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sábado, 21 de novembro de 2020

Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo

 


Federico Garcia lorca em 1932

Para quem gosta de uma escrita inteligente, original e organizada gosta de Federico Garcia Lorca, ou Garcia Lorca como a maioria dos seus leitores o chamam.

Garcia Lorca fazia uso constante de metáforas e símbolos, através destes modos ele abordou com maestria temas como amor, desejo e frustração.

Algumas de suas obras mais famosas foram poesias como “Romanceiro Gitano – Romance da lua, lua”, “Seis poemas galegos”, o diferencial deste poeta era sua forma original de recitar, o fascínio do público por sua poesia emanava pela maneira peculiar que o poeta recitava, ele tinha uma habilidade oral magnifica, demonstrava uma força espiritual e gosto pela dramaturgia que o fizeram único.

Sua obra tinha uma conotação libertária de forças opressoras, ainda muito presentes nos dias atuais, carregada de sinais e metáforas ele procurou combater o que em resumo suas palavras explicitam: “Acredito que ser de Granada me inclina para a compreensão solidária dos perseguidos. Do cigano, do negro, do judeu …, do mouro que todos carregamos dentro”

Garcia Lorca também se destacou no teatro com obras como “Romance Sonambulo”, La Casa de Bernarda Alba”, “Bodas de sangue”, “Mariana Pineda”, além destas obras ele produziu muitas outras belíssimas joias.

Na obra Pequeno Poema Infinito – Palavras de Federico García Lorca no Prologo encontramos sua irreverente expressão:

“Senhoras e senhores: Desde o ano de 1918, quando ingressei na Residência dos Estudantes de Madri, até 1928 ano em que a abandonei, terminados meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão onde a velha aristocracia espanhola ia para corrigir sua frivolidade de praia francesa, cerca de mil conferências. Com desejo de ar e de sol, eu me entediei tanto que ao sair me senti coberto por uma leve cinza quase a ponto de converter-se em pimenta de tanta irritação. Não. Não quero que entre nesta sala a terrível mosca do tédio que une todas as cabeças por um tênue fio de sono e põe nos olhos dos ouvintes uns grupos diminutos de pontas de alfinete”. (Federico García Lorca. Pequeno Poema Infinito: Palavras de Federico García Lorca. Roteiro de José Mauro Brant e Antonio Gilberto Tradução de Roseana Murray. Imprensa Oficial p.16)

Em sua crítica a burguesia ele disse: “A burguesia espanhola limpa com a língua as feridas dos milionários!”

O que me levou a escrever sobre Garcia Lorca foi que estava assistindo no youtube, ¨La desaparición de García Lorca¨, com Andy García, e me deu uma vontade enorme de lê-lo e escrever sobre este poeta, diante disto estou compartilhando o link abaixo para assim como eu possam sentir a força de sua obra:

https://www.youtube.com/watch?v=MFFCoxJU0Gc

Biografia: Nascido numa pequena localidade da Andaluzia, García Lorca ingressou na faculdade de Direito de Granada em 1914, e cinco anos depois transferiu-se para Madrid, onde fez amizade com artistas como Luis Buñuel e Salvador Dali e publicou seus primeiros poemas.

Casa de Lorca em Fuente Vaqueros.

Grande parte dos seus primeiros trabalhos baseia-se em temas relativos à Andaluzia (Impressões e Paisagens, 1918), à música e ao folclore regionais (Poemas do Canto Fundo, 1921-1922) e aos ciganos (Romancero Gitano, 1928).

Concluído o curso, foi para os Estados Unidos e para Cuba, período de seus poemas surrealistas, manifestando seu desprezo pelo modus vivendi norte-americano. Expressou seu horror com a brutalidade da civilização mecanizada nas chocantes imagens do Poeta em Nova Iorque, publicado em 1940.

Voltando à Espanha, criou um movimento de teatro chamado La Barraca.E, foi duramente perseguido por conta de sua homoafetividade.

Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo.

