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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Simulacro do Perpetrador

Outro dia me peguei pensando que, em muitas histórias que vemos por aí — no noticiário, nas redes, nas brigas de família ou até no trabalho — o problema já não é só quem fez, mas quem parece ter feito. O perpetrador virou uma figura estranha: às vezes real demais, às vezes completamente encenada. Em certos casos, ninguém sabe mais onde termina a ação e começa a representação.

Vivemos um tempo curioso: o mal já não precisa acontecer de fato para produzir seus efeitos. Basta que ele seja simulado. E é aí que surge essa figura inquietante: o simulacro do perpetrador. Não o autor do ato, mas a imagem funcional de alguém que ocupa o lugar da culpa, da agressão, da transgressão — mesmo quando o ato é difuso, coletivo ou até inexistente.

 

Baudrillard entra em cena

Jean Baudrillard é praticamente inevitável aqui. Quando ele fala de simulacro, não está falando de uma simples cópia falsa de algo verdadeiro. O simulacro é mais radical: é aquilo que não remete mais a nenhum original, mas que funciona como se fosse real.

Aplicando isso ao perpetrador, chegamos a uma ideia desconfortável:
em muitos contextos contemporâneos, o perpetrador não é mais alguém que cometeu um ato, mas alguém que encarna uma narrativa de culpa.

Baudrillard diria que, no regime da hiper-realidade, a sociedade precisa de figuras claras para organizar seus medos. O perpetrador vira um signo. Um personagem necessário para que o sistema continue operando com a ilusão de justiça, ordem e controle.

Não importa tanto o que aconteceu. Importa quem pode ser apontado.

 

René Girard e o eco do bode expiatório

Aqui vale puxar René Girard para a conversa. O simulacro do perpetrador é, muitas vezes, uma atualização moderna do bode expiatório. A diferença é que, agora, o sacrifício não acontece na praça, mas no feed.

Girard falava do mecanismo pelo qual uma comunidade transfere suas tensões internas para uma vítima simbólica. No mundo atual, essa vítima pode ser:

  • o funcionário “problemático” que concentra falhas estruturais da empresa
  • o aluno rotulado como “difícil” numa escola que não sabe lidar com diferenças
  • o personagem público cancelado por representar tudo aquilo que a coletividade não quer admitir em si mesma

O simulacro do perpetrador não precisa ser inocente — mas também não precisa ser culpado. Ele só precisa ser funcional.

 

Situações do cotidiano: onde isso aparece sem avisar

No trabalho

Quando um projeto dá errado, quase sempre surge “o responsável”. Não o sistema mal planejado, não a comunicação truncada, não a pressão absurda — mas uma pessoa. Ela vira o simulacro do erro. Mesmo que sua falha seja mínima, ela passa a representar todo o fracasso.

Na família

Toda família tem, ou já teve, “aquele” parente. O difícil, o problemático, o que estraga o clima. Muitas vezes ele carrega conflitos que são coletivos, mas que ninguém quer elaborar. Ele não é só alguém que erra — ele vira a imagem do erro, a ovelha negra da família.

Nas redes sociais

Aqui o simulacro do perpetrador atinge seu auge. Um tweet mal formulado, um vídeo fora de contexto, uma frase deslocada no tempo. A pessoa vira um símbolo do que “não pode ser dito”, mesmo que milhões pensem algo parecido em silêncio. O ato vira secundário. O espetáculo da punição é o que importa.

 

Um deslocamento inquietante

O mais perturbador é que, nesse processo, o verdadeiro perpetrador — quando existe — desaparece. Sistemas, estruturas, incentivos perversos, dinâmicas econômicas ou culturais ficam intactos. O simulacro absorve tudo.

Como diria Baudrillard, a simulação não esconde a verdade. Ela esconde que não há mais uma verdade simples para ser revelada.

 

Fechamento: um espelho desconfortável

Pensar no simulacro do perpetrador não é relativizar a culpa nem absolver violências reais. É perceber que, muitas vezes, estamos mais interessados em administrar símbolos do que em compreender causas.

Talvez a pergunta incômoda seja esta:

quantas vezes apontamos um perpetrador não porque ele explica o problema, mas porque ele nos poupa de olhar para algo mais profundo?

No fim das contas, o simulacro do perpetrador é um espelho. Ele não mostra apenas o rosto de quem acusamos, mas o formato das nossas próprias fugas.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Perversidade Polifórmica


Quando se fala em perversidade, a imagem costuma ser grosseira: alguém cruel, consciente do mal que faz, quase um vilão de filme. Mas a vida real é menos teatral — e muito mais inquietante. A perversidade raramente aparece com um rosto único. Ela muda de forma, de tom, de discurso. Às vezes vem vestida de boa intenção, outras de eficiência, outras ainda de moral elevada. É por isso que talvez o traço mais perigoso da perversidade humana seja justamente seu caráter polifórmico: ela não se repete, se adapta.

Do ponto de vista filosófico, a perversidade não precisa ser entendida apenas como desvio moral extremo, mas como uma relação específica com o outro. Hannah Arendt já alertava para a banalidade do mal: não é preciso ódio explícito nem sadismo para produzir destruição; basta a suspensão da responsabilidade. A perversidade polifórmica opera exatamente aí — não na exceção, mas na normalidade.

Ela se manifesta quando o outro deixa de ser fim e passa a ser meio, número, obstáculo, estatística, função. Em uma de suas formas, é fria e burocrática; em outra, é afetiva e manipuladora; em outra ainda, é moralizante, convencida de estar do lado certo da história. Não há um único gesto perverso, mas uma lógica comum: a instrumentalização da vida alheia.

O que torna essa perversidade difícil de reconhecer é sua plasticidade. Ela aprende a linguagem do contexto. Em ambientes técnicos, fala em metas. Em ambientes afetivos, fala em cuidado. Em ambientes morais, fala em valores. A forma muda; o núcleo permanece.

Pense em alguém que “só está sendo sincero”, mas usa a franqueza como licença para humilhar. A crueldade vem travestida de virtude. Ou no gestor que sobrecarrega a equipe dizendo que “todo mundo passa por isso” — como se a normalização do desgaste anulasse seu efeito destrutivo.

