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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Licenciosidade do Abandono


A licenciosidade do abandono começa quase sempre de modo discreto. Não é um gesto teatral, nem uma decisão anunciada. É quando a gente deixa passar uma mensagem sem responder, adia um cuidado consigo mesmo, tolera um desconforto que antes não toleraria. No início parece descanso. Depois, vira hábito. E o hábito, silenciosamente, pede licença para se instalar.

Abandonar como quem pede permissão

Há um tipo de abandono que não nasce da impossibilidade, mas da concessão. Não é que não dê mais — é que deixamos. Deixamos o corpo ir ficando cansado, as ideias repetirem, as relações perderem espessura. A licenciosidade está justamente aí: no pequeno acordo interno que diz “tudo bem assim”, mesmo quando algo em nós sabe que não está.

Esse abandono é licencioso porque não se impõe à força; ele seduz. Oferece alívio imediato: menos esforço, menos confronto, menos responsabilidade por si. Como se a vida pudesse ser colocada em modo econômico sem custos futuros.

O abandono de si no cotidiano

Ele aparece em cenas banais. No trabalho, quando alguém aceita uma rotina que já não faz sentido só para evitar o risco de mudar. Nas relações, quando se permanece por inércia, não por presença. Em si mesmo, quando se troca curiosidade por distração contínua — rolar a tela em vez de sustentar um pensamento.

A licenciosidade do abandono não destrói de uma vez; ela desgasta. É um desinvestimento lento, quase educado. Não quebra nada, apenas vai deixando cair.

Entre liberdade e fuga

Há uma confusão perigosa entre abandonar e libertar-se. Nem todo abandono é emancipação. Às vezes, abandonar é apenas fugir do trabalho de sustentar algo vivo. A liberdade exige escolha; o abandono licencioso exige apenas desistência.

Filosoficamente, isso toca num ponto sensível: a diferença entre deixar ir e largar mão. Deixar ir pode ser um gesto ativo, lúcido, até necessário. Largar mão, quando licencioso, é recusar-se a responder pelo próprio desejo. É quando a vida vai sendo entregue ao automático, ao “tanto faz”.

A falsa paz do abandono

O abandono licencioso costuma vir acompanhado de uma paz enganosa. Menos conflito, menos tensão, menos perguntas. Mas também menos intensidade, menos presença, menos sentido. É uma tranquilidade morna, que anestesia mais do que descansa.

Com o tempo, essa paz cobra seu preço: uma sensação difusa de esvaziamento, como se algo importante tivesse sido deixado para trás — e foi, ainda que não saibamos dizer exatamente o quê.

Resistir sem endurecer

Resistir à licenciosidade do abandono não significa abraçar o controle excessivo ou a rigidez moral. Significa reaprender a sustentar: sustentar o cuidado, o desconforto criativo, a atenção. É escolher, repetidamente, não abandonar o que ainda pulsa — mesmo quando cansa.

Talvez viver com algum rigor não seja ser duro, mas ser fiel ao movimento da própria vida. Não permitir que o abandono se disfarce de descanso, nem que a desistência se venda como sabedoria.

No fim, a pergunta não é “do que posso abrir mão?”, mas outra, mais incômoda e mais honesta: do que não posso me abandonar sem deixar de ser atravessado pela vida?

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Filhos do Capitalismo


Às vezes a gente se pega pensando: será que vivemos o capitalismo ou o capitalismo vive através de nós? Crescemos ouvindo sobre “correr atrás dos nossos sonhos”, mas logo entendemos que esses sonhos geralmente vêm com etiqueta de preço. Da mochila da escola com a marca da moda até o celular que dita se estamos ou não atualizados, a vida vai ensinando, de forma sutil, que não basta existir — é preciso consumir para ser reconhecido. E assim, nos tornamos filhos de um sistema que nos molda desde o berço, mas que também herdamos como se fosse uma segunda pele.

O capitalismo não é apenas um modo de produção, como diria Marx, mas um modo de vida. Ele não se limita às fábricas e escritórios: ele invade afetos, amizades e até amores. Quantas vezes já não vimos relações nascerem ou morrerem por causa da falta — ou do excesso — de dinheiro? O capital, como Marx analisou no O Capital, transforma tudo em mercadoria, até aquilo que deveria ser inegociável: o tempo, o corpo, o desejo.

Mas há algo de ainda mais profundo. Somos educados para sermos sujeitos competitivos, para medir nossa dignidade pelo poder de compra, para crer que liberdade significa ter escolha de produtos nas prateleiras. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, mostra como o capitalismo contemporâneo não precisa mais de um patrão que grite ordens; somos nós mesmos que nos exploramos, correndo atrás de metas pessoais, produtividade, empreendedorismo. O sujeito se torna empresa de si mesmo, e fracassar deixa de ser questão coletiva para ser culpa individual.

