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sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

A estética da existência no pensamento de Foucault

 



As pessoas cada vez mais procuram por respostas as suas dúvidas existenciais nas terapias esotéricas, a estética da existência negligenciada por muito tempo transformou nossa sociedade em pessoas que buscam o sucesso através techne, sem o devido cuidado de si, uma parte do eu ficou sem o devido cuidado, ficou incompleto e agora buscam nas terapias o resgate de si mesmo.

O resgate de si mesmo desperta o sentimento de liberdade que se torna possível ao fazer-se existir e perceber-se ser completo. A busca por completude inicia ao dizer-a-verdade a si próprio, soltar as amarras de tradições e costumes que aprisionam por modismos de consumo, pelo desprender-se de si mesmo, dar estilo a sua vida, estar ciente que parte do processo do existir inicia pela constituição moral, o construir deve ser pensado como numa construção de uma obra de arte não descuidando de todos os detalhes.

Os gregos e Foucault se debruçaram sobre o tema da estética da existência, que é o cuidado de si, o cuidado por nós mesmos sem deixar ou negligenciar o outro, nos permitindo existir por completo e de forma saudável, a verdade dita por nós a nós mesmos é transformadora, porque exige mudanças, o processo de transformação implica no estudo e prática de uma série de exercícios voltados para a autotransformação. Como um artífice que obstinadamente molda a matéria bruta, mediante o conhecimento, algumas terapias holísticas atentas ao ser, além da técnica racionalista e cientificista, tem apresentado técnicas alternativas com o propósito de produzir transformações como se estivesse tentando produzir uma obra de arte de suas vidas, não só aparando rebarbas, mas de forma holística, de forma global, não se é em partes, se é em partes que formam o todo, o ser não existe em partes ele é uno, nós é que somos hesitantes e inconstantes tendemos a viver divididos pelo descuido de si mesmo.

A decisão de cuidar de si mesmo, exige que o indivíduo passe a cultivar o aprendizado e domínio de diversas práticas voltadas para o aprimoramento e desenvolvimento pessoal, tais como, a boa literatura, a meditação, o proveitoso exame diário de consciência escutando sua voz interna, e obviamente os cuidados corporais. Este é um processo continuo e de muita atenção, o cuidar de si mesmo é estar atento ao tempo presente do que está se passando na vida. Ser coerente com o que se prega e o que se faz, nossa conduta apropriada poderá servir de exemplo para os demais, sem sabermos somos observados e servimos de exemplo e incentivo para os outros, seja o que fazemos de bom, ruim, certo ou errado, justo ou injusto.

A ética do “cuidado de si” consiste em um conjunto de regras e cuidados de existência que o sujeito dá a si mesmo promovendo de forma coerente, segundo sua vontade e desejo, uma forma ou estilo de vida resultando em uma “estética da existência”.

O cuidado de si não é egoísta, nem egocentrismo, nem tão pouco consiste em uma ética em que o sujeito simplesmente se isole do mundo, mas sim retorna para si mesmo fazendo o exame de consciência para depois agir, não faça ao outro aquilo que não queira para si, não faça ao outro, coisas que eticamente afetem a existência de terceiros.

O cuidado de si na ética da existência é ensinado, nossa educação escolar não pode ficar apenas no âmbito do conhecimento científico e acerca de objetos coisificados, ensinar os saberes do mundo e principalmente acerca do próprio sujeito, a escola pode ensinar as pessoas a falar para si mesmo as verdades, diante do reconhecimento através das verdades ditas se abrirá uma porta para o autoconhecimento de tal forma nós mesmos seremos nossos agentes de transformação da própria vida.

A atividade cultural e artística tem parcela expressiva na vida das pessoas, a vida não é só ensino técnico e trabalho, a vida é muito mais, a vida boa para ser vivida começa em nossa ética existencial, se ainda não aprendemos a ser éticos existencialmente é porque ainda não demos importância ao ser como uma obra de arte, e como toda obra arte é preciso trabalho, foco e a verdade como material para transformação.

 

Fontes

FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes. 2006.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Princípios da coerência educativa

 


Quando falamos em educação estamos nos referindo inicialmente dar a (alguém) todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento de sua personalidade, transmitir saber a; dar ensino a; instruir, atualmente a educação não acontece somente em casa, a sociedade se encarregou de tirar bastante de sua responsabilidade familiar e transferir para a escola.

