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sexta-feira, 27 de março de 2026

Flores no Sótão


Há livros que não parecem apenas histórias — parecem experiências psicológicas. Flores no Sótão, de V. C. Andrews, é exatamente isso: não se lê, se atravessa. E, quando termina, algo em nós também já não é o mesmo.

Resumo: Flores no Sótão, de V. C. Andrews, narra a história de quatro irmãos — Cathy, Chris e os gêmeos Cory e Carrie — que, após a morte do pai, são levados pela mãe para a mansão dos avós e acabam sendo trancados em um sótão para que o avô não descubra sua existência, sob a promessa de que seria algo temporário enquanto a mãe recuperava a herança, mas o confinamento se prolonga por anos, marcado pela crueldade da avó, pela diminuição gradual das visitas da mãe e pelo crescente abandono emocional, até que a situação atinge um ponto trágico com a doença dos gêmeos e a morte de Cory, revelando que a própria mãe vinha envenenando os filhos para se livrar deles, o que leva Cathy, Chris e Carrie a planejarem e conseguirem uma fuga, escapando fisicamente da casa, mas carregando consigo traumas profundos que transformam para sempre sua visão de família, amor e sobrevivência.


Introdução: o sótão que existe em nós

Eu sempre achei curioso como certas casas têm cômodos que a gente evita. Um quarto fechado, um armário que não se abre, um canto onde a luz não entra direito. O sótão, nesse livro, não é só um lugar físico — é uma metáfora brutal daquilo que a família tenta esconder.

E aqui começa o incômodo:

e se toda família tiver o seu próprio sótão?


A família como teatro — e como prisão

A história começa com uma promessa de proteção, mas rapidamente se transforma em abandono. A mãe, que deveria ser abrigo, vira estratégia. O amor vira cálculo. E os filhos… tornam-se obstáculos.

Isso nos joga numa pergunta desconfortável:

até que ponto os laços familiares são naturais — e quando eles passam a ser convenientes?

O que mais me chama atenção é como a crueldade no livro não surge de monstros evidentes, mas de figuras comuns. A mãe não começa como vilã. A avó acredita estar fazendo o certo. Tudo parece, de certa forma, justificável… até deixar de ser.

Aqui, eu quase escuto Sigmund Freud sussurrando algo sobre repressão: aquilo que é negado não desaparece — apenas se deforma.


O tempo no confinamento

O sótão distorce o tempo.

Dias viram meses. Meses viram anos. E, sem perceber, as crianças deixam de viver o mundo e passam a viver apenas uma versão reduzida da realidade.

Isso é profundamente moderno.

Quantas vezes a gente também não vive assim?

  • adiando decisões
  • esperando o “momento certo”
  • aceitando pequenos confinamentos cotidianos

O sótão não precisa de paredes — às vezes ele é feito de rotina, medo ou dependência emocional.


Crescer sem mundo

Uma das coisas mais perturbadoras na obra é ver o crescimento acontecer sem referência. As crianças amadurecem, mas dentro de um espaço fechado, sem contato social real.

Isso gera algo estranho:

um desenvolvimento biológico, mas não completamente humano.

E aqui entra um pensamento que poderia muito bem dialogar com Jean-Paul Sartre: nós nos construímos no encontro com o outro. Sem o outro, a identidade se torna um eco — uma repetição de si mesma.

No sótão, eles não descobrem quem são.

Eles improvisam o que conseguem ser.


A moral que apodrece lentamente

O horror do livro não está em um único momento — está na deterioração gradual.

Pequenas concessões vão sendo feitas:

  • “é só por mais um tempo”
  • “é para o bem de todos”
  • “depois a gente resolve”

E, quando se percebe, o inaceitável já virou rotina.

Isso me lembra uma ideia de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal: o mal não precisa ser grandioso — ele pode ser apenas contínuo, silencioso, quase administrativo.

No sótão, o absurdo não explode.

Ele se instala.


O abandono como marca invisível

Talvez o tema mais forte seja o abandono — não o abandono físico apenas, mas o emocional.

A mãe não some completamente. Ela aparece, promete, sorri… e vai embora de novo.