O assassinato e o corpo

Controvérsia significante permanece sobre os motivos e os detalhes do assassinato de Lorca. Motivações pessoais, não-políticas também têm sido sugeridas. O biógrafo de García Lorca, Stainton, afirma que seus assassinos fizeram comentários sobre a sua orientação sexual, o que sugere que esse aspecto possa ter desempenhado um papel na sua morte.[2] Ian Gibson sugere que o assassinato de García Lorca foi parte de uma campanha de assassinatos em massa que visava a eliminação de apoiantes da Frente Popular. No entanto, Gibson propõe que a rivalidade entre a anticomunista Confederação Espanhola de Direito Autónomo (CEDA) e a Falange foi um fator importante na morte de Lorca. O ex-vice parlamentar da CEDA, Ramon Ruiz Alonso García, prendeu Garcia Lorca na casa de Rosales e foi o responsável pela denúncia original que levou ao mandado de captura emitido.

Tem sido argumentado que García Lorca era apolítico e tinha muitos amigos em ambos os campos, republicano e nacionalista. Gibson contesta isso em seu livro de 1978 sobre a morte do poeta. Ele cita, por exemplo, o manifesto publicado de Mundo Obrero, que Lorca assinara mais tarde e alega que Lorca foi um apoiante activo da Frente Popular.[3] Lorca leu um manifesto num banquete em honra do companheiro poeta Rafael Alberti em 9 de fevereiro de 1936.

Muitos anticomunistas eram simpáticos a Lorca. Nos dias antes da sua prisão, ele encontrou abrigo na casa do artista e líder membro da Falange, Luis Rosales. O poeta comunista Vasco Gabriel Celaya escreveu nas suas memórias que uma vez se encontrou com García Lorca, na companhia do falangista José Maria Aizpurua. Celaya escreveu ainda que Lorca jantava todas as sexta-feiras com o fundador e líder falangista José Antonio Primo de Rivera.[4] Em 11 de março de 1937, foi publicado um artigo na imprensa falangista denunciando o assassinato de García Lorca: " O melhor poeta da imperial Espanha foi assassinado"[5]. Jean Louis Schonberg também apresentou a teoria do "ciúme homossexual".[6] O processo relativo ao assassinato, compilado a pedido de Franco e referido por Gibson e outros, ainda virá à tona. O primeiro relato publicado de uma tentativa de localizar o túmulo de Lorca pode ser encontrado no livro do viajante britânico e hispânico Gerald Brenan em "A face da Espanha".[7] Apesar das tentativas iniciais, como Brenan, em 1949, o local permaneceu desconhecido durante a era franquista.

Segundo algumas versões, ele teria sido fuzilado de costas, em alusão a sua homossexualidade.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Federico_Garc%C3%ADa_Lorca em 21/11/2020 as 09:55hs

Hoje sabemos através da história que Garcia Lorca foi morto por ser revolucionário, por criticar o patriarcal em defesa do matriarcal; por reconhecer o valor da cultura muçulmana na Península Ibérica, por defender os direitos do homem contra a alienação de estados autoritários, por igualar classes e raças, como fez com a população cigana; por ter perdido o punho na mesa contra o capitalismo e a mais inútil burguesia, ou por igualar homossexualidade e heterossexualidade. Lorca foi assassinado por enfrentar a extrema direita que logo derrubaria a Segunda República Espanhola.

Federico García Lorca escreveu o poema ¨Romance Sonámbulo¨ A Gloria Giner y Fernando de los Ríos, esta obra cheia de simbolismos que requerem uma interpretação que nos trará aos dias de hoje onde encontraremos as mesmas preocupações.

¨Romance Sonámbulo¨ A Gloria Giner y Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.

Verde viento. Verdes ramas.

El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.

*

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá?

¿Y por dónde…?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.

*

Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los montes de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.

*

Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.

*

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

*

Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

2 de Agosto de 1924

Federico García Lorca

Em Notas sobre o Romance Sonâmbulo, de Garcia Lorca escrito por Maria das Graças Ferreira Graúna, no ultimo paragrafo encontramos apontamentos que traduzem o sentido por trás dos símbolos utilizados por Garcia Lorca, sua expressão dos perigos daquela época ainda são preocupações no mundo atual, vejamos porque:

No estudo dos símbolos, o verde está relacionado à vida e a morte; à imagem das profundezas e do destino. Nas profundezas habita o verde da esmeralda; a pedra na qual foi esculpido o Graal. No destino, reside a busca; o andar incessante, próprio do povo nômade; dos filhos livros da terra. Nessa perspectiva, situa-se a relação entre a natureza e o sentimento. No poema, a personagem cigana está quase morrendo na imensidão da luz tenebrosa da lua; por outro lado, essa dor também está estreitamente relacionada a sua marginalidade; a sua condição de perseguido. O seguinte fragmento sugere:  

