Federico Garcia lorca em 1932
Para quem gosta de uma escrita inteligente, original e organizada gosta de Federico Garcia Lorca, ou Garcia Lorca como a maioria dos seus leitores o chamam.
Garcia Lorca fazia uso constante de metáforas e símbolos, através destes modos ele abordou com maestria temas como amor, desejo e frustração.
Algumas de suas obras mais famosas foram poesias como “Romanceiro Gitano – Romance da lua, lua”, “Seis poemas galegos”, o diferencial deste poeta era sua forma original de recitar, o fascínio do público por sua poesia emanava pela maneira peculiar que o poeta recitava, ele tinha uma habilidade oral magnifica, demonstrava uma força espiritual e gosto pela dramaturgia que o fizeram único.
Sua obra tinha uma conotação libertária de forças opressoras, ainda muito presentes nos dias atuais, carregada de sinais e metáforas ele procurou combater o que em resumo suas palavras explicitam: “Acredito que ser de Granada me inclina para a compreensão solidária dos perseguidos. Do cigano, do negro, do judeu …, do mouro que todos carregamos dentro”
Garcia Lorca também se destacou no teatro com obras como “Romance Sonambulo”, “La Casa de Bernarda Alba”, “Bodas de sangue”, “Mariana Pineda”, além destas obras ele produziu muitas outras belíssimas joias.
Na obra Pequeno Poema Infinito – Palavras de Federico García Lorca no Prologo encontramos sua irreverente expressão:
“Senhoras e senhores: Desde o ano de 1918, quando ingressei na Residência dos Estudantes de Madri, até 1928 ano em que a abandonei, terminados meus estudos de Filosofia e Letras, ouvi naquele refinado salão onde a velha aristocracia espanhola ia para corrigir sua frivolidade de praia francesa, cerca de mil conferências. Com desejo de ar e de sol, eu me entediei tanto que ao sair me senti coberto por uma leve cinza quase a ponto de converter-se em pimenta de tanta irritação. Não. Não quero que entre nesta sala a terrível mosca do tédio que une todas as cabeças por um tênue fio de sono e põe nos olhos dos ouvintes uns grupos diminutos de pontas de alfinete”. (Federico García Lorca. Pequeno Poema Infinito: Palavras de Federico García Lorca. Roteiro de José Mauro Brant e Antonio Gilberto Tradução de Roseana Murray. Imprensa Oficial p.16)
Em sua crítica a burguesia ele disse: “A burguesia espanhola limpa com a língua as feridas dos milionários!”
O que me levou a escrever sobre Garcia Lorca foi que estava assistindo no youtube, ¨La desaparición de García Lorca¨, com Andy García, e me deu uma vontade enorme de lê-lo e escrever sobre este poeta, diante disto estou compartilhando o link abaixo para assim como eu possam sentir a força de sua obra:
https://www.youtube.com/watch?v=MFFCoxJU0Gc
Biografia: Nascido numa pequena localidade da Andaluzia, García Lorca ingressou na faculdade de Direito de Granada em 1914, e cinco anos depois transferiu-se para Madrid, onde fez amizade com artistas como Luis Buñuel e Salvador Dali e publicou seus primeiros poemas.
Casa de Lorca em Fuente Vaqueros.
Grande parte dos seus primeiros trabalhos baseia-se em temas relativos à Andaluzia (Impressões e Paisagens, 1918), à música e ao folclore regionais (Poemas do Canto Fundo, 1921-1922) e aos ciganos (Romancero Gitano, 1928).
Concluído o curso, foi para os Estados Unidos e para Cuba, período de seus poemas surrealistas, manifestando seu desprezo pelo modus vivendi norte-americano. Expressou seu horror com a brutalidade da civilização mecanizada nas chocantes imagens do Poeta em Nova Iorque, publicado em 1940.
Voltando à Espanha, criou um movimento de teatro chamado La Barraca.E, foi duramente perseguido por conta de sua homoafetividade.
Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo.
O assassinato e o corpo
Controvérsia significante permanece sobre os motivos e os detalhes do assassinato de Lorca. Motivações pessoais, não-políticas também têm sido sugeridas. O biógrafo de García Lorca, Stainton, afirma que seus assassinos fizeram comentários sobre a sua orientação sexual, o que sugere que esse aspecto possa ter desempenhado um papel na sua morte.[2] Ian Gibson sugere que o assassinato de García Lorca foi parte de uma campanha de assassinatos em massa que visava a eliminação de apoiantes da Frente Popular. No entanto, Gibson propõe que a rivalidade entre a anticomunista Confederação Espanhola de Direito Autónomo (CEDA) e a Falange foi um fator importante na morte de Lorca. O ex-vice parlamentar da CEDA, Ramon Ruiz Alonso García, prendeu Garcia Lorca na casa de Rosales e foi o responsável pela denúncia original que levou ao mandado de captura emitido.
Tem sido argumentado que García Lorca era apolítico e tinha muitos amigos em ambos os campos, republicano e nacionalista. Gibson contesta isso em seu livro de 1978 sobre a morte do poeta. Ele cita, por exemplo, o manifesto publicado de Mundo Obrero, que Lorca assinara mais tarde e alega que Lorca foi um apoiante activo da Frente Popular.[3] Lorca leu um manifesto num banquete em honra do companheiro poeta Rafael Alberti em 9 de fevereiro de 1936.