Há também a perversidade afetiva: quem controla o outro pelo medo de perder, pela culpa, pelo silêncio calculado. Não grita, não ameaça abertamente, mas corrói aos poucos. Tudo parece sutil demais para receber um nome forte — e é justamente aí que ela se sustenta.

E existe ainda a perversidade moral: aquela que exclui, ridiculariza ou cancela em nome do bem. Não se vê como violenta, porque acredita estar corrigindo o mundo. Mas ao reduzir o outro a erro, rótulo ou desvio, repete a mesma lógica que diz combater.

A perversidade polifórmica não é um monstro raro; é uma possibilidade constante da vida social. Ela aparece sempre que deixamos de nos perguntar pelo impacto de nossos atos sobre o outro. Combatê-la não exige pureza moral, mas vigilância ética — especialmente sobre nós mesmos.

Talvez o gesto mais radical seja simples e difícil: desconfiar das formas elegantes do mal. Porque a perversidade mais eficaz não é a que choca, mas a que se torna aceitável.

O Pragmatista

Sem solenidade demais

Sempre desconfiei um pouco das ideias que só funcionam no papel. Aquelas que ficam lindíssimas no livro, mas travam quando precisam atravessar a fila do banco, a reunião de condomínio ou a conversa atravessada no almoço de domingo. O pragmatista nasce exatamente dessa impaciência: ele não pergunta primeiro se algo é verdadeiro em si, mas se funciona na vida.

Ser pragmatista não é ser superficial, nem oportunista, como às vezes se pensa. É, antes, uma filosofia com os pés sujos de chão. O pragmatista mede as ideias pelo que elas fazem conosco, pelo tipo de mundo que constroem quando saem da cabeça e entram no cotidiano. Verdade, aqui, não é um espelho do real, mas uma ferramenta. E ferramenta boa é a que resolve problema — ou pelo menos muda a forma como lidamos com ele.

 

A base filosófica — quando a verdade vira ação

William James: a verdade que acontece

William James, talvez o mais humano dos pragmatistas, dizia algo desconcertante: a verdade não é, ela acontece. Uma ideia se torna verdadeira quando produz efeitos vitais satisfatórios. Isso muda tudo.

No cotidiano, isso aparece quando alguém diz:

“Pensar positivo funciona.”

O pragmatista não responde perguntando se o pensamento positivo corresponde à estrutura metafísica do universo. Ele pergunta: isso ajuda a pessoa a levantar da cama, enfrentar o dia, agir melhor? Se ajuda, então há aí um tipo de verdade em operação.

James nos ensina que viver é um laboratório permanente. Crenças não são relíquias sagradas, são hipóteses de trabalho.

Charles Sanders Peirce: clareza nasce da consequência

Peirce, mais rigoroso, quase um engenheiro da filosofia, propõe um critério simples e radical: para entender o significado de uma ideia, observe suas consequências práticas. Se duas ideias não produzem diferenças na ação, então discutir qual é “mais verdadeira” é perda de tempo.

No cotidiano isso aparece em discussões morais intermináveis. Duas pessoas discordam ferozmente sobre “o sentido da vida”, mas vivem de modo quase idêntico: trabalham, cuidam de quem amam, sentem medo da morte. O pragmatista suspeita: talvez a divergência seja mais verbal do que real.

Peirce nos lembra que clareza filosófica não nasce do refinamento infinito dos conceitos, mas do impacto concreto deles no comportamento.

John Dewey: pensamento como instrumento social

Dewey dá um passo além e traz o pragmatismo para o campo social. Pensar não é contemplar o mundo, é tentar resolver situações problemáticas. Ideias são ferramentas coletivas, não tesouros individuais.

Na escola, por exemplo, Dewey rejeita o ensino que apenas transmite verdades prontas. Aprender, para ele, é experimentar, errar, ajustar. A criança que entende matemática resolvendo um problema real aprende mais do que aquela que apenas decora fórmulas.

No cotidiano adulto, isso aparece quando improvisamos soluções: mudar o jeito de trabalhar, adaptar rotinas, negociar conflitos. O pragmatista confia mais no ajuste contínuo do que em regras absolutas.

 

O pragmatista no dia a dia — cenas comuns, filosofia invisível

No trabalho:

O pragmatista não pergunta se um método é “o melhor em teoria”, mas se melhora a cooperação, reduz retrabalho, torna o ambiente menos tóxico. Se funciona, fica. Se não, muda — sem drama ideológico.

Nos relacionamentos:

Em vez de discutir quem está “certo”, o pragmatista observa: essa forma de falar aproxima ou afasta? Resolve ou acumula ressentimento? Muitas verdades morrem quando percebemos que vencer a discussão custa perder o vínculo.

Na vida interior:

Até crenças sobre si mesmo entram no teste pragmático. Pensar “sou incapaz” produz o quê? Paralisia. Pensar “posso tentar” produz movimento. O pragmatista escolhe a ideia que gera vida, não a que soa mais objetiva.

 

Um risco e uma virtude

O risco do pragmatismo é virar cinismo: vale tudo que funciona. Mas os próprios pragmatistas alertam que “funcionar” não significa vantagem imediata, e sim consequências mais amplas, duráveis, humanas. Uma mentira pode funcionar hoje e destruir tudo amanhã — logo, não funciona de verdade.

A virtude do pragmatismo é sua humildade. Ele não promete verdades eternas, apenas boas apostas existenciais. Ele aceita corrigir o rumo, abandonar ideias queridas, ajustar o mapa quando o território muda.

 

Concluindo — uma filosofia para quem vive

O pragmatista não é o dono da verdade; é alguém disposto a testá-la. Ele não pergunta apenas “isso é verdadeiro?”, mas “isso torna a vida mais habitável?”

Num mundo saturado de discursos, o pragmatismo é quase um gesto de silêncio: menos declarações grandiosas, mais atenção aos efeitos. Menos fidelidade a ideias, mais compromisso com a experiência.