A noite se fez íntima
como uma pequena praça.
Guardas civis embriagados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Estes versos finais do Romance Sonâmbulo dão conta da hostilidade, que vem de muito longe, entre ciganos e poderosos. A ironia mais acentuada ao final do poema é apenas uma das armas que o  eu-lírico dispõe para manifestar seu protesto  contra aqueles que receberam a missão honrosa de proteger a vida;  em vez disso,  golpeiam as portas. A poesia de Garcia Lorca trata da angustia do homem dos nossos dias. Por isso, Morejón (1969:VII) afirma que "todo leitor do Romancero Gitano vive agitado por esse vento verde do Romance Sonâmbulo que pode considerar-se, em parte, compêndio e cifra do livro". Desse modo, o que aproxima o Romancero Gitano e a personalidade do seu autor não reside no tema cigano, mas na Liberdade; razão pela qual a poesia de Garcia Lorca, à maneira das canções medievais, percorre o mundo e vence o tempo. Fonte: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/artigos/art010.htm

Compartilho a belíssima interpretação “verde que te quiero verde fuego flamenco” disponível no youtube, tenho certeza que irão aproveitar momento único:

http://youtu.be/UG5IDgS_1Kg?t=3s

Outras Fontes:
Faraco, Sergio. 60 poetas trágicos. 1.ed. Porto Alegre, RS. L&PM, 2016
http://www.elespectador.com/noticias/actualidad/cinco-de-tarde-federico-garcia-lorca-articulo-411757

https://midianinja.org/juanmanuelpdominguez/ha-84-anos-era-fuzilado-o-poeta-federico-garcia-lorca/

 

 

 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Sobre Edgar Allan Poe e Suas Obras


Edgar Allan Poe é conhecido mundialmente por seus poemas e contos de terror e mistério, considerado o inventor da ficção policial. Poe e suas obras exerceram e ainda exercem influência na literatura dos Estados Unidos, bem como ao redor do mundo, mesmo em campos especializados, como cosmologia e criptografia. Seu trabalho magnifico aparece ao longo da cultura popular e permanece imortalizado na literatura, música, filmes e televisão. Muitas casas das quais viveu hoje são museus visitados por fãs de seu estilo.

Poe aplicou em seus textos a técnica da “unidade de efeitos”, mantendo a atenção do leitor desde o início da história. Os ambientes fúnebres e aterrorizantes são marcantes na obra de Edgar Allan Poe.

"Mágico das letras que intuíra verdades imortais e fora dotado da divina faculdade de conjurar emoções supraterrenas." Charles Baudelaire"

“Uma das figuras literárias mais notáveis da América inglesa. Fundem-se o delírio e a clareza da fixação desse delírio." Fernando Pessoa”

Biografia de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe (1809-1849) foi um poeta, escritor, crítico literário e editor norte-americano, nasceu em Boston, nos Estados Unidos, no dia 19 de janeiro de 1809. Filho de atores ambulantes, quando tinha um ano, o pai deixou a casa e, no ano seguinte a mãe faleceu. Com dois anos foi adotado por um rico comerciante escocês. Fez seus primeiros estudos em Glasgow, na Escócia, e em um internato em Londres, onde a família se estabeleceu.

Em 1820 já estava de volta aos Estados Unidos onde continuou os estudos em uma escola de Richmond, Virgínia. Em 1823 escreveu seus primeiros poemas. Em 1826 ingressou na Universidade de Virgínia. Nessa época envolveu-se com o jogo e o álcool. Tinha uma relação conflituosa com o pai adotivo.

Em 1827 publicou seu primeiro livro de poemas “Tarmelão e Outros Poemas”. Em 1829 vai viver com sua tia e uma prima. Em 1830, Allan Poe ingressa na Academia Militar de West Point. Depois de oito meses foi expulso por indisciplina. Em 1831 publica o livro “Poemas”. Em 1833 recebe um prêmio do Saturday Visitor, por seu “Manuscrito Encontrado Numa Garrafa”.

