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quinta-feira, 30 de julho de 2020

Fragmentos e comentários acerca do ensaio “Sociedade do Cansaço” do filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han


Han, Byung-Chul. Sociedade do cansaço / Byung-Chul Han ; tradução de Enio Paulo Giachini. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2015.

 

Byung-Chul Han, uma das mais inovadoras vozes filosóficas surgidas na Alemanha, nos apresenta neste ensaio a tese de que o Ocidente está a tornar-se uma sociedade do cansaço pelo excesso de positividade, apresenta uma mudança paradigmática da sociedade da negatividade para a sociedade da positividade.

Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (Tdah), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho. Han, p.7

Neste início de século está se falando muito de doenças e de problemas neurológicos que constituem um panorama patológico de nossos dias, o autor neste ensaio desenvolve uma tese onde ele afirma que a sociedade está passando por uma transformação de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de desempenho, onde passamos por uma necessidade incessante de sermos altamente produtivos e positivos produzindo a sociedade do cansaço. Ele consegue estabelecer uma relação, entre o sistema imunológico do corpo humano e a filosofia, a sociologia e a linguagem, afirmando que nossa era sofre os efeitos de alguma patologia neuronal.

 

A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos da obediência”, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”. Han, p.14

 

A sociedade vive num século que deixou para trás uma sociedade disciplinar Foucaultiana feita de hospitais, asilos, presídios, quartéis e fábricas, não é mais a sociedade de hoje. Em seu lugar, há muito tempo, entrou uma outra sociedade, a saber, uma sociedade de academias de fitness, prédios de escritórios, bancos, aeroportos, shopping centers e laboratórios de genética. Segundo Han, vivemos numa sociedade de desempenho e consequentemente do cansaço causador de patologias neuronais. Esta mudança é cultural, pois reivindica e estabelece a autonomização da própria vida por meio da técnica. A sociedade, os habitantes não são mais sujeitos da obediência disciplinar movidos por um certo controle comportamental instituído, mas são agora sujeitos de produção e empresários de si mesmos.

 

No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados. A mudança de paradigma da sociedade disciplinar para a sociedade de desempenho aponta para a continuidade de um nível. Já habita, naturalmente, o inconsciente social, o desejo de maximizar a produção.  Han p.14 e 15

 

A sociedade de desempenho vai se desvinculando cada vez mais das proibições, mandamentos ou leis, os projetos requerem iniciativa e a motivação em busca do melhor e maior desempenho, mas que acaba produzindo sujeitos depressivos e fracassados. A sociedade atual do sobreviver altamente vibrante e ativo, restringe o viver saudável, ofuscando e restringindo os efeitos da beleza e a intensidade da vida. Neste caso a positividade é tóxica, peca pelo excesso, o excesso bloqueia as nossas emoções que consideramos negativas, desta forma escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho.

A positividade é tóxica porque a pessoa que não aceita uma existência para além da alegria uma hora simplesmente se esgota e inevitavelmente chegara ao cansaço e num maior grau a exaustão já que a positividade é alimentada continuamente.

Há exemplo simples deste novo paradigma, basta analisarmos as postagens que em geral as pessoas fazem no facebook e Instagram, o que se vê e sente é que todo mundo está bem o tempo inteiro. Saboreando as melhores comidinhas, os melhores drinks, com sorrisos enormes, sempre com as melhores becas, viajando nos lugares mais badalados, uma cena melhor do que outra. O excesso de positividade por si só nos leva a editar a realidade de cada um violentando e aniquilando a sociedade de maneira suave e consensual em que só é permitido expressar, falar, postar os bons sentimentos e bons momentos.

O autor dialoga com Baudrillard, dizendo que se trata de uma violência da aniquilação suave, uma violência genética e de comunicação; uma violência do consenso!

 

A violência viral, que continua seguindo o esquema imunológico de interior e exterior ou de próprio e outro, e pressupõe uma singularidade ou alteridade hostil ao sistema, não está mais em condições de descrever enfermidades neuronais como depressão, Tdah ou SB. A violência neuronal não parte mais de uma negatividade estranha ao sistema. É antes uma violência sistêmica, isto é, uma violência imanente ao sistema. Tanto a depressão quanto o Tdah ou o SB apontam para um excesso de positividade. A SB é uma queima do eu por superaquecimento, devido a um excesso de igual. O hiper da hiperatividade não é uma categoria imunológica. Representa apenas uma massificação do positivo. Han p.12

Em sua obra A sociedade do cansaço, Han através da dialética de Hegel aponta importante transformação nos papéis que anteriormente cada parte desempenhava. Han nos apresenta uma sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre. Diante das tensões, elas geram novas coerções. A dialética de senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva ao contrário a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio. A nossa auto exploração é compreendida como uma espécie de realização e de sucesso.

