O que diria Dostoiévski sobre atual líder (Putin), seu compatriota, a respeito de suas atitudes bélicas contra aqueles que supostamente não atendam seus interesses:
Em Notas do Subsolo encontramos resposta a questão como esta, ele diria que se o homem não se tornou mais sanguinário com a civilização, tornou-se, com certeza, um sanguinário pior, mais hediondo. Antes ele via no derramamento de sangue um modo de fazer justiça e com a consciência tranquila massacrava aqueles que julgava merece-lo; hoje, ainda que julguemos que derramar sangue seja uma torpeza, mesmo assim o praticamos, e ainda mais do que no passado.
Fiódor Dostoiévski - 1821-1881
Ele complementaria: Eu, por exemplo, não me admiraria nada se, de repente, sem nenhum motivo, em meio ao futuro bom senso geral, surgisse um cavalheiro com um rosto nada nobre ou, melhor dizendo, com uma fisionomia retrógrada e zombeteira e, de mãos na cintura, dissesse a todos nós: e, então senhores, que tal um pontapé em todo esse bom senso e mandar esses logaritmos para o diabo para que possamos novamente viver segundo a nossa vontade idiota? E não acabaria nisso, pois o lamentável é que ele certamente encontraria seguidores: assim é o ser humano. E tudo isso por um motivo insignificante que não valeria a pena mencionar; precisamente pelo fato de que o homem, invariavelmente e em todo o lugar, quem quer que ele seja, sempre gostou de fazer o que ele quis, e não como mandam a razão e o interesse próprio; ele, inclusive, pode querer algo contra seus próprios interesses, e às vezes até deve indubitavelmente querê-lo. Sua vontade livre, um capricho seu, mesmo que seja o capricho mais estranho, uma fantasia sua, exacerbada às vezes até a loucura – eis a vantagem que é omitida, a vantagem mais vantajosa, que não se submete a nenhuma classificação e que manda para o diabo constantemente todos os sistemas e teorias. E de onde esses sabichões tiraram que o homem necessita não sei de que vontade normal, virtuosa? De onde partiu essa sua ideia de que o homem precisa ter obrigatoriamente uma vontade sensatamente vantajosa? O que o homem precisa é somente de uma vontade independente, custe ela o que custar e não importa aonde possa conduzir. Bom, essa vontade, o diabo conhece bem...
"Notas do Subsolo" é uma obra seminal do autor russo Fiódor Dostoiévski, publicada pela primeira vez em 1864. A novela apresenta um narrador não convencional e profundamente perturbador, cujas reflexões sobre a vida, a sociedade e a natureza humana desafiam as convenções literárias de sua época. O narrador, um homem amargurado e alienado, revela seus pensamentos e angústias em um monólogo interior intenso e intrincado. Ele se autodenomina "o homem do subsolo", representando uma espécie de anti-herói que se rebela contra as ideias predominantes da época, especialmente as filosofias racionalistas e utilitárias que defendem a racionalidade e a ordem social. Dentro de seu subterrâneo existencial, o protagonista tece críticas afiadas à sociedade, à razão e à noção de livre-arbítrio. Ele questiona as motivações por trás das ações humanas, desafiando a ideia de que somos seres racionais e previsíveis. Em vez disso, ele explora as profundezas sombrias da psique humana, onde as emoções, os impulsos irracionais e a vontade de poder reinam supremos.
Dostoiévski utiliza "Notas do Subsolo" como um veículo para explorar temas como alienação, liberdade, moralidade e a busca pelo significado na vida. A obra é um estudo profundo da condição humana, oferecendo insights perspicazes e provocativos sobre a natureza contraditória e complexa da existência. Em resumo, "Notas do Subsolo" é uma obra-prima da literatura russa e mundial, cuja influência perdura até os dias de hoje, desafiando leitores a confrontar as questões fundamentais sobre a vida e o ser humano.
Fonte:
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881 Notas do subsolo/Fiódor Dostoiévski: tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares – Porto alegre, RS: L&PM, 2008.
Fonte:
Dostoiévski, Fiódor, 1821-1881 Notas do subsolo/Fiódor Dostoiévski: tradução do russo de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares – Porto alegre, RS: L&PM, 2008.