipótese de realidades não sensoriais.

Mas aqui entra uma distinção importante.

3) Diferença entre invisível físico e invisível espiritual

Uma bactéria é invisível ao olho, mas pode ser detectada por microscópio.
Já o espiritual, segundo a maioria das tradições filosóficas, não seria detectável por aparelhos materiais, porque não seria material.

Ou seja:

  • Invisível físico → detectável indiretamente pela ciência
  • Invisível espiritual → acessado por experiência interior, fé ou metafísica

4) A visão filosófica (não religiosa, mas reflexiva)

Filósofos como Platão falavam de uma realidade além do mundo sensível — uma dimensão inteligível, acessível mais pela razão do que pelos sentidos.

A ideia central é:

os sentidos captam aparências,

a consciência busca o sentido.

Em termos cotidianos, pense assim:

o amor existe, mas você nunca “viu” o amor em si.

Você vê manifestações dele.

Muitos pensadores argumentam que o espiritual funcionaria de forma semelhante — não como objeto sensorial, mas como experiência existencial.

5) A interpretação mais sóbria (racional)

Aqui é importante manter os pés no chão.

Existem três posições possíveis:

  1. O mundo espiritual existe como realidade independente
  2. O mundo espiritual é uma dimensão da consciência humana
  3. O mundo espiritual é uma construção simbólica para explicar o invisível interior

Nenhuma dessas pode ser provada diretamente pelos sentidos.

6) Um ponto interessante do cotidiano

Já percebemos como certas experiências são “invisíveis”, mas profundamente reais.

  • intuição forte
  • sensação de presença
  • consciência moral
  • silêncio interior

Elas não são objetos físicos, mas influenciam decisões, emoções e a própria vida.

Mário Ferreira dos Santos defendia que reduzir a realidade apenas ao sensível é uma forma de empobrecimento ontológico — porque o ser humano vive também no plano do significado, não só da matéria.

Em outras palavras:

talvez o debate sobre o mundo espiritual não seja apenas “se ele existe”,
mas se estamos usando o instrumento certo para tentar percebê-lo.

Os olhos veem matéria.

A razão interpreta.

A consciência experiência.

Ficamos por aqui!


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Perseu e Medusa

Entre a espada e o espelho


Tem dias em que eu sinto que a vida me coloca diante de pequenas Medusas invisíveis. Não monstros de serpentes na cabeça, claro, mas aquelas situações que, se eu encarar direto, me paralisam: uma conversa difícil, uma decisão adiada, um medo que vai crescendo em silêncio.

Na mitologia, Perseu não derrota Medusa com força bruta. Ele vence com estratégia — usando o escudo como espelho, olhando indiretamente para aquilo que poderia petrificá-lo. Isso sempre me pareceu menos uma história de batalha e mais uma aula prática sobre como lidar com o que nos assusta.

O perigo de olhar direto demais

Medusa transforma em pedra quem a encara. E, curiosamente, quantas vezes não fazemos isso conosco?

  • Olhamos diretamente para nossos erros e nos congelamos na culpa.
  • Encaramos um problema gigante e ficamos paralisados pela ansiedade.
  • Observamos o julgamento alheio e endurecemos por dentro.

É como se certas verdades, vistas sem mediação, nos imobilizassem. Perseu ensina outra postura: nem fugir, nem confrontar de forma imprudente, mas usar reflexão — literalmente um reflexo.

No cotidiano, isso aparece quando:

  • pensamos antes de reagir numa discussão,
  • analisamos um medo em vez de negá-lo,
  • ou olhamos para nossas próprias falhas com alguma distância, sem transformar tudo em sentença definitiva.

O espelho como sabedoria

Gosto de imaginar uma conversa com um filósofo antigo sobre isso, talvez alguém como Sócrates, que diria algo simples: “o perigo não está apenas no monstro, mas na forma como você o encara”.

O escudo de Perseu é quase simbólico do autoconhecimento. Não é evasão; é lucidez indireta. Às vezes, para compreender algo pesado, precisamos de mediação: uma pausa, um café, uma caminhada, um diálogo honesto.

