Adão Rogério da Silva Cabral (1)
RESUMO
Este ensaio discute algumas perspectivas
sobre a maneira de questionar o ato de pensar ele mesmo e sua relação entre as
descobertas neurológicas, tais como a plasticidade cerebral e seu poder de
regeneração, fatos que já reformulam as inquietações metafisicas que afligem o
ser humano e poderão mudar a conceptualização filosófica clássica e
tradicional. A filosofia percebeu que as
perspectivas abertas pela Neurociência, abriram fendas importantes no
pensamento filosófico tradicional, tal como a dualidade cartesiana mente e
corpo. Atualmente já existem evidencias que o correto é pensar mente-no-corpo,
inclusive já se percebeu que a ausência de emoção e sentimento podem destruir a
racionalidade, portanto dentro de uma nova perspectiva, o pensamento ocidental
deverá rever seus dualismos, como mente e corpo, razão e sentimento, assim
sendo é necessário falar da maneira de questionar o ato de pensar ele mesmo.
Palavras-chaves: perspectivas - pensar - dualismo
ABSTRACT
This essay discusses some perspectives on
how to question the act of thinking itself and its relationship between
neurological findings, such as brain plasticity and its regenerative power,
facts that already reshape the metaphysical concerns that afflict the human
being and may change the classical and traditional philosophical
conceptualization. Philosophy realized that the perspectives opened by
Neuroscience have opened important chinks in traditional philosophical
thinking, such as the Cartesian duality of mind and body. Nowadays, there is
already evidence that the correct thing is to think mind-in-body, it has
already been realized that the absence of emotion and feeling can destroy
rationality, therefore within a new perspective, Western thought should review
its dualisms, such as mind and body, reason and feeling, so it is necessary to
speak of the way to question the act of thinking itself.
Keywords: perspectives - think - dualism
1.
Introdução
O
desenvolvimento da tecnologia nos permitiu fazer coisas que jamais havíamos
pensado serem possíveis, como por exemplo o implante de chips no cérebro que
vem se tornando realidade, implante de próteses que substituem membros de nosso
corpo simulando movimentos quase perfeitos, o aumento da longevidade. Tudo isto
veio para alimentar a discussão filosófica do dualismo mente-cérebro. É
possível que os estudos de neuroimagem forcem os filósofos a rever posições
acerca do problema mente-cérebro, afinal ainda não sabemos se nossa mente é
algo físico, se estados de nossa mente são apenas estados de nosso cérebro. Outra questão para pensarmos, por exemplo, é a
localização das várias personalidades no cérebro de alguém que sofre de
transtorno de múltiplas personalidades, afete nossas posições filosóficas ao
discutirmos a questão da identidade pessoal.
A Neurociência está
revolucionando a realidade, pois ela é vista como uma ciência interdisciplinar,
que colabora com outros campos de pesquisa, com estudos vastos e amplos, estendendo-se
para os conhecimentos do sistema nervoso, a fim de discutir
diferentes abordagens de cunho investigativo. Objetiva conhecer os aspectos
moleculares, celulares, de desenvolvimento estruturais, funcionais, evolutivos
e médicos.
Embora dispondo de especialização em
Neuropsicopedagogia, não é minha intenção esgotar ou ingressar de forma
aprofundada nos assuntos tão técnicos estudados pela Neurociência. Almejo
trazer para reflexão algumas questões emblemáticas.
2.
Movimento Constante
Atualmente, com as descobertas sobre a
plasticidade cerebral, constatamos, por exemplo que o cérebro é plástico: Está
em constante movimento, com imensa capacidade de se adaptar, se remodelar e se
de se regenerar, características que nos permitiram chegar onde chegamos após
milhares de anos de evolução humana. Vivemos em diferentes ambientes, em muitos
locais inóspitos, adaptamo-nos às peculiaridades de cada região, nos utilizamos
de ferramentas e criatividade necessária à nossa sobrevivência.
Goleman[2], diz
que nosso cérebro está constantemente remodelando seus circuitos ao longo dos
dias, o que quer que estejamos fazendo, faz com que nossos cérebros fortaleçam
alguns circuitos e não outros, inclusive nas relações interpessoais. Nosso
circuito pessoal capta uma vasta quantidade de dicas e sinais que nos ajudam a
nos relacionar bem e conectam os neurônios envolvidos. Com a globalização, nossa
sobrevivência também depende muito da forma que agimos nos diferentes
ambientes, culturas e diferentes linguagens.