No Brasil, Milton Santos trouxe uma leitura ainda mais afiada: vivemos a “globalização perversa”, onde a promessa de modernidade é seletiva. Para poucos, o capitalismo dá asas; para a maioria, grilhões. Isso nos revela que, como filhos desse sistema, somos educados a naturalizar desigualdades, a acreditar que quem não “vence” é porque não se esforçou o suficiente, esquecendo que o jogo já começa viciado.

E é curioso: ser filho do capitalismo não significa apenas obedecer, mas também resistir. Cada gesto de solidariedade fora da lógica da troca, cada encontro que não se mede em dinheiro, é um lembrete de que podemos reinventar a herança recebida. Somos filhos, sim, mas filhos que podem questionar os pais — e talvez criar novos modos de vida.

No fundo, talvez estejamos numa encruzilhada: seguir repetindo o DNA do sistema ou experimentar mutações, criando outros caminhos de ser e viver. Como diria Cornelius Castoriadis, a sociedade não é destino, mas criação. Se o capitalismo nos pariu, cabe a nós decidir se vamos apenas reproduzir sua voz ou se seremos capazes de inventar novas formas de existência.

sábado, 21 de dezembro de 2024

Massa de Quimera

A ideia de "massa de quimera" evoca uma imagem poderosa: algo moldável, imaginativo, mas que também se dissolve facilmente ao toque da realidade. Como um mito da Grécia Antiga, a quimera é um ser híbrido e impossível, uma junção de partes que não deveriam coexistir. A quimera é um ser híbrido com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente ou dragão, que tem a capacidade de lançar fogo pelas narinas. A palavra vem do grego khímaira,as e significa "monstro extraordinário". 

Transportando essa metáfora para o campo filosófico, podemos refletir sobre como lidamos com nossos sonhos, criações e aspirações que, muitas vezes, parecem igualmente híbridas e inalcançáveis.

O Sonho Como Construção

Desde a infância, somos mestres em criar quimeras internas. Montamos nossos desejos como escultores de barro, com pedaços de histórias, influências culturais e sentimentos. A "massa de quimera" simboliza essa capacidade de imaginar o impossível, de projetar mundos que desafiam a lógica. Mas, como Platão já sugeriu em seu "Mito da Caverna", nem tudo que imaginamos é real, e as sombras que criamos podem ser enganosas.

Por outro lado, a imaginação também é um motor criativo. Sem ela, não haveria avanços na ciência, na arte ou mesmo no cotidiano. Construímos "massas de quimera" para depois tentar dar-lhes forma mais sólida, algo que toque a realidade e se torne significativo.

A Fragilidade do Irreal

Se tudo o que moldamos é feito de uma massa maleável e indefinida, surge a questão: até onde podemos confiar em nossas criações? O filósofo brasileiro Vilém Flusser, ao refletir sobre as imagens técnicas, alerta para o perigo de confundirmos o símbolo com o real. Para Flusser, a tecnologia e a cultura contemporânea criaram uma realidade cada vez mais "quimérica", onde a ficção muitas vezes suplanta a verdade.

Da mesma forma, no nível individual, há sonhos que, quando confrontados com a realidade, desmoronam como castelos de areia. É um lembrete de que nem todas as quimeras são destinadas a sobreviver fora do mundo da imaginação.

A Utilidade do Impossível

Porém, seria um erro descartar a "massa de quimera" como inútil. Se os sonhos são frágeis, também são transformadores. Simone Weil, filósofa francesa, certa vez disse que "o impossível é o único caminho para o possível." A construção de sonhos aparentemente inalcançáveis é o que nos impulsiona a transcender nossos próprios limites.

A massa de quimera, mesmo sendo instável, nos obriga a experimentar, a esculpir e a refazer incessantemente. É uma metáfora para o processo humano de tentativa e erro, para a criação de sentido em um mundo frequentemente caótico.

No Cotidiano: Nossas Pequenas Quimeras

No dia a dia, as quimeras se manifestam em situações triviais. Planejamos uma viagem que nunca acontece, idealizamos relações que não correspondem à realidade, ou até imaginamos versões melhores de nós mesmos que, por vezes, nos escapam. A quimera é tanto uma aspiração quanto uma frustração.

Mas essas pequenas quimeras não são inúteis. Elas dão cor à vida, servindo como faróis que iluminam caminhos, mesmo que nunca os sigamos por completo. Elas nos fazem sonhar, e sonhar é o primeiro passo para criar.

O Equilíbrio Entre Realidade e Ilusão

A "massa de quimera" nos ensina que a vida é feita de paradoxos. Precisamos do impossível para dar sentido ao possível, da imaginação para alimentar a realidade. Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer a fragilidade de nossas criações, para não nos perdermos nelas.

