O crescimento urbano das cidades brasileiras tem causado impacto significativo na população e no meio ambiente.
Atender moradia para esta demanda implica investimentos na construção civil e construções que sejam executadas o mais rápido possível, obedecendo normas de segurança, exigências legais, e procurando minimizar o máximo possível o impacto ambiental.
Na celeridade a que a construção civil esta envolvida aproveitando o aquecimento do mercado, a disponibilidade de capital, elevam o numero de construções civis, a exploração acirrada das fontes de materiais e também como não poderia ser diferente, a grande geração de resíduos sólidos.
Neste momento é importantíssimo que as construtoras possuam controle de registros que iniciam com o desenvolvimento de projetos, quanto na execução dos mesmos e também, no controle da geração dos resíduos sólidos.
É conveniente lembrar, que as primeiras obras civis no Brasil e até hoje, um grande numero de construções carecem de registros, e com isto analisar, o desenvolvimento tecnológico no Brasil é um problema, conforme afirma Nestor Goulart Reis Filho (1989, introd.):
O desenvolvimento tecnológico de um país depende de informações contidas em seus projetos. A falta de memória tecnológica cria um país de memória emprestada.
Lamentavelmente é o que ocorre na construção civil no Brasil. Com raras exceções, pode-se dizer que somente as empresas estrangeiras como a São Paulo Railway e The São Paulo Tramway, Light and Power Company Ltda. executaram um registro fotográfico sistemático de suas obras. Em virtude do controle técnico ser exercido do exterior, o uso da fotografia era fundamenta, mostrando canteiros e detalhes das obras e equipamentos. Era a forma de se avaliar, à distância, o uso de técnicas desenvolvidas em climas temperados, quando aplicadas ao nosso clima tropical e às nossas condições sociais.
As empresas nacionais não adotavam esse procedimento pois a presença física dos engenheiros responsáveis, junto aos canteiros, permitia a transmissão verbal das experiências.
Ainda hoje encontramos obras que não registram as solicitações de projetos aos arquitetos, as etapas de construção, e a quantidade gerada de resíduos sólidos, salvo as empresas que possuem certificação da ISO 9001 e PBQP-H, onde está presente, a exigência de registrar e garantir, que estes registros sejam resgatados.
Nesta cultura da transmissão de informações do “boca a boca” as informações, vão se perdendo. Atualmente não podemos nos dar ao luxo de confiar, que os engenheiros transmitam verbalmente as experiências.
Encontramos em andamento um grande número de construções de pequeno porte dirigidas pelo proprietário e seu pedreiro de confiança. Neste caso, o registro das informações não existe, não há controle, a fiscalização é deficiente, os problemas são diversos, e, como informado anteriormente, vão desde a estocagem, ao uso inadequado dos materiais e o descarte dos resíduos sólidos.
O pequeno construtor em todo Brasil joga resíduos sólidos em estradas, praças, canteiros, avenidas, terrenos baldios, rios e córregos. Em muitos casos, os materiais vão parar dentro das caixas de esgoto causando todo tipo de problema, desde entupimentos, alagamentos até a transmissão de doenças.
Na atividade de construção civil como por si só declara, é atividade de construção de algo que é comum e universal, abrigo, moradia e obras de arte necessárias para o fluxo de pessoas e veículos seja na área urbana ou rural.
Antes mesmo, da construção iniciar, supõe-se que esteja tudo projetado e programado, onde os resultados estarão todos previamente apontados e mensurados, inclusive a princípio, informando os resultados indesejáveis que são os resíduos.
Conforme Ceotto[1] (2008), temos presente na atividade da construção civil, quatro principais fases que são: concepção, projeto, construção, uso e manutenção. As possibilidades de intervenções para buscar a redução dos impactos são distintas em casa fase, sendo de grande importância levar isto em consideração.
Figura 1: Gráfico da possibilidade de intervenção durante a vida útil do edifício. Fonte: Ceotto, 2008.
O autor, também apresenta os custos de cada fase de uma edificação, sendo que cerca de 80% de todo o custo é gasto na fase de uso e manutenção. Portanto detalhes de concepção de projeto terão grandes impactos no futuro de um prédio.