A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível.  Han p.16

 

Han retoma a ideia de “cultura distinta” em Nietzsche, a partir do capitulo 5 - Pedagogia do Ver ele explica, numa linguagem poética, ao dizer que precisamos “aprender a ver, ou seja, habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si, ao olhar demorado e lento” (p. 28).

 

Sem aqueles “instintos limitativos”, o agir se deteriora numa reação e ab-reação inquieta e hiperativa. A atividade pura nada mais faz do que prolongar o que já existe. Uma virada real para o outro pressupõe a negatividade da interrupção. Só por meio da negatividade do parar interiormente, o sujeito de ação pode dimensionar todo o espaço da contingência que escapa a uma mera atividade. É bem verdade que o hesitar não representa uma ação positiva, mas é indispensável para que a ação não decaia para o nível do trabalho. Hoje, vivemos num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios. No aforismo “A principal carência do homem ativo”, escreve Nietzsche: “Aos ativos faltam usualmente a atividade superior [...] e nesse sentido eles são preguiçosos. [...] Os ativos rolam como rola a pedra, segundo a estupidez da mecânica”. Há diversos tipos de atividade. A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar.  Han p.29

 

Diante disto, percebemos que se trata de um processo meta-pedagógico, pois envolve uma mudança pragmática de comportamento, desconstruir a ideia de que o “hiper-tudo” produz liberdade em vez de uma mecânica social estúpida e ininterrupta. Acusa nosso próprio modus operandi do agir mecanizado de produção culminando no cansaço da sociedade moderna.

 

Há duas formas de potência. A potência positiva é a potência de fazer alguma coisa. A potência negativa, ao contrário, é a potência de não fazer, para falar com Nietzsche; para dizer não. Mas a potência negativa distingue-se da mera impotência, a incapacidade de fazer alguma coisa. A impotência é simplesmente o contrário da potência positiva. Ela é, ela própria, positiva na medida em que está ligada com algo. Ela não é capaz de alguma coisa. A potência negativa supera a positividade, que está presa em alguma coisa. É uma potência de não fazer. Se, desprovidos da potência negativa de não perceber, possuíssemos apenas a potência positiva de perceber algo, a percepção estaria irremediavelmente exposta a todos os estímulos e impulsos insistentes e intrusivos. Então não seria possível haver qualquer “ação do espírito”. Se possuíssemos apenas a potência de fazer algo e não tivéssemos a potência de não fazer, incorreríamos numa hiperatividade fatal. Se tivéssemos apenas a potência de pensar algo, o pensamento estaria disperso numa quantidade infinita de objetos. Seria impossível haver reflexão (Nachdenken), pois a potência positiva, o excesso de positividade, só admite o continuar pensando (Fortdenken). Han p.30, 31

 

 

Dialogando com Nietzsche, Han procura conjugar a experiência do “Humano: Demasiado Humano” da negatividade do não-para nietzschiano, afirmando que é também um traço essencial da contemplação. Na meditação zen, por exemplo, tenta-se alcançar a negatividade pura do não-para, isto é, o vazio, libertando-se de tudo que aflui e se impõe. Assim é um processo extremamente ativo, e algo bem distinto que passividade. É um exercício para alcançar em si um ponto de soberania, de ser centro. Se possuíssemos apenas a potência positiva, estaríamos, ao contrário, expostos de forma totalmente passiva ao objeto, que o leva ao adoecimento social, refletindo uma espécie de (des)humanidade consigo mesmo.

 

Em seu escrito Vita activa, Hannah Arendt procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa, rearticulando-a em seu múltiplo desdobramento interno. Em sua opinião, a vita activa foi degradada de forma injusta na tradição à mera agitação, nec-otium ou a-scholia.   Han p.22

 

Han dialoga com filosofa Hannah Arendt, no escrito Vita activa, Arendt procura reabilitar a vida ativa contra o primado tradicional da vida contemplativa, rearticulando-a em seu múltiplo desdobramento interno. Em sua opinião, a vita activa foi degradada de forma injusta na tradição à mera agitação. Para Arendt, o milagre se processava no próprio nascimento (recomeço) do ser humano onde se realiza uma ação, com dimensões milagrosas e revolucionárias. “Segundo Arendt, a sociedade moderna, enquanto sociedade do trabalho, aniquila toda a possibilidade de agir, degradando o homem a um animal laborans – um animal trabalhador”.

 

No entanto, as descrições do animal laborans de Arendt não correspondem às observações que podemos fazer na sociedade de desempenho hoje, pois este não abandona sua individualidade ou seu ego para entregar-se ao trabalho anônimo. Esta sociedade radicalmente transitória, hiperativa e hiperneurótica pelo trabalho se individualiza, tendo em vista o desempenho, a ponto de quase dilacerar-se no isolamento, nervosismo e inquietação.

