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terça-feira, 31 de março de 2026

Tolerância à Ambiguidade

Habitar o intervalo sem respostas prontas

Sabe aquela sensação meio incômoda quando algo não está claro — quando uma resposta não vem, quando uma situação parece ter dois lados ao mesmo tempo, ou quando simplesmente não conseguimos decidir o que pensar?

A gente costuma querer resolver isso rápido, dar um nome, escolher um lado, fechar a questão. Mas nem sempre dá. E talvez nem precise dar. É aí que entra uma ideia interessante: a tal da tolerância à ambiguidade — essa capacidade meio rara de aguentar o “não sei” sem entrar em curto-circuito. O mundo é assim, complexo, muito complexo para alguns, quase insuportável.

Há um tipo de desconforto que não faz barulho.

Ele aparece quando alguém nos faz uma pergunta sem resposta clara. Quando uma situação não se encaixa em “certo” ou “errado”. Quando duas ideias opostas parecem, ao mesmo tempo, plausíveis.

Nesse momento, sentimos uma leve inquietação — quase um impulso de resolver, decidir, classificar.

Mas e se nem tudo precisasse ser resolvido imediatamente?

Talvez exista uma habilidade silenciosa, pouco valorizada, mas profundamente necessária: a tolerância à ambiguidade.


O incômodo de não saber

Desde cedo, aprendemos a buscar clareza.

Queremos respostas, definições, conclusões. O mundo parece mais seguro quando pode ser organizado em categorias estáveis.

Mas a experiência cotidiana raramente coopera.

  • pessoas são contraditórias
  • decisões envolvem perdas e ganhos simultâneos
  • situações mudam de significado com o tempo.

A ambiguidade não é exceção.

Ela é parte da estrutura da vida.

Ainda assim, resistimos a ela.


A pressa de fechar o sentido

O sociólogo Zygmunt Bauman descrevia a modernidade como um tempo marcado pela fluidez — relações, identidades e certezas tornaram-se mais instáveis.

Nesse cenário, cresce o desejo por definições rápidas.

Queremos saber:

  • quem está certo
  • qual é a melhor escolha
  • qual posição devemos tomar.

Essa pressa em fechar o sentido é, muitas vezes, uma tentativa de escapar do desconforto da ambiguidade.


Entre duas verdades

A ambiguidade costuma surgir quando duas interpretações coexistem.

Um exemplo simples:

Uma pessoa não responde uma mensagem.

Isso pode significar:

  • desinteresse
  • distração
  • excesso de trabalho
  • ou simplesmente esquecimento.

A mente, no entanto, tende a escolher rapidamente uma narrativa — geralmente a mais carregada emocionalmente.

Tolerar a ambiguidade é resistir a esse impulso.

É admitir, ainda que temporariamente:

“eu não sei exatamente o que isso significa.”


A ambiguidade como espaço de pensamento

O psicólogo e pensador social Erich Fromm via a liberdade como algo que muitas vezes gera ansiedade. Ser livre implica não ter respostas pré-definidas.

Nesse sentido, a ambiguidade pode ser vista como um espaço de liberdade.

Ela abre possibilidades.

Enquanto uma situação permanece ambígua, múltiplas interpretações ainda são possíveis. O sentido ainda não foi fechado.

Há, nesse intervalo, uma forma de pensamento mais aberta — menos apressada, mais reflexiva.

Um livro interessante para ler sobre o que Fromm esta se referindo é “O Medo á Liberdade”.


O cotidiano cheio de zonas cinzentas

Na prática, a vida é feita de áreas intermediárias:

  • decisões que são parcialmente certas e parcialmente erradas
  • relações que não são totalmente próximas nem totalmente distantes
  • escolhas que resolvem um problema e criam outro.

Mesmo assim, tendemos a simplificar.

Preferimos respostas claras a perguntas complexas.


A habilidade de sustentar o não saber

Tolerar a ambiguidade não significa desistir de compreender.

Significa adiar a conclusão.

É sustentar por algum tempo o não saber, sem ansiedade excessiva, sem necessidade imediata de fechar o sentido.

Essa habilidade aparece em pequenas situações:

  • ouvir alguém sem julgar rapidamente
  • considerar diferentes pontos de vista
  • aceitar que uma resposta pode não estar pronta.

O risco da simplificação

Quando a ambiguidade é intolerável, surge a tentação de simplificar o mundo.

  • reduzir questões complexas a respostas fáceis
  • transformar incertezas em certezas rígidas
  • escolher lados sem compreender nuances.

Essa simplificação pode trazer alívio momentâneo, mas empobrece a compreensão.


O valor do intervalo

Talvez a tolerância à ambiguidade seja, no fundo, a capacidade de permanecer no intervalo.

Entre pergunta e resposta.

Entre dúvida e decisão.

Entre múltiplas possibilidades.

Esse intervalo é desconfortável — mas também é fértil.

É nele que surgem:

  • reflexões mais profundas
  • decisões mais conscientes
  • compreensões mais amplas.

Viver sem fechar tudo

No fim, a tolerância à ambiguidade não elimina a necessidade de escolhas.

Mas muda a forma como nos aproximamos delas.

Em vez de correr para respostas imediatas, aprendemos a conviver com a complexidade.

E talvez isso revele algo essencial sobre a experiência humana:

nem tudo precisa ser resolvido de imediato.

Nem tudo precisa caber em categorias claras.

Às vezes, compreender o mundo exige exatamente isso —

a coragem tranquila de permanecer, por algum tempo, dentro da incerteza.


domingo, 22 de março de 2026

Dogmas Sociais

Existe um tipo de frase que ninguém questiona. Ela circula com naturalidade, como se fosse uma verdade óbvia, quase uma lei da gravidade social: “tem que ser assim”, “sempre foi assim”, “é o certo a fazer”. Ninguém lembra exatamente de onde veio — mas todo mundo age como se tivesse sido assinado por alguma autoridade invisível.

É aí que começam os dogmas sociais.

A palavra “dogma” costuma aparecer na Religião, como algo aceito sem questionamento. Mas, curiosamente, fora das igrejas, a gente vive cercado de pequenas crenças que funcionam do mesmo jeito. Só que, em vez de serem ensinadas como doutrina, elas são absorvidas pelo convívio.

