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segunda-feira, 16 de outubro de 2023

“Nunca” tem resposta


 

Numa destas manhãs típicas, como muitos de nós, enfrentei a rotina diária de tomar o café. Enquanto saboreava a bebida quente, disse casualmente a um amigo: "Nunca vou entender a paixão das pessoas por café amargo."  Essa palavra "nunca" parece tão simples, tão definitiva. No entanto, à luz da filosofia, onde questionamos e exploramos até as afirmações mais aparentemente diretas, surge a pergunta: será que realmente existem situações ou conceitos aos quais podemos atribuir um "nunca" absoluto?

A questão parece ingênua, mas não é, a questão é repetidamente falada sem reflexão, por isto, não me falta motivação para pensar sobre a questão do "nunca", ela surge da nossa necessidade intrínseca de compreender, questionar e desafiar as afirmações que tomamos como certas em nosso cotidiano. A vida é repleta de declarações absolutas - "nunca vou fazer isso", "isso nunca acontecerá", "nunca vou gostar disso" - e muitas vezes aceitamos essas afirmações sem refletir sobre sua profundidade e validade.

Ao examinar o "nunca", somos levados a considerar a natureza da certeza e da possibilidade, o que realmente significa dizer "nunca"? Podemos ter certeza absoluta de que algo nunca acontecerá? Podemos prever o futuro com tal precisão? Ou será que o "nunca" é uma expressão de nossas inclinações atuais, limitadas pelo que sabemos e experimentamos até o momento?

Essas perguntas nos convidam a explorar a flexibilidade e a relatividade das afirmações absolutas. A filosofia nos ensina a não dar nada como garantido, a desafiar nossas suposições e a considerar a vasta gama de possibilidades que a vida pode oferecer. Ao questionar o "nunca", somos impelidos a pensar criticamente, a ponderar sobre a natureza mutável das circunstâncias e a considerar que, no âmbito humano e no universo em constante mudança, "nunca" pode ser mais uma declaração de nossa perspectiva atual do que uma verdade absoluta.

Além disso, a exploração do "nunca" nos convida a abraçar a incerteza e a complexidade da existência. Aceitar que nossas convicções podem evoluir, que o inimaginável pode se tornar realidade e que a vida é um contínuo processo de aprendizado e transformação. Ao desafiar o "nunca", encontramos uma oportunidade de crescimento pessoal e intelectual, expandindo nossas mentes para além dos limites das crenças preconcebidas.

A motivação para pensar sobre o "nunca" reside na busca do conhecimento mais profundo, na exploração da incerteza e na disposição de questionar até mesmo as afirmações mais inquestionáveis, para que possamos cultivar uma compreensão mais ampla e enriquecedora do mundo ao nosso redor.

Explorar o tema do "nunca" na filosofia é desafiar fronteiras e conceber o infinito na finitude das palavras e ideias. A noção de "nunca" é uma afirmação absoluta, implicando uma negação perpétua de possibilidades futuras. No entanto, será que existe algo verdadeiramente absoluto no universo, algo que nunca possa ser desafiado, questionado ou alterado?

A filosofia, ao longo de sua história, questionou a validade de afirmações absolutas. Desde os céticos antigos até os filósofos contemporâneos, o conceito de certeza absoluta tem sido alvo de escrutínio. A ideia de que algo "nunca" pode ocorrer ou ser verdade deve ser vista à luz desse ceticismo filosófico.

A epistemologia, ramo da filosofia que estuda o conhecimento, indaga sobre a natureza do conhecimento e as limitações que enfrentamos ao afirmar algo com certeza absoluta. As incertezas inerentes ao conhecimento humano nos levam a questionar se podemos realmente afirmar que algo "nunca" pode acontecer ou ser verdade.

Em termos ontológicos, a filosofia investiga a natureza do ser e da realidade. Ela nos faz questionar se as categorizações que fazemos são suficientes para compreender a totalidade do universo. O "nunca" é uma categoria rígida que, quando aplicada à complexidade do cosmos, pode se mostrar insuficiente para capturar toda a extensão das possibilidades.