No fim, talvez o pragmatista seja apenas isso: alguém que acredita que pensar serve para viver melhor — e não o contrário.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Erotema

Tem gente que pergunta não porque quer resposta, mas porque a pergunta em si já é um empurrão. Um incômodo. Um espelho. A frase vem com ponto de interrogação, mas o efeito é outro: ela permanece ecoando. “Até quando?”, “vale a pena?”, “é isso mesmo?”. Esse tipo de pergunta — que não espera resposta direta — tem nome antigo e força atual: erotema. E talvez seja uma das formas mais sutis (e eficazes) de pensamento filosófico no cotidiano.

O erotema é a pergunta retórica, mas reduzir seu papel à retórica empobrece seu alcance. Na filosofia, ele funciona como um dispositivo de desestabilização. Sócrates já sabia disso: perguntar era uma maneira de desmontar certezas, não de coletar informações. O erotema não quer preencher uma lacuna de conhecimento; ele cria a lacuna.

Diferente da pergunta comum, que busca fechar um sentido, o erotema abre. Ele suspende o automatismo do pensamento. Quando alguém pergunta “o que estamos fazendo da nossa vida?”, não está esperando uma lista de tarefas nem um plano de cinco anos. Está convocando o interlocutor a se ver por dentro, a confrontar hábitos que se tornaram invisíveis.

Nesse sentido, o erotema é quase ético. Ele exige responsabilidade, não resposta. A pergunta permanece como uma ferida leve, mas persistente, que obriga o sujeito a sair do piloto automático.

Imagine uma reunião em que todos concordam rapidamente com uma decisão. Então alguém solta: “é isso mesmo que a gente quer?”. Silêncio. Ninguém responde de imediato. Mas a pergunta muda tudo. Ela quebra a falsa unanimidade e revela dúvidas que estavam abafadas pela pressa ou pelo medo de discordar.

Ou numa conversa íntima: “quando foi que a gente parou de conversar de verdade?”. Não é uma acusação direta, nem um pedido claro. É um erotema. Ele não aponta culpados, mas expõe um vazio que ambos reconhecem.

Até no diálogo interno ele aparece. Quando você se pega pensando: “se nada mudar, como isso termina?”. Não há resposta pronta. Mas a pergunta já alterou o curso da reflexão. Talvez da ação.

O erotema não é uma pergunta fraca; é uma pergunta perigosa. Ele não organiza o mundo, desorganiza. Não conforta, inquieta. Em tempos de respostas rápidas, tutoriais e opiniões prontas, talvez pensar bem seja reaprender a perguntar desse jeito: não para obter soluções imediatas, mas para criar espaço interior.

Porque algumas perguntas não existem para serem respondidas — existem para nos transformar.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Hipotético e Metafórico


A gente vive dizendo “e se…”. E se eu tivesse escolhido outro caminho? E se isso der errado? E se desse certo? Ao mesmo tempo, explicamos a vida por imagens: “estou carregando um peso”, “minha cabeça é um turbilhão”, “estou num beco sem saída”. O curioso é que quase nunca percebemos: pensar hipoteticamente e pensar metaforicamente são dois movimentos silenciosos que estruturam nossa relação com o mundo. Um projeta possibilidades; o outro traduz o indizível. Juntos, eles formam a gramática invisível da experiência humana.

O pensamento hipotético nasce da abertura ao possível. Ele rompe com o dado, com o que já está fixado. Kant via no juízo hipotético uma forma de ligação entre condições e consequências; já na vida cotidiana, ele funciona como ensaio existencial. Antes de agir, imaginamos. Antes de decidir, simulamos futuros. O problema não é pensar em hipóteses, mas viver prisioneiro delas — quando o “e se” paralisa em vez de iluminar.

A metáfora, por sua vez, não projeta futuros: ela dá forma ao presente. Como lembrava Aristóteles, a metáfora é uma transferência de sentido. Quando dizemos “estou afundando”, não estamos descrevendo um fato físico, mas uma experiência interna que não cabe em conceitos frios. A metáfora é um atalho entre a sensação e a linguagem.

Hipótese e metáfora se encontram num ponto crucial: ambas revelam que o pensamento humano não é puramente literal. Não pensamos apenas com fatos, mas com possibilidades e imagens. O real, para nós, nunca é bruto; ele sempre vem mediado por cenários imaginados e figuras simbólicas.

Pense em alguém diante de uma decisão difícil: mudar de cidade. O pensamento hipotético entra em cena: e se eu me arrepender? e se for a melhor coisa da minha vida? Cada hipótese cria um pequeno mundo alternativo, com suas promessas e ameaças. Nenhum deles é real ainda, mas todos influenciam o presente.

Ao mesmo tempo, essa pessoa pode dizer: “sinto que estou numa encruzilhada”. A metáfora organiza o caos emocional. Não há estrada física ali, mas a imagem ajuda a compreender a tensão entre escolha e perda. Sem a metáfora, a experiência ficaria muda.

Outro exemplo simples: alguém exausto diz “estou no limite”. O limite não é mensurável, não aparece em exames. É metafórico — mas nem por isso menos real. Ele orienta decisões, pedidos de ajuda, mudanças de ritmo. A metáfora, aqui, funciona quase como um diagnóstico existencial.

O hipotético nos lembra que a vida poderia ser diferente; o metafórico nos ajuda a suportar como ela é. Um abre horizontes, o outro cria sentido. Quando usados com equilíbrio, ambos ampliam a compreensão de si e do mundo. Quando exagerados, produzem fuga: ou para futuros que nunca chegam, ou para imagens que escondem o real.

Talvez amadurecer seja aprender quando imaginar possibilidades e quando nomear experiências. Saber quando perguntar “e se?” — e quando dizer, simplesmente: “é assim que estou agora”.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Peculiaridades


Às vezes a gente fala “cada pessoa é única” como quem diz “bom dia”. A frase sai fácil, quase automática. Mas basta passar cinco minutos observando um grupo qualquer — numa fila de banco, numa mesa de bar, num grupo de família no WhatsApp — para perceber que essa unicidade não é um detalhe simpático: é um problema filosófico sério. Cada ser humano carrega um modo próprio de sentir o tempo, de reagir ao silêncio, de lembrar do passado e de suportar o presente. Somos feitos de peculiaridades, e é isso que torna a convivência tão fascinante quanto exaustiva.