A partir dos
resultados da Neurociência, os filósofos têm se voltado para estudá-la,
tentando responder a questões que ainda estão sem respostas, como o fato de que
como alguém que perdeu a metade do cérebro ainda pode seguir vivendo com
sequelas levíssimas, fazendo o que outras pessoas fazem, perguntando-se, se
alguém pode viver com a metade do cérebro? O que faríamos se expandíssemos a
capacidade cerebral de um cérebro por inteiro?
E a consciência,
é algo totalmente dependente da ação de hormônios e neurotransmissores? Indo
mais além, conforme Eagleman[3],
a teoria de Tononi[4] é
compatível com a ideia de que a consciência humana pode escapar de sua origem
biológica, nesta visão, embora a consciência tenha evoluído por um determinado
caminho que resultou no cérebro, ela não precisa ser formada de matéria
orgânica. Pode tranquilamente ser feita de silício, supondo-se que as
interações sejam organizadas da maneira correta.
O problema da
consciência é um problema empírico, cientifico, que a Neurociência está
tentando desvendar. A Filosofia deverá fazer seu papel que é de dialogar, com
as disciplinas cientificas em particular, deverá olhar para o futuro discutindo
questões de valores morais e éticos, acerca do rumo que as atuais perspectivas
estão indicando.
Neste casamento
entre a Biologia e a tecnologia, temos ainda mais incertezas. Imagina-se que
este casamento poderá nos proporcionar uma expansão da realidade que habitamos.
Portanto, cientes que todas estas indagações irão afastar-nos da reflexão
filosófica clássica e tradicional, pois terá de questionar o ato de pensar ele
mesmo.
Antes me pergunto, se a Filosofia não depende, em sua abordagem ou conceitos,
de processos biológicos? Se o ato mesmo de pensar não é sempre sustentado pelas
operações neurais?
Conforme Malabou[5],
certos filósofos dirão que é inadmissível, que eu com minha formação em
filosofia defenda um empirismo, próximo do cognitivismo e das neurociências,
que eu assimilo o espírito ao cérebro. Assim
como Malabou, eu mantenho de fato que
é muito difícil fazer uma distinção estrita entre o pensamento puro e os
processos biológicos que trabalham em todo ato cognitivo, qual é a ligação da
tempestade de neurônios sob o nosso crânio com a nossa consciência? Como fica a
consciência de si e eu? Afinal estamos falando de nós mesmos.
3.
Inicio do
crepúsculo
O processo de investigação promovido pela Neurociência é responsável
pela retirada do véu que encobre mitos e ideias que até então eram responsáveis
pela forma de pensar humano, conforme o filósofo alemão
Friedrich Hegel[6]
em sua obra Filosofia do Direito, onde o autor ilustra muito bem a harmoniosa
relação entre a coruja e a Filosofia, descrevendo: “A coruja de Minerva alça seu voo somente com o início do crepúsculo”.
Esclarecendo melhor, o papel da Filosofia é justamente o de elucidar o que não
é claro ao senso comum, é alertar acerca da vida, o crepúsculo é o linear do
dia para coruja, enquanto cessamos nossas obras e nos recolhemos em nossos
lares, a coruja “alça seu voo” a trabalho.
É a noite que a fascina, por isso seu nome em latim: Noctua, “ave da noite”. Não é a beleza o
seu destaque, mas é a capacidade de ver o que aves diurnas não conseguem ver.
Seu pescoço gira 360º, dando-lhe uma visão completa capacitando-a a ver o todo.
É também uma ave de rapina, rápida na
escolha, e que por ver a presa e não ser vista, sempre tem sucesso na caça,
apanhando os despreparados e desprovidos que se arriscam na noite escura. São
essas as características que um filósofo deve possuir: Enxergar o que outras
pessoas não conseguem ver, ter uma visão do todo, ou seja, uma visão que
abarque todos os ângulos da realidade.