Isso é pior do que ausência total.

Porque mantém viva a esperança.

E a esperança, nesse caso, vira uma espécie de tortura elegante.


Concluindo: saindo do sótão

Quando fechei o livro, fiquei com a sensação de que o sótão não tinha ficado lá na história. Ele tinha vindo comigo.

Porque, no fundo, a obra fala de algo muito íntimo:

  • o que escondemos
  • o que adiamos
  • o que fingimos não ver
  • e, principalmente, o que aceitamos por tempo demais

Se tivesse que resumir, eu diria assim:

O verdadeiro horror de Flores no Sótão não é o confinamento das crianças —
é perceber o quanto a gente também aprende a viver em pequenos confinamentos, desde que eles pareçam provisórios.

E talvez o gesto mais difícil — e mais necessário — seja este:

abrir a porta do nosso próprio sótão… antes que ele se torne a única casa possível.

O Final do Livro

O final de Flores no Sótão, de V. C. Andrews, é tão perturbador quanto todo o caminho até ele — e talvez até mais cruel justamente porque revela o que estava por trás de tudo.


Spoilers a partir daqui

Com o passar do tempo, as crianças começam a desconfiar que algo está errado com a comida que recebem. A saúde dos gêmeos, especialmente de Cory, piora rapidamente.

Até que vem a revelação mais devastadora:

A mãe estava envenenando lentamente os filhos, colocando veneno (arsênico) nos doces — aqueles mesmos que pareciam gestos de carinho.

Cory, um dos gêmeos, não resiste e morre.


A descoberta

Após a morte, Cathy e Chris percebem que não se trata de negligência — é uma tentativa deliberada de se livrar deles. A conclusão é brutal:

  • Eles nunca seriam libertados
  • A promessa da mãe era uma mentira
  • Eles estavam sendo eliminados aos poucos

A mãe, na prática, escolheu a herança em vez dos filhos.


A fuga

Diante disso, Cathy e Chris decidem fugir com Carrie (a gêmea sobrevivente).

Eles conseguem escapar da mansão — não como crianças inocentes, mas como sobreviventes marcados.


O verdadeiro final

O livro termina com a fuga física…

mas não com uma libertação completa.

Porque o que eles viveram no sótão:

  • não pode ser esquecido
  • não pode ser “resolvido”
  • não pode ser deixado para trás tão facilmente

O sótão continua dentro deles.


Uma leitura final

Se eu tivesse que traduzir o fim em uma sensação, seria essa:

O pior não é quando alguém nos prende —

é quando descobrimos que quem nos prendeu nunca pretendeu nos soltar.

E talvez o gesto mais doloroso do livro seja esse:

os filhos não apenas perdem a infância…

eles perdem a ideia de que o amor, por si só, protege.

A história não termina aqui... e a história fica ainda mais intensa depois de Flores no Sótão. Na verdade, esse é só o começo de uma saga familiar bem sombria.

Fonte:

V. C. Andrews. Flores no Sótão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Licenciosidade do Abandono


A licenciosidade do abandono começa quase sempre de modo discreto. Não é um gesto teatral, nem uma decisão anunciada. É quando a gente deixa passar uma mensagem sem responder, adia um cuidado consigo mesmo, tolera um desconforto que antes não toleraria. No início parece descanso. Depois, vira hábito. E o hábito, silenciosamente, pede licença para se instalar.

Abandonar como quem pede permissão

Há um tipo de abandono que não nasce da impossibilidade, mas da concessão. Não é que não dê mais — é que deixamos. Deixamos o corpo ir ficando cansado, as ideias repetirem, as relações perderem espessura. A licenciosidade está justamente aí: no pequeno acordo interno que diz “tudo bem assim”, mesmo quando algo em nós sabe que não está.

Esse abandono é licencioso porque não se impõe à força; ele seduz. Oferece alívio imediato: menos esforço, menos confronto, menos responsabilidade por si. Como se a vida pudesse ser colocada em modo econômico sem custos futuros.

O abandono de si no cotidiano

Ele aparece em cenas banais. No trabalho, quando alguém aceita uma rotina que já não faz sentido só para evitar o risco de mudar. Nas relações, quando se permanece por inércia, não por presença. Em si mesmo, quando se troca curiosidade por distração contínua — rolar a tela em vez de sustentar um pensamento.

A licenciosidade do abandono não destrói de uma vez; ela desgasta. É um desinvestimento lento, quase educado. Não quebra nada, apenas vai deixando cair.

Entre liberdade e fuga

Há uma confusão perigosa entre abandonar e libertar-se. Nem todo abandono é emancipação. Às vezes, abandonar é apenas fugir do trabalho de sustentar algo vivo. A liberdade exige escolha; o abandono licencioso exige apenas desistência.

Filosoficamente, isso toca num ponto sensível: a diferença entre deixar ir e largar mão. Deixar ir pode ser um gesto ativo, lúcido, até necessário. Largar mão, quando licencioso, é recusar-se a responder pelo próprio desejo. É quando a vida vai sendo entregue ao automático, ao “tanto faz”.

A falsa paz do abandono

O abandono licencioso costuma vir acompanhado de uma paz enganosa. Menos conflito, menos tensão, menos perguntas. Mas também menos intensidade, menos presença, menos sentido. É uma tranquilidade morna, que anestesia mais do que descansa.

Com o tempo, essa paz cobra seu preço: uma sensação difusa de esvaziamento, como se algo importante tivesse sido deixado para trás — e foi, ainda que não saibamos dizer exatamente o quê.

Resistir sem endurecer

Resistir à licenciosidade do abandono não significa abraçar o controle excessivo ou a rigidez moral. Significa reaprender a sustentar: sustentar o cuidado, o desconforto criativo, a atenção. É escolher, repetidamente, não abandonar o que ainda pulsa — mesmo quando cansa.

Talvez viver com algum rigor não seja ser duro, mas ser fiel ao movimento da própria vida. Não permitir que o abandono se disfarce de descanso, nem que a desistência se venda como sabedoria.

No fim, a pergunta não é “do que posso abrir mão?”, mas outra, mais incômoda e mais honesta: do que não posso me abandonar sem deixar de ser atravessado pela vida?

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Oportunidade de Esquecer


Eu costumava achar que esquecer era uma falha. Um curto-circuito da memória. Uma traição ao que foi vivido. Hoje desconfio do contrário: esquecer, muitas vezes, é uma forma silenciosa de sobrevivência.

A gente não esquece só datas, nomes ou senhas. Esquece versões de si mesmo. Esquece promessas que já não fazem sentido. Esquece dores que insistiam em definir quem éramos. E, sem perceber, vai abrindo espaço para uma versão menos pesada de existir.

Outro dia, no café — esse meu pequeno santuário cotidiano — percebi que já não lembrava mais com nitidez de uma discussão antiga que, na época, parecia definitiva. Lembro da sensação, não das palavras. E isso mudou tudo. Porque a sensação também tinha perdido força. O esquecimento, ali, não foi perda: foi libertação.

Esquecer é permitir que o passado deixe de ser uma sentença e passe a ser apenas um capítulo. Não apagado — mas também não mais gritado.

No cotidiano, isso aparece em coisas pequenas:

– Quando você encontra alguém que já te feriu e percebe que não sente mais raiva.

– Quando uma música antiga já não dói.

– Quando um erro vira só uma história, não mais uma identidade.

A memória quer nos ensinar. O esquecimento quer nos devolver leveza.

Paul Ricoeur dizia que lembrar e esquecer fazem parte do mesmo gesto humano: dar sentido ao tempo. Sem esquecimento, a memória vira um arquivo cruel, onde nada pode ser reorganizado. Sem memória, o esquecimento vira vazio. O equilíbrio entre os dois é o que nos permite continuar.

Talvez a vida não nos dê apenas oportunidades de lembrar — mas também oportunidades discretas de esquecer na medida certa. Não por desprezo ao passado, mas por respeito ao futuro.

E eu, hoje, começo a desconfiar que esquecer não é abandonar quem fomos.

É apenas recusar continuar sendo apenas aquilo.