Muitos anticomunistas eram simpáticos a Lorca. Nos dias antes da sua prisão, ele encontrou abrigo na casa do artista e líder membro da Falange, Luis Rosales. O poeta comunista Vasco Gabriel Celaya escreveu nas suas memórias que uma vez se encontrou com García Lorca, na companhia do falangista José Maria Aizpurua. Celaya escreveu ainda que Lorca jantava todas as sexta-feiras com o fundador e líder falangista José Antonio Primo de Rivera.[4] Em 11 de março de 1937, foi publicado um artigo na imprensa falangista denunciando o assassinato de García Lorca: " O melhor poeta da imperial Espanha foi assassinado"[5]. Jean Louis Schonberg também apresentou a teoria do "ciúme homossexual".[6] O processo relativo ao assassinato, compilado a pedido de Franco e referido por Gibson e outros, ainda virá à tona. O primeiro relato publicado de uma tentativa de localizar o túmulo de Lorca pode ser encontrado no livro do viajante britânico e hispânico Gerald Brenan em "A face da Espanha".[7] Apesar das tentativas iniciais, como Brenan, em 1949, o local permaneceu desconhecido durante a era franquista.
Segundo algumas versões, ele teria sido fuzilado de costas, em alusão a sua homossexualidade.
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Federico_Garc%C3%ADa_Lorca em 21/11/2020 as 09:55hs
Hoje sabemos através da história que Garcia Lorca foi morto por ser revolucionário, por criticar o patriarcal em defesa do matriarcal; por reconhecer o valor da cultura muçulmana na Península Ibérica, por defender os direitos do homem contra a alienação de estados autoritários, por igualar classes e raças, como fez com a população cigana; por ter perdido o punho na mesa contra o capitalismo e a mais inútil burguesia, ou por igualar homossexualidade e heterossexualidade. Lorca foi assassinado por enfrentar a extrema direita que logo derrubaria a Segunda República Espanhola.
Federico García Lorca escreveu o poema ¨Romance Sonámbulo¨ A Gloria Giner y Fernando de los
Ríos, esta obra cheia de simbolismos que requerem uma interpretação que nos
trará aos dias de hoje onde encontraremos as mesmas preocupações.
¨Romance Sonámbulo¨ A Gloria Giner y Fernando de los Ríos
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El
barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.
*
Verde
que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá?
¿Y
por dónde…?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
*
Compadre,
quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los montes de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.
*
Ya
suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.
*
Verde
que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!
*
Sobre
el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.
2 de Agosto de 1924
Federico García Lorca
Em Notas sobre o Romance Sonâmbulo, de Garcia Lorca escrito por Maria das Graças Ferreira Graúna, no ultimo paragrafo encontramos apontamentos que traduzem o sentido por trás dos símbolos utilizados por Garcia Lorca, sua expressão dos perigos daquela época ainda são preocupações no mundo atual, vejamos porque:
No estudo dos símbolos, o verde está relacionado à vida e a morte; à imagem das profundezas e do destino. Nas profundezas habita o verde da esmeralda; a pedra na qual foi esculpido o Graal. No destino, reside a busca; o andar incessante, próprio do povo nômade; dos filhos livros da terra. Nessa perspectiva, situa-se a relação entre a natureza e o sentimento. No poema, a personagem cigana está quase morrendo na imensidão da luz tenebrosa da lua; por outro lado, essa dor também está estreitamente relacionada a sua marginalidade; a sua condição de perseguido. O seguinte fragmento sugere:
A
noite se fez íntima
como uma pequena praça.
Guardas civis embriagados
na porta golpeavam.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco sobre o mar.
E o cavalo na montanha.
Estes versos finais do Romance Sonâmbulo dão conta da hostilidade, que vem de muito longe, entre ciganos e poderosos. A ironia mais acentuada ao final do poema é apenas uma das armas que o eu-lírico dispõe para manifestar seu protesto contra aqueles que receberam a missão honrosa de proteger a vida; em vez disso, golpeiam as portas. A poesia de Garcia Lorca trata da angustia do homem dos nossos dias. Por isso, Morejón (1969:VII) afirma que "todo leitor do Romancero Gitano vive agitado por esse vento verde do Romance Sonâmbulo que pode considerar-se, em parte, compêndio e cifra do livro". Desse modo, o que aproxima o Romancero Gitano e a personalidade do seu autor não reside no tema cigano, mas na Liberdade; razão pela qual a poesia de Garcia Lorca, à maneira das canções medievais, percorre o mundo e vence o tempo. Fonte: http://www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/artigos/art010.htm
Compartilho a belíssima interpretação “verde que te quiero verde fuego flamenco” disponível no youtube, tenho certeza que irão aproveitar momento único:
http://youtu.be/UG5IDgS_1Kg?t=3s
Outras Fontes:
Faraco, Sergio. 60 poetas trágicos. 1.ed. Porto Alegre, RS. L&PM, 2016
http://www.elespectador.com/noticias/actualidad/cinco-de-tarde-federico-garcia-lorca-articulo-411757
https://midianinja.org/juanmanuelpdominguez/ha-84-anos-era-fuzilado-o-poeta-federico-garcia-lorca/