Aristóteles: o motor invisível da nossa inquietação
Outro
dia me peguei parado diante da geladeira aberta. Não era fome exatamente. Era
indecisão. Pão ou fruta? Café ou água? Fechar a porta e ir caminhar?
Ali,
entre o queijo e a luz branca do interior da geladeira, estava eu — pura potência.
E
foi nesse instante banal que me ocorreu: talvez a nossa vida inteira seja essa
dança entre o que podemos ser e o que efetivamente somos. E é aqui que entra Aristóteles
com uma das ideias mais ousadas da filosofia: o Ato Puro.
Entre
potência e ato: nós somos inacabados
Para
Aristóteles, tudo o que existe se move entre duas dimensões:
- Potência
→ aquilo que pode vir a ser.
- Ato → aquilo que
já é, plenamente realizado.
A
semente é árvore em potência.
O
estudante é médico em potência.
Eu,
diante da geladeira, sou decisão em potência.
Mas
o mundo não é um caos de possibilidades soltas. Ele está em movimento. E
movimento, para Aristóteles, não é apenas deslocamento físico. É transformação:
é algo deixando de ser apenas possível para se tornar real.
O
problema filosófico surge assim:
Se
tudo o que se move passa da potência ao ato, o que é que move o movimento?
Quem
inicia a cadeia?
O
Motor Imóvel: o Ato Puro
Aristóteles
responde com uma ideia quase vertiginosa: deve existir algo que seja ato sem
potência.
Algo
que não possa vir a ser outra coisa.
Algo
que não mude.
Algo
plenamente realizado.
Esse
algo é o que ele chama de Ato Puro — o Motor Imóvel.
Não
é um deus criador no sentido bíblico. Não é um artesão do universo. É antes uma
perfeição absoluta que move tudo por atração, como o amado move o amante.
O
mundo se move porque deseja o que é plenamente realizado.
E
aqui a coisa fica interessante.
O
cotidiano como metafísica
Pense
em alguém que começa a fazer academia. O corpo dói. A disciplina falha. A
preguiça vence algumas vezes.
Mas
existe uma imagem interior — o “eu saudável”, o “eu forte”.
Essa
imagem funciona como um pequeno “ato puro” pessoal. Ela não existe ainda no
mundo, mas exerce atração.
Ou
pense numa criança aprendendo a ler. As letras embaralham. A frustração
aparece. Mas há uma promessa de domínio, de fluência. Essa promessa move o
esforço.
Vivemos
movidos por formas de plenitude que ainda não somos.
Aristóteles
diria que todo movimento do mundo é assim: uma busca pela atualização da
própria essência.
Uma
interpretação inovadora: o Ato Puro como silêncio
Talvez
o mais fascinante seja que o Ato Puro não faz nada no sentido comum. Ele não
intervém. Não reage. Não muda.
Ele
é pura contemplação. Pensamento que pensa a si mesmo.
E
aqui ouso uma leitura mais existencial:
O
Ato Puro pode ser pensado como aquele ponto interior onde não estamos
fragmentados. Aquele instante raro em que não estamos divididos entre o que
queremos ser e o que somos.
Sabe
quando você termina algo importante?
Ou
quando uma conversa resolve um conflito antigo?
Ou quando você simplesmente aceita quem é?
Por
alguns segundos, não há tensão. Não há movimento interior. Não há desejo de ser
outra coisa.
Há
apenas presença.
Talvez
ali experimentemos uma miniatura do Ato Puro.
A
inquietação humana
Mas
nós não somos ato puro. Somos mistura. Somos potência e ato entrelaçados.
Estamos
sempre a caminho.
Sempre
incompletos.
Sempre
podendo ser mais — ou menos.
E
talvez seja essa incompletude que nos salva da estagnação.
Se
fôssemos Ato Puro, não desejaríamos nada.
Não
amaríamos.
Não
criaríamos.
Não
erraríamos.
A
tragédia e a beleza da condição humana estão em sermos inacabados.
Uma
provocação final
E
se o Ato Puro não for apenas um princípio cósmico distante, mas também um
critério ético?
Não
no sentido de perfeccionismo neurótico. Mas no sentido de perguntar:
- Estou vivendo de acordo com aquilo
que posso plenamente ser?
- Ou estou desperdiçando potência?
- O que, em mim, pede atualização?
Aristóteles
não queria apenas explicar o universo. Ele queria compreender o que significa
realizar a própria natureza.
Talvez
o Ato Puro não seja algo que possamos nos tornar — mas algo que nos chama.
Como
uma música que ainda não tocamos.
Como
uma decisão ainda não tomada.
Como
a porta da geladeira que, cedo ou tarde, precisa ser fechada.
E
então o movimento continua.