Em 1835 Allan Poe tornou-se editor literário da Soltber Literary Messenger. Nesse mesmo ano, casa-se com sua prima de apenas 13 anos. Seu problema com a bebida se agravou, sendo despedido do emprego. Muda-se para Nova Iorque, trabalha em alguns periódicos e escreve suas obras. Em 1847 sua mulher morre, agravando ainda mais o seu vício com o álcool.

Em 1849, após viajar de Richmond para Baltimore, perde-se pelas ruas, sendo encontrado bêbado, delirando em uma taberna e levado para um hospital onde passa seus últimos dias.

Edgar Allan Poe morre em Baltimore, Maryland, Estados Unidos, no dia 7 de outubro de 1849.

Sugestão de leitura das obras de Poe

A Editora Pandorga produziu um box especialíssimo com 13 obras de Poe, traduzido por Marta Fagundes, é composto por três grandes obras, o box “Obras de Edgar Allan Poe”, contém os livros: “O escaravelho de ouro”, o famoso “O corvo e outros contos” e o lendário “O gato preto e outras histórias extraordinárias”. No total de contos e poemas são 13 obras magnificas, fica aqui a indicação.

Acompanha 1 Pôster. O box reúne os mais famosos contos e poemas de Edgar Allan Poe, que marcaram a literatura com o gênero mistério, sendo geralmente reconhecido como o inventor da ficção policial.


O Escaravelho De Ouro: Numa ilha próxima à Carolina do Sul, um mistério se desenvolve com a descoberta surpreendente de um escaravelho de ouro. Enquanto William Legrand, seu criado e um amigo saem em busca de respostas, o inesperado pode acontecer, em uma aventura recheada de fortes emoções e suspense. Às bordas da sanidade ou loucura, o escaravelho os guiará em uma mensagem secreta até algo inimaginável. Esse é o conto principal no livro você encontrará outras histórias.


O Gato Preto E Outas Histórias:Sei que a perversidade é um dos instintos primitivos do coração humano – uma das faculdades ou sentimentos primários indivisíveis que orientam o caráter do Homem.” O Gato Preto traz uma crítica sobre a natureza humana e sobre a escuridão presente nos homens, que se manifesta, principalmente, no desejo pela violência – física ou emocional. Um homem, que durante toda a vida recebeu críticas por ter um bom coração, termina por apegar-se mais aos animais do aos humanos. Entre todos os bichos um gato preto chamado Plutão é o seu favorito. Com o passar dos anos, o temperamento do se degenera, a afeição que antes sentia pelo gato transforma-se em raiva, e com ela surge no homem o gosto pela violência e pelos maus tratos. Em certo momento, tomado pelo ódio, o homem mata o gato. Arrebatado de culpa, vai para um bar e encontra um gato semelhante ao que assassinou. Para se redimir do que fez, resolve levar o novo gato para casa. Contudo, algo perturbador acontece e o homem precisará enfrentar uma prova de fogo. Nesse livro você vai encontrar essas e outras histórias de Edgar Allan Poe.


O Corvo e Outras Histórias: O corvo é a obra mais famosa de Edgar Allan Poe, e considerado um dos poemas mais perfeitos já escritos por sua estrutura estética e literária. O enredo versa sobre os delírios de um homem após a morte de sua amada, Lenora, e trata sobre a dor da perda, a falta de esperança e a angústia da existência. O narrador sem nome está folheando um livro antigo em uma noite escura de dezembro quando ouve uma batida. Quando abre a janela, um misterioso corvo pousa sobre o busto de Pallas Atena, e o narrador começa a indagar-lhe sobre vários assuntos, sempre obtendo a mesma resposta. Essa e outras histórias extraordinárias você vai encontrar nesse livro.
 

O CORVO (Tradução Marta Fagundes - 2018)

 

"Convencido eu mesmo,
não procuro convencer os demais."
EDGAR ALLAN POE

 

 

 

 

Em uma meia-noite sombria, enquanto fraco e cansado eu lia,

Sobre pitorescos e curiosos volumes de esquecida sabedoria,

Exausto, minha cabeça pendia, e senti meu corpo adormecer,

Quando, de repente, um som se fez ouvir ao bater:

"Um visitante", murmurei, "bate aqui em meus portais.

Somente isso e nada mais."

 

 

Ah, distintamente recordei-me!