Eu já percebi isso em coisas pequenas. Quando encaro um problema emocional de frente, com pressa e intensidade, fico rígido. Mas quando reflito sobre ele aos poucos, como quem observa o reflexo em vez do impacto direto, consigo agir sem me petrificar.

Cortar a cabeça do medo (sem virar pedra)

O detalhe mais curioso: depois de derrotar Medusa, Perseu ainda usa a cabeça dela como ferramenta — não para destruir indiscriminadamente, mas como recurso em momentos necessários. Ou seja, aquilo que antes paralisava passa a ser integrado à vida.

Isso lembra algo profundamente humano:

nossos medos não desaparecem completamente; eles se transformam em experiência.

No fundo, a história não fala só de monstros. Fala de maturidade.

De aprender que certas batalhas não se vencem com confronto impulsivo, mas com inteligência emocional, distância reflexiva e coragem silenciosa.

E talvez seja por isso que, nas batalhas mais íntimas do dia a dia, a pergunta não seja “como destruir minhas Medusas?”, mas sim:

“como olhar para elas sem me transformar em pedra?”

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Homem Profano


Ele acorda com o som do despertador. O despertador não soa como chamado — soa como comando. Levanta, escova os dentes, olha o celular antes mesmo de olhar o céu. O dia começa não como mistério, mas como tarefa.

É assim que vive o “homem profano” descrito por Mircea Eliade em O Sagrado e o Profano.

Quando se fala nisso, não é preciso imaginar povos antigos ou templos esquecidos. Basta observá-lo no ônibus, respondendo mensagens, calculando prazos, vivendo como se o mundo fosse apenas um conjunto de funções.

O tempo que não inaugura nada

Para o homem religioso tradicional, o tempo podia ser ruptura e renovação. O Ano Novo não era simples troca de calendário — era reinício simbólico.

Para ele, o tempo é agenda.

Segunda-feira não inaugura nada. É repetição. Sexta-feira não é libertação ontológica — é pausa estratégica.

Vive num tempo homogêneo. Cada dia substitui o outro. Não há centro. Não há hierarquia sagrada. Apenas sequência.

O domingo muitas vezes já nasce contaminado pela ansiedade da segunda.

O espaço que não fala

Ele entra no escritório. É apenas um espaço funcional: mesas, computadores, café automático. Não é lugar consagrado — é infraestrutura.

O homem profano não enxerga montanhas como morada do divino nem casa como microcosmo simbólico. Enxerga localização, metragem, custo-benefício.

Muda de endereço sem sentir que desloca o eixo do mundo. É logística, não travessia existencial.

O espaço torna-se neutro.

E, no entanto, algo insiste

Apesar disso, há momentos em que a neutralidade falha:

  • Uma música antiga suspende o tempo.
  • Uma igreja vazia impõe um silêncio diferente.
  • Um olhar amado não pode ser reduzido a função.

Nesses instantes, o mundo deixa de ser plano.

Mircea Eliade sugeria que o homem moderno tenta viver exclusivamente no profano, mas nunca consegue totalmente. Vestígios do sagrado sobrevivem — em ritos sociais, em datas comemorativas, em gestos simbólicos que ele mesmo talvez não compreenda.

Se escutasse Leonardo Boff, ouviria que o problema não é abandonar rituais religiosos formais, mas perder a capacidade de reverência.

Quando tudo se torna recurso — o tempo, a natureza, as pessoas — a vida se empobrece. A eficiência cresce, mas a interioridade seca.

O homem profano é funcional.

Mas pode tornar-se árido.

A pergunta que o acompanha

Talvez a questão não seja religião institucional.

Talvez seja profundidade.

Se tudo pode ser trocado, acelerado, monetizado, então o mundo se fecha sobre si mesmo.

Mas se ele ainda preserva algo que não se reduz a função — amor, silêncio, dignidade, contemplação — então carrega um pequeno altar invisível.

E talvez seja ali, nesse interior que resiste à lógica da utilidade, que começa a superação do homem profano.