Na Sociologia, isso pode ser entendido como normas internalizadas — padrões que deixam de parecer impostos e passam a parecer naturais. Émile Durkheim já apontava que a força da sociedade está justamente nisso: fazer com que o coletivo se imponha sem precisar se anunciar.

E no dia a dia, isso aparece de forma quase imperceptível.

Você escolhe uma profissão não só pelo que gosta, mas pelo que “faz sentido”.

Você mede sucesso com base em parâmetros que nunca parou para definir.

Você evita certos comportamentos porque “pegaria mal”.

Você segue uma linha de vida que parece lógica — estudar, trabalhar, estabilizar — sem lembrar quando exatamente concordou com esse roteiro.

O mais curioso é que os dogmas sociais raramente se apresentam como imposição. Eles vêm disfarçados de bom senso.

Pierre Bourdieu chamaria isso de habitus: um conjunto de disposições tão incorporadas que você age sem perceber que está obedecendo a uma lógica social. Não parece obediência — parece escolha.

Mas aí surge um incômodo.

Porque, em alguns momentos, algo não encaixa. Você segue tudo “certo” e, ainda assim, sente um vazio estranho. Ou então percebe que está julgando alguém com base em critérios que nunca examinou. Ou, mais desconfortável ainda: percebe que está vivendo uma vida coerente… com valores que talvez nem sejam seus.

Os dogmas sociais têm essa característica: eles organizam o mundo, mas também o estreitam.

Eles dizem:

  • o que é sucesso;
  • o que é fracasso;
  • o que é “vida normal”;
  • o que é “desvio”;
  • o que merece admiração;
  • o que deve ser escondido.

E, quanto mais invisíveis eles são, mais eficazes se tornam.

Friedrich Nietzsche desconfiava profundamente dessas “verdades herdadas”. Para ele, muitos valores que tratamos como absolutos são, na verdade, construções históricas que ganharam status de verdade por repetição. Não são eternos — só parecem.

O problema é que questionar dogmas sociais não é simples. Não é só uma questão de pensar diferente. Envolve um certo risco: o de sair do reconhecimento fácil, o de parecer estranho, o de não caber mais tão bem nos códigos compartilhados.

Por isso, a maioria de nós faz um acordo silencioso: questiona um pouco, mas não demais. Ajusta algumas coisas, mas mantém a estrutura.

Ainda assim, de vez em quando, algo escapa.

Uma dúvida que não vai embora.

Uma vontade que não se encaixa.

Uma sensação de que você está vivendo “segundo o manual”… mas nunca leu o manual conscientemente.

Talvez seja aí que começa um tipo diferente de liberdade — não aquela de fazer o que quiser, mas a de perceber o que está por trás do que parece inevitável.

Porque, no fundo, o mais inquietante não é que existam dogmas sociais.

É quantos deles você chama de “eu”.


sexta-feira, 20 de março de 2026

Invocação Epistêmica


Tem um tipo de gesto que a gente faz o tempo todo, mas quase nunca percebe: quando não sabemos, invocamos alguém — ou algo — que sabe por nós.

Não é só pedir informação. É um movimento mais profundo. É como se, diante da dúvida, chamássemos uma autoridade invisível para ocupar o lugar da incerteza. Um “alguém deve saber disso”.

Isso é o que dá pra chamar de invocação epistêmica.

Na Epistemologia — o campo que estuda o conhecimento —, essa questão é central: como sabemos o que sabemos? E, talvez mais importante, por que confiamos em certas fontes sem perceber?

René Descartes tentou desmontar esse mecanismo duvidando de tudo que vinha de fora. Ele queria um ponto de certeza que não dependesse de autoridade nenhuma. Mas, no cotidiano, a gente faz exatamente o contrário: constrói certezas apoiando-se em vozes que raramente questiona.

E essas vozes são muitas.

É o especialista que nunca lemos, mas citamos.

É o “todo mundo sabe” que ninguém sabe explicar.

É o vídeo curto que parece convincente.

É o amigo “que entende dessas coisas”.

É o algoritmo que decide o que aparece primeiro e, por isso, parece mais verdadeiro.

Michel Foucault diria que conhecimento e poder caminham juntos. Quem tem legitimidade para falar define, em grande parte, o que será aceito como verdade. A invocação epistêmica, nesse sentido, não é neutra — ela segue trilhas já organizadas por estruturas de autoridade.

Mas o mais interessante é como isso acontece dentro da gente.

Percebi que, em uma discussão, às vezes não defendemos uma ideia porque a entendemos, mas porque “soa certa”? Como se estivéssemos canalizando um discurso que não é exatamente nosso?

É uma espécie de terceirização do pensar.

E isso não é necessariamente ruim. Seria impossível viver sem confiar em ninguém. O problema começa quando a invocação substitui completamente a investigação — quando citar vira mais importante do que compreender.

Ludwig Wittgenstein sugeria que o significado das coisas está no uso. Talvez possamos dizer algo parecido sobre o conhecimento: ele não vive na autoridade que o legitima, mas na forma como conseguimos operá-lo na vida.

No cotidiano, a invocação epistêmica aparece de forma quase automática:

  • quando você compartilha algo sem verificar, porque “veio de uma fonte confiável”;
  • quando usa termos técnicos para encerrar uma discussão;
  • quando se sente inseguro para discordar de alguém “mais qualificado”;
  • ou quando busca uma resposta pronta só para aliviar o desconforto de não saber.

No fundo, invocar é uma forma de lidar com a ansiedade da incerteza.

Só que existe um ponto delicado aí: quanto mais a gente invoca, menos a gente habita o próprio pensamento.

Talvez o desafio não seja abandonar as autoridades — isso seria ingênuo —, mas mudar a relação com elas. Em vez de invocar para substituir o pensamento, invocar como ponto de partida para desenvolvê-lo.

Porque há uma diferença sutil, mas decisiva:

uma coisa é dizer “isso é verdade porque alguém disse”.

outra bem diferente é dizer “alguém disse — deixa eu ver o que isso realmente significa”.

No fim, a invocação epistêmica revela algo sobre nós:

não apenas o que sabemos,

mas o quanto estamos dispostos a sustentar o peso de não saber.