Era um dezembro gelado...

E a cada brasa enegrecida, forjada em sombras fantasmas pelo chão,

Ansioso, pelo amanhã, eu desejava,

Ainda que minha busca fosse em vão.

De meus livros o luto eu retirava, pela perda de Leonora, minha amada,

Tal donzela radiante e rara, a quem agora um anjo, abrigava.

Porém aqui, Leonora já não se achava.

 

 

E o súbito e triste sussurro incerto, de cada roxo acortinado tecido,

De terror emocionado me via preenchido, com sentimentos que nunca mais houvera sentido.

Disposto a manter meu coração em ritmo normal, a mim mesmo repetia o recital:

"Este visitante que insiste em adentrar em meus portais, bate, bate, visitante tardio,

Mas é somente isto e nada mais"

 

 

Logo, minha alma se fortaleceu, e já nem pude hesitar.

"Senhor", disse eu, "ou senhora, por favor, verdadeiramente queira me desculpar,

Mas, de fato, enquanto ao sono me entregava, tão gentilmente tu se achegava,

Tão suave batendo em meus portais,

Sequer certeza tinha de ter-lhe ouvido ou algo mais,

Pus-me então à porta abrir:

Oh, escuridão!

Somente isto e nada mais."

 

 

Profundamente na escuridão espreitei,

E enquanto ali estive, temi e imaginei.

Duvidando e sonhando, sonhos estes que mortal algum ousou sonhar jamais.

Mas o silêncio não se quebrou e nem a quietude deu quaisquer sinais,

Apenas sussurrei um nome: Leonora...

Seu nome ecoando em sussurros desiguais.

Apenas isto e nada mais.

 

De volta ao quarto deixei a alma em mim arder,

Não demorou que ouvisse mais alto o som de algo a bater,

"Certamente", disse eu, "Há algo na grade da janela,

Olhemos, pois, para descobrir o que há com ela.

Deixe que meu coração se distraia, com esse mistério a mais,

É o vento e nada mais".

 

Abri então as persianas, quando com agitação e graça,

Adentrou um majestoso corvo, de virtuosos tempos de outrora,

Nem ao menos cumprimento fez, ou por um minuto parou sequer.

Mas com tal porte elegante postou-se, logo acima dos meus portais,

Corno se assim fosse o dono do busto de Atena, e nada mais.

 

E assim o pássaro de ébano desenhou um sorriso em meu rosto triste,

Pelo decoro solene e severo de semblante em riste.

"Embora tenhas a crista curta e aparada", disse eu,

"certamente de covarde não tens nada.

Então, diga, velho corvo mal-humorado, que da noite escura e sombria vaga,

Que nome levas, por estas bandas ou trevas?"

Disse o Corvo: "Nunca Mais".

 

Muito me maravilhei com tal ave despreocupada, para

atentar-me ao seu discurso com clareza.

Embora ainda assim soubesse que o pouco significado que tinha, muita relevância havia certeza.

E havemos de concordar que nenhum outro ser humano vivo há,

Tendo sido agraciado com a presença de tal ave em um busto sobre seus portais,

Pássaro ou animal, pousado em busto nos portais,

cujo nome seja esse: "Nunca Mais".

 

Mas o Corvo, tão somente ali sentado, sozinho e plácido,

Uma palavra apenas falou, como se fora de sua alma que a derramou.

Nada além disso proferiu, nem ao menos uma pena de sua asa sacudiu.

Até que, resoluto, murmurei:

"Outros amigos voaram antes e não voltaram jamais.

Amanhã ele me deixará e como minhas esperanças, sumirá".

Então o Corvo respondeu: "Nunca Mais".

 

Assustado pela quietude repentinamente quebrada

por palavra tão bem pronunciada,

"Sem dúvida", disse eu, "o que diz é apenas o eco do que aprendeu,

Talvez de antigo dono infeliz que tal desastre impiedoso cometeu,

Com a rapidez das cantigas que logo se tornam um fardo de melancolia,

Às esperanças esvaídas por mais,

Assim o era, Nunca Mais".

 

Mas, fazendo o Corvo ainda minha alma sorrir,

Tratei de diante dele sentar-me para de sua presença usufruir.

E, acomodado em veludo estofado, pus-me a pensar,

O que será que agourenta ave poderia de mim esperar.

