"Todos cogumelos são comestiveis, alguns apenas uma vez" Autor desconhecido
A
presente resenha fará um paralelo entre as duas perspectivas de
TRANSVERSALIDADE tendo por base os
artigos produzidos por Silvio Gallo, o primeiro artigo SABERES,
TRANSVERSALIDADE E PODERES foi
apresentado por ele em 1996 no GT de Currículo da ANPEd e o
segundo artigo TRANSVERSALIDADE E MEIO
AMBIENTE também foi apresentado por ele em 2001 no Ciclo de Palestras Sobre
Meio Ambiente Programa Conheça a Educação do Cibec/Inep- MEC/SEF/COEA,
2001.
No primeiro artigo Gallo afirma que esteja sob a máscara que estiver,
o poder se exerce implacável e totalitário sobre os indivíduos, quando
permanecemos no panorama de uma escola cujo currículo é a expressão máxima da
disciplinarização. Nas malhas dessa realidade, uma prática interdisciplinar não
passa de uma perversidade, pois trata-se de mascarar ainda mais o mecanismo de
poder posto a funcionar e constantemente azeitado pela disciplinarização.
Ele propõe o abandono do
paradigma arborescente e a adoção de um paradigma rizomático. Rompendo com o
panorama das ramificações, que coloca cada ciência, cada disciplina como um
galho na árvore do saber, e adotando uma percepção rizomática que implica num
aparentemente caótico entrecruzamento das linhas, podemos perceber as
interrelações intrínsecas que compõem os híbridos, o que não nos leva a fugir
com nojo de sua horrenda constituição, mas percebê-los como os elementos comuns
de nossa realidade. No entanto, mesmo no contexto de um paradigma rizomático, a
identificação entre saber e poder continua válida encontrando-se, entretanto,
deslocada, pois numa perspectiva rizomática, assim já não é possível pensar a
hierarquização; não é possível pensar no poder como um topos do qual
emanam as forças.
Gallo ao observar o mecanismo da
economia globalizada e o mercado de trabalho menciona as percepções de Lévy e
Authier, onde estes apontam para uma imediata e necessária revisão das
competências. Os saberes acessíveis através da escola e reconhecidos nos
diplomas já nem sempre são os mais fundamentais nas mais diversas situações.
Por outro lado, saberes não reconhecidos passam a desempenhar importantes
papéis tanto para os indivíduos quanto para comunidades inteiras. O poder conferido
a um indivíduo pela posse de um diploma acadêmico é, ao mesmo tempo,
referendado e questionado. Referendado pela crescente qualificação que uma
economia globalizada exige dos trabalhadores; questionado, pois as profissões
tradicionais perdem seu espaço, já não conferindo aos indivíduos o status
que anteriormente proporcionavam.
Diante de tais afirmações, será
necessário redesenhar o mapa estratégico do poder no campo da(s) Ciência(s) e
no campo da Educação, colocando as relações numa outra dimensão. A
transversalidade do conhecimento implica em possibilidades de escolas e de
currículos em muito diferentes daquelas que hoje conhecemos, novos espaços de
construção e circulação de saberes onde a hierarquização já não será a
estrutura básica, e onde situações até então insuspeitas poderão emergir.
No segundo artigo Gallo, re-apresenta um modelo pedagógico onde a
interdisciplinaridade vai justamente ser pensada no âmbito da pedagogia como a
possibilidade de uma nova organização do trabalho pedagógico que permita uma
nova apreensão dos saberes, não mais marcada pela absoluta compartimentalização
estanque das disciplinas, mas pela comunicação entre os compartimentos
disciplinares.
De forma breve ele apresenta uma
das propostas dada sua atualidade, os Parâmetros Curriculares Nacionais
preparados pelo MEC introduzem a ideia dos temas transversais. Esses temas são
uma forma de se tentar viabilizar a interdisciplinaridade, introduzindo
assuntos que devem ser tratados pelas diversas disciplinas, cada uma a sua
maneira. No entanto, Gallo se detém num
ponto que julga fundamental: a adoção dos temas transversais, mesmo nessa
perspectiva de colocá-los como eixo do currículo, significa um rompimento, de
fato, com o currículo disciplinar? Ele afirma que não, pois como pode se ver
pela análise dos documentos preparados pela Secretaria de Ensino Fundamental do
MEC, o currículo continua sendo disciplinar, as áreas e os ciclos servindo
apenas de preparação para uma posterior disciplinarização.