A filosofia sempre desconfiou das explicações fáceis sobre o humano. Quando tentamos definir o “homem” em termos gerais, algo sempre escapa. Kierkegaard já alertava que o indivíduo concreto não cabe nos sistemas; Nietzsche desconfiava das verdades universais que ignoram as singularidades da vida; e a fenomenologia insistiu que cada consciência habita o mundo a partir de um ponto de vista irrepetível.

As peculiaridades não são apenas traços psicológicos ou gostos pessoais. Elas são a maneira como cada um organiza o caos da existência. Dois indivíduos podem viver o mesmo acontecimento — uma perda, um sucesso, uma humilhação — e sair dele como se tivessem atravessado mundos distintos. Isso acontece porque a experiência nunca é neutra: ela passa por filtros invisíveis feitos de memórias, afetos, medos e expectativas.

A modernidade, no entanto, tenta o oposto. Classifica, mede, padroniza. Cria perfis, diagnósticos, rótulos. Tudo isso ajuda a organizar a vida social, mas cobra um preço: a ilusão de que compreender alguém é encaixá-lo numa categoria. O problema é que a peculiaridade verdadeira começa exatamente onde as categorias falham.

Pense numa situação simples: duas pessoas recebem uma crítica no trabalho. Uma vai para casa remoendo a frase por dias, como se ela definisse toda a sua identidade. A outra escuta, ajusta o que precisa e dorme em paz. A crítica foi a mesma; o impacto, não. A peculiaridade de cada um não está no fato, mas no modo como o fato encontra a sua história interior.

Ou ainda: há quem precise de silêncio para pensar, e quem só consiga se entender falando. Quem organize a vida em listas obsessivas e quem viva bem no improviso. Quem sinta culpa por descansar e quem se sinta culpado por trabalhar demais. Nenhuma dessas posturas é “a correta” em termos absolutos; cada uma responde a um equilíbrio interno diferente.

Até no amor isso aparece de forma quase cruel. Algumas pessoas precisam de presença constante para se sentirem seguras; outras precisam de espaço para não se sentirem sufocadas. O conflito não nasce da falta de afeto, mas do choque entre peculiaridades incompatíveis.

Reconhecer as peculiaridades humanas não é um exercício de tolerância genérica, mas de humildade ontológica. Significa aceitar que nunca entenderemos totalmente o outro — e que, muitas vezes, também não entendemos a nós mesmos. Talvez a maturidade não esteja em eliminar as diferenças, mas em aprender a conviver com esse excesso de singularidade que cada pessoa traz consigo.

No fim das contas, o humano é complexo não porque seja confuso, mas porque é plural. E toda vez que tentamos simplificar demais alguém, perdemos justamente aquilo que o torna humano.


Cotas Sociais


Vira e mexe volta à tona a questão das cotas sociais. As cotas sociais costumam gerar debate acalorado porque mexem numa ferida antiga: a ideia de igualdade num país profundamente desigual. Penso que dá pra falar delas sem slogan — nem demonizando, nem romantizando.

Em termos simples, cotas sociais são políticas de acesso (principalmente à educação e ao serviço público) que levam em conta condições socioeconômicas, como renda familiar, tipo de escola frequentada (pública ou privada), local de moradia, entre outros fatores. A lógica é direta: não basta tratar todos como iguais quando as largadas são radicalmente diferentes.

 

O argumento central

Quem defende cotas sociais parte de uma constatação básica:

mérito não nasce no vácuo.

Um estudante que estudou a vida inteira em escola pública precária, trabalhou cedo, pegou ônibus lotado e nunca teve aula particular competiu em condições muito diferentes de alguém que teve acesso a capital cultural, tempo livre e estrutura. As cotas não eliminam o mérito — elas tentam corrigir a assimetria do ponto de partida.

“Mas isso não abaixa o nível?”

Esse é um medo comum. Na prática, o que se viu (especialmente nas universidades públicas brasileiras) foi o contrário, pelo que sei é que:

  • alunos cotistas acompanham o curso,
  • taxas de evasão são semelhantes (ou menores),
  • e muitos têm desempenho acadêmico equivalente aos não cotistas.

Ou seja, oportunidade não é sinônimo de facilitação.

Cotas sociais × cotas raciais

Aqui vale uma distinção importante:

  • cotas sociais focam renda e escolaridade;
  • cotas raciais reconhecem que, além da pobreza, o racismo estrutural cria barreiras específicas, mesmo para pessoas negras que não são pobres.

No Brasil, essas duas dimensões se sobrepõem muito — mas não totalmente. Por isso, o modelo adotado costuma combinar critérios sociais e raciais, tentando capturar melhor a realidade.

 

Um desconforto necessário

Cotas sociais incomodam porque quebram a narrativa confortável da meritocracia pura. Elas nos obrigam a admitir que talento existe em todo lugar, mas o acesso às condições para desenvolvê-lo não.

No fundo, a pergunta que elas levantam não é “quem merece mais”, mas:

quanta desigualdade uma sociedade aceita antes de chamar isso de injustiça?

Não são uma solução mágica. Não substituem uma educação básica forte, nem resolvem sozinhas o problema da desigualdade. Mas funcionam como ponte — imperfeita, provisória, mas necessária — entre o país real e o país que gosta de se imaginar justo.

As cotas sociais deixam de ser necessárias quando o ponto de partida deixa de ser desigual, o que exige uma educação básica pública de alta qualidade e homogênea, redução consistente da pobreza, acesso real a saúde, alimentação, cultura e tempo para estudar, além de políticas econômicas que não naturalizem a herança da miséria; em outras palavras, quando o lugar onde alguém nasce deixa de determinar, com tanta força, o lugar a que pode chegar.