 

Precisamente, com a histeria do trabalho e da produção, acelerado mundo de hoje aprisiona as formas de ver e promove outras coerções e carências do ser. Na sociedade do trabalho, o próprio senhor da dialética do senhor e do escravo se transformou num escravo do trabalho, sem ter tempo livre para o lazer. E “a especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos”. A absolutização da vida ativa e a perda da capacidade contemplativa acabam sendo corresponsáveis pela histeria e nervosismo da sociedade moderna. De acordo com Han “a vita contemplativa pressupõe uma pedagogia específica do ver”.

 

O relato de Melvilles “Bartleby”, que foi objeto de diversas interpretações metafísicas ou teológicas, admite também uma leitura patológica. Essa “história provinda da Wall Street” descreve um universo de trabalho desumano, cujos habitantes, todos eles, são degradados a animal laborans. Apresenta-se detalhadamente a atmosfera sombria, hostil do escritório espessamente rodeado de arranha-céus. A menos de três metros ergue-se “alto o muro de tijolos, que se tornou preto por causa da idade e por estar sempre à sombra”. Ao ambiente de trabalho, que parece uma caixa de água, falta todo e qualquer traço de “vida” (deficiente in what landscape painters call “life”). A melancolia e o mau-humor, de que se fala constantemente no relato, forma a atmosfera fundamental da narrativa.

 

Han conclui a narrativa: “Essa ‘história provinda de Wall Street’ não é uma história da ‘des-criação’, mas uma história de esgotamento. Queixa e acusação, juntas, formam a invocação com a qual se encerra a narrativa: ‘Oh, Bartleby!, Oh, humanidade!” (p. 35).

Han epiloga seu ensaio contrastando as expressões ‘doping cerebral’ e ‘neuro-enhancement’. Menciona que “o excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma” (p. 38) e, baseando-se na obra “Ensaio Sobre o Cansaço”, de Handke (p. 38), Han retoma de forma bastante didática o que caracteriza, em seus diversos tipos e formas, a nossa “Sociedade do Cansaço” — a sociedade do não-para nos termos nietzscheanos, a sociedade cuja preocupação reside no status e visibilidade social.

 

A citação feita por Han na contracapa, é conveniente e oportuna, Nietzsche, na obra “Humano: Demasiado Humano” é magistral por sua sapiência e ainda atual, serve bem ao propósito de corolário para sua tese: “Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”. A sociedade do desempenho caminha para o esgotamento, sob a ditadura do desempenho até o amor esta se positivando na sexualidade e a mercantilização do corpo como mercadoria, ai já é outra conversa, já é uma conversa com outra obra de Han, a “Agonia do Eros”.

 

Byung-Chul Han (Pyong-Chol Han) (Seul, 1959) é um filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade de Artes de Berlim. Ele estudou Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. Atualmente, é professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlim e autor de uma dezena de ensaios de críticas à sociedade do trabalho e à tecnologia.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Byung-Chul_Han

sábado, 25 de julho de 2020

Prisioneiros da Geografia


SUGESTÃO DE LEITURA

PRISIONEIROS DA GEOGRAFIA
10 mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global – Tim Marschall




288 páginas
Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges
Revisão técnica: Márcio Scalércio Prefácio: Sir John Scarlett

Copyright da edição brasileira © 2018:Jorge Zahar Editor Ltda.rua Marquês de S. Vicente 99 ‒ 1o | 22451-041 Rio de Janeiro, rjtel (21) 2529-4750 | fax (21) 2529-4787editora@zahar.com.br | www.zahar.com.br


“Um lembrete da relevância da geografia nas relações internacionais. Ideologias podem ir e vir, mas a realidade geopolítica perdura.” FINANCIAL TIMES

“Uma maneira revigorante de olhar para os mapas – não apenas como obras de arte ou algo para nos orientar, mas como sinalização para as relações muitas vezes espinhosas entre países.” THE NEW YORK TIMES BOOK REVIEW

Prisioneiros da Geografia

A geografia sempre moldou a nossa vida. O poder, as guerras, a política e o desenvolvimento social e humano, incluindo língua, comércio e religião, são delimitados por ela – e assim continua a ser, mesmo com os avanços tecnológicos. Claro que ela não deter­mina o curso de todos os acontecimentos: grandes ideias e grandes líderes são parte importante dos movimentos da história. Mas eles devem todos operar conforme os limites da geografia.

Nesse livro, que se tornou best-seller internacional, o jornalista e correspondente internacional Tim Marshall explica a geopolítica global abrangendo heranças do passado, como a formação de nações; aborda as situações mais prementes que enfrentamos no presente, por exemplo os distúrbios na Ucrânia e o papel cada vez maior da China; e olha para o futuro, em questões como a cres­cente competição no território ártico.