Alguns filósofos, como Nietzsche, propuseram a ideia de eterno retorno, onde tudo o que é possível já ocorreu, ocorre e ocorrerá infinitas vezes. Essa visão contradiz a noção de "nunca", pois implica que tudo tem a possibilidade de ocorrer infinitamente.

Outro aspecto importante é a mudança e a evolução. A história humana nos mostra que nossas ideias, crenças e entendimento do mundo estão sempre em fluxo. O que acreditamos ser impossível hoje pode se tornar possível no futuro.

Ao considerar a afirmação de "nunca", devemos lembrar da complexidade do universo, da limitação do conhecimento humano e da possibilidade de mudança. A filosofia nos convida a questionar nossas certezas, a estar abertos a novas ideias e a reconhecer que, mesmo nas afirmações mais absolutas, há uma margem de incerteza e uma infinidade de possibilidades que o "nunca" pode não capturar.

Muitas vezes, nos surpreendemos ao fazer algo que anteriormente afirmamos que nunca faríamos. Isso ilustra a complexidade da natureza humana e a mudança constante de nossas perspectivas, gostos e escolhas ao longo do tempo. Essa dinâmica é parte integrante da experiência de viver e crescer, e destaca a importância de reconhecer que somos seres em evolução, sujeitos a influências e aprendizados que podem nos levar a revisitar nossas convicções passadas.

Essas surpresas em relação a nós mesmos oferecem uma perspectiva valiosa sobre a impermanência de nossas convicções e a natureza fluida de nossa identidade. Às vezes, descobrimos que aquilo que pensávamos ser uma escolha definitiva pode ser moldado por novas circunstâncias, experiências e entendimentos. Isso nos lembra da importância de manter uma mente aberta, estar disposto a reconsiderar nossas opiniões e, acima de tudo, permitir-nos evoluir como indivíduos. A capacidade de crescer e aprender com nossas ações e experiências passadas é fundamental para nossa jornada pessoal de autodescoberta e desenvolvimento contínuo.

Ao refletir sobre o "nunca", é essencial reconhecer a possibilidade de surpreendermos a nós mesmos, aceitar essa mudança e abraçar as transformações que ocorrem em nossas vidas. Afinal, é por meio dessas surpresas e revisões que crescemos, aprendemos e nos tornamos seres mais autênticos e compreensivos, então nunca diga “nunca”!

O exemplo do café amargo é um ótimo contexto para ilustrar como nossas preferências e percepções podem mudar ao longo do tempo. Embora inicialmente possamos ter uma aversão ao sabor amargo do café, é possível desenvolver um gosto por ele e, eventualmente, encontrar prazer nessa experiência sensorial, este foi o meu caso, aos poucos fui me acostumando ao sabor amargo e atualmente não consigo tomar café adoçado de jeito nenhum.

Essa evolução nas preferências é uma manifestação da plasticidade de nossos gostos e hábitos. Às vezes, estamos abertos a experimentar coisas novas, mesmo que inicialmente não nos agradem. Com o tempo e a exposição repetida, podemos adquirir um gosto por algo que anteriormente rejeitamos.

Essa flexibilidade em nossas preferências também pode se estender a outras áreas da vida. Por exemplo, podemos dizer que nunca gostaríamos de viver em uma cidade grande, apenas para, mais tarde, descobrirmos que apreciamos a energia e a diversidade que ela oferece. Isso destaca a importância de estar aberto a experiências e permitir que nossos gostos e perspectivas evoluam conforme vivemos e aprendemos.

O exemplo do café amargo ilustra que nossas opiniões e preferências podem ser maleáveis e estão sujeitas a mudanças. Estar disposto a experimentar coisas novas, revisitar nossas escolhas passadas e permitir a evolução de nossos gostos pode enriquecer nossa vida e nos levar a descobertas inesperadas de prazer e satisfação, até mesmo num momento de iluminação e meditação onde me encontro com Ele!

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