Salto do Pensamento


Salto do pensamento é aquele instante curioso em que a mente não caminha — ela salta. Não pede licença, não avisa, simplesmente atravessa do ponto A ao ponto Z enquanto a gente ainda estava no B. E o mais engraçado é que, depois, tentamos explicar o percurso como se tivesse sido linear, lógico, organizado… quando na verdade foi um pequeno pulo no escuro.

Eu percebo isso nas coisas mais banais. Estou olhando pela janela, vejo alguém passando apressado, e de repente já estou pensando no sentido da pressa humana, no tempo, na finitude, na vida que corre sem perceber. O corpo ficou ali, imóvel. Mas o pensamento? Já atravessou continentes. O pensamento é mais rápido que a velocidade da luz, basta pensar e já estamos em Marte.

No cotidiano, esse salto aparece o tempo todo.

Você lê uma frase simples e, sem perceber, ela te leva a uma lembrança antiga.
Escuta uma música e já está refletindo sobre escolhas que fez há anos.
Alguém diz “tudo bem?” e sua mente responde: “o que é estar bem, afinal?”

O curioso é que o pensamento raramente anda em linha reta. Ele funciona mais como um atalho emocional e simbólico. A lógica diz “pense passo a passo”, mas a consciência prefere o caminho invisível das associações. Um cheiro vira memória. Uma palavra vira reflexão. Um silêncio vira filosofia.

Às vezes, esse salto é um mecanismo de proteção. Em conversas difíceis, por exemplo, a mente pula para ideias abstratas para evitar sentir demais. Em momentos de tédio, ela salta para fantasias. Em momentos de angústia, ela projeta cenários futuros. É como se pensar fosse também uma forma de deslocamento interno.

Mas há algo bonito nisso: o salto do pensamento revela que não somos apenas racionais, somos interpretativos. Não pensamos só com lógica — pensamos com história, emoção, memória e imaginação. Cada salto carrega um pouco de quem fomos.

Lembro de uma ideia que conversa muito com isso, algo que ecoa no pensamento de Mário Sérgio Cortella: a mente humana não é um depósito de informações, mas um espaço vivo de interpretações. Ou seja, não reagimos ao mundo apenas como ele é, mas como ele ressoa dentro de nós. E é nesse eco que o pensamento salta.

O problema começa quando esquecemos que houve um salto.

Aí transformamos suposições em certezas.

Intuições em verdades absolutas.

Impressões em julgamentos definitivos.

Alguém demora a responder uma mensagem, e o pensamento salta:

“Está me ignorando.”

Quando, na realidade, talvez só estivesse ocupado.

Percebe? O salto é rápido. A realidade é lenta.

Por isso, observar o próprio salto do pensamento é quase um exercício de lucidez. Não para impedir que ele aconteça — porque ele sempre acontecerá — mas para perguntar:

“Como cheguei até essa conclusão?”

“Qual foi o caminho invisível da minha mente?”

Quando faço isso, noto algo curioso: muitos dos meus pensamentos não nasceram do presente, mas de associações antigas. É como se a mente fosse uma ponte entre tempos diferentes, e cada salto fosse uma travessia silenciosa entre o que vejo agora e o que já vivi.

No fundo, pensar não é caminhar.

É saltar, recuar, girar, conectar.

E talvez a maturidade mental não esteja em evitar os saltos, mas em reconhecê-los — porque, entre um pensamento e outro, existe sempre um abismo invisível que só a consciência atravessa sem fazer barulho.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Inputs da Sociedade


“Inputs da sociedade” — gosto de pensar nisso como a respiração coletiva do mundo. Aquilo que entra em nós sem pedir permissão e aquilo que sai de nós sem que a gente perceba.

A sociedade é um grande sistema de inputs e outputs humanos.

Ela nos envia valores, opiniões, modas, medos, urgências.

E nós devolvemos atitudes, discursos, silêncios, escolhas.

Mas quase nunca percebemos o que está entrando.

Acordamos e, antes mesmo de pensar por conta própria, já recebemos inputs: notícias, notificações, conversas, expectativas sociais. Alguém diz que o sucesso é correr. Outro diz que felicidade é consumir. Outro diz que é preciso opinar sobre tudo. E assim, sem perceber, a mente vai sendo alimentada por ideias que nem sempre nasceram dentro de nós.

Depois, no decorrer do dia, começam os outputs.

O jeito que respondemos.

O tom com que falamos.

As opiniões que repetimos.

Até os julgamentos que fazemos sobre os outros.

E o curioso é que muitos desses “outputs” não são realmente nossos. São ecos sociais.

Percebo isso em situações simples:

Quando alguém fala mal de algo e, minutos depois, me pego concordando sem refletir.

Quando uma tendência vira opinião coletiva e parece estranho discordar.

Quando o silêncio de um grupo molda o que é aceitável pensar.

A sociedade nos programa sutilmente, não por imposição direta, mas por repetição constante. Como se fosse uma pedagogia invisível do cotidiano. Nesse sentido, a reflexão de Paulo Freire faz muito sentido: somos seres em constante formação, influenciados pelo mundo que nos cerca, mas também responsáveis por transformá-lo.

Ou seja, não somos apenas receptores passivos de inputs sociais. Somos também emissores que alimentam o próprio sistema.

Se eu espalho pressa, a sociedade recebe mais pressa.

Se eu espalho gentileza, ela recebe mais humanidade.

Se eu espalho cinismo, ela devolve desconfiança.

Há um ciclo silencioso aí.

O problema é quando o volume de inputs supera nossa capacidade de reflexão. Aí começamos a viver em modo automático: repetindo ideias prontas, reagindo em vez de compreender, opinando antes de pensar. É como se a mente virasse apenas um canal de retransmissão social.

E, sinceramente, isso me cansa.

Porque a sensação de autenticidade diminui. A pessoa fala, mas não sabe se a voz é dela ou do ambiente. Pensa, mas não sabe se a ideia nasceu da experiência ou da influência.

Talvez o verdadeiro exercício de consciência hoje seja filtrar os inputs antes de produzir outputs.

Perguntar:
“Isso que penso veio de mim ou do ruído social?”

“Essa reação é minha ou aprendida?”

Quando começo a observar isso, algo muda. O pensamento fica menos reativo e mais próprio. A fala deixa de ser eco e vira expressão. E, aos poucos, a gente deixa de ser apenas um produto da sociedade para se tornar também um agente dela.

No fundo, a sociedade não é uma entidade distante.

Ela acontece dentro da gente, o tempo todo.

Nos inputs que absorvemos.

E, principalmente, nos outputs que escolhemos devolver ao mundo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guardando Emoções?


Essa pergunta parece simples, mas é quase um labirinto:

guardamos emoções ou guardamos sentimentos?

Primeiro, vamos separar as coisas.

Emoção não é a mesma coisa que sentimento

  • Emoção é rápida, corporal, quase instintiva.

Ela acontece.

Raiva. Medo. Alegria. Vergonha.

O coração acelera, o estômago aperta, a mão sua.

  • Sentimento é a emoção depois que ela passa pelo pensamento.

É quando você interpreta o que sentiu.

“Eu fui injustiçado.”

“Eu não sou suficiente.”

“Eu fui amado.”

Ou seja:

emoção é reação; sentimento é narrativa.

 

Então… o que a gente guarda?

Na maioria das vezes, não guardamos a emoção bruta.

Ela é intensa demais e curta demais. O corpo descarrega.

O que a gente guarda é:

  • o significado do que aconteceu
  • a memória da situação
  • a história que contamos sobre aquilo

Guardamos ressentimento, não a explosão original de raiva.

Guardamos mágoa, não o susto inicial.

Guardamos culpa, não apenas o erro.

E isso vira sentimento sedimentado.

 

Mas às vezes… guardamos a emoção também

Quando não podemos expressar — por medo, educação rígida, conveniência social — a emoção não se completa.

Ela fica “inacabada”.