As cotas raciais existem porque, mesmo quando a desigualdade econômica é controlada, a cor da pele continua operando como filtro social, produzindo desvantagens que não aparecem apenas na renda ou na escola frequentada; elas reconhecem que o racismo não é só um preconceito individual, mas um mecanismo estrutural que afeta expectativas, oportunidades, tratamento institucional e trajetórias de vida, e por isso não são um privilégio, mas uma ferramenta corretiva provisória, necessária enquanto a sociedade insistir em tratar pessoas de forma diferente antes mesmo de saber quem elas são.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Valor Sofístico

Quando o parecer vence o ser

Há valores que se sustentam pelo peso do que são; outros, pelo brilho do que parecem. O valor sofístico nasce exatamente nesse intervalo escorregadio entre verdade e convencimento, entre conteúdo e performance. Ele não nega a verdade — apenas a considera secundária. O que importa é o efeito produzido: adesão, impacto, vitória no discurso.

Na Grécia Antiga, os sofistas foram os primeiros a compreender algo profundamente moderno: a verdade, quando entra na arena pública, precisa de forma para sobreviver. Górgias, Protágoras e companhia sabiam que ideias nuas raramente convencem. É preciso vesti-las. A crítica platônica, porém, apontava o perigo: quando a retórica se emancipa da verdade, o valor passa a residir não no que é dito, mas no modo como se diz.

Esse deslocamento é o núcleo do valor sofístico.

 

Valor sem essência

O valor sofístico não é exatamente falso. Ele é independente da verdade. Algo pode ser verdadeiro e ainda assim não ter valor sofístico algum — se não convencer. Da mesma forma, algo pode ser frágil, raso ou até enganoso, mas adquirir enorme valor sofístico se for bem apresentado.

Aqui, o valor deixa de ser ontológico (ligado ao ser) e torna-se relacional: vale aquilo que funciona em determinado contexto. É um valor pragmático, instrumental. Aristóteles já distinguia a retórica da dialética justamente por isso: a retórica opera no campo do provável, não do necessário.

O sofista entende que, no mundo humano, o necessário raramente governa. Quem governa é o verossímil.

 

A estética do argumento

O valor sofístico é estético antes de ser ético. Ele se ancora no ritmo da fala, na segurança do tom, na escolha das palavras, na autoridade simbólica de quem fala. Pierre Bourdieu chamaria isso de capital simbólico: o poder de ser levado a sério antes mesmo de ser compreendido.

Por isso, muitas ideias não fracassam por serem ruins, mas por serem mal encenadas. Outras prosperam não por sua profundidade, mas por sua embalagem discursiva. O valor sofístico transforma o argumento em espetáculo — e o espetáculo, em critério de valor.

Guy Debord diria que, nesse processo, o conteúdo se dissolve na aparência. Baudrillard iria além: já não se trata sequer de aparência, mas de simulação — argumentos que não remetem a nenhuma realidade sólida, apenas a outros discursos igualmente performáticos.

 

O retorno triunfal na modernidade

Se Platão estivesse vivo hoje, provavelmente não escreveria A República, mas um tratado sobre redes sociais. Nunca o valor sofístico foi tão eficiente. Likes, engajamento, viralização: métricas puramente sofísticas. Não medem verdade, apenas aderência.

O discurso político, o marketing pessoal, o debate moral online — tudo opera segundo a lógica do valor sofístico. O argumento não precisa ser bom; precisa ser compartilhável. Não precisa ser justo; precisa ser afirmativo. Não precisa ser verdadeiro; precisa ser convincente em 30 segundos.

Nesse cenário, o valor deixa de ser algo a ser descoberto e passa a ser algo a ser fabricado.

 

O dilema ético

O problema do valor sofístico não é sua existência — ele é inevitável. Toda comunicação envolve forma, persuasão, escolha estratégica. O problema surge quando ele se torna exclusivo, quando substitui qualquer compromisso com a verdade, o bem ou a responsabilidade.

Platão temia exatamente isso: uma sociedade governada não pelos mais justos, mas pelos mais eloquentes. Uma sociedade onde a opinião bem vestida vence o pensamento mal articulado. Onde parecer supera ser.

No entanto, rejeitar completamente o valor sofístico é ingenuidade. O desafio contemporâneo talvez não seja eliminá-lo, mas domesticá-lo: fazer com que a forma sirva ao conteúdo, e não o devore.

 

Um valor espelhado

Talvez a questão mais inquietante seja esta: o valor sofístico não está apenas “lá fora”, nos discursos dos outros. Ele habita nossas escolhas diárias. Quando preferimos a resposta inteligente à resposta honesta. Quando escolhemos parecer coerentes em vez de admitir dúvida. Quando defendemos uma ideia não porque acreditamos nela, mas porque já a defendemos em público.

Nesse ponto, o valor sofístico deixa de ser um problema filosófico abstrato e se torna um problema existencial.

O valor sofístico é um espelho desconfortável. Ele revela que, no mundo humano, o valor raramente é puro. Ele é negociado, encenado, disputado. A questão decisiva não é se usaremos a retórica — isso é inevitável — mas a serviço de quê.

Entre convencer e compreender, entre vencer o debate e aprofundar o pensamento, o valor sofístico sempre oferecerá o caminho mais curto. Cabe a nós decidir se o atalho vale o preço.

Porque, no fim, há uma diferença silenciosa — mas decisiva — entre ter valor e parecer valioso.

Ratos e Homens

O que nos rói por dentro

Eu sempre achei curioso como a palavra rato aparece nas conversas do dia a dia. No trânsito, no trabalho, na política, no condomínio. “Fulano é um rato”, alguém diz, geralmente com raiva moral. Rato vira sinônimo de quem sobrevive às custas dos outros, de quem se esgueira, de quem age no escuro. Homem, por outro lado, deveria ser o contrário: luz, palavra, responsabilidade. Mas a vida insiste em misturar tudo. Às vezes, o rato usa gravata. Às vezes, o homem aprende a roer.

Não estou falando de zoologia, mas de ética cotidiana.

O rato que acorda cedo

Todo dia de manhã, no ônibus lotado ou na fila do café, vejo pequenas cenas de ratice social. O sujeito que fura a fila fingindo não perceber. O colega que se apropria de uma ideia alheia na reunião. A empresa que prega valores humanos enquanto espreme pessoas como se fossem peças descartáveis. Nada disso é grandioso, épico ou trágico. É miúdo. E justamente por isso, eficaz.

O rato não quer o mundo, quer sobreviver. Quer o pedaço de queijo mais próximo. Ele não pergunta se o queijo era de alguém. Ele não reflete. Ele age.

