Quem sou quando ninguém está olhando?
Às
vezes a pergunta “quem sou?” aparece sem cerimônia. Surge na fila do banco, no
espelho do elevador, naquele silêncio constrangedor depois de uma conversa que
não saiu como esperado. Não é uma pergunta acadêmica — é quase um tropeço. A
gente vai vivendo, respondendo e-mails, pagando contas, rindo por educação… e
de repente percebe que está funcionando, mas não sabe exatamente quem
está funcionando ali dentro.
O
“problema do Eu” não é descobrir um nome secreto ou uma essência escondida como
um objeto perdido no fundo da gaveta. O problema é que o Eu parece mudar
conforme o dia, o humor, o ambiente, as pessoas ao redor. Sou o mesmo no
trabalho, em casa, com amigos, sozinho? Ou sou uma colcha de retalhos bem
costurada pela rotina?
O
Eu como pergunta, não como resposta
David
Hume já desconfiava dessa ideia de um Eu sólido e
permanente. Para ele, quando olhamos para dentro, não encontramos um “eu”
estável, mas um fluxo contínuo de percepções: pensamentos, sensações, memórias,
afetos. O Eu, dizia Hume, é mais parecido com um feixe de experiências do que
com uma coisa em si.
Isso
soa estranho porque crescemos acreditando que somos algo definido. Mas
Hume nos provoca: se tudo muda — emoções, opiniões, desejos — onde exatamente
estaria esse Eu fixo? Talvez ele não esteja em lugar nenhum, talvez seja apenas
a narrativa que criamos para não enlouquecer diante da mudança constante.
O
cotidiano desmente a ideia de um Eu único
Pense
numa situação simples: você conta a mesma história para três pessoas
diferentes. Para um amigo íntimo, você exagera os detalhes emocionais. No
trabalho, suaviza as falhas e enfatiza os resultados. Em casa, talvez conte com
cansaço, pulando partes. Qual dessas versões é o “verdadeiro Eu”?
Ou
ainda: aquela conversa que você ensaia mentalmente no banho, onde é brilhante,
firme, seguro. Na hora real, as palavras saem tortas. O Eu do pensamento e o Eu
da ação não coincidem. E mesmo assim, ambos são você.
No
trânsito, alguém fecha seu carro e surge um Eu irritado, quase desconhecido.
Minutos depois, uma música toca no rádio e aparece um Eu nostálgico, quase
poético. Nenhum deles é falso. O problema é achar que apenas um deles deveria
existir.
O
Eu como construção em andamento
Aqui
entra uma leitura mais contemporânea: o Eu não é algo a ser descoberto, mas
algo que está sempre sendo construído. Não como um projeto consciente o
tempo todo, mas como um efeito das relações, da linguagem, da memória e das
escolhas — inclusive das escolhas automáticas.
Paul
Ricoeur ajuda a entender isso ao distinguir
identidade como mesmidade (o que permanece) e identidade como ipseidade
(o que se transforma mantendo uma coerência narrativa). Não somos os mesmos,
mas conseguimos contar uma história que faz sentido. O Eu é menos um núcleo
rígido e mais um enredo que vamos ajustando enquanto caminhamos.
Então…
quem sou eu?
Talvez
a pergunta “quem sou?” esteja mal formulada. Ela pressupõe uma resposta
definitiva, quando o que temos é um processo. Somos aquilo que fazemos
repetidamente, aquilo que evitamos, aquilo que lembramos e aquilo que
esquecemos. Somos também aquilo que não conseguimos explicar direito, mas que
insiste em aparecer.
No
fundo, o problema do Eu não é a falta de identidade, mas o excesso dela.
Queremos um Eu claro, limpo, coerente — quando a vida é ambígua, contraditória
e provisória. E talvez a maturidade não esteja em encontrar uma resposta, mas
em sustentar a pergunta sem desespero.
Quem
sou eu?
Sou
alguém em trânsito.
E,
honestamente, isso já é bastante coisa.