E aí fica a pergunta, meio desconfortável:

quando você afirma algo com convicção… é você falando — ou é uma voz que você aprendeu a repetir?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O Pragmatista

Sem solenidade demais

Sempre desconfiei um pouco das ideias que só funcionam no papel. Aquelas que ficam lindíssimas no livro, mas travam quando precisam atravessar a fila do banco, a reunião de condomínio ou a conversa atravessada no almoço de domingo. O pragmatista nasce exatamente dessa impaciência: ele não pergunta primeiro se algo é verdadeiro em si, mas se funciona na vida.

Ser pragmatista não é ser superficial, nem oportunista, como às vezes se pensa. É, antes, uma filosofia com os pés sujos de chão. O pragmatista mede as ideias pelo que elas fazem conosco, pelo tipo de mundo que constroem quando saem da cabeça e entram no cotidiano. Verdade, aqui, não é um espelho do real, mas uma ferramenta. E ferramenta boa é a que resolve problema — ou pelo menos muda a forma como lidamos com ele.

 

A base filosófica — quando a verdade vira ação

William James: a verdade que acontece

William James, talvez o mais humano dos pragmatistas, dizia algo desconcertante: a verdade não é, ela acontece. Uma ideia se torna verdadeira quando produz efeitos vitais satisfatórios. Isso muda tudo.

No cotidiano, isso aparece quando alguém diz:

“Pensar positivo funciona.”

O pragmatista não responde perguntando se o pensamento positivo corresponde à estrutura metafísica do universo. Ele pergunta: isso ajuda a pessoa a levantar da cama, enfrentar o dia, agir melhor? Se ajuda, então há aí um tipo de verdade em operação.

James nos ensina que viver é um laboratório permanente. Crenças não são relíquias sagradas, são hipóteses de trabalho.

Charles Sanders Peirce: clareza nasce da consequência

Peirce, mais rigoroso, quase um engenheiro da filosofia, propõe um critério simples e radical: para entender o significado de uma ideia, observe suas consequências práticas. Se duas ideias não produzem diferenças na ação, então discutir qual é “mais verdadeira” é perda de tempo.

No cotidiano isso aparece em discussões morais intermináveis. Duas pessoas discordam ferozmente sobre “o sentido da vida”, mas vivem de modo quase idêntico: trabalham, cuidam de quem amam, sentem medo da morte. O pragmatista suspeita: talvez a divergência seja mais verbal do que real.

Peirce nos lembra que clareza filosófica não nasce do refinamento infinito dos conceitos, mas do impacto concreto deles no comportamento.

John Dewey: pensamento como instrumento social

Dewey dá um passo além e traz o pragmatismo para o campo social. Pensar não é contemplar o mundo, é tentar resolver situações problemáticas. Ideias são ferramentas coletivas, não tesouros individuais.

Na escola, por exemplo, Dewey rejeita o ensino que apenas transmite verdades prontas. Aprender, para ele, é experimentar, errar, ajustar. A criança que entende matemática resolvendo um problema real aprende mais do que aquela que apenas decora fórmulas.

No cotidiano adulto, isso aparece quando improvisamos soluções: mudar o jeito de trabalhar, adaptar rotinas, negociar conflitos. O pragmatista confia mais no ajuste contínuo do que em regras absolutas.

 

O pragmatista no dia a dia — cenas comuns, filosofia invisível

No trabalho:

O pragmatista não pergunta se um método é “o melhor em teoria”, mas se melhora a cooperação, reduz retrabalho, torna o ambiente menos tóxico. Se funciona, fica. Se não, muda — sem drama ideológico.

Nos relacionamentos:

Em vez de discutir quem está “certo”, o pragmatista observa: essa forma de falar aproxima ou afasta? Resolve ou acumula ressentimento? Muitas verdades morrem quando percebemos que vencer a discussão custa perder o vínculo.

Na vida interior:

Até crenças sobre si mesmo entram no teste pragmático. Pensar “sou incapaz” produz o quê? Paralisia. Pensar “posso tentar” produz movimento. O pragmatista escolhe a ideia que gera vida, não a que soa mais objetiva.

 

Um risco e uma virtude

O risco do pragmatismo é virar cinismo: vale tudo que funciona. Mas os próprios pragmatistas alertam que “funcionar” não significa vantagem imediata, e sim consequências mais amplas, duráveis, humanas. Uma mentira pode funcionar hoje e destruir tudo amanhã — logo, não funciona de verdade.

A virtude do pragmatismo é sua humildade. Ele não promete verdades eternas, apenas boas apostas existenciais. Ele aceita corrigir o rumo, abandonar ideias queridas, ajustar o mapa quando o território muda.

 

Concluindo — uma filosofia para quem vive

O pragmatista não é o dono da verdade; é alguém disposto a testá-la. Ele não pergunta apenas “isso é verdadeiro?”, mas “isso torna a vida mais habitável?”

Num mundo saturado de discursos, o pragmatismo é quase um gesto de silêncio: menos declarações grandiosas, mais atenção aos efeitos. Menos fidelidade a ideias, mais compromisso com a experiência.

No fim, talvez o pragmatista seja apenas isso: alguém que acredita que pensar serve para viver melhor — e não o contrário.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Peculiaridades


Às vezes a gente fala “cada pessoa é única” como quem diz “bom dia”. A frase sai fácil, quase automática. Mas basta passar cinco minutos observando um grupo qualquer — numa fila de banco, numa mesa de bar, num grupo de família no WhatsApp — para perceber que essa unicidade não é um detalhe simpático: é um problema filosófico sério. Cada ser humano carrega um modo próprio de sentir o tempo, de reagir ao silêncio, de lembrar do passado e de suportar o presente. Somos feitos de peculiaridades, e é isso que torna a convivência tão fascinante quanto exaustiva.

A filosofia sempre desconfiou das explicações fáceis sobre o humano. Quando tentamos definir o “homem” em termos gerais, algo sempre escapa. Kierkegaard já alertava que o indivíduo concreto não cabe nos sistemas; Nietzsche desconfiava das verdades universais que ignoram as singularidades da vida; e a fenomenologia insistiu que cada consciência habita o mundo a partir de um ponto de vista irrepetível.