Para educar é preciso ser coerente, seja em casa ou na escola, todos nós temos direitos e deveres, a começar pelo exemplo explicito em nossas atitudes, os pais que não tem o hábito de colocar as coisas no lugar não consegue convencer os filhos a guardarem seu brinquedos no lugar certo, pois há uma contradição em dizer e fazer, para o mundo do trabalho sabemos que quando recebemos ordens opostas, uma anulando a outra não pode ser obedecida, neste caso estamos sendo “desorientados”, então isto se aplica na educação.

 

O combate ao fumo, álcool e drogas são os grandes vilões sabotadores do sucesso de nossos jovens, a educação incoerente encontra nos exemplos de casa a força para continuar sendo replicada, há pais que fumam e orientam seus filhos a não fumar, que bebem e orientam seus filhos a não beber, se drogam e se alguma vez disseram para não se drogar não se sabe. Desde o simples palavrão permitido e usados dentro do ambiente familiar já começa a deteriorar o respeito familiar, o que se dirá o respeito aos colegas e professores.

Uma lição que aprendi é que primeiro precisamos entender e compreender, são coisas diferentes, quando entendemos uma mensagem é porque a ouvimos e percebemos, mas na prática não compreendemos, basta ouvir nossos pais falarem o que é certo e ao mesmo tempo na pratica fazerem justamente o contrário, então estamos sendo educados, ensinados a ser incoerentes.

Todos nós idosos um dia já fomos jovens, pensávamos que seriamos jovens para sempre, não nos atentávamos aos conceitos, nossa educação foi falha, é preciso aprender sobre os conceitos se quisermos ser jovens, adultos e idosos mais autocontrolados e respeitosos, os conceitos vão além da teoria, precisam de exercício prático pela coerência educativa, o que se diz e o que se faz precisam estar alinhados.

A educação é o caminho para uma sociedade saudável, e precisa ser para todos, o neurocientista Antônio Damásio advertiu que é necessário "educar massivamente as pessoas para que aceitem os outros", porque "se não houver educação massiva os seres humanos vão matar-se uns aos outros".

Mesmo dentro do ambiente escolar há problemas sérios de violência e crueldade, o bullying é o sofrimento de muitas crianças, este sofrimento irá refletir na formação de sua personalidade como adulto, a baixa auto estima alimentada pelos atos de bullying podem desencadear atos de violência que geralmente terminam em tragédias, neste caso o olhar atento dos professores e equipe escolar precisam estar muito atentas, isto também se aplica no ambiente familiar, fica mais difícil de detectar por ficar no mundo privado familiar, porem, novamente, os professores e educadores precisarão estar atentos a indícios apresentados pelo aluno e procurar tratar do problema em suas respectivas esferas, isto enquanto houver tempo.

 

O combate aos vícios e a incoerência vem através da boa educação coerente e constante, o mundo está crescendo em incoerências e inconstâncias, basta observar os diálogos entre os jovens, usando o tempo todo palavrões em todas as frases pronunciadas, copo de cerveja numa mão e o cigarro na outra falando sobre coisas que parecem mais bullying entre eles.

Os jovens de hoje, assim como os jovens de antigamente sempre tiveram o ímpeto de ruptura, no entanto neste mundo louco que gira e muda de forma tão rápida culmina tirando os pontos de referência que não são mais tão duradouros, por exemplo atualmente não se olha para a corrupção isolada, atualmente olhamos a corrupção das instituições, afinal no que os jovens irão acreditar?

Cabe a sociedade retomar o controle fazendo com que os responsáveis pela educação assumam seus papéis não permitindo atos que contrariem o melhor caminho para os jovens, que ajam referencias positivas pelo bom exemplo, que sejam atos na forma das boas palavras, orientações e exemplos pela atitude saudável, sejamos referencias produtivas, positivas, que o bem vencerá o mal sempre que o agir for o agir moralmente correto.

É preciso haver mudanças, pois nossos resultados não estão sendo bons, Einstein já nos dizia que não podemos esperar resultados diferentes fazendo as mesmas coisas sempre da mesma maneira, se queremos outros e melhores resultados precisamos fazer de outra maneira, e não é dando maus exemplos, é sim, dando bons exemplos, sendo coerentes educacionalmente.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Ubuntu: “Eu sou porque nós somos”

Sem dúvida essa é uma belíssima lenda africana, é tão linda e profunda que viralizou no mundo, ela aborda valores sobre cooperação, igualdade e respeito. “Eu sou porque nós somos”. Exemplarmente, a lenda do Ubuntu reforça os valores da paz, da gentileza e da solidariedade…

Conta-se que um antropólogo ao visitar uma tribo africana, quis saber quais eram os valores humanos básicos daquele povo. Para isso, ele propôs uma brincadeira às crianças.