E aí vem o desconforto: quantas vezes nós também agimos assim?

Quando aceitamos um privilégio injusto “porque todo mundo faz”. Quando silenciamos diante de uma injustiça para não perder espaço. Quando escolhemos a conveniência em vez da consciência. O rato não nasce rato — ele aprende que roer é mais seguro do que falar.

O homem que hesita

Ser homem, no sentido filosófico, não é ser herói. É hesitar. É parar antes do gesto automático. É perguntar: isso que me beneficia também destrói alguém? Essa pausa é rara. Dá trabalho. Dá medo.

Aqui entra Paulo Freire, como um incômodo necessário. Freire insistia que a desumanização não é destino, é processo histórico. Ninguém acorda um dia “menos humano” por acidente. A gente vai se adaptando. Vai naturalizando pequenas violências. Vai chamando sobrevivência de esperteza, e esperteza de virtude.

Para Freire, o grande risco não é o oprimido se rebelar, mas se parecer demais com o opressor. O rato bem-sucedido não quer deixar de ser rato; ele quer um porão maior, melhor iluminado, com menos concorrência.

Entre o medo e a escolha

Há dias em que ser rato parece mais racional. O mundo não recompensa os ingênuos, dizem. E talvez estejam certos. Mas a pergunta não é sobre recompensa. É sobre custo interno.

Porque toda vez que escolhemos roer em silêncio, algo em nós se acostuma a andar curvado. E depois de um tempo, a coluna moral já não endireita mais. O homem que abdica da palavra vira especialista em atalhos. O problema é que atalhos não levam a lugar nenhum — só evitam o confronto.

No cotidiano, isso aparece em coisas simples:

– no pai que ensina o filho a “dar um jeitinho” em vez de explicar o porquê das regras;

– no profissional que troca sentido por status;

– no cidadão que chama cinismo de realismo.

Nada disso é monstruoso. É apenas humano… ou quase.

Na Politica

Na política, a metáfora do rato quase se escreve sozinha: não aquele rato de desenho animado, mas o que rói por baixo, longe da luz, enquanto a casa parece intacta. Basta lembrar do orçamento secreto, essa engenharia criativa onde bilhões circularam e circulam por túneis invisíveis, sem critério claro, sem rosto responsável, enquanto escolas caem aos pedaços e hospitais improvisam heroísmos com fita adesiva. Não é um assalto explícito — e a roedura contínua. Um milhão aqui, outro ali, sempre “dentro da lei”, sempre com uma justificativa técnica que ninguém comum consegue entender. O rato político não derruba a sociedade de uma vez; ele a enfraquece por dentro, tornando normal que o público vire privado, que o coletivo vire moeda de troca. E o mais perverso: quanto mais sofisticada a maracutaia, mais ela parece racional, administrativa, quase elegante — como se a ética fosse apenas um detalhe dispensável na planilha. Tem outras coisas horrendas neste sopão do terror tais como blindagens de poderes, fraude no INSS, Banco Master, o Brasil é um grande ninho de ratos, algumas maracutaias vem à tona, imaginem o que tem de sujeira escondida por ai alimentando as barrigas inchadas de vinho, champanhe, caviar, os ratos fumando seus charutos, fazendo pose de superioridade e olhando o povão com desdém. Existem poucos homens íntegros, existem mais ratos de colarinho e gravata ocupando cargos e com poder contaminando tudo que olham, tocam e o ar que respiramos.

Ratos, homens e a difícil dignidade

Talvez a fronteira entre ratos e homens não esteja na moralidade perfeita, mas na capacidade de se perceber roendo. O rato não se pergunta quem ele é. O homem, sim — mesmo quando falha.

Ser homem, no fim das contas, é sustentar o desconforto de não caber bem no mundo. É recusar a naturalização da esperteza como valor supremo. É entender que sobreviver não basta; é preciso responder pelo modo como se sobrevive.

Freire diria que a humanização é um verbo, não um estado. Eu diria que é uma escolha diária, feita em situações pequenas, quase invisíveis. Ninguém vira rato de uma vez. E ninguém vira homem para sempre.

Entre o porão e a praça pública, entre o silêncio e a palavra, seguimos escolhendo — ou sendo escolhidos. O que nos rói por dentro, no fundo, não é a fome. É a pergunta que evitamos fazer.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Entrelaçar de Dedos

Quando duas solidões concordam em caminhar juntas

Ninguém entrelaça os dedos por acaso. Diferente do aperto de mãos, que é público, treinado e socialmente exigido, o entrelaçar de dedos nasce de um acordo íntimo, quase secreto. Ele não anuncia nada para o mundo; apenas confirma algo para quem está dentro do gesto.

É curioso: duas mãos podem se tocar de muitas formas, mas só os dedos entrelaçados dizem claramente “não estou sozinho agora”. Não é posse, não é fusão total. É convivência.

O cotidiano do gesto invisível

Pense em um casal caminhando na rua. Não estão se olhando o tempo todo, não estão falando. Mas os dedos entrelaçados funcionam como um fio invisível que mantém os dois no mesmo ritmo. Se um acelera, o outro sente. Se um hesita, o gesto segura.

Ou numa sala de espera difícil — hospital, velório, notícia incerta. Não há palavras adequadas. O entrelaçar de dedos surge como uma linguagem que dispensa frases. Não explica, não resolve, mas sustenta.

Há também o momento inverso: quando os dedos se soltam. Quase ninguém comenta, mas o corpo sabe. Algo mudou antes mesmo de ser dito.

O corpo como lugar de sentido

Aqui, Merleau-Ponty entra naturalmente. Para ele, o corpo não é um objeto que possuímos, mas o modo como estamos no mundo. O sentido não nasce depois da experiência; ele emerge na experiência.

Entrelaçar os dedos é exatamente isso: um sentido que não passa pela reflexão. O corpo reconhece o outro como presença confiável antes que a razão formule qualquer explicação. É uma compreensão pré-verbal, corporal, quase primitiva — e por isso tão potente.

Não é “eu penso que confio”, é “meu corpo permanece”.