As peculiaridades não são apenas traços psicológicos ou gostos pessoais. Elas são a maneira como cada um organiza o caos da existência. Dois indivíduos podem viver o mesmo acontecimento — uma perda, um sucesso, uma humilhação — e sair dele como se tivessem atravessado mundos distintos. Isso acontece porque a experiência nunca é neutra: ela passa por filtros invisíveis feitos de memórias, afetos, medos e expectativas.

A modernidade, no entanto, tenta o oposto. Classifica, mede, padroniza. Cria perfis, diagnósticos, rótulos. Tudo isso ajuda a organizar a vida social, mas cobra um preço: a ilusão de que compreender alguém é encaixá-lo numa categoria. O problema é que a peculiaridade verdadeira começa exatamente onde as categorias falham.

Pense numa situação simples: duas pessoas recebem uma crítica no trabalho. Uma vai para casa remoendo a frase por dias, como se ela definisse toda a sua identidade. A outra escuta, ajusta o que precisa e dorme em paz. A crítica foi a mesma; o impacto, não. A peculiaridade de cada um não está no fato, mas no modo como o fato encontra a sua história interior.

Ou ainda: há quem precise de silêncio para pensar, e quem só consiga se entender falando. Quem organize a vida em listas obsessivas e quem viva bem no improviso. Quem sinta culpa por descansar e quem se sinta culpado por trabalhar demais. Nenhuma dessas posturas é “a correta” em termos absolutos; cada uma responde a um equilíbrio interno diferente.

Até no amor isso aparece de forma quase cruel. Algumas pessoas precisam de presença constante para se sentirem seguras; outras precisam de espaço para não se sentirem sufocadas. O conflito não nasce da falta de afeto, mas do choque entre peculiaridades incompatíveis.

Reconhecer as peculiaridades humanas não é um exercício de tolerância genérica, mas de humildade ontológica. Significa aceitar que nunca entenderemos totalmente o outro — e que, muitas vezes, também não entendemos a nós mesmos. Talvez a maturidade não esteja em eliminar as diferenças, mas em aprender a conviver com esse excesso de singularidade que cada pessoa traz consigo.

No fim das contas, o humano é complexo não porque seja confuso, mas porque é plural. E toda vez que tentamos simplificar demais alguém, perdemos justamente aquilo que o torna humano.


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Infinitas Antinomias

Outro dia, numa conversa despretensiosa, percebi como ainda estamos presos à lógica do "ou é isso, ou é aquilo". Certo ou errado, forte ou fraco, amor ou desilusão. Tudo parece encaixado em pares opostos, como se o mundo fosse um jogo de tabuleiro bem definido. Mas se Jacques Derrida estivesse ali na mesa, talvez ele empurrasse o tabuleiro com um leve sorriso e dissesse: "E se as peças não forem tão diferentes assim?"

Já tratei deste tema outras vezes, mas ele sempre retorna a baila, as noticias e conversas são provocantes e me obrigo a abordar o tema: polaridades, eita palavrinha que incomoda.

Desconstruindo o que parece óbvio

Derrida não se interessava por verdades rígidas. Ele preferia investigar os bastidores da linguagem, onde palavras se contradizem, se repetem, se invertem. A sua proposta, conhecida como desconstrução, não destrói significados — ela revela que o que parece firme costuma estar cheio de rachaduras. O "sim" carrega um "não" implícito, toda "verdade" repousa sobre uma exclusão silenciosa, e os grandes conceitos — justiça, identidade, amor — tremem sob a luz de uma análise cuidadosa.

Antinomias no dia a dia

Nas nossas rotinas, essas antinomias surgem disfarçadas de certezas. Quando alguém é "muito racional", logo se supõe que é pouco sensível. Um relacionamento saudável precisa equilibrar liberdade ou compromisso, dizem — como se não houvesse amor onde há espaço, ou presença onde há escolha. A desconstrução nos convida a ir além dessas oposições e perceber que elas são frágeis, móveis, interdependentes.

Na política: cuidado com os extremos

No debate político, a desconstrução é um respiro necessário. Em tempos de polarização, o discurso se reduz a "nós" contra "eles", "povo" contra "elite", "patriotas" contra "inimigos". Derrida alertaria que todo "nós" exclui uma parte de si mesmo, e que os opostos, muitas vezes, compartilham mais do que querem admitir. Desconstruir o discurso político não é deslegitimar a luta — é entender que cada palavra usada nela carrega escolhas, silêncios e consequências.

Redes sociais e julgamentos instantâneos

Nas redes sociais, as antinomias ganham velocidade e ruído. Curtir ou cancelar, silenciar ou militar, lacrar ou omitir. Tudo vira julgamento rápido, definitivo, sem espaço para ambiguidade. Derrida nos faria parar e perguntar: o que essa frase afirma, e o que ela oculta? O que está sendo calado no excesso de certezas? Talvez, se tivesse uma conta no Twitter, ele escrevesse apenas: “Nem todo sim é sim” — e desaparecesse por semanas.

No amor, entre o sim e o quase

No amor, gostamos de fórmulas: “eu te amo”, “para sempre”, “metade da laranja”. Mas o amor real é cheio de ruídos. Amar não é sempre estar presente, e estar junto não é sempre compreender. Derrida apontaria que o amor carrega ausência, dúvidas e mal-entendidos. E que, talvez, o mais belo do amor seja justamente essa impossibilidade de encaixá-lo num conceito fixo. Quando dizemos “eu te amo”, dizemos o que sentimos — mas também deixamos escapar tudo aquilo que não conseguimos nomear. Lembre-se as palavras são “realidades”, não dá para confiar inteiramente nelas, é preciso olhar o todo.

Pensar com (e contra) as palavras

O filósofo brasileiro Bento Prado Jr. disse que o pensamento contemporâneo “não busca mais a verdade última, mas a multiplicidade dos sentidos”. Derrida se alinha com esse gesto: não negar o sentido, mas desestabilizá-lo, fazendo-o dançar, hesitar, mostrar sua estrutura. Afinal, a linguagem não é uma vitrine limpa — é uma casa com espelhos, portas falsas e corredores que voltam ao mesmo lugar.

