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terça-feira, 31 de março de 2026

Tolerância à Ambiguidade

Habitar o intervalo sem respostas prontas

Sabe aquela sensação meio incômoda quando algo não está claro — quando uma resposta não vem, quando uma situação parece ter dois lados ao mesmo tempo, ou quando simplesmente não conseguimos decidir o que pensar?

A gente costuma querer resolver isso rápido, dar um nome, escolher um lado, fechar a questão. Mas nem sempre dá. E talvez nem precise dar. É aí que entra uma ideia interessante: a tal da tolerância à ambiguidade — essa capacidade meio rara de aguentar o “não sei” sem entrar em curto-circuito. O mundo é assim, complexo, muito complexo para alguns, quase insuportável.

Há um tipo de desconforto que não faz barulho.

Ele aparece quando alguém nos faz uma pergunta sem resposta clara. Quando uma situação não se encaixa em “certo” ou “errado”. Quando duas ideias opostas parecem, ao mesmo tempo, plausíveis.

Nesse momento, sentimos uma leve inquietação — quase um impulso de resolver, decidir, classificar.

Mas e se nem tudo precisasse ser resolvido imediatamente?

Talvez exista uma habilidade silenciosa, pouco valorizada, mas profundamente necessária: a tolerância à ambiguidade.


O incômodo de não saber

Desde cedo, aprendemos a buscar clareza.

Queremos respostas, definições, conclusões. O mundo parece mais seguro quando pode ser organizado em categorias estáveis.

Mas a experiência cotidiana raramente coopera.

  • pessoas são contraditórias
  • decisões envolvem perdas e ganhos simultâneos
  • situações mudam de significado com o tempo.

A ambiguidade não é exceção.

Ela é parte da estrutura da vida.

Ainda assim, resistimos a ela.


A pressa de fechar o sentido

O sociólogo Zygmunt Bauman descrevia a modernidade como um tempo marcado pela fluidez — relações, identidades e certezas tornaram-se mais instáveis.

Nesse cenário, cresce o desejo por definições rápidas.

Queremos saber:

  • quem está certo
  • qual é a melhor escolha
  • qual posição devemos tomar.

Essa pressa em fechar o sentido é, muitas vezes, uma tentativa de escapar do desconforto da ambiguidade.


Entre duas verdades

A ambiguidade costuma surgir quando duas interpretações coexistem.

Um exemplo simples:

Uma pessoa não responde uma mensagem.

Isso pode significar:

  • desinteresse
  • distração
  • excesso de trabalho
  • ou simplesmente esquecimento.

A mente, no entanto, tende a escolher rapidamente uma narrativa — geralmente a mais carregada emocionalmente.

Tolerar a ambiguidade é resistir a esse impulso.

É admitir, ainda que temporariamente:

“eu não sei exatamente o que isso significa.”


A ambiguidade como espaço de pensamento

O psicólogo e pensador social Erich Fromm via a liberdade como algo que muitas vezes gera ansiedade. Ser livre implica não ter respostas pré-definidas.

Nesse sentido, a ambiguidade pode ser vista como um espaço de liberdade.

Ela abre possibilidades.

Enquanto uma situação permanece ambígua, múltiplas interpretações ainda são possíveis. O sentido ainda não foi fechado.

Há, nesse intervalo, uma forma de pensamento mais aberta — menos apressada, mais reflexiva.

Um livro interessante para ler sobre o que Fromm esta se referindo é “O Medo á Liberdade”.


O cotidiano cheio de zonas cinzentas

Na prática, a vida é feita de áreas intermediárias:

  • decisões que são parcialmente certas e parcialmente erradas
  • relações que não são totalmente próximas nem totalmente distantes
  • escolhas que resolvem um problema e criam outro.

Mesmo assim, tendemos a simplificar.

Preferimos respostas claras a perguntas complexas.


A habilidade de sustentar o não saber

Tolerar a ambiguidade não significa desistir de compreender.

Significa adiar a conclusão.

É sustentar por algum tempo o não saber, sem ansiedade excessiva, sem necessidade imediata de fechar o sentido.

Essa habilidade aparece em pequenas situações:

  • ouvir alguém sem julgar rapidamente
  • considerar diferentes pontos de vista
  • aceitar que uma resposta pode não estar pronta.

O risco da simplificação

Quando a ambiguidade é intolerável, surge a tentação de simplificar o mundo.

  • reduzir questões complexas a respostas fáceis
  • transformar incertezas em certezas rígidas
  • escolher lados sem compreender nuances.

Essa simplificação pode trazer alívio momentâneo, mas empobrece a compreensão.


O valor do intervalo

Talvez a tolerância à ambiguidade seja, no fundo, a capacidade de permanecer no intervalo.

Entre pergunta e resposta.

Entre dúvida e decisão.

Entre múltiplas possibilidades.

Esse intervalo é desconfortável — mas também é fértil.

É nele que surgem:

  • reflexões mais profundas
  • decisões mais conscientes
  • compreensões mais amplas.

Viver sem fechar tudo

No fim, a tolerância à ambiguidade não elimina a necessidade de escolhas.

Mas muda a forma como nos aproximamos delas.

Em vez de correr para respostas imediatas, aprendemos a conviver com a complexidade.

E talvez isso revele algo essencial sobre a experiência humana:

nem tudo precisa ser resolvido de imediato.

Nem tudo precisa caber em categorias claras.

Às vezes, compreender o mundo exige exatamente isso —

a coragem tranquila de permanecer, por algum tempo, dentro da incerteza.


domingo, 9 de outubro de 2011

Tolerância e Ética


No ultimo dia 7, compareci ao Seminário de Pesquisa, realizado no Centro Universitário Metodista – IPA, a convite do palestrante Prof. Clemildo Anacleto da Silva, apresentando resultados da pesquisa sobre “A contribuição da reflexão ética na educação para o exercício da tolerância”. O evento foi realizado pela turma de mestrandos do curso de Mestrado profissional em reabilitação e inclusão, que lhes parabenizo pela iniciativa.
A discussão rolou em torno dos resultados de pesquisas realizados pelo grupo comandados pelo Prof. Clemildo. As pesquisas foram realizadas junto a turmas do ensino fundamental (8ª série) em escolas particulares e publicas.
O objetivo foi levar para a escola a importância da discussão e reflexão ética, entendo que principalmente o fato do próprio questionamento, o ato de pensar e refletir para responder acerca de situações do cotidiano, como sua postura ética e tolerância com os ditos “diferentes”, já contribui como fator de aproximação e entendimento.
A palavra tolerância, não me é simpática, me parece grosseira, soa como obrigação de conviver, esta distante da aceitação do diferente, por compaixão, ou melhor, por iguais sendo diferentes.
A intolerância, penso que seja o estopim do terrorismo. Não é necessário ir muito longe no tempo, lembramos do atentado em 11 de setembro de 2001, quando aconteceu o maior atentado terrorista da história: o ataque as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Este ano completou 10 anos do acontecimento, parece que foi ontem, as imagens ainda estão presentes na retina.
No atentado de 11 de setembro, como ficou conhecido, o mundo ficou chocado, pelo caráter sanguinário do ato, que provocou a morte de cerca de três mil pessoas. 
O motivo como sabemos, é o fanatismo religioso, e em particular de algumas seitas islâmicas, que ainda, permanecem até hoje nos noticiários, por suas ações violentas.
Há muito tempo, o fanatismo religioso provoca, crimes e guerras.
O fanatismo é uma crença exagerada, uma adesão cega e arbitraria, a uma visão de mundo ou doutrina, de tal modo que o fanático identifica sua crença com a verdade absoluta, considerando como inimigo todos aqueles que não compartilhe de sua crenças.
Em contraponto a atitude do fanático, temos a filosofia, a ética, a política, que postulam a atitude e capacidade de admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes, ou até totalmente opostas.
Estamos no século XXI, e, ainda existem seitas terroristas, capazes de destruir a frágil estabilidade mundial, como com o que aconteceu nos EUA, considerada a maior potencial mundial.
Mas, é importante ressaltar que o fanatismo não é uma característica de todos, nem sequer da maioria dos países islâmicos, a religião islâmica é uma das mais belas, e prega a paz entre os homens, os homens com seu fanatismo e intolerância, são os responsáveis pela destruição da harmonia dos povos.
Há fanatismo religioso também no Brasil, existem abusos e atos de intolerância religiosos, a discriminação já é um ato de terrorismo, que excluem pessoas pela maneira diferente de pensar, ainda não chegamos as vias de fato, porem não estamos muito longe.
É importante esclarecer, que o fanatismo não ocorre somente no âmbito religioso.
No Brasil, frequentemente, presenciamos manifestações de fanatismo no futebol.
É comum, o confronto violento entre torcidas organizadas, travando verdadeiras batalhas campais, em especial nas ruas das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Um breve levantamento histórico diz que a palavra tolerância foi "parida" nos conflitos religiosos, no séc. 16, na época das guerras religiosas entre católicos e protestantes. André Lalande (Vocabulário técnico e crítico de filosofia. SP: M. Fontes, 1993), conta  que "os católicos acabaram por tolerar os protestantes,  e reciprocamente. Depois foi reclamada a tolerância em face de todas as religiões e de todas às crenças". A partir do século 19, a tolerância estendeu-se ao livre pensamento e, no século 20, passou a ser acordo internacional com intenção de ser exercitada, através da Carta aos Direitos Humanos em 1948, também através de algumas ONGs e de governos não totalitários.
Há um importante questionamento: a tolerância deve ter limites ou não? Para o escritor e Nobel em Literatura, José Saramago, "a tolerância para no limiar do crime. Não se pode ser tolerante com o criminoso. Educa-se ou pune-se" (FSP, 27/01/95). Nesse sentido, não se pode ser tolerante para com a tortura, o estupro, a pedofilia, a escravidão, o narcotráfico, o terrorismo, a guerra.  Já o filósofo Vladimir Jankélévich, considera que, se levada a extremo, a tolerância "acabaria por negar a si mesma", Ou seja, "a tolerância só vale, pois, em certos limites, que são os de sua própria salvaguarda e da preservação de suas condições de possibilidade". O escritor e pacifista israelense Amós Oz, para quem a tolerância é a questão fundamental do séc. 21, nos deixa uma pergunta bem atual:  "A tolerância deve se tornar intolerante para se proteger da intolerância?"(FSP, 10/1/99).
De todas as virtudes, a tolerância revela um paradoxo chamado por Karl Popper de "paradoxo da tolerância": "Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância".
Após os ataques de 11 de setembro de 2001 e a invasão anglo-americana ao Iraque, o filósofo S. Zizek analisa o paradoxo da tolerância numa democracia. Ou seja, uma democracia deve ou não impor limites de tolerância tendo em vista a ânsia dos intolerantes pelo poder? “Seria possível ser tolerante para com um partido antidemocrático, vencedor das eleições livres, com a plataforma de abolição da democracia formal? (como já aconteceu na Argélia). Seria possível ser tolerante para com uma invasão militar, com a justificativa de derrubar um ditador sanguinário para impor a democracia? É possível confiar numa democracia imposta? Democracia é um regime que se impõe autoritariamente, ou acontece segundo determinantes específicos  e temporais da cultura?
Parabenizo, o IPA, prof, Clemildo, pela bela idéia de levar tema tão importante, para ser discutido junto a nossos jovens.
Precisamos cada vez mais, afastar atitudes intolerantes do convívio, iniciativas como esta, com viés cientifico e ético, fazem parte da humanização dos homens.
Acredito que o homem evolua sempre, se transforme num “novo homem”, no sentido físico, mental, econômico e cultural.
O “novo homem”, é um ser moral e ético.