Entre intimidade e alteridade

Mas o gesto não apaga a diferença. Cada dedo continua sendo seu. Não há confusão de limites. Nesse ponto, o entrelaçar de dedos ensina algo que a filosofia passa séculos tentando formular: estar junto não é desaparecer no outro.

Marilena Chaui, ao comentar a experiência humana, insiste que a relação verdadeira não elimina a singularidade. Pelo contrário: ela só existe porque há dois. O entrelaçar de dedos encarna isso com precisão quase didática. União sem anulação. Proximidade sem invasão.

Talvez seja por isso que o gesto seja tão difícil de sustentar quando a relação começa a falhar. Ele exige uma confiança silenciosa, constante, corporal.

Tempo, memória e gesto

Diferente de palavras, o entrelaçar de dedos deixa memória no corpo. Anos depois, basta repetir o gesto — ou lembrar dele — para que um mundo inteiro volte: ruas, cheiros, medos, promessas.

Rubem Alves diria que há gestos que não servem para nada, e justamente por isso são essenciais. Eles não produzem, não explicam, não resolvem. Apenas fazem sentido. O entrelaçar de dedos pertence a essa categoria rara: inútil para o mercado, indispensável para a alma.

Um pacto sem contrato

Entrelaçar os dedos é fazer um acordo sem cláusulas. Um pacto sem garantias. Ele diz: fico aqui enquanto fizer sentido, caminho com você agora, não preciso controlar.

Talvez a grande lição filosófica desse gesto seja simples e difícil ao mesmo tempo: a vida compartilhada não se sustenta por promessas grandiosas, mas por pequenos atos repetidos. Um deles é esse — quase imperceptível — em que duas mãos aceitam, por um instante, habitar o mesmo espaço.

E quando os dedos se soltam, não é o gesto que falha. É a vida que segue, lembrando que nada do que realmente importa é permanente — mas quase tudo é profundamente sentido.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Aperto de Mãos

Quando o corpo diz “estou aqui”



A gente aperta a mão de alguém antes mesmo de saber o que vai dizer. Às vezes, antes mesmo de saber quem aquela pessoa é. O gesto vem primeiro, a palavra depois. É curioso: um movimento tão simples — duas mãos que se encontram por alguns segundos — consegue dizer mais do que discursos inteiros. Confiança, hesitação, pressa, respeito, poder, submissão. Tudo escapa ali, pela palma da mão.

No cotidiano, o aperto de mãos é quase invisível, automático. Mas talvez seja justamente aí que ele se torna filosoficamente interessante: quando algo se repete tanto que a gente esquece de perguntar o que está realmente acontecendo.

Situações comuns, sentidos ocultos

Pense em uma entrevista de emprego. O candidato entra, sorri, estende a mão. Se o aperto é firme demais, vira agressividade. Se é frouxo, vira insegurança. Ninguém explica isso, mas todos sabem. O corpo já aprendeu a linguagem antes da consciência.

Ou no encontro casual com alguém conhecido: um vizinho, um colega distante. O aperto de mãos funciona como uma ponte mínima entre dois mundos que não querem se misturar demais. Não é abraço — que envolve — nem aceno — que distancia. É um meio-termo civilizado: reconheço você, mas continuo inteiro.

Há também o aperto de mãos que sela acordos. Mesmo com contratos assinados, é o gesto final que parece legitimar tudo. Como se disséssemos: “Agora não é mais papel, é corpo”.

A mão como lugar da ética

Aqui, vale chamar Emmanuel Lévinas para a conversa. Para ele, a ética nasce no encontro com o outro — não como ideia abstrata, mas como presença concreta. O rosto do outro nos convoca, nos obriga, nos tira do centro.

O aperto de mãos pode ser lido como uma extensão desse pensamento. Ao estender a mão, eu me exponho. Abro a parte do corpo que toca, que trabalha, que sente. E ao segurar a mão do outro, aceito, ainda que por segundos, a sua alteridade. Não é fusão. É contato.

A mão não engana tão facilmente quanto o discurso. Ela treme, sua, escapa, aperta demais. O corpo entrega o que a palavra tenta esconder. Por isso, o aperto de mãos é ético: ele revela sem pedir licença.

Poder, controle e assimetria

Nietzsche talvez olhasse para o aperto de mãos com certo ceticismo. Onde há gesto social, há também disputa. Quem aperta primeiro? Quem solta por último? Quem puxa o outro levemente para si?

No cotidiano, vemos isso claramente em ambientes corporativos ou políticos. O aperto de mãos vira um microcampo de forças. Um pequeno duelo silencioso. O gesto que deveria simbolizar igualdade, muitas vezes escancara hierarquias.

E isso não é um defeito do gesto — é a sua verdade. O aperto de mãos não cria relações; ele revela as que já existem.

Quando o gesto falha

Curiosamente, sentimos falta do aperto de mãos quando ele desaparece. Em momentos de crise sanitária, por exemplo, o gesto some — e algo do tecido social se rompe junto. Ficam os cotovelos, os acenos constrangidos, os sorrisos à distância. Nada substitui completamente o toque.

Isso nos lembra que não somos apenas seres de linguagem, mas de contato. O mundo não se sustenta só por ideias; precisa de gestos mínimos, repetidos, quase banais.

Um gesto pequeno demais para ser pequeno

O aperto de mãos é um ritual discreto de reconhecimento mútuo. Ele diz: estamos no mesmo espaço, não somos inimigos, podemos começar daqui. Não resolve conflitos, não garante honestidade, não salva o mundo. Mas inaugura algo essencial: a possibilidade de relação.

Talvez a filosofia precise, de vez em quando, descer das grandes abstrações e olhar para esses gestos miúdos. Porque é neles que a vida acontece — não em tratados, mas em mãos que se encontram por alguns segundos e depois seguem seus caminhos, carregando, sem saber, o peso simbólico de um mundo inteiro.

Vulnerabilidades


Começa quase sempre assim: ninguém acorda querendo falar de vulnerabilidade. A gente prefere falar de força, estratégia, desempenho, superação. Vulnerabilidade soa como algo que deveria ser resolvido rápido, escondido ou, no máximo, tolerado em silêncio. Justamente por isso, falar sobre ela é importante. Porque tudo o que tentamos calar acaba agindo por conta própria. A vulnerabilidade não desaparece quando é ignorada — ela apenas se torna mais confusa, mais dolorosa e menos consciente.