Uma linha tênue que une o mundo

Desconstruir não é paralisar. É movimentar-se com consciência. Ao invés de escolher entre um lado ou outro, Derrida nos convida a caminhar pela linha tênue que separa e une ao mesmo tempo. A antinomia, no fundo, é um espelho: o outro lado nunca está tão longe assim.

Se ele ouvisse alguém dizer “não sei se amo ou se gosto”, talvez respondesse: “Mas por que essa diferença importa tanto? E o que há entre o amor e o gosto?”

Talvez... a vida.

Gostou da leitura?

Você já percebeu antinomias no seu cotidiano? Deixe um comentário ou compartilhe esse texto com alguém que vive dividindo tudo entre A ou B — talvez ele (ou ela) descubra que existe um meio do caminho bem mais interessante. Você também pode seguir o blog, há sempre uma ideia ou outra que poderá lhe interessar.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

Mundo Insensato



Sabe aqueles dias em que o mundo parece um teatro do absurdo? Você olha ao redor e percebe que as pessoas estão correndo em direções aleatórias, defendendo causas que nem entendem, seguindo regras que ninguém se lembra por que existem. Parece um grande espetáculo sem roteiro, onde todos fingem que faz sentido. Bem-vindo ao mundo insensato.

O mundo continua em guerra aqui, lá e acolá, as guerras deste mundo insensato assumem muitas formas—bélicas, econômicas, culturais, tecnológicas e até psicológicas—mas todas compartilham a mesma lógica de confronto, dominação e destruição. Se Clausewitz via a guerra como a política por outros meios, hoje ela se manifesta também como a guerra da desinformação, das narrativas que moldam a realidade ao gosto do poder. Mesmo na esfera íntima, há guerras silenciosas: batalhas contra o tempo, contra si mesmo, contra um mundo que exige produtividade sem pausa. Nietzsche diria que a guerra é inerente à vida, um campo de forças em disputa; mas a questão é se podemos transformá-la de um embate cego para um conflito criativo, onde o atrito não destrói, mas gera novos sentidos. Camus diria que vivemos num mundo do absurdo!

A insensatez do mundo pode ser vista na forma como nos apegamos a convenções arbitrárias, como se fossem verdades absolutas. Se você não usa um terno em determinada ocasião, é visto como inadequado; se não responde imediatamente a uma mensagem, pode ser considerado rude. Mas quem escreveu essas regras? E, mais importante, quem disse que elas fazem sentido?

Desde a Grécia Antiga, os filósofos tentam entender esse caos organizado. Heráclito já dizia que tudo está em constante fluxo, e talvez seja essa mudança incessante que faz com que o mundo nunca pareça totalmente coerente. Schopenhauer, por sua vez, enxergava a existência como um jogo de forças irracionais – uma vontade cega nos arrastando por caprichos inexplicáveis. E Nietzsche, sempre provocador, nos alertou sobre o perigo de aceitar verdades impostas sem questioná-las. Afinal, o que chamamos de "sentido" pode ser apenas uma ilusão útil para manter a ordem.

No cotidiano, a insensatez se manifesta nos pequenos detalhes. Nos telejornais, cada crise é tratada como um evento apocalíptico, mas esquecida na semana seguinte. Pessoas passam anos da vida em trabalhos que odeiam, apenas para sustentar um estilo de vida que não escolheram conscientemente. A publicidade nos convence de que precisamos de coisas que nunca sentimos falta antes. Tudo isso é racional? Ou apenas seguimos o fluxo, como folhas num rio sem destino definido?

Talvez a chave para sobreviver ao mundo insensato não seja tentar organizá-lo, mas aprender a dançar com o caos. Em vez de buscar verdades definitivas, podemos aceitar a complexidade e o paradoxo como parte da experiência humana. Como diria Camus, a única resposta genuína ao absurdo da existência é a revolta – mas não a revolta destrutiva, e sim a recusa em se deixar levar por uma lógica que não é nossa.

Então, o que fazer diante desse espetáculo desconcertante? Talvez a resposta esteja em rir um pouco mais, questionar um pouco mais e, sobretudo, escolher o próprio caminho, mesmo que ele pareça insensato para os outros. Afinal, se o mundo não faz sentido, por que não criar o nosso próprio?

sábado, 31 de agosto de 2024

Sol da Consciência

O sol da consciência pode ser visto como aquela luz interior que ilumina nossa percepção do mundo, trazendo clareza e entendimento para a vida. Assim como o sol no céu dissipa as sombras e revela a paisagem ao nosso redor, o sol da consciência faz o mesmo com nossas emoções, pensamentos e ações. Ele nos ajuda a ver além das aparências, a questionar o que antes aceitávamos sem reflexão e a encontrar um sentido mais profundo nas nossas experiências cotidianas.

Imagine uma manhã comum. Você acorda, abre as janelas e a luz do sol inunda o quarto. O mesmo acontece quando a consciência desperta em nós: o que antes estava escuro ou confuso ganha nitidez. Pequenos detalhes do dia a dia, como o jeito que você fala com alguém ou as escolhas que faz, começam a ser percebidos com maior atenção.

Esse processo de "iluminação" da consciência, porém, não acontece de uma vez. É um movimento contínuo, como o sol que se levanta gradualmente. Às vezes, passamos anos vivendo no modo automático, até que algo, talvez uma experiência marcante ou uma reflexão profunda, acenda essa luz interior. A partir daí, não conseguimos mais voltar ao estado anterior de ignorância ou indiferença. Uma vez que o sol da consciência brilha, ele revela tudo – tanto as belezas quanto as imperfeições.

Na filosofia, esse despertar da consciência é frequentemente associado ao conceito de "evolução espiritual" ou "autoconhecimento". Platão, por exemplo, na alegoria da caverna, fala de um prisioneiro que, ao sair da caverna e ver a luz do sol pela primeira vez, percebe que o mundo que conhecia era apenas uma sombra da realidade. Esse sol metafórico representa a verdade, a sabedoria, o entendimento que liberta.