Ele então colocou uma cesta cheia de frutas embaixo de uma árvore e disse para as crianças que a primeira que chegasse até a árvore poderia ficar com a cesta.

Quando o sinal foi dado, algo inusitado ocorreu. As crianças correram em direção à árvore todas de mãos dadas. Assim, todas chegaram juntas ao prêmio e puderam desfrutar igualmente.

O homem ficou bastante intrigado e perguntou:

— Por que vocês correram juntos se apenas um poderia ganhar todas as frutas?

Ao que uma das crianças prontamente respondeu:

— Ubuntu! Como um de nós poderia ficar feliz enquanto os outros estivessem tristes?

O antropólogo ficou então emocionado com a resposta.

Ubuntu é um termo da cultura Zulu e Xhosa que quer dizer "Sou quem sou porque somos todos nós". Eles acreditam que com cooperação se alcança a felicidade, pois todos em harmonia são muito mais plenos.

A essência do Ubuntu é “Ser Humano.” A filosofia Ubuntu trata da essência do ser humano que valoriza a importância do “eu” na sua busca de sentido através do encontro com o outro, numa relação de interdependência construtiva, porem em tempos modernos onde a sociedade vive sob o manto da meritocracia, produtividade, sobrecomunicação, desempenho e consumo estimulado, onde esta a essência do “Ser Humano”? não estaria na contra mão onde o homem deixa de ser livre e permite a auto exploração? Ubuntu é antidoto, é a reflexão para o retorno do homem a essencia de sua criação e permanência na natureza, ao mesmo tempo que a natureza permite que cada um tenha habilidades diferentes, ela quer nos ensinar que sózinhos não somos, somos porque sabemos que “Eu sou porque nós somos”.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Caminhos para o novo ano


A cada virada de ano sentimos que estamos diante de uma nova jornada, sabemos que os novos caminhos dependem de nossos passos, cada passo é importante, que passo se transforme em passada com olhar de curiosidade de uma criança, deste modo tudo será novidade, quantas vezes ouvimos dizerem que a beleza da caminhada está presente no valor que damos a vida e ao viver, de sentir prazer de estar aqui neste mundão, do coração batendo, pulmões respirando, a mente pulsante pelas vibrações da mãe vida, esta percepção são palavras de profundo conhecimento vivido, de tempo presente bem aproveitado.

Dê valor ao seu tempo, valorize cada dia, pense que qualquer tempo que já passou pertence apenas ao que fomos, o presente é um presente do ser e do virá a ser.

Aproveitemos todas as horas, não deixe tudo para o futuro, o futuro é um tempo incerto, O tempo passa...e como passa, a vida se vai, todas as coisas são alheias, o cotidiano é muito exigente, nada é indispensável, só o tempo é nosso, o nosso tempo. Sempre que penso neste tema me lembro de Sêneca, quem não lembra?, afinal este grande filósofo é uma das portas de entrada para pensar o bem viver a boa vida.

Se acredita em simpatias, faça, cada simpatia um foco e um lance de luz no presente, faça de corpo e alma, sopre canela, pule ondinhas, tome banho de ervas, faça o presente ter significado, só não fique adiando, crendice para alguns, crença para outros, não queira saber demais da vida dos outros, saiba mais de sua própria vida, tome as rédeas da própria vida, isto é, se quiser ser verdadeiramente livre, a vida é longa se for plenamente vivida.

Não podemos confundir saber mais com saber demais, saber demais leva a curiosidade sobre a vida alheia e sobre coisas inúteis, isto é fetiche das redes sociais, nas redes sociais se encontra pouca verdade, lá se encontra o desejo do parecer.

Um bom modo de saber mais é debruçar-se sobre estudos de assuntos que são mais preciosos, para mim a filosofia e seus temas exercem um fascínio reiteradamente fomentados pelos pontos, contrapontos, teses, antíteses e sínteses que muitas vezes nos dão um nó no pensamento.

A medida que os estudos avançam, vão aguçando nosso olhar e nossos ouvidos, assuntos que antes passavam sem qualquer reflexão como palavras ao vento, como pandorga sem rabo, agora são retidos e analisados, muitas vezes ficamos contrariados com a indiferença e descaso das palavras soltas, o tempo perdido do proferir das palavras sem o sentido adequado ferem os ouvidos, tornamo-nos chatos e até inconvