Aprender a Querer no Espelho do Outro
A
gente costuma acreditar que deseja por conta própria. Que nossas vontades são
autênticas, nascidas de um núcleo íntimo, quase sagrado. Mas basta observar com
um pouco mais de atenção: queremos o que os outros querem, admiramos o que é
admirado, perseguimos o que já está sendo perseguido. O desejo, ao que tudo
indica, não nasce sozinho — ele é aprendido, imitado, herdado.
É
nesse ponto que entra a noção de desejo mimético, desenvolvida por René
Girard. Para Girard, não desejamos objetos diretamente; desejamos aquilo
que outro deseja. O modelo — essa figura externa que orienta nossa vontade —
transforma-se em mediador. Assim, o desejo não é linear (sujeito → objeto), mas
triangular (sujeito → modelo → objeto). O que parecia íntimo revela-se
profundamente social.
Essa
ideia, embora formulada no século XX, torna-se ainda mais potente na
contemporaneidade. Em uma sociedade mediada por imagens, algoritmos e redes
sociais, o modelo não é mais apenas alguém próximo — ele é uma multiplicidade
difusa de referências. Influenciadores, celebridades, colegas, desconhecidos:
todos competem silenciosamente pela função de orientar o nosso querer.
O
filósofo Byung-Chul Han oferece uma lente complementar. Em sua análise
da sociedade do desempenho, ele sugere que o sujeito contemporâneo não é
reprimido, mas seduzido. Não há mais um “não pode desejar”; há um “você deve
desejar mais”. O desejo mimético, nesse contexto, deixa de ser apenas imitação
e se torna aceleração: um ciclo infinito de comparação e insuficiência.
Se
em Girard o desejo mimético leva ao conflito — pois vários sujeitos
passam a disputar o mesmo objeto —, em Han ele se internaliza como
exaustão. O outro deixa de ser rival direto e passa a ser parâmetro constante.
Não lutamos necessariamente contra ele; lutamos para não ficar atrás dele.
Aqui,
a leitura de Jacques Lacan aprofunda o problema ao deslocar o foco do
objeto para a estrutura do desejo. Para Lacan, “o desejo é o desejo do Outro”.
Isso não significa apenas que imitamos alguém, mas que nosso próprio desejo é
constituído a partir de uma falta estruturada pela linguagem e pelo olhar do
Outro. O que desejamos não é exatamente o objeto, mas o reconhecimento — ser
desejado, ser visto, ocupar um lugar no desejo do Outro. Assim, o mimetismo não
é apenas social; é estrutural. Não desejamos porque vemos o outro desejar — desejamos
porque só nos tornamos sujeitos dentro de um campo onde o desejo já circula.
Se
Girard descreve a dinâmica do conflito e Lacan a estrutura da
falta, Gilles Deleuze propõe quase uma ruptura. Para Deleuze (em diálogo
com Guattari), o desejo não nasce da falta, mas da produção. Desejar não é
copiar nem buscar o que falta, mas criar conexões, fluxos, possibilidades. O
desejo é uma força positiva, produtiva, que fabrica realidade. Nesse sentido, o
desejo mimético seria apenas uma forma empobrecida do desejo — uma captura
social de algo que, em sua natureza, é criativo e múltiplo.
Essa
tensão é crucial. Enquanto Girard e Lacan revelam o quanto nosso
desejo é atravessado pelo outro, Deleuze insiste que ele não se esgota
nisso. Há algo no desejo que escapa à imitação — uma potência de invenção que
não depende de modelos, mas de encontros.
O
pensador Mark Fisher ajuda a fechar esse quadro ao mostrar como o
capitalismo contemporâneo captura tanto o mimetismo quanto a criatividade.
Ao discutir o realismo capitalista, ele sugere que nossa imaginação do possível
foi colonizada. Desejamos dentro de um horizonte previamente moldado — e esse
horizonte é coletivo, midiático e econômico. Mesmo quando acreditamos estar
criando algo novo, muitas vezes estamos apenas recombinando padrões já dados.
Mas
há algo ainda mais sutil: o desejo mimético não se impõe como imposição. Ele se
apresenta como escolha. É isso que o torna tão eficaz. Quando escolho algo que
todos desejam, sinto que estou exercendo minha liberdade — quando, na verdade,
estou reiterando um padrão.
Isso
não significa que o desejo seja falso ou ilusório. Significa apenas que ele é
relacional, simbólico e também produtivo. O “eu quero” sempre carrega um pouco
de “alguém quis antes”, mas também pode carregar a possibilidade de querer
diferente.
A
originalidade do desejo, portanto, talvez não esteja em escapar da influência —
o que seria impossível —, mas em tomar consciência dela e tensioná-la. Entre o
espelho de Girard, o olhar do Outro em Lacan e a máquina criadora
de Deleuze, o sujeito contemporâneo se move: ora imitando, ora buscando
reconhecimento, ora inventando.
Aqui
surge uma possibilidade filosófica interessante: e se o problema não for
desejar como os outros, mas não saber que desejamos como eles? E mais: e se a
tarefa não for eliminar o mimetismo, mas atravessá-lo em direção a formas mais
criativas de desejar?
Nesse
sentido, o desejo mimético não precisa ser apenas um diagnóstico pessimista.
Ele pode ser reinterpretado como uma chave de leitura ética. Se aprendemos a
desejar com os outros, então também podemos aprender a desejar melhor —
escolhendo nossos modelos, nossos “Outros” e nossos encontros com mais cuidado.
Talvez
a pergunta mais radical não seja “o que eu quero?”, mas “quem — ou o quê — está
me ensinando a querer isso?”.
E,
ao responder essa pergunta, começamos a deslocar o eixo do desejo: de um
impulso automático para uma prática reflexiva. Não deixamos de imitar — mas
passamos a escolher o que vale a pena imitar, e, talvez, a criar aquilo que
ainda não estava disponível para ser desejado.
O
desejo continua sendo um espelho — mas também pode se tornar uma máquina de
invenção. A diferença é que agora sabemos quando estamos apenas refletindo… e
quando começamos, de fato, a criar.