Uma primeira ação visando diminuição do impacto, objetiva mudar a nossa cultura e maneira de agir. Num primeiro momento não é necessário investir em novas tecnologias nem mudar as técnicas usadas atualmente.
Investindo na mudança de hábitos, é possível modificar a cultura dos colaboradores, tendo em vista a redução das perdas, e geração de entulho.
Investir em hábitos, é investir diariamente na repetição, dessa forma que a idéia é incorporada, através do constante treinamento, registro, controle e fiscalização.
Precisa estar impregnado na rotina de todas colaboradores sem exceção.
Esta claro que os registros não poderão ser negligenciados, produzir com responsabilidade requer transparência, e, evidências poderão ser identificadas nos registros e estatísticas, independente, se for uma construção de pequeno porte onde um habitante esteja construindo por conta própria, ou, executadas por empresas construtoras.
Embora a mudança de agir, seja uma ação barata, e sem maiores investimentos financeiros, essa simples e importante ação, leva muito tempo para ser absorvida por todos os envolvidos, requer persistência e perseverança, onde direção e cargos de chefia precisam estar focados e darem exemplo.
Não existe uma fórmula pronta em se tratando da minimização dos impactos ambientais, sendo cada caso analisado separadamente.
Invariavelmente, as soluções adotadas seguem as seguintes premissas (CEOTTO, 2008):
1- Redução do consumo de energia, 2- Redução do consumo de água, 3- Aumento da absorção da água de chuva e minimizando seu envio às redes públicas ou vias públicas, 4- Redução do volume de lixo ou possibilidade de facilitar a sua reciclagem, 5- Facilidade de limpeza e manutenção, 6- Utilização de materiais reciclados, 7- Aumento da durabilidade do edifício e a possibilidade de modernização e seu reaproveitamento após o término de sua vida útil.
Ceotto (2008) sugere que para reduzir o consumo de energia, na fase de concepção e projeto deve se buscar o aproveitamento da luz solar, porém com o uso de brises[2] para prevenir a incidência direta do sol.
Sempre que possível utilizar ventilação natural, para reduzir o uso de ar condicionado. Luminárias e lâmpadas de alta eficiência também já são realidades, gerando economia.
Sistemas de aquecimento de água solar também estão ficando cada vez mais acessíveis a todos os tipos e níveis de obra, proporcionando grande economia na fase de uso das edificações.
A impermeabilização do solo já é um problema real em grandes cidades. O uso de jardins e áreas não pavimentadas reduz o efeito enxurrada em chuvas mais intensas.
Dependendo da situação, é possível utilizar reservatórios para acumular a água de uma chuva de grande intensidade, para posteriormente descartar esta água na rede pública.
A redução do volume de lixo e a reciclagem do mesmo está mais ligada á fase de uso e operação das edificações. Porém, é preciso prever em projeto uma área para o correto armazenamento temporário deste lixo reciclável separado, facilitando esta prática posteriormente.
Os projetos procuram especificar materiais de acabamentos de pisos e paredes de fácil manutenção e limpeza. Materiais muito porosos e com facilidade de manchar necessitarão de mais água para sua limpeza.
Alguns materiais de construção civil, como o cimento e o aço utilizam outros materiais reciclados em sua composição, como escória de alto forno, cinza volante e sucatas.
É possível utilizar materiais reciclados em acabamentos, ou também em tubos de esgoto feitos de garrafas PET. Uma maneira muito interessante de aprisionar gás carbonico é a utilização de madeira de florestas plantadas (pinus, por exemplo) como acabamento.
No projeto de edifícios é interessante pensar na distribuição dos pilares, e nos vãos entre eles, de maneira a se prever uma readequação futura de uso do prédio sem maiores problemas.
O pé direito também é importante ser considerado assim como o uso de shafts para passagem de tubulações.
Durante a construção é consumido enorme volume de água tratada e a que sobra é devolvida contaminada, absorvida pelo solo ou levar para a rede de esgotos, como por exemplo, água utilizada na betoneira que sempre vaza e não é tratada, nem aproveitada.
