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quarta-feira, 19 de junho de 2019

TROCANDO PALAVRAS – RECIPROCANDO III ENSAIOS



ENSAIOS

Michel Eyquem de Montaigne (Nasceu no Castelo de Montaigne, 28 de fevereiro de 1533 — Castelo de Montaigne, 13 de setembro de 1592) foi um jurista, político, filósofo, escritor, cético e humanista francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objeto de estudo. 

Ele criticou a educação livresca e mnemônica, propondo um ensino voltado para a experiência e para a ação. Acreditava que a educação livresca exigiria muito tempo e esforço, o que afastaria os jovens dos assuntos mais urgentes da vida. Para ele, a educação deveria formar indivíduos aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à vida prática.

Os seus Ensaios compreendem três volumes (três livros) (levou nove anos para redigir os dois primeiros) e vieram a público em três versões: Os dois primeiros em 1580 e 1588. Na edição de 1588, aparece o terceiro volume. 
Em 1595, publica-se uma edição póstuma destes três livros com novos acrescentos.
Seus Essais são principalmente autorretratos de um homem, mais do que o autorretrato do filósofo. Montaigne apresenta-se-nos em toda a sua complexidade e variedade humanas. Procura também encontrar em si o que é singular. Mas ao fazer esse estudo de auto-observação acabou por observar também o Homem no seu todo. Por isso, não nos é de espantar que neles ocorram reflexões tanto sobre os temas mais clássicos e elevados ao lado de pensamentos sobre a flatulência. Montaigne é assim um livre pensador, um pensador sobre o humano, sobre as suas inconsistências, diversidades e características. E é um pensador que se dedica aos temas que mais lhe apetecem, vai pensando ao sabor dos seus interesses e caprichos.
Se por um lado se interessa sobremaneira pela Antiguidade Clássica, esta não é totalmente passadista ou saudosista. O que lhe interessa nos autores antigos, especialmente os latinos, mas também gregos, é encontrar máximas e reflexões, que o ajudem na sua vida diária e na sua autodescoberta. Montaigne tenta assim compreender-se, através da introspecção, e tenta assim compreender os homens.
Quarto e escritório de Michel de Montaigne
Montaigne não tem um sistema. Não é um moralista, nem um doutrinador. Mas não sendo moralista, não tendo um sistema de conduta, uma moral com princípios rígidos, é um pensador ético. 
Procura indagar o que está certo ou errado na conduta humana. Propõe-se mais estudar pelos seus ensaios certos assuntos do que dar respostas. No fundo, Montaigne está naquele grupo de pensadores que estão a perguntar em vez de responder, e é na sua incerteza em dar respostas, que surge um certo cepticismo em Montaigne. 
Como não está interessado em dar respostas apriorístico tem uma certa reserva em relação a misticismos e crenças. É de notar um certo alheamento em relação ao Cristianismo e às lutas de religião que se viviam em França na época. Embora não deixe de refletir em assuntos como a destruição das Novas Índias pelos espanhóis. Ou seja, as suas reflexões visam os clássicos e a sua própria contemporaneidade. 
Tanto fala de um episódio de Cipião como fala de algum acontecimento do seu século como fala de um qualquer seu episódio doméstico.
O facto de ter introduzido uma outra forma de pensar através de ensaios, fez com que o próprio pensamento humano encontrasse uma forma mais legítima de abordar o real. A verdade absoluta deixa de estar ao alcance do homem, sendo doravante, possível tão-somente uma verdade por aproximações.
Michel de Montaigne foi tio pelo lado materno de Santa Joana de Lestonnac. Wikipédia

Principais obras de Michel de Montaigne:
- Ensaios (1588)
 - Jornal de Viagem 1580 - 1581 (publicado somente em 1774)