Deve ser capaz de articular os pensamentos contra a
ignorância e o desconhecimento. É preciso raptar as bases dos argumentos dos
oponentes. Também, deve-se raptar aqueles que estão se enveredando por caminhos
de erros e por enxergarmos na noite quando outros não veem, podemos ajuda-los e
conduzi-los (pelo argumento) a desfechos virtuosos, indo além, antes que
“prever para prover”, que é um lema de Comte[7] e, portanto, do espírito
cientificista,
Hegel preferia dar crédito a uma postura filosófica
que se via distinta da postura da ciência: a voz da razão explica – racionaliza
– a história. Ou seja, depois da história, ela mostra que esta não foi
em vão a adequação do pensamento filosófico. Hegel foi o primeiro pensador a
conferir à plasticidade o valor de um conceito filosófico, a plasticidade
tornou-se primeiro o modo de ser do sujeito em relação à temporalidade;
segundo, o modo de ser da própria realidade enquanto forma um sistema.
Hegel tinha antecipado esse modo de organização, que é o funcionamento
de um sistema de redes intercorrelatas que constantemente modificam sua
intensidade, tamanho e volume sem serem destruídas. Portanto,
esta plasticidade, este enxergar de 360°, que a Filosofia afirma possuir deve
levá-la para caminhos diferentes destes que o pensamento clássico a levou. A Filosofia
por sua vez ao assimilar a ideia entre o espírito e o cérebro, como diz Malabou, não significa absolutamente o
fim da filosofia crítica, ela marca ao contrário uma nova virada.
Malabou e Hegel

Malabou e Hegel
É tempo de propor uma nova analítica transcendental do pensamento
filosófico, levando em conta os ensinamentos fundamentais e revolucionários das
Neurociências dos últimos cinquenta anos mais ou menos, a filosofia já tem
muito tema de casa para estudar. A filosofia nesta virada poderá influenciar o
pensamento ocidental, tirando o pensamento dualista do erro que vem se
repetindo e perpetuando.
Como diz Malabou, nossos cérebros ainda não sabem o que pode um cérebro.
A questão política da nossa época não é criar um sujeito transcendental
irredutível às suas configurações neuronais (tarefa destinada ao fracasso
vertiginoso), mas potencializar nossas sinapses para que elas próprias se
tornem explosivas diante do capitalismo neuronal em que vivemos.
Como dito anteriormente, a Filosofia em paralelo, deverá potencializar
suas configurações, adquirir quem sabe um novo vocabulário com novos conceitos,
com espirito engajado nesta mente pós-evolutiva, conforme o pensamento de
Teixeira[8],
quando trata da filosofia da mente no universo do silício, analisa os contornos
de um cenário futuro no qual conviveremos com androides e ciborgues. Esse é, na verdade, um mundo muito mais próximo
de nós do que habitualmente imaginamos. Já estaria na hora de nos indagarmos
até que ponto essas novas criaturas não nos forçam a repensar algumas
categorias filosóficas tradicionais, como, por exemplo, a natureza humana, o
conhecimento, o corpo e as sensações (qualia).
Ainda, é preciso hoje se interrogar o que é um inconsciente cerebral em
relação ao um inconsciente psíquico. Como eles podem se encontrar? Como pensar
uma nova aventura do sentido? Freud deve estar se revirando no túmulo, pois ele
virou as costas a sua origem de neurologista, se ele pudesse ter conhecido esse
avanço, ele não teria inscrito a Psicanálise no simbólico em detrimento do
orgânico.
Atualmente já se fala da negligência cartesiana da mente, por parte da
Biologia e da Medicina Ocidental. Pensar que a mente está separada do corpo não
é mais concebível. No entanto, o pensamento cartesiano persistiu por muito
tempo. Refuta-se a ideia cartesiana da separação abissal entre o corpo e a
mente, entre a substância corporal, infinitamente indivisível, com volume, suas
dimensões e com um funcionamento mecânico de um lado, e a substância mental,
indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a sugestão de
que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou
agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo.
Especificamente: a separação das operações mais refinadas da mente, para um
lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro.
(DAMASIO, 2005)
Começa-se a pensar finalmente que as perturbações psicológicas podem
provocar doenças no corpo. A sabedoria de nossos avós já dizia, porque
conheciam bem o assunto. Finalmente, a Medicina resolveu dar atenção e levar em
consideração tanta sabedoria humana, por exemplo, o efeito placebo, na qual
pacientes apresentam uma reação melhor que o esperado pelos médicos.