E aí ela não vira só sentimento:

ela vira tensão no corpo,

vira silêncio prolongado,

vira reação exagerada no futuro.

Um comentário banal hoje pode acionar uma emoção antiga que nunca foi digerida.

 

Emoção guardada vira o quê?

  • Raiva guardada vira irritação crônica
  • Tristeza guardada vira apatia
  • Medo guardado vira controle excessivo
  • Amor não expresso vira arrependimento

Não é que a emoção fique intacta.

Ela se transforma.

 

O que realmente guardamos?

Talvez o que guardamos não seja emoção nem sentimento.

Guardamos experiência não resolvida.

E experiência não resolvida vira identidade.

“Eu sou assim.”

“Eu não confio em ninguém.”

“Eu não me exponho.”

Quando, na verdade, talvez fosse só uma emoção que precisava atravessar o corpo e terminar o ciclo.

Quando falamos em guardar emoções ou sentimentos, estamos entrando num território que já foi muito bem explorado por Baruch Spinoza.

Spinoza faz uma distinção importante entre afeto, emoção passiva e ação ativa.

Para ele:

  • A emoção é algo que nos acontece.
  • O sentimento é a consciência dessa emoção.
  • E a maneira como interpretamos isso determina se ficamos passivos ou nos tornamos ativos diante do que sentimos.

Ele diz algo poderoso:

“Um afeto que é paixão deixa de ser paixão assim que formamos dele uma ideia clara e distinta.”

O que isso significa na prática?

Que aquilo que guardamos não é exatamente a emoção —

é a emoção sem compreensão.

 

Emoção não compreendida vira prisão

Quando sentimos raiva e não entendemos de onde ela vem, ela nos domina.

Quando sentimos medo e não examinamos sua origem, ele nos conduz.

Mas, segundo Spinoza, no momento em que entendemos a causa —
a emoção deixa de nos possuir.

Ela não desaparece magicamente.

Ela se transforma.

 

Então o que guardamos?

Guardamos emoções enquanto elas são confusas.

Depois que se tornam claras, elas deixam de ser peso e passam a ser conhecimento.

A mágoa que eu entendo vira aprendizado.

A inveja que eu compreendo vira autoconhecimento.

O medo que eu investigo vira prudência.

O problema não é guardar.

É guardar sem elaborar.

 

E aí entra um detalhe sutil

Muitas vezes achamos que superamos algo porque “já passou”.

Mas se a emoção não foi compreendida, ela só foi empurrada.

E o que é empurrado retorna —

geralmente com outra roupa.

Spinoza não diria que devemos reprimir emoções.

Ele diria que devemos compreendê-las.

Porque emoção guardada na sombra vira destino.

Emoção iluminada vira liberdade.

E, fico por aqui com minhas reflexões, espero que seja útil.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Conveniências Sociais

Outro dia me peguei sorrindo numa conversa em que eu claramente não queria estar. Nada grave. Apenas aquela cena comum: alguém fala, eu concordo com a cabeça, uso duas ou três frases educadas e sigo o jogo. Saí dali pensando: quantas das minhas atitudes são convicção — e quantas são conveniência?

As conveniências sociais são esses acordos invisíveis que mantêm o mundo funcionando sem que ele exploda a cada desacordo. São o “tudo bem” que não está tudo bem, o “qualquer dia marcamos” que nunca será marcado, o elogio diplomático que evita um constrangimento desnecessário.

E, sejamos honestos, elas têm sua utilidade.

 

O verniz que sustenta a convivência

Desde a antiguidade se fala da necessidade de certa máscara social. O próprio Aristóteles já lembrava que o ser humano é um animal político — ou seja, vive na pólis, na convivência. E viver junto exige ajustes.

Se eu dissesse tudo o que penso, do jeito que penso, a cada instante, talvez me tornasse “autêntico” — mas também insuportável. A conveniência, nesse sentido, é uma forma de caridade prática: ela amortece o impacto do ego alheio.

No trabalho, por exemplo:

Você discorda do chefe, mas escolhe o momento certo para falar.

Você percebe o erro do colega, mas não o expõe na frente de todos.