Montaigne viveu numa época extremamente conturbada, da qual refletiu algumas características fundamentais, especialmente as mais contraditórias, tais como situar-se no plano econômico, social e político das transformações que levaram a destruição da economia feudal da idade média e sua substituição pelas atividades manufatureiras e de comercio; é a representação pela destruição das formas de pensamento vigentes na idade média e pela transição para estruturas de pensar diametralmente opostas ao teocentrismos medieval; foi o movimento de reforma religiosa, iniciado por Lutero e liderado na França por Calvino; tais características formaram um quadro extremamente rico do ponto de vista intelectual e da sensibilidade: cheio de esperanças risonhas e ao mesmo tempo dominado pelas melancólicas dúvidas.
Todas essas dúvidas aparecem em Montaigne, propondo um enigma difícil de ser decifrado. Seu pensamento vai e vem, dá voltas inesperadas, esconde-se atrás de meias palavras e alusões, não expressa tudo, temendo levantar suspeitas e gerar perseguições. Montaigne retrata a própria vida da consciência: o que pode haver de mais complexo e assistemático?
Contudo, é possível extrair dos Ensaios alguns esquemas básicos e compor um quadro mais ou menos coerente de ideias. Para isso a coordenada intelectual mais evidente que se propõe é ceticismo, do qual Montaigne foi, sem dúvida, o maior representante renascentista.

Eis alguns recortes relativos aos ensaios:

Capitulo II – Da tristeza

Os italianos deram o seu nome a maldade, pois ela é sempre nociva, sempre insensata e também covarde e desprezível: os estoicos a proíbem aos sábios. Há tristezas suscetíveis de se exprimir por lagrimas; outras estão além de qualquer expressão quando somos “petrificados pela dor” (Ovídio), quando as ocorrências nos esmagam nos ultrapassando o que nos é dado suportar, estupidificando a alma a ponto de paralisar qualquer gesto, como acontece quando recebemos de surpresa uma péssima notícia, e em alguns casos sucedem as lagrimas que aliviam a alma e como lhe permitam mover-se mais à vontade: “é com dificuldade que afinal recupera a voz e pode exprimir a sua dor”(Virgílio).
“Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco”(Petrarca)

Capitulo III – Dos nossos ódios e afeições

 ...nunca estamos em nós; estamos sempre além. O temor, o desejo, a esperança joga-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora então já não sejamos mais.
“Todo espirito preocupado com o futuro é infeliz” Sêneca

Capítulo VIII – Da ociosidade

Nas terras ociosas, embora ricas e férteis, pulula ervas selvagens e daninhas, e para aproveita-las cumpre trabalha-las e semeá-las a fim de que nos sejam uteis. Assim igualmente os espíritos: se não os ocupamos com certos assuntos que os absorvam e disciplinem, enveredam ao léu, sem peias, pelo campo da imaginação.
E nesse estado não há loucura nem devaneio que não concebam: “forjando vãs ilusões semelhantes as quimeras de um doente” (Horácio)
“Na ociosidade o espírito se dispersa em mil pensamentos diversos” (Lucano)

Quem influenciou com suas obras e ideias:

- Arthur Schopenhauer – filósofo alemão do século XVIII.
- Blaise Pascal – matemático, físico, teólogo e filósofo francês do século XVII.
- Emil Cioran – filósofo e escritor romeno do século XX.
- John Florio – linguista e tradutor inglês do século XVI e XVII.
- La Mothe Le Vayer – filósofo e historiador francês do século XVII.
- Marie de Gournay – escritora francesa do século XVI.
- Merleau-Ponty – filósofo francês do século XX.
- Nietzsche – filósofo alemão do século XIX.
- René Descartes – matemático, físico e filósofo francês do século XVII.
- Voltaire – filósofo francês iluminista do século XVIII.

Exemplos de frases de Montaigne:

- “A Filosofia é a ciência que nos ensina a viver”.
 - “O silêncio e a modéstia são qualidades muito convenientes para a conversa”.
 - “O verdadeiro espelho de nosso discurso é o curso de nossas vidas”.
 - “Todos vão para outro lugar e em direção ao futuro, ninguém chega a si mesmo”.
 - “A verdadeira liberdade é ser capaz de fazer qualquer coisa sobre si mesmo”.
- "À beira de um precipício só há uma maneira de andar para frente: é dar um passo atrás".

Bibliografia
Montaigne, Michel de, 1533-1592, Ensaios/Michel de Montaigne; tradução de Sérgio Milliet. 4.ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987 (Os pensadores)

Site Consultado: https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_de_Montaigne em 29/04/2019 as 06:19