As pessoas cada vez mais procuram por respostas as suas dúvidas existenciais nas terapias esotéricas, a estética da existência negligenciada por muito tempo transformou nossa sociedade em pessoas que buscam o sucesso através techne, sem o devido cuidado de si, uma parte do eu ficou sem o devido cuidado, ficou incompleto e agora buscam nas terapias o resgate de si mesmo.
O resgate de si mesmo desperta o sentimento de liberdade que se torna possível ao fazer-se existir e perceber-se ser completo. A busca por completude inicia ao dizer-a-verdade a si próprio, soltar as amarras de tradições e costumes que aprisionam por modismos de consumo, pelo desprender-se de si mesmo, dar estilo a sua vida, estar ciente que parte do processo do existir inicia pela constituição moral, o construir deve ser pensado como numa construção de uma obra de arte não descuidando de todos os detalhes.
Os gregos e Foucault se debruçaram sobre o tema da estética da existência, que é o cuidado de si, o cuidado por nós mesmos sem deixar ou negligenciar o outro, nos permitindo existir por completo e de forma saudável, a verdade dita por nós a nós mesmos é transformadora, porque exige mudanças, o processo de transformação implica no estudo e prática de uma série de exercícios voltados para a autotransformação. Como um artífice que obstinadamente molda a matéria bruta, mediante o conhecimento, algumas terapias holísticas atentas ao ser, além da técnica racionalista e cientificista, tem apresentado técnicas alternativas com o propósito de produzir transformações como se estivesse tentando produzir uma obra de arte de suas vidas, não só aparando rebarbas, mas de forma holística, de forma global, não se é em partes, se é em partes que formam o todo, o ser não existe em partes ele é uno, nós é que somos hesitantes e inconstantes tendemos a viver divididos pelo descuido de si mesmo.
A decisão de cuidar de si mesmo, exige que o indivíduo passe a cultivar o aprendizado e domínio de diversas práticas voltadas para o aprimoramento e desenvolvimento pessoal, tais como, a boa literatura, a meditação, o proveitoso exame diário de consciência escutando sua voz interna, e obviamente os cuidados corporais. Este é um processo continuo e de muita atenção, o cuidar de si mesmo é estar atento ao tempo presente do que está se passando na vida. Ser coerente com o que se prega e o que se faz, nossa conduta apropriada poderá servir de exemplo para os demais, sem sabermos somos observados e servimos de exemplo e incentivo para os outros, seja o que fazemos de bom, ruim, certo ou errado, justo ou injusto.
A ética do “cuidado de si” consiste em um conjunto de regras e cuidados de existência que o sujeito dá a si mesmo promovendo de forma coerente, segundo sua vontade e desejo, uma forma ou estilo de vida resultando em uma “estética da existência”.
O cuidado de si não é egoísta, nem egocentrismo, nem tão pouco consiste em uma ética em que o sujeito simplesmente se isole do mundo, mas sim retorna para si mesmo fazendo o exame de consciência para depois agir, não faça ao outro aquilo que não queira para si, não faça ao outro, coisas que eticamente afetem a existência de terceiros.
O cuidado de si na ética da existência é ensinado, nossa educação escolar não pode ficar apenas no âmbito do conhecimento científico e acerca de objetos coisificados, ensinar os saberes do mundo e principalmente acerca do próprio sujeito, a escola pode ensinar as pessoas a falar para si mesmo as verdades, diante do reconhecimento através das verdades ditas se abrirá uma porta para o autoconhecimento de tal forma nós mesmos seremos nossos agentes de transformação da própria vida.
A atividade cultural e artística tem parcela expressiva na vida das pessoas, a vida não é só ensino técnico e trabalho, a vida é muito mais, a vida boa para ser vivida começa em nossa ética existencial, se ainda não aprendemos a ser éticos existencialmente é porque ainda não demos importância ao ser como uma obra de arte, e como toda obra arte é preciso trabalho, foco e a verdade como material para transformação.
Fontes
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes. 2006.