No dia a dia, o sol da consciência pode ser aquele momento em que, numa conversa trivial, você de repente entende algo mais profundo sobre si mesmo ou sobre a outra pessoa. Pode ser o instante em que você percebe que suas ações têm consequências, não apenas para você, mas para os outros ao seu redor. É quando você começa a questionar padrões antigos, hábitos automáticos, e a buscar viver de maneira mais consciente e intencional.

Assim como o sol pode ser ofuscante se olhado diretamente, a consciência plena pode ser difícil de encarar. Ela traz à tona verdades que às vezes preferimos não ver, mas que são essenciais para o crescimento e a liberdade interior. É um caminho que, embora árduo, nos leva a uma vida mais autêntica, onde cada gesto e cada escolha são feitos à luz do entendimento e não mais nas sombras da ignorância. 

domingo, 4 de março de 2012

A Origem do Mal

Refletindo sobre a origem do mal




Em nossa mente ficam gravadas muitas lembranças, algumas que gostaríamos de esquecer, no entanto insistem em manterem-se presentes. Uma dessas lembranças foram de acontecimentos grotescos ocorridos em março de 2008, o tempo passou e estamos chegando há 4 anos desde o ocorrido.

Lembro que o olhar perplexo observou as imagens transmitidas numa manhã de domingo, da reconstrução do assassinato da menina Isabella de 5 anos no Edifício London, em São Paulo. Milhares de pessoas ficaram ligadas nas imagens transmitidas pela televisão, que falou, mostrou, repetiu e comentou praticamente tudo sobre as cenas grotescas,  entregando-se ao gozo e uso do sentidos.

Acredito que os milhares de telespectadores tenham sentido intensa emoção, e que tenham ficado indignados com o momento em que os policiais penduram o corpo de uma boneca, simulando como o apontado assassino e indiciado pai da vítima Alexandre Nardoni, teria jogado o corpo da filha do sexto andar naquele fatídico 29 de março de 2008.

Impossível não pensar no porque de tamanha maldade, perguntamo-nos até onde vai a maldade humana?.
E porque não pensar na origem de tamanha maldade? Porque não pensar no que leva um pai a fazer o que fez?

Porque não pensar no porque as pessoas passam uma manhã inteira assistindo imagens que chocam e perturbam emocionalmente?

Haverá algum prazer em observar cenas que chocam numa repetição diária apresentadas nas mais variadas noticias?, que superam até os filmes de horror “melhor” produzidos em nossa sociedade contemporânea? (assistir aos filmes de horror e violência, por si só, são prazeres que divertem horas a fio a rotina humana),

A mídia diariamente se encarrega de bombardear-nos, em todos os níveis, sobre as múltiplas possibilidades que levariam um pai a praticar um barbarismo desses em pleno século XXI, em nosso dito mundo civilizado.

Ficar atento voluntariamente as cenas perturbadoras, sejam em jornais, revistas ou televisão, como afirma Maria Odete Olsen, parece exercer um propósito similar de um banho matinal, exercício físico rotineiro, como o barbeamento, o banho, o café da manhã, enfim: o ritual, valor da experiência não racional que é, em certo grau, chocante, desconfortável e autodestrutivo, e que é voluntariamente tomado por adultos em reconhecimento de sua obrigação pessoal para manter-se em uma ordem social mundial.

Penso também que os pais assistem juntamente com seus filhos as cenas grotescas, e não estabelecem limites para “o que” os filhos assistam, as crianças por sua vez passam a banalizar a violência, e isto passa a ser entendido e visto como normal, mesmo que os pais fizessem os filhos refletirem sobre as cenas, (é o que não fazem), será que as crianças pensam que as cenas fazem parte da normalidade?

Ainda, assim banalizando ou não, a índole tem por origem a propensão natural, com potência para o bem ou para o mal, com atitudes certas ou erradas.

Os árabes, em sua sabedoria, tem um ditado que diz: "Quer conhecer a índole de um homem, observe como ele reage nos momentos em que está com raiva". Eu diria, mais: “Observe uma criança quando diverte-se em fazer o mal repetidamente aos animais indefesos”.

muita diferença entre olhar e fazer. Quem olha tem de saber o que deve e pode fazer com “isto ou aquilo” que olhou. Se antes de olhar sabe que há algo errado, é melhor não olhar, não se deixar levar pelo interesse mórbido, ou talvez por muitos que procuram com o olhar, e ficam procurando com o olhar cenas grotescas que satisfaçam suas necessidades emocionais (quem ao ver um acidente, não diminuiu a velocidade do carro, e passou olhando fixamente a cena do desastre?).  Os psicólogos explicam que com esta sensação provoca uma catarse fazendo com que sintan-se melhores ou mais limpos que os “Nardonis”.

Penso que a questão da origem da maldade, que ora ingressei para reflexão, pode e deve ser discutida entre todos, inclusive em salas de aula, juntamente com os alunos.

Hoje sabemos que é possível distinguir uma maldade infantil natural, típica da idade, de um sério distúrbio que pode resultar em um comportamento psicopata.

Em estudos de psicologia, lembro que abordamos as formas de identificação de problemas de comportamento. Mas detectar esse distúrbio é delicado, depende de bastante observação, e os pais devem levar em consideração diversos fatores. “Se juntarmos repetição de um comportamento agressivo ou maldoso sem motivo aparente; generalizado, ou seja, a criança não é agressiva apenas na escola ou em casa; ausência de arrependimento e culpa; falta de afetividade; dificuldade de lidar com frustrações e total falta de empatia com o sofrimento alheio, temos fortes indicativos de que tem algo errado com a criança”, enumera Ana Beatriz Barbosa Silva, médica psiquiatra e autora de “Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado”.

Esta criança que dá sinais de distúrbios, poderá ser uma Nardoni no futuro, cabe aos pais e professores estarem atentos para indícios de problemas, devendo distinguir um problema potencial das ocorrências corriqueiras e naturais de comportamento, conseqüência da socialização.

Entrar atirando nas escolas esta virando moda.

Geralmente somos muito diretos e objetivos, deixamos de pensar em muitas outras formas de explicação, ficando nossa imaginação limitada ao universo cientifico, por esta razão fiz a opção de trazer para reflexão o pensamento de Santo Agostinho e em seguida o Mito Grego.