Para isso, o autor organiza a obra em torno de 10 mapas centrais, examinando as principais regiões estratégicas do globo: Rússia, China, Estados Unidos, Europa ocidental, África, Oriente Médio, Índia e Paquistão, Japão e Coreia, América Latina e, por fim, o Ártico. Analisando o clima e os mares, montanhas e rios, desertos e fronteiras, oferece o contexto e ferramentas para que possamos entender de que forma as características físicas de um território influenciam os seus pontos fortes e os vulneráveis – e as decisões que seus governantes tomam.

Em Prisioneiros da geografia, Marshall escreve com objetividade e descontração – de um modo compreensível para o curioso e o leigo, sem deixar de interessar ao especialista. E, para a edição brasileira, reviu e atualizou o texto, incluindo os desenvolvimentos mais recentes da geopolítica mundial. Uma leitura que vai fazer você enxergar o mundo – e mapas – de outra maneira.



TIM MARSHALL é jornalista e escritor britânico. Autoridade em assun­tos internacionais, tem mais de 30 anos de experiência como repórter. Cobriu dezenas de países e conflitos na Bósnia, Kosovo, Afeganistão, Iraque e Síria, colaborando para emissoras como BBC e Sky News e publicações como The Times, Sunday Times, Guardian, Independent e Daily Telegraph. É fundador e editor de TheWhatandtheWhy.com. Seu blog Foreign Matters foi finalista do Orwell Prize (2010).


Prefácio

Tornou-se um truísmo pensar, e dizer, que vivemos tempos excepcionalmente instáveis. O mundo, segundo nos falam, nunca foi tão imprevisível. Declarações desse tipo pedem uma resposta cautelosa, até cética. Está correto ser cauteloso. O mundo sempre foi instável, e o futuro, por definição, imprevisível. Sem dúvida nossas preocupações atuais poderiam ser muito piores. Quanto mais não seja, o centenário de 1914 deveria ter nos lembrado disso.

Entretanto, decerto estão em curso mudanças fundamentais, e estas têm um sentido real para o nosso próprio futuro e o de nossos filhos, onde quer que vivamos. Mudanças econômicas, sociais e demográficas, todas ligadas à rápida transformação tecnológica, têm implicações globais que podem distinguir o tempo em que vivemos agora daqueles que passaram. Talvez seja por isso que falamos tanto sobre “incerteza excepcional” e que os comentários “geopolíticos” tenham se tornado um ramo em rápido crescimento.
Tim Marshall é extraordinariamente bem qualificado do ponto de vista pessoal e profissional para dar sua contribuição nesse debate. Ele participou diretamente de muitos dos acontecimentos mais dramáticos dos últimos 25 anos. Como sua Introdução nos lembra, esteve na linha de frente nos Bálcãs, no Afeganistão e na Síria. Viu como decisões, eventos, conflitos internacionais e guerras civis só podem ser compreendidos levando-se plenamente em conta esperanças, medos e ideias preconcebidas formados pela história, e a maneira como esses, por sua vez, são determinados pelo ambiente físico – a geografia – em que indivíduos, sociedades e países se desenvolveram.
Em consequência, este livro está cheio de reflexões acertadas, de relevância imediata para nossa segurança e nosso bem-estar. O que influenciou a ação russa na Ucrânia? Acaso nós (o Ocidente) deixamos de prever isso? Nesse caso, por quê? Até que ponto Moscou avançará agora? Será que a China afinal se sente segura dentro daquilo que vê como fronteiras terrestres naturais? E como isso afetará a abordagem de Pequim ao poder marítimo e dos Estados Unidos? O que isso significa para os outros países da região, inclusive Índia e Japão? Por mais de duzentos anos os Estados Unidos se beneficiaram de circunstâncias geográficas extremamente favoráveis e da abundância de recursos naturais. Agora eles têm petróleo não convencional e gás. Isso afetará sua política global? Os Estados Unidos têm extraordinário poder e resiliência, então por que se fala tanto de declínio americano? As divisões e emoções profundamente impregnadas na África do Norte, no Oriente Médio e na Ásia meridional são insolúveis, ou podemos detectar alguma esperança para o futuro? Por fim, e talvez de maneira mais importante para nosso país, o Reino Unido, que é uma das economias maiores e mais globais: como a Europa está reagindo às incertezas e aos conflitos próximos e não tão próximos? Como Tim mostra, durante os últimos setenta anos (e especialmente desde 1991), a Europa acostumou-se à paz e à prosperidade. Corremos o risco de dar isso por garantido? Ainda compreendemos o que está se passando à nossa volta?
Se você quer pensar sobre essas questões, então leia este livro.

Sir John Scarlett KCMG OBE*Chefe do Serviço Secreto de Inteligência (MI6), 2004-09

* Cavaleiro Comandante da Ordem de São Miguel e São Jorge; Oficial da Excelentíssima Ordem do Império Britânico. (N.T.)