Isso é falsidade? Ou é maturidade?

 

Quando a máscara começa a colar no rosto

O problema não está na existência das conveniências — está quando passamos a viver apenas nelas.

Quando o “tudo bem” vira padrão existencial.

Quando sorrimos tanto que esquecemos o que nos entristece.

Quando evitamos todo conflito para preservar uma imagem.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard falava do “desespero silencioso” — aquela sensação de não ser si mesmo, mas um personagem aceitável. A conveniência, nesse ponto, deixa de ser ponte e vira prisão.

Já percebeu como às vezes saímos de um encontro social cansados, não pelo tempo, mas pelo esforço de manter o papel?

 

O almoço de domingo

Imagine aquele almoço de família. Alguém toca num assunto delicado. Você poderia entrar na discussão, defender sua posição com paixão. Mas escolhe mudar de tema. Ali, a conveniência evita um campo de batalha.

Agora imagine que você faz isso sempre — nunca expressa sua visão, nunca ocupa espaço real. Aos poucos, você vira figurante na própria história.

Então a pergunta não é se devemos ter conveniências sociais.

A pergunta é: quem está no comando — eu ou o medo de desagradar?

 

Entre a verdade e a harmonia

Talvez a sabedoria esteja no equilíbrio.

Dizer a verdade — mas com medida.

Ser autêntico — mas com humanidade.

Discordar — sem humilhar.

As conveniências sociais são como o sal na comida: necessárias, mas em excesso estragam tudo.

E eu fico pensando: quantas vezes uso a polidez para proteger o outro — e quantas vezes para me proteger?

Talvez amadurecer seja isso:

Aprender quando sorrir por gentileza

e quando falar por integridade.

No fim, viver em sociedade é uma arte delicada:

ser verdadeiro sem ser bruto, ser gentil sem ser falso.

E você, quando foi a última vez que percebeu estar sendo apenas conveniente — e não realmente presente?


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Reverente Assombro


Reverente assombro é aquela sensação estranha e silenciosa que nos visita quando algo é grande demais para caber na nossa lógica — e, ainda assim, nos toca profundamente.

Não é medo.

Não é euforia.

É uma mistura de pequenez com pertencimento.

Olhe para o céu, olhe para o mar, olhe atentamente para sua companheira.

 

O que é esse estado?

O reverente assombro acontece quando:

  • olhamos para o céu estrelado e sentimos que somos minúsculos — mas vivos;
  • entramos numa catedral antiga e ficamos em silêncio sem saber por quê;
  • presenciamos o nascimento de uma criança e algo em nós fica quieto, quase sagrado.

O filósofo alemão Rudolf Otto chamou essa experiência de mysterium tremendum et fascinans — o mistério que ao mesmo tempo causa tremor e fascínio.

Há algo que nos excede, mas também nos atrai.

 

No cotidiano (onde quase nunca percebemos)

O curioso é que o reverente assombro não precisa de montanhas nem de templos.

Ele pode surgir:

  • quando você percebe que o tempo passou e seus pais envelheceram;
  • quando entende, de repente, o quanto alguém te ama;
  • quando percebe que você não controla quase nada — e, ainda assim, continua respirando.

Há uma humildade nisso.

Uma espécie de “eu não sou o centro de tudo”.

E paradoxalmente, isso alivia.

 

O que esse sentimento faz com a gente?

O reverente assombro:

  • reduz o ego;
  • amplia a percepção;
  • desacelera a pressa;
  • e nos torna mais atentos.

Pesquisas recentes na psicologia mostram que experiências de awe aumentam a empatia e a sensação de conexão com os outros. É como se o coração abrisse espaço.

 

Uma provocação silenciosa

Talvez o maior problema do nosso tempo não seja a falta de informação —
mas a falta de assombro.

Quando tudo vira rotina, tudo encolhe.

O reverente assombro é um lembrete de que a realidade é maior do que nossa agenda, maior do que nossos medos e maior do que nossas certezas.

E talvez seja isso que chamamos, em alguns momentos raros, de sagrado.