A existência do mal no mundo, sempre causou perplexidade aos filósofos e teólogos. Para os Filósofos a razão sempre buscou respostas, perguntando e observando a si mesmos e aos outros, já os Teólogos também perguntam, porem foram perguntar a Deus, afinal se Deus é bom, justo, infalível e poderoso, como o mal pode surgir em sua obra e por que o mal parece ser tão difícil de ser eliminado?

Em sua bibliografia, Santo Agostinho em suas reflexões, construiu o texto e ali depositou o que ele entendia pela Origem do Mal:

A Origem do Mal por Santo Agostinho

Eu buscava a origem do mal, mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em meu modo de buscá-la. Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o que podemos ver — como a terra, o mar, o ar, as estrelas, as árvores e os animais — como o que não podemos ver — como o firmamento, e todos os anjos e seres espirituais. Estes porém, como se também fossem corpóreos, colocados pela minha imaginação em seus respectivos lugares. Fiz de tua criação uma espécie de massa imensa, diferenciada em diversos gêneros de corpos: uns, corpos verdadeiros, e espíritos, que eu imaginava como corpos.

E eu a imaginava não tão imensa quanto ela era realmente — o que seria impossível — mas quanto me agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um ser que a rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções, como se fosses um mar incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja tão grande quanto possível, limitada, e toda embebida, em todas as suas partes, desse imenso mar.


Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de ti, infinito, e dizia: “Eis aqui Deus, e eis aqui as coisas que Deus criou; Deus é bom, imenso e infinitamente mais excelente que suas criaturas; e, como é bom, fez boas todas as coisas; e vede como as abraça e penetra! 


Onde está pois o mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo? Qual é a sua raiz e sua semente? Será que não existe? E porque recear e evitarmos o que não existe? E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que atormenta e espicaça sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é certo que não há razão para temer. 

Portanto, ou o mal que tememos existe, ou o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal se Deus, que é bom, fez boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo, criou sem dúvida bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de que se serviu para a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização, deixou nela algo que não converteu em bem?

E por que isto? Acaso, sendo onipotente, não podia mudá-la, transformá-la toda, para que não restasse nela semente do mal? Enfim, por que se utilizou dessa matéria para criar? Por que sua onipotência não a aniquilou totalmente? Poderia ela existir contra sua vontade? E, se é eterna, porque deixou-a existir por tanto tempo no infinito do passado, resolvendo tão tarde servir-se dela para fazer alguma coisa? Ou, já que quis fazer de súbito alguma coisa, sendo onipotente, não poderia suprimir a matéria, ficando ele só, bem total verdadeiro, sumo e infinito? E, se não era conveniente que, sendo bom, não criasse nem produzisse bem algum, por que não destruiu e aniquilou essa matéria má, criando outra que fosse boa, e com a qual plasmar toda a criação? Porque ele não seria onipotente se não pudesse criar algum bem sem a ajuda dessa matéria que não havia criado.


Tais eram os pensamentos de meu pobre coração, oprimido pelos pungentes temores da morte, e sem ter encontrado a verdade. Contudo, arraigava sempre mais em meu coração a fé de teu Cristo, nosso Senhor e Salvador, professada pela Igreja Católica; fé ainda incerta, certamente, em muitos pontos, e como que flutuando fora das normas da doutrina. Minha alma porém não a abandonava, e cada dia mais se abraçava a ela.

 
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Fonte: Confissões, Santo Agostinho, Editora Martin Claret, páginas 145-147.

Os gregos em sua sabedoria procuravam explicar os fenômenos a partir dos mitos, aqui temos a religião grega também procurando a resposta, indo a Zeus. O mito grego muito engenhoso e que melhor atende a questão da maldade é a Caixa de Pandora.

Embora sejamos herdeiros da tradição judaico-cristã e o mito de Adão e Eva tenha sido consagrado como verdade literal e absoluta pelos teólogos fundamentalistas judeus e cristãos, precisamos reconhecer a beleza e a profundidade do mito grego de Pandora, que é mais engenhoso e rico em nuances psicológicas

O MITO GREGO SOBRE A ORIGEM DO MAL: A CAIXA DE PANDORA

A estória começa com Prometeu, um dos titãs, escalando o Olimpo e roubando o fogo dos deuses para oferecer aos homens (o fogo do conhecimento?).

Zeus, o rei dos deuses, furioso com tamanha ousadia, prendeu-o e o amarrou em um rochedo, onde um abutre vinha todos os dias comer-lhe o fígado, que se regenerava durante a noite, para ser comido novamente pelo abutre no dia seguinte. Esse mito sugere o sofrimento caudado pela insaciedade do homem e, em outro nível, significa o longo e penoso ciclo de morte e renascimento, que os budistas denominam roda do Sansara.


Zeus, porém, não satisfeito com a vingança desfechada contra o ladrão, resolveu vingar-se também de todos os homens beneficiários  do fogo roubado por Prometeu. Então ordenou que Hefesto, o Deus-ferreiro do mundo subterrâneo, fizesse a mulher.


Hefesto fez uma mulher belíssima chamada Pandora e a apresentou a Zeus antes de ela descer à superfície da Terra. Zeus, admirado com a obra de Hefesto, despachou Pandora para a Terra, mas antes lhe deu uma grande e belíssima caixa de marfim ornamentada fechada e também lhe deu a chave, dizendo-lhe: “Quando você se casar, ofereça esta caixa como dote ao seu marido, mas a caixa só pode ser aberta após seu casamento”.


Em pouco tempo, Pandora conheceu Epimeteu, irmão mais novo de Prometeu e logo se casaram. A princípio, Pandora estava muito feliz com seu casamento e passava os dias cuidando da casa e do lindo jardim, tendo se esquecido da caixa.


Porém Epimeteu viajava constantemente e, certa vez, ficou muito tempo longe de casa. Pandora sentia-se só e triste. Lembrou-se da caixa e foi até o canto onde estava guardada examiná-la curiosamente. Enquanto observava os lindos detalhes e adornos externos, Pandora pareceu ouvir pequenas vozes gritando lá de dentro e dizendo: “Deixe-nos sair!..Deixe-nos sair...”. Pandora não podia esperar mais. Foi correndo buscar a chave e imediatamente abriu a tampa da caixa. Para sua grande surpresa centenas de pequeninas e monstruosas criaturas, parecendo terríveis insetos, saíram voando lá de dentro, com um zumbido assustador.


