Quem eu sou quando estou sendo visto?
Em
algum momento, sem data marcada, a gente percebe que não está apenas vivendo —
está se apresentando. Não é um teatro clássico, com cortina e aplausos.
É mais sutil: um ajuste no vocabulário, uma opinião suavizada, um silêncio
estratégico. O problema não é atuar. O problema é quando não há mais
bastidor.
A
pergunta que surge não é dramática, é desconfortável: se ninguém estivesse
olhando, eu continuaria sendo essa pessoa?
Da
máscara social à identidade administrada
Erving
Goffman dizia que toda vida social envolve papéis. Há o palco, onde nos
mostramos, e o bastidor, onde relaxamos. O que mudou não foi a existência da
máscara — foi o desaparecimento do bastidor.
Byung-Chul
Han observa que, hoje, não somos obrigados a representar algo imposto.
Representamos o que acreditamos ser desejável. Não há censura explícita, mas há
uma curadoria constante de si mesmo. A identidade deixa de ser descoberta e
passa a ser otimizada.
O
sujeito não pergunta mais:
“Isso
sou eu?”
Pergunta:
“Isso
funciona para esse ambiente?”
O
eu como projeto permanente
A
performance moderna não exige apenas coerência — exige melhoria contínua.
É o eu como startup: sempre em atualização, sempre em avaliação.
Aqui, a identidade vira tarefa. E tarefa que nunca termina.
Nietzsche
já alertava para o perigo de viver em função do olhar alheio: quando a vida se
orienta pelo aplauso, ela perde gravidade própria. O valor vem de fora; o
centro se desloca.
O
resultado não é hipocrisia consciente, mas desconexão interna. A pessoa
não mente — ela se adapta tanto que deixa de saber o que realmente pensa.
No
cotidiano: pequenas concessões que se acumulam
No
trabalho, você tem uma discordância, mas calcula o risco. No grupo de amigos,
ri de algo que não achou graça. Nas redes, evita temas que “não performam bem”.
Nada disso é grave isoladamente. O problema é o acúmulo.
Aos
poucos, surge uma fadiga estranha: não do mundo, mas de si mesmo. Um cansaço de
sustentar versões ajustadas da própria identidade. A pessoa não sabe mais se
está sendo estratégica ou apenas distante de si.
O
paradoxo da visibilidade
Nunca
fomos tão vistos — e nunca tão inseguros sobre quem somos.
Quanto
mais o olhar externo se intensifica, mais a identidade depende de validação.
Curtidas, feedbacks, aceitação silenciosa. O eu passa a existir em resposta,
não por afirmação.
Hannah
Arendt ajuda a entender esse ponto ao diferenciar aparecer de existir.
Aparecer demais, sem interioridade, dissolve a singularidade. A pessoa vira
imagem, perfil, função.
Onde
mora a violência invisível
A
identidade performática não grita, não oprime explicitamente. Ela seduz.
Promete pertencimento, reconhecimento, segurança. O preço é alto: a erosão
lenta da autenticidade.
Não
é que o sujeito não tenha mais um eu verdadeiro. É que ele não encontra mais tempo,
silêncio ou espaço para escutá-lo.
Existe
saída?
Não
há retorno a uma “pureza original”. Sempre haverá papéis. A diferença está em reconstruir
bastidores:
- lugares onde não se precisa agradar
- relações onde o erro não vira falha
moral
- momentos onde ninguém avalia
A
liberdade não está em abolir a performance, mas em não confundir o papel com
o ator.
Fechamento
A
questão não é “quem eu sou?”, mas algo mais honesto:
Em
quantos lugares eu preciso deixar de ser eu para continuar pertencendo?
Talvez
o gesto mais radical hoje não seja se expor — mas se recolher, nem que
seja por instantes, para lembrar que a identidade não nasce do olhar do outro,
mas da possibilidade de, às vezes, não ser visto.