Assim como o escultor que trabalha com argila, moldamos nossas quimeras sabendo que nem todas resistirão ao tempo. Mas, ao final, o que importa não é apenas o produto final, mas o ato de moldar, de criar e de sonhar. Afinal, como já dizia Fernando Pessoa, "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce." A massa de quimera, por mais efêmera que seja, é parte essencial dessa jornada.


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Força para resistir

No turbilhão da vida cotidiana, nos deparamos constantemente com desafios que testam nossos limites físicos, mentais e emocionais. Entre esses desafios, a necessidade de encontrar força para resistir é uma constante. Seja diante de obstáculos profissionais, relacionamentos difíceis ou eventos inesperados como desastres naturais, a capacidade de resistir assume um papel crucial em nossa jornada.

Recentemente, testemunhei de perto a força extraordinária necessária para resistir diante das enchentes que assolaram e assolam nosso Estado. Famílias inteiras viram seus lares submersos, suas posses arrastadas pelas águas impiedosas. Entre elas, pessoas que já enfrentavam batalhas diárias, seja financeira, de saúde ou emocionais.

Imagine-se na pele de alguém que, da noite para o dia, perde tudo o que construiu com tanto esforço. É uma realidade assustadora e desoladora. No entanto, é exatamente nessas horas que vemos a verdadeira natureza humana emergir, a capacidade de resistir contra todas as adversidades.

Lembro-me de uma família em particular, os Silva. Eles perderam sua casa, móveis, lembranças preciosas. Mas, apesar da devastação, mantiveram-se unidos, apoiando-se mutuamente. Essa é uma demonstração poderosa de força para resistir. Em vez de se deixarem abater pela tragédia, escolheram enfrentá-la de frente, com coragem e determinação.

Outra situação que me marcou profundamente foi o caso da Dona Maria, uma senhora idosa que viu suas últimas economias serem levadas pelas enchentes. Em meio às lágrimas e ao desespero, ela encontrou forças para recomeçar. Seu exemplo nos lembra que a força para resistir não está apenas na capacidade física, mas também na resiliência do espírito humano.

Além das tragédias naturais, enfrentamos constantemente desafios em nosso dia a dia que exigem uma dose extra de determinação. Seja lidar com pressões no trabalho, enfrentar dificuldades financeiras ou superar perdas pessoais, a força para resistir é essencial para nossa sobrevivência emocional.

Na vida, a perseverança e a resiliência caminham de mãos dadas com a força para resistir. São como os ingredientes secretos que nos mantêm firmes mesmo quando tudo parece desmoronar ao nosso redor. É como se fossemos bambus, flexíveis o suficiente para nos curvar diante das adversidades, mas tão fortes que nunca quebramos. Quando enfrentamos momentos difíceis, é fácil cair na tentação de desistir, mas é justamente nesses momentos que precisamos lembrar que cada obstáculo é uma oportunidade de crescimento. Como diz o ditado, "a maré só sobe para quem tem coragem de remar".

Temos em Mandela inspiração para força para resistir, perseverança e resiliência, ele enfrentou décadas de injustiça e opressão, emergiu como um símbolo de esperança e determinação. Sua vida é um testemunho vivo de como a força para resistir pode transformar até mesmo as circunstâncias mais sombrias em oportunidades para crescer e florescer. Ao olharmos para sua jornada, somos lembrados de que não é a ausência de desafios que define nosso sucesso, mas sim nossa capacidade de superá-los, uma e outra vez.

Em sintonia com nosso tema, podemos invocar as palavras inspiradoras de Confúcio, que disse uma vez: "Nossa maior glória não reside no fato de nunca cairmos, mas sim em nos levantarmos cada vez que caímos." Esta perspectiva atemporal nos lembra que o verdadeiro triunfo não está na ausência de dificuldades, mas sim na nossa habilidade de perseverar diante delas. Ao nos erguermos após cada queda, não apenas demonstramos nossa resiliência, mas também crescemos em sabedoria e fortaleza. É a jornada de superação que molda nosso caráter e nos torna mais capazes de enfrentar os desafios que o destino nos reserva.

Conforme refletimos e diante de tudo isso, é importante reconhecer que a força para resistir não é uma qualidade inata, mas sim uma habilidade que pode ser desenvolvida e fortalecida ao longo da vida. Cultivar relacionamentos sólidos, praticar a gratidão e buscar apoio quando necessário são algumas maneiras de nutrir essa força interior.

Portanto, mesmo diante das adversidades mais sombrias, lembre-se sempre: você é mais forte do que imagina. Encontre coragem nas pequenas vitórias, aprenda com os desafios e nunca subestime o poder da resiliência humana. Afinal, é na escuridão que as estrelas mais brilham, e é nas tempestades que encontramos nossa verdadeira força para resistir.