Sem dúvida, há muitas incertezas, são muitas perguntas, muitas questões
para serem trabalhadas na busca de respostas. Acreditamos que a Neurociência
abriu uma grande “caixa preta”. A filosofia deve ter este
misto de Hegel e Comte, como a dinâmica e plasticidade de um cérebro,
transformando-se e se regenerando, reinventando-se, abandonando ideias que
atualmente não fazem mais sentido, sem é claro abandonar a ideia do
transcendental.
4. CONCLUSÃO
A Filosofia ao se aproximar da informação, como por
exemplo, as descobertas da Neurociência, terá condições de proporcionar reflexões
acerca das coisas do mundo. Dar atenção aos ruídos, a produção de sinais
indesejados na informação. Quando a
informação se torna complexa, gera a vida e não a vida gera a transmissão de
informação. A informação é a base do conhecimento, a sabedoria vem do diálogo e
da reflexão do conhecimento obtido. Este diálogo é o indício da existência de
uma mente. A Filosofia ciente disto poderá se tornar mais precisa e mais útil
aos problemas contemporâneos. ?
Longe de pensar que a Metafisica esteja sepultada,
como alguns filósofos dizem, pois, a Metafisica continua a ser um fenômeno cultural
intermitente, afinal a Filosofia abre a visão de mundo, a Filosofia tem as
ferramentas para com sua plasticidade, moldar o espirito e o mundo, ela também
não deverá permitir que a academia se feche ao estudo focado apenas de um autor
tradicional, isto seria ruim, pois seria deixar de ver o mundo para ver apenas
uma rua de alguma cidade. A Filosofia tem o dever de olhar para o passado,
presente e futuro, sem saltar seu tempo, sendo os três tempos, o melhor
possível.
Devemos lutar contra o pensamento niilista e
ceticista, para construir maneiras construtivas e positivas do pensar, afinal
como disse Derrida “Sempre prefira a vida”, a vida é estar consciente em seu
tempo, a Filosofia certamente possui o rigor, o poder do
questionamento, a disciplina conceitual são demandas da Filosofia. Defender uma
filosofia focada nos problemas contemporâneos é vencer as ameaças presentes tal
como seu isolamento, é medida urgente para que prossigamos sempre alertas contribuindo
de forma positiva nesta caminha humana.
REFERENCIA
BIBLIOGRÁFICAS
COMTE, Auguste. Catecismo
positivista. São Paulo, Abril Cultural, 1973 (col. Os Pensadores). _
Discurso sobre o espirito positivo, São Paulo, Abril Cultural, 1973 (col. Os
Pensadores)
DAMÁSIO, Antônio R. O
erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano; 3ª ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012.
DESCARTES,
René. Os pensadores. 3. ed. São
Paulo: Abril Cultural, 1983.
EAGLEMAN, David. Cérebro
[recurso eletrônico]: uma biografia / David Eagleman; coordenação Bruno
Fiuza; tradução Ryta Vinagre. - 1. ed. - Rio de
Janeiro: Rocco Digital, 2017
GOLEMAN, Daniel. Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso. 1ª ed. –
Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espirito. 4º ed.
Petrópolis, RJ: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco,
2007
MALABOU,
Catherine. The future of Hegel:
plasticity, temporality and dialectic. Trad. Lisabeth During. London/New York?
Routledge, 2005
TEIXEIRA,
João Fernandes. A Mente Pós-evolutiva:
a filosofia da mente no universo do silício, Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
[1]
Graduação em Filosofia; Mestre em Meio Ambiente e Auditorias Ambientais, Pós-graduado
em Neuropsicopedagogia; MBA em Gestão de Negócios; Pós-graduado em Historia Contemporânea;
Pós-graduado em Sociologia.
[2]
Daniel Goleman, ph.D, psicólogo e jornalista cientifico estadunidense.
[3] David
Eagleman, neurocientista estadunidense.
[5]
Catherine Malabou, filósofa francesa
[6]
George Wilhelm Friedrich Hegel, filósofo alemão
[7]
Auguste Comte, filósofo francês
[8]
João de Fernandes Teixeira, filósofo brasileiro