A tese de Gallo vai ao encontro
da proposta da transversalidade exposta nos PCNs conseguiria, desde que
aplicada em condições ideais e atingindo os objetivos a que se propõe, tornar
concreto, na escola, o ideal da interdisciplinaridade. Mas uma proposta de
transversalidade assumida apenas como ação pedagógica é por demais singela.
Parece-me que ela pode e deve! ser vista como muito mais que isso. Dessa
maneira, podemos afirmar que os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino
Fundamental se não constituem uma alternativa ao currículo disciplinar, são um
importante passo para a sua superação.
Os campos de saberes são tomados
como absolutamente abertos; com horizontes, mas sem fronteiras, permitindo
trânsitos inusitados e insuspeitados, no entanto, Gallo afirma que pensar uma
educação e um currículo não disciplinares, articulados em torno de um paradigma
transversal e rizomático do conhecimento soa hoje como uma utopia. Nossa escola
é de tal maneira disciplinar que nos parece impossível pensar um currículo tão
caótico, anárquico e singular. Mas, acredita que o ser humano já realizou
tantas conquistas aparentemente impossíveis, então, por que não vencer este
desafio?
Desta forma, concordo com Gallo
quando ele enfatiza que “o acesso transversal significaria o fim da compartimentalização,
reconhecendo a multiplicidade das áreas do conhecimento, pois trata-se de
possibilitar todo e qualquer trânsito por entre elas”, esse rompimento com a
compartimentalização se faz necessária, para a obtenção do entendimento de
mundo, a cosmovisão da realidade.
A filosofia desde sempre tem uma
postura ativa perante a vida, é aquela que estimula os seres humanos a
buscarem respostas, além de reflexiva tem por princípio o pensamento socrático
da ação pedagógica ativa, onde o importante é provocar situações instigantes e
que despertem o interesse e a aprendizagem através do autoconhecimento, dos
jogos de linguagem, estimulando o debate e a reflexão de temas sociais
relevantes de forma interdisciplinar e transversal, as quais são
características natas.
Os temas transversais
correspondem a questões relevantes, importantes, urgentes e presentes sob
várias formas na vida cotidiana. A ideia
é promover o desenvolvimento do aluno como cidadão, logo deve estar presente na
rotina escolar de toas as instituições do pais. Com base nessa ideia, o MEC
definiu alguns temas que abordam valores referentes à cidadania: Ética,
Saúde, Meio Ambiente, Orientação Sexual (Corpo: Matriz da sexualidade, relações
de gênero, prevenções das doenças sexualmente transmissíveis), Trabalho e
Consumo e Pluralidade Cultural tais temas podem ser abordados.
Se possível, e é interessante
ressaltar que os trabalhos com os temas transversais não devam ficar reservados
somente nas salas de aula, dentre quatro paredes, devem sair para o mundo, devem
e precisam ser realizados por meio de uma parceria entre a família e a escola,
podendo ser trabalhados em forma de tarefas voltadas para pesquisas,
observações e registros dos hábitos familiares. Essa união é importante porque
diversos conceitos e valores propostos pelos temas transversais começam a ser
repassados para as crianças e seus respectivos familiares, a ideia é ir além da
classe escolar, procurando eco no seio familiar e promovendo mudanças ativas,
positivas e estruturantes, afinal a família é a base de uma sociedade saudável.
A frase "Todos
Cogumelos são comestíveis, alguns apenas uma vez" de autor
desconhecido, está carregada de efeito, em nosso cotidiano enfrentamos
"n" situações onde temos de escolher cogumelos que não nos façam mal,
ou seja, temos de fazer as melhores escolhas, algumas escolhas se equivocadas
acarretarão graves consequenciais. Neste momento o conhecimento e a educação
são muito importantes, e por que não dizer que a filosofia nos empresta
ferramentas que nos auxiliam nesta tarefa? A capacidade da filosofia em
trabalhar temas interdisciplinares e transversais é gigantesca, a
maioria das pessoas não tem noção de que o caminho ou método empregado no dia a
dia é o filosófico.
Atualmente a escola que tenha em
seu currículo a matéria de filosofia, tem razoável vantagem sobre aquelas que
não tem, sabemos que a filosofia não tem uma “fórmula mágica” para resolver os
problemas da vida de ninguém, mas pode ser um instrumento interessante para
entender melhor situações de nosso cotidiano, possibilitando que façamos
escolhas melhores, mais conscientes. A filosofia procura também trabalhar com
os Temas transversais, sua intenção é ser um agente facilitador, fomentador e
integrante das ações de modo contextualizado, através da transposição didática,
da interdisciplinaridade e transversalidade, buscando não fragmentar em blocos
rígidos os conhecimentos, para que a Educação realmente constitua o meio de
transformação social.