Tal ave sombria, desajeitada, sinistra, lúgubre e agourenta de tempos ancestrais,

O que poderia querer dizer com aquele: Nunca Mais.

 

Então sentei-me engajado a desvendar, sem palavra alguma a dizer,

Àquela ave cujos olhos flamejantes fixos em meu peito, fizeram arder.

Isto e mais, me deixando a predizer, com a cabeça cansada a reclinar,

No veludo da almofada cuja luz da lâmpada pôs-se a iluminar.

Sombras violetas projetadas me fizeram devanear,

Impressionado cada vez mais,

Ah, Nunca Mais!

 

O ar então se fez mais denso, perfumado nas brumas

invisíveis de um incenso.

Agitado por anjos, cujos pés tocavam o adornado pavimento.

"Miserável", gritei, "teu Deus tomou-a emprestado aos anjos".

Descanso e esquecimento das memórias de Leonora.

Bebo em grandes tragos, oh, a dor do esquecimento de outrora,

Disse o Corvo: "Nunca Mais".

 

"Profeta", disse eu, "seja lá o que for. Seja ave ou demônio em todo o seu esplendor.

Se o diabo o enviou, ou tempestade aqui na terra o lançou,

Desolado ainda estaria, nesta maldita terra de encantos,

Nessa casa assombrada de medos, diga-me, peço-te aos prantos:

Há um bálsamo de Gileade? Para urna alma que implora por mais?"

Disse o Corvo: "Nunca Mais"

 

"Profeta", disse eu, "seja lá o que for. Seja ave ou demônio em todo o seu esplendor.

Pelo Céu acima de nós, pelo Deus adorado que nos abriga,

Diga a esta alma ferida, se em distante Éden de outra vida,

Haverá virtuosa donzela a quem chamam os anjos de Leonora,

Donzela radiante e rara, cujo nome ainda vigora".

Disse o Corvo: "Nunca Mais"

 

"Seja esse o grito que nos separe, demônio ou ave!",

gritei ao me afastar.

"Volta à tempestade e noite escura que lhe vai tragar.

Não me deixe urna só pluma para suas mentiras atestar.

Arranca o bico do meu coração e afasta-te dos meus portais!"

Disse o Corvo: "Nunca Mais"

  

E o Corvo, sem se abalar, sentado permanece, sentado está.

No pálido busto de Atena, acima dos meus portais,

Lança-me um olhar sonhador demoníaco que imaginei jamais.

E a luz que acima dele está, projeta sombras pelo chão,

E minha alma, dessa sombra no chão projetada,

Deverá ser libertada...

Nunca Mais.

 

Existem muitas traduções deste poema realizado por dezenas de tradutores, eis aqui alguns deles:Traduções do Corvo:
Américo Lobo
Machado de Assis
Anônima 1883
Venceslau de Queiroz
Fontoura Xavier
Mécia Mouzinho de Albuquerque
Escragnolle Dória
Anônima 1906
Manoel de Soiza e Azevedo
Alfredo F. Rodrigues
João Kopke
Anônima 1916
Emílio de Meneses
Ribeiro do Couto
Fernando Pessoa
Gondin da Fonseca
Máximo das Dores
Milton Amado
Emílio de Adour
Aurélio de Lacerda
Benedito Lopes
Amorim de Carvalho
José Luiz de Oliveira
João Costa
Cabral do Nascimento
Haroldo de Campos
Rubens F. Lucchetti
Alexei Bueno
Augusto de Campos
José Lira
Cláudio Weber Abramo
João Inácio Padilha
Jorge Wanderley
Sergio Duarte
Edson Negromonte
Odair Creazzo Jr.
Aluysio M. Sampaio
Luis C. Guimarães
Helder da Rocha
Vinícius Alves
Diego Raphael
Eduardo A. Rodrigues
Jorge Teles
Carlos Primati
Isa Mara Lando
Margarida Vale de Gato
Alskander Santos
André Boniatti
Thereza C. R. da Motta
Raphael Soares
Luiz Antonio Aguiar
Renato Suttana
Jeison Luis Izzo
Bruno Palavro
Paulo Cesar da Costa Pinto
Edival Lourenço
Marta Fagundes
José Barbosa da Silva
Iba Mendes
Dirce Waltrick Do Amarante
Luciano Melo
Traduções francesas:
Charles Baudelaire
Stephane Mallarmé
Inspirado no Corvo:
Alphonsus de
Guimaraens