Sugestão: construção de caixas de contenção ou decantação, aproveitando o resíduo sólido para aterro da própria obra e também e, principalmente, o reaproveitamento da água que sobra na composição de nova massa.
A utilização de água potável na construção civil é imensa, embora a água não seja vista e nem tratada como material de construção, o consumo é bastante elevado.
Por exemplo, numa avaliação empírica e atual, para a confecção de um metro cúbico de concreto, gasta-se em média de 160 a 200 litros e, na compactação de um metro cúbico de aterro podem ser consumidos até 300 litros de água, que corresponde a 0,16% do custo de construção de um empreendimento. Num cálculo hipotético, se um empreendimento custasse R$ 20 milhões, a construção teria pago R$ 32 mil de fatura de água.
Uma importante medida para colaborar, evitar o desperdício é o reaproveitamento das águas cinzas. Estas águas podem, e devem, ser reutilizadas, o que proporciona economia financeira e de recursos naturais. O reuso da água traz benefícios para quem a utiliza e para toda a sociedade.
Já existem sistemas tratadores das águas cinzas, com empresas especializadas proporcionando fácil instalação dos equipamentos e custo razoável. Com o passar do tempo, a economia com o consumo de água potável nas atividades onde as águas cinzas, tratadas pagarão o custo de aquisição de tais equipamentos.
Nossas fontes de água para consumo são limitadas, podemos através da mudança cultural, nos hábitos diários fazer economia significativa, sem sofrer com medidas que escondam o déficit de água corrente, como é o de elevar os preços da água potável para forçar a população a controlar seu consumo, ou pior ainda a restrição de sua distribuição.
Com base em pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Engenharia de Construção Civil e Urbana – Escola Politécnica – Universidade de São Paulo, Brasil, (PESSARELLO[3], 2008), atesta a relevância do consumo de água na construção de empreendimentos apontam para a necessidade de se implantar Programas para Economia de Água nos Canteiros.
Estes poderiam prever diversas ações, visando à redução do consumo de água nos canteiros de obra, tais como: utilização de torneiras com acionamento e desligamento automático; instalação de temporizadores nos chuveiros, determinando o tempo de banho; utilização de água da chuva para descargas, limpeza da obra, estudos para utilização de fontes alternativas de água para consumo em serviços de construção civil.
Por exemplo, utilização de água da chuva na cura do concreto ou dosagem de argamassas; palestras para conscientização dos funcionários, com relação à fonte finita de recursos naturais; acompanhamento mensal dos consumos e medidas para redução dos mesmos.
A constituição dos entulhos ou resíduos sólidos gerados pela construção civil são: argamassa, areia, caliça, cerâmica, concreto, madeira, metais, papéis, plásticos, pedras, tijolos e tintas.
Depois da água, o concreto é o segundo material mais utilizado pela humanidade.
Os resíduos sólidos da construção civil sempre foram considerados como material inerte[4]. No entanto nem todo resíduo de construção civil é inerte, por exemplo, o gesso que se dissolve em água; a tinta contém metais pesados em sua composição, que se solubilizam na água. (JOHN[5] e SATO, 2006)
Busca-se mensurar o desperdício em todas as atividades. Na construção civil, os índices de perda de matérias-primas, são bastante elevados.
Encontramos em trabalhos de muitos autores informações que divergem sobre as quantidades, no entanto, sabem que são quantidades elevadas. (AGOPYAN[6], 1998)
Diante do fato de grandes perdas de matérias primas trazem imediatamente duas conseqüências que são inevitáveis: o setor repassa sua ineficiência para os preços dos imóveis pagos pelo consumidor.
O setor produz um impacto ambiental desnecessário ao utilizar matérias-primas naturais em quantidade superior ao necessário, registrando contabilidade sócio ambiental negativa, uma causa importante são os orçamentos equivocados.
Com a atual demanda, a falta de mão de obra qualificada e como era de se esperar, o setor de construção civil se tornou o maior empregador de mão de obra não qualificada, que alem do orçamento como dito anteriormente. Este é outro fator que colabora com o desperdício e o alto custo das construções.