Muitas dessas horríveis criaturas a picaram na face e nas mãos e saíram em enxame pela janela, fazendo um barulho infernal. Logo a nuvem desses insetos cobriu o sol, e o dia ficou escuro e cinzento. Apavorada, Pandora fechou a caixa e sentou-se sobre a tampa.


As picadas dos insetos doíam muito, mas algo mais a estava preocupando: Ela estava tendo toda a espécie de sentimentos e pensamentos sombrios e odiosos que nunca tivera antes. Sentiu raiva de si mesma por ter aberto a caixa. Sentiu uma grande onda de ciúme de Epimeteu. Sentiu-se raivosa e irritada. Percebeu que estava doente de corpo e de alma.
Súbito pareceu-lhe ouvir outra vozinha gritando de dentro da caixa: “Liberte-me! Deixe-me sair daqui!”. Pandora respondeu rispidamente: “Nunca! Você não sairá ! Já fiz tolice demais em abrir essa caixa!”


Mas a voz prosseguiu de dentro da caixa: “Deixe-me sair, Pandora! Só eu posso ajudá-la!”
Pandora hesitou, mas a voz era tão doce, e ela se sentia tão só e desesperada,que resolveu abrir a caixa. De lá de dentro saiu uma pequena fada, com asinhas verdes e luminosas que clarearam um pouco aquele quarto escuro, aliviando a atmosfera que se tornara pesada e opressiva. “Eu sou a Esperança”, disse a fada. E prosseguiu: “Você fez uma coisa terrível, Pandora! Libertou todos os males do mundo: egoísmo, crueldade, inveja, ciúme, ódio, intriga, ambição, desespero, tristeza, violência e todas as outras coisas que causam miséria e infelicidade. Zeus prendeu todos esses males nessa caixa e deu a você e a seu marido. Ele sabia que você iria, um dia, abrir essa caixa. Essa é a vingança de Zeus contra Prometeu e todos os homens, por terem roubado o fogo dos deuses!”


Chorando copiosamente, Pandora disse: “Que coisa terrível eu fiz! Como poderemos pegar todos esses males e prendê-los novamente na caixa?”


“Você nunca poderá fazer isso Pandora!” Respondeu tristemente a fada da Esperança. “Eles já estão todos espalhados pelo mundo e não podem mais ser presos!”


“Mas há algo que pode ser feito: Zeus enviou-me também, junto com esses males, para dar esperança aos sofredores, e eu estarei sempre com eles, para lembrar-lhes que seu sofrimento é passageiro e que sempre haverá um novo amanhã !”



Embora no constructo mitológico o surgimento dos males esteja descrito como uma “vingança de Zeus” está claro que foi uma Conseqüência de os homens se terem apropriado de um elemento divino – a autoconsciência e o conhecimento do bem e do mal, simbolizados pelo fogo dos deuses, mas ainda não estarem maduros para lidar com esse poderoso elemento, até então de posse exclusiva dos deuses.

Os homens adquiriram uma faculdade de conhecimento até então exclusiva dos deuses e se tornaram potencialmente divinos, mas ainda eram primários e animalizados (nos mitos, este estágio da humanidade é representado pelos titãs ou pelos homens da Atlântida) para saberem lidar com essa força divina que agora existia em sua alma.

A grande benção divina foi o despertar da consciência, conforme o mito de Adão e Eva, quando o homem comeu a maçã foi a primeira vez que o homem exercitou o livre arbítrio, sabendo das conseqüências mesmo assim fez sua opção e até hoje exercita, tanto para as decisões certas quanto as decisões movidas por emoção, dever, moral, enfim segue em sua caminhada cheio de encruzilhadas.

Existe uma medida absoluta, final e inquestionável do bem e do mal, que tivesse sido estabelecida desde os tempos primórdios, e permaneça até não existir mais o tempo? Para alguns a resposta está nos Dez Mandamentos; para outros, depende das condições de tempo e lugar.

Vejamos a posição dos seguintes filósofos:

Heráclito – nós vemos os opostos (bem e mal) è Deus vê harmonia.

Demócrito – a bondade não é uma questão de ação; depende do desejo interior do homem. O homem bom não é o que pratica o bem, mas o que deseja praticá-lo sempre.

Protágoras – "O homem é a medida de todas as coisas" è Cada um tem o direito de determinar, por si, o que é o bem e o que é o mal. è CAOS.

Sócrates – o mais elevado bem que se pode medir tudo é o conhecimento.

Platão – o mundo dos sentidos, doutrinava ele, é irreal, transitório e mutável. Eis o mal. O verdadeiro mundo das idéias puras e imutáveis é o do bem.

Aristóteles – o bem é a atitude racional para com as sensações e os desejos.

Estóicos
– o mais alto bem do homem está em agir em harmonia com o mundo.
 
Santo Agostinho
– o mal é ausência do bem, da mesma maneira que as trevas são a ausência da luz.

Abelardo – justiça e injustiça de um ato não estão no ato em si, porém na intenção de quem o pratica.
 
Santo Tomás de Aquino
– o mais elevado bem é a concretização de si mesmo conforme Deus ordenou.

Thomas Hobbes (materialista) – aquilo que agrada ao homem é bom e o que lhe causa dor ou desconforto é ruim.

Espinosa – o esforço de se preservar é um bem; o que entrava esse esforço é um mal.

Kant – se o agente pratica o ato com boas intenções, respeitando as leis morais, o ato é bom.

Vamos amenizar o pensamento, e trazer a arte para dar uma trégua.

Pensando e refletindo (são coisas diferentes), os homens construíram muitas versões para explicar a origem do mal, estou falando de milênios de pensamentos construídos, na musica encontramos algumas manifestações artísticas, o que é uma forma da manifestação contemporânea.

Perfeição
Legião Urbana

Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...
Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...
Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...
Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..

Desejo-lhes todo o bem do mundo, e que seja exercido com a plenitude de suas consciências e sentimentos verdadeiros e sinceros.
 

Um forte abraço a todos