Eric Ponty
Juó Bananére
Raposa
Em quadrinhos
Conde e Drácula
Reynaldo Jardim
e Marilú Silveira

Carlos Versiani
Bernardo Simões Coelho
O corvo em Os Simpsons
O corvo por Zé do Caixão
Ivan Justen Santana
Paulo Cesar da Costa Pinto
Guilherme Gontijo Flores &
Rodrigo Tadeu Gonçalves

Pedro Mohallem
Wilton Bastos
Emmanuel Santiago
Alison Silveira Morais

Além do poema “O Corvo”, gostei também particularmente e já li mais de uma vez é “O Gato Preto”, lá destaquei dois parágrafos que podem dar uma pequena ideia do teor psicológico:

“Há algo no amor abnegado e altruísta de um animal que fala diretamente ao coração daquele que tem a oportunidade frequente de provar da amizade desprezível e da frágil fidelidade do homem comum (POE, Edgar Allan. O gato preto. In: Box. 1.ed. São Paulo: Pandorga, 2018, p. 16)

 

“Quem já não se surpreendeu, centenas de vezes, cometendo um ato vil ou tolo por nenhuma razão a não ser porque sabia que não deveria cometê-lo?” In: O gato preto, p. 18

 

Mistério na morte de Poe

Conforme o site AH-Aventuras na História, há muito mistério na morte de Poe: De espancamento a envenenamento: Veja as teorias sobre a enigmática morte de Edgar Allan Poe.

Conhecido pelo mistério presente em suas obras, a morte do autor ainda é um episódio controverso.

Entre as muitas realizações literárias de sua carreira, Edgar Allan Poe também é creditado pela criação do gênero de ficção criminal através de sua obra O Assassinato da Rua Morgue, publicado em 1841. A partir daí, Poe abriu caminho para grandes detetives da literatura, que vão desde Sherlock Holmes até Hercule Poirot.

No entanto, o maior mistério de sua intensa trajetória transcendeu a literatura e chegou à vida real. É apropriado dizer que a morte do autor continua sendo um dos grandes enigmas não resolvidos da literatura americana.

A misteriosa morte

Em junho de 1849, Poe embarcou em uma turnê de palestras com o objetivo de arrecadar fundos para uma revista literária que esperava publicar. Em 27 de setembro, ele deveria embarcar em uma balsa de Richmond para Baltimore e depois seguiria até Nova York. Poe chegou a Baltimore no dia seguinte, mas sua viagem para Nova York nunca aconteceu.

Relatos da época indicam que ele foi encontrado jogado na sarjeta em frente ao Gunner’s Hall, no dia 3 de setembro daquele ano. O escritor estava semiconsciente e incapaz de se mover, como se estivesse altamente alcoolizado.

Um ponto que chamou a atenção foi o fato dele não estar vestido com seu habitual terno de lã preta, mas sim com roupas surradas que pareciam não pertencer a ele, devido estarem muito largas e gastas.

Levado a um hospital, jamais retomou seu estado de plena consciência e, por isso, foi incapaz de explicar o que aconteceu nos dias precedentes. A morte de Edgar Allan Poe parece ser arrancada diretamente das páginas de uma de suas próprias obras.

Apesar de o seu atestado de óbito listar a causa da morte como inchaço do cérebro, circunstâncias misteriosas em torno de sua morte levaram muitos a especular sobre a verdadeira razão do seu perecimento.

Confira as principais teorias levantadas em torno da morte do escritor, Espancamento, Vítima de fraude eleitoral, Envenenamento por monóxido de carbono, envenenamento por mercúrio, morte por raiva, Tumor Cerebral, e assassinato, confira as teorias no site:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/controversa-morte-de-edgar-allan-poe.phtml

Fontes:

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/controversa-morte-de-edgar-allan-poe.phtml

https://anatomiadapalavra.com/2018/09/07/minhas-leituras-85-historias-extraordinarias-edgar-allan-poe/

https://pt.wikisource.org/wiki/O_Corvo_(tradu%C3%A7%C3%A3o_de_Machado_de_Assis)

https://www.ebiografia.com/edgar_allan_poe/