Ver é mais do que enxergar
Outro
dia me peguei olhando aquele símbolo antigo — o Olho de Hórus — estampado numa
camiseta, pendurado num colar, tatuado no braço de alguém. A gente vê, acha
bonito, talvez “místico”, e segue a vida. Mas fiquei pensando: o que significa,
de fato, carregar um olho no peito?
Não
é curioso que a humanidade tenha escolhido um olho — e não uma espada, uma
coroa ou um punho fechado — como símbolo de poder e proteção?
O
Olho de Hórus, ou Wedjat, na mitologia egípcia, é o olho que foi
arrancado na luta entre Hórus e Seth, e depois restaurado. Não é apenas visão.
É visão ferida. É percepção que passou pela perda e voltou inteira.
Talvez
seja aí que o símbolo comece a nos olhar de volta.
O
olho que perdeu para poder ver
Na
narrativa egípcia, Hórus perde o olho no confronto com Seth. O olho é
posteriormente curado e restaurado. O símbolo passa então a representar
proteção, cura, recomposição.
Mas
pense bem: por que o olho precisa ser ferido para se tornar sagrado?
Aqui
entra Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para Hegel, a consciência
não nasce pronta. Ela se constrói no conflito. A dialética não é harmonia
inicial; é ruptura, negação, enfrentamento. A consciência só se reconhece
quando encontra oposição.
O
Olho de Hórus é quase uma imagem mitológica da dialética:
- Há luta.
- Há perda.
- Há reconstrução.
- Surge um nível mais alto de
integridade.
O
que vê depois da dor não vê como antes.
Ver
é um ato ético
Costumamos
associar visão a conhecimento. Mas ver é também responsabilidade.
Emmanuel
Levinas dizia que o rosto do outro nos convoca eticamente.
Não é apenas uma imagem; é uma exigência. Ao ver o outro, sou chamado à
responsabilidade.
O
Olho de Hórus pode ser reinterpretado como esse ponto de vigilância interior:
não apenas “ser visto”, mas ver com responsabilidade.
Quantas
vezes fechamos os olhos no cotidiano?
- No trabalho, quando sabemos que algo
é injusto, mas fingimos não perceber.
- Na família, quando evitamos um
conflito necessário.
- Na sociedade, quando escolhemos
ignorar o sofrimento alheio.
Talvez
o olho simbólico nos lembre que não ver é também uma escolha moral.
O
olho interior
O
símbolo também remete à ideia de visão ampliada, quase espiritual. Não por
acaso, muitas culturas associaram o olho à consciência desperta.
Carl
Gustav Jung falava do processo de individuação como a
integração das partes fragmentadas da psique. O olho restaurado de Hórus parece
uma metáfora arquetípica desse processo: o que estava dividido é reunido.
Talvez
o Olho de Hórus não seja um amuleto externo, mas um lembrete interno:
a integridade não é ausência de fratura — é fratura assimilada.
A
sociedade da vigilância e o olho invertido
Mas
há um outro lado.
Vivemos
na era das câmeras, dos algoritmos, da exposição constante. Aqui, o olho já não
é símbolo de consciência, mas de controle.
Michel
Foucault analisou o panoptismo como estrutura de poder: somos
disciplinados pela possibilidade de sermos observados. O olhar torna-se
instrumento de dominação.
Nesse
contexto, o Olho de Hórus ganha uma ambiguidade moderna:
- É proteção?
- Ou é vigilância?
- É consciência?
- Ou é controle?
Talvez
a pergunta mais radical seja: quem está vendo quem?
O
olho como metáfora da consciência brasileira
Se
quisermos trazer para nossa sensibilidade latino-americana, podemos lembrar Paulo
Freire. Ele falava da conscientização: o despertar crítico diante da
realidade.
O
Olho de Hórus poderia ser lido como símbolo da consciência que se recusa a
permanecer alienada. Não é apenas um olho que vê o mundo; é um olho que aprende
a interpretar o mundo.
Freire
diria que ver não basta — é preciso ler o mundo.
Uma
hipótese inovadora: o olho como símbolo da visão que se transforma
Proponho
uma leitura menos mística e mais existencial:
O
Olho de Hórus não representa um olhar sobrenatural.
Representa
a capacidade humana de transformar a perda em lucidez.
Quando
perdemos algo — um amor, uma certeza, um projeto — algo em nós se parte. Se
permanecemos no ressentimento, o olho continua arrancado. Mas se integramos a
experiência, o olhar volta diferente.
Mais
profundo.
Mais
humilde.
Mais
real.
Talvez
o símbolo sobreviva há milênios porque ele fala daquilo que todo ser humano
inevitavelmente atravessa: a ferida que ensina a ver.
Distinção
/ Diferenças Simbólicas entre os “olhos”
O
chamado Olho de Hórus (Wedjat) refere-se tradicionalmente ao olho
esquerdo de Hórus e está associado à lua, à cura e à restauração — pois,
segundo o mito, foi arrancado por Seth e depois recomposto, tornando-se símbolo
de proteção e recomposição após a perda; já o chamado Olho de Rá, ligado
ao olho direito e ao deus solar Rá, representa o sol, o poder ativo, a
autoridade e a força punitiva, expressando uma energia expansiva e dominadora.
Em síntese, enquanto o Olho de Hórus simboliza a consciência que se cura e se
integra, o Olho de Rá simboliza a consciência que ilumina e exerce poder.
Carregar
um olho é carregar uma tarefa
No
fim das contas, o Olho de Hórus não é um amuleto de proteção mágica. É um
lembrete exigente.
Ele
parece sussurrar:
- Veja o que você evita ver.
- Reconstrua o que foi quebrado.
- Assuma responsabilidade pelo que seus
olhos alcançam.
- Não tema a ferida que amplia sua
percepção.
Talvez
a verdadeira proteção não venha de forças externas, mas da coragem de olhar.
E,
no fundo, o símbolo talvez não represente um deus que tudo vê —
mas o ser humano que aprende, lentamente, a abrir os próprios olhos.