Vulnerabilidade como condição, não como defeito

Hannah Arendt ajuda a deslocar o tema do campo da fraqueza para o da condição humana. Para ela, viver é estar exposto: ao outro, à palavra, à ação, ao imprevisível. Agir e falar em público — no sentido amplo da vida compartilhada — nos coloca inevitavelmente em risco. Não há ação sem vulnerabilidade, porque não há controle total sobre os efeitos do que fazemos ou dizemos.

Isso desmonta uma ilusão muito comum no cotidiano: a de que ser forte é ser impermeável. Na prática, quanto mais alguém tenta se blindar, mais frágil se torna internamente. A vulnerabilidade não é o oposto da força; é o preço de existir em relação.

O cotidiano da exposição

No trabalho, a vulnerabilidade aparece quando admitimos não saber tudo, quando uma ideia pode ser rejeitada, quando dependemos do reconhecimento alheio. Nas relações, ela surge quando gostamos de alguém, quando pedimos algo, quando dizemos o que sentimos sem garantia de resposta. Até o simples ato de mudar de opinião já nos coloca numa posição vulnerável — porque ameaça a imagem que construímos de nós mesmos.

Muitas estratégias modernas de vida são, no fundo, tentativas de eliminar essa exposição: excesso de planejamento, ironia constante, distanciamento emocional, desempenho permanente. O problema é que, ao reduzir o risco, reduzimos também a intensidade da experiência.

A leitura existencial da vulnerabilidade

Em Heidegger, a vulnerabilidade aparece como facticidade: somos lançados no mundo sem manual, sem garantias, sem solo definitivo. Não escolhemos tudo — nascemos em um tempo, em um corpo, em circunstâncias que nos antecedem. Essa condição não é algo a ser superado, mas assumido. Negá-la produz alienação; reconhecê-la abre espaço para autenticidade.

No cotidiano, isso significa aceitar que nem toda insegurança é um erro de cálculo. Às vezes, ela é apenas o sinal de que estamos diante de algo que realmente importa.

Vulnerabilidade e sentido

O ponto decisivo é este: só é vulnerável quem ainda está em relação com a vida. A indiferença absoluta não sofre, mas também não cria, não ama, não se transforma. A vulnerabilidade indica zonas de sentido — lugares onde algo nos afeta porque não é indiferente.

Falar sobre vulnerabilidade é importante porque ela não é um problema a ser eliminado, mas um dado a ser interpretado. Quando reconhecida, ela orienta escolhas, ajusta expectativas, humaniza relações. Quando negada, se converte em cinismo, rigidez ou abandono de si.

No fim, talvez a pergunta não seja “como deixar de ser vulnerável?”, mas outra, mais honesta: o que vale a pena continuar sentindo, mesmo com o risco que isso traz?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Licenciosidade do Abandono


A licenciosidade do abandono começa quase sempre de modo discreto. Não é um gesto teatral, nem uma decisão anunciada. É quando a gente deixa passar uma mensagem sem responder, adia um cuidado consigo mesmo, tolera um desconforto que antes não toleraria. No início parece descanso. Depois, vira hábito. E o hábito, silenciosamente, pede licença para se instalar.

Abandonar como quem pede permissão

Há um tipo de abandono que não nasce da impossibilidade, mas da concessão. Não é que não dê mais — é que deixamos. Deixamos o corpo ir ficando cansado, as ideias repetirem, as relações perderem espessura. A licenciosidade está justamente aí: no pequeno acordo interno que diz “tudo bem assim”, mesmo quando algo em nós sabe que não está.

Esse abandono é licencioso porque não se impõe à força; ele seduz. Oferece alívio imediato: menos esforço, menos confronto, menos responsabilidade por si. Como se a vida pudesse ser colocada em modo econômico sem custos futuros.

O abandono de si no cotidiano

Ele aparece em cenas banais. No trabalho, quando alguém aceita uma rotina que já não faz sentido só para evitar o risco de mudar. Nas relações, quando se permanece por inércia, não por presença. Em si mesmo, quando se troca curiosidade por distração contínua — rolar a tela em vez de sustentar um pensamento.

A licenciosidade do abandono não destrói de uma vez; ela desgasta. É um desinvestimento lento, quase educado. Não quebra nada, apenas vai deixando cair.

Entre liberdade e fuga

Há uma confusão perigosa entre abandonar e libertar-se. Nem todo abandono é emancipação. Às vezes, abandonar é apenas fugir do trabalho de sustentar algo vivo. A liberdade exige escolha; o abandono licencioso exige apenas desistência.

Filosoficamente, isso toca num ponto sensível: a diferença entre deixar ir e largar mão. Deixar ir pode ser um gesto ativo, lúcido, até necessário. Largar mão, quando licencioso, é recusar-se a responder pelo próprio desejo. É quando a vida vai sendo entregue ao automático, ao “tanto faz”.

A falsa paz do abandono

O abandono licencioso costuma vir acompanhado de uma paz enganosa. Menos conflito, menos tensão, menos perguntas. Mas também menos intensidade, menos presença, menos sentido. É uma tranquilidade morna, que anestesia mais do que descansa.

Com o tempo, essa paz cobra seu preço: uma sensação difusa de esvaziamento, como se algo importante tivesse sido deixado para trás — e foi, ainda que não saibamos dizer exatamente o quê.

Resistir sem endurecer

Resistir à licenciosidade do abandono não significa abraçar o controle excessivo ou a rigidez moral. Significa reaprender a sustentar: sustentar o cuidado, o desconforto criativo, a atenção. É escolher, repetidamente, não abandonar o que ainda pulsa — mesmo quando cansa.

Talvez viver com algum rigor não seja ser duro, mas ser fiel ao movimento da própria vida. Não permitir que o abandono se disfarce de descanso, nem que a desistência se venda como sabedoria.

No fim, a pergunta não é “do que posso abrir mão?”, mas outra, mais incômoda e mais honesta: do que não posso me abandonar sem deixar de ser atravessado pela vida?