Tem um
momento sutil — quase invisível — em que o outro deixa de ser alguém e passa a
ser um meio. Não acontece com maldade explícita. Às vezes vem disfarçado de
eficiência, de praticidade, de “é assim que o mundo funciona”. Mas, quando você
percebe, as relações já não são encontros — são utilidades.
No
cotidiano, isso aparece de forma banal. A amizade mantida porque “pode ajudar
no futuro”. A conversa que só acontece quando há interesse. O elogio que já vem
carregado de intenção. Até o tempo passa a ser calculado: quanto isso me rende?
o que ganho com isso? quem pode me abrir portas?
É como
se a lógica das coisas — produção, resultado, desempenho — tivesse invadido a
lógica das pessoas.
O
filósofo Immanuel Kant já alertava, de forma quase profética, que o ser
humano nunca deveria ser tratado apenas como meio, mas sempre como fim em si
mesmo. O problema é esse “apenas”. Porque, na vida real, a gente
inevitavelmente se usa — trocamos favores, dependemos uns dos outros,
construímos redes. O ponto crítico é quando o outro deixa de ter valor próprio
e passa a valer só pelo que oferece.
E talvez
o mais inquietante seja perceber que isso não vem só de fora. A gente também
aprende a se instrumentalizar. A moldar a própria personalidade para caber em
expectativas, a ajustar opiniões para agradar, a transformar até emoções em
algo “aproveitável”. Como se estivéssemos constantemente nos convertendo em
versões mais úteis de nós mesmos.
O
sociólogo Zygmunt Bauman falava de uma modernidade líquida, onde tudo é
flexível, descartável, substituível. Nesse cenário, relações que não
“funcionam” são rapidamente abandonadas, e pessoas que não “entregam” acabam
ficando à margem. Não há tempo para vínculos que não tragam algum tipo de
retorno.
Mas
viver assim tem um efeito colateral silencioso: o esvaziamento. Porque, quando
tudo vira meio, nada permanece como fim. E, sem fins, a própria experiência
perde densidade.
É
curioso — e um pouco triste — como isso invade até os momentos mais simples.
Alguém conta algo importante, e a gente já pensa em como responder de forma
“adequada”. Um encontro acontece, e já vira conteúdo, registro, memória para
mostrar. Até o afeto, às vezes, parece precisar justificar sua existência.
Talvez a
resistência comece em pequenos gestos. Conversas sem objetivo. Presenças que
não buscam resultado. Relações onde não há cálculo — ou, pelo menos, onde o
cálculo não é o centro.
Porque,
no fundo, a pergunta não é se usamos uns aos outros — isso é inevitável. A
pergunta é: o que sobra quando o uso termina?
Se não
sobra nada, talvez nunca tenha havido encontro.