A adoção de gestão ambiental é importante para uma empresa por diversos motivos. Um dos motivos é porque ela associa sua imagem ao da preservação ambiental, melhorando no mercado as imagens das marcas de seus produtos, outro, porem o mais importante é com a preservação do meio ambiente, e, obviamente também a redução de custos.
Empresas que adotam este sistema conseguem reduzir seus custos, evitando desperdícios e reutilizando materiais que antes eram descartados. Empresas com gestão ambiental melhoram suas relações comerciais com outras empresas que também seguem estes princípios.
O ISO 14000 é um conjunto de normas técnicas e administrativas que estabelece parâmetros e diretrizes para a gestão ambiental nas empresas dos setores privado e público.
- Realizar a reciclagem de lixo (resíduos sólidos).
- Não jogar óleo de cozinha no sistema de esgoto.
- Usar a água de forma racional, economizando sempre que possível, a água.
- Buscar consumir produtos com certificação ambiental e de empresas que respeitem o meio ambiente em seus processos produtivos.
- Usar transporte individual (carros e motos) só quando necessário, dando prioridades para o transporte coletivo ou bicicleta.
- Comprar e usar eletrodomésticos com baixo consumo de energia.
- Economizar energia elétrica nas tarefas domésticas cotidianas.
- Evitar o uso de sacolas plásticas nos supermercados.
- Criação e implantação de um sistema de gestão ambiental na empresa.
- Tratar e reutilizar a água dentro do processo produtivo.
- Criação de produtos que provoquem o mínimo possível de impacto ambiental.
- Dar prioridade para o uso de sistemas de transporte não poluentes ou com baixo índice de poluição. Exemplos: transporte ferroviário e marítimo.
- Criar sistema de reciclagem de resíduos sólidos dentro da empresa.
- Treinar e informar os funcionários sobre a importância da sustentabilidade.
- Dar preferência para a compra de matéria-prima de empresas que também sigam os princípios da responsabilidade ambiental.
- Dar preferência, sempre que possível, para o uso de fontes de energia limpas e renováveis no processo produtivo.
- Nunca adotar ações que possam provocar danos ao meio ambiente como, por exemplo, poluição de rios e desmatamento.
Conforme Berna[7] (2005), para que se consiga uma política de comunicação ambiental eficiente, uma das primeiras regras, é a definição dos diferentes públicos de interesse, suas expectativas e opiniões sobre a empresa.
A partir daí, é possível estabelecer o que precisa ser abordado, e por meio de quais veículos e produtos.
Dentro desta perspectiva é possível produzir políticas adequadas e soluções mais especificas a cada publico, desta forma é necessário primeiro entender o problema e compreendendo é oferecida a solução.
[1] CEOTTO, Engº Civil, trabalha para o desenvolvimento de boas práticas na avaliação de produtos e projetos; na identificação das lacunas para alcançar as boas praticas, e esta presente nas discussões da Avaliação de Sustentabilidade com relação a realidade brasileira.
[2] O brise é um elemento arquitetônico localizado na fachada externa do edifício e que tem como função principal o controle da incidência de radiação solar na edificação.
[3] PESSARELLO, Engª Civil, possui artigos publicados como consumo de água nos canteiros, redução de perdas, entre outros. Afirma que é necessário ter todo um trabalho de gestão com os operários, porque os pedreiros e serventes podem economizar.
[4] Todo material que mantido mergulhado durante 24h em água bi-destilada não altera as propriedades físico químicas da água.
[5] JOHN, Engº Civil, Afirma que o desenvolvimento sustentável não é apenas uma bandeira de ecologistas e já se constitui em uma preocupação real para industria da construção civil a nível internacional. O setor é o maior consumidor individual de recursos naturais, gera poluição, etc.
[6] AGOPYAN, Engº Civil, apresentou alternativas para redução de desperdício de materiais no canteiro de obras.
[7] BERNA. Escritor, contribuiu com sua luta constante pela cidadania ambiental planetária foi reconhecido pela ONU, em 1999, no Japão, com o Prêmio Global 500 para o Meio Ambiente. Autor de literatura buscando contribuir com empresas e poder publico na direção de uma gestão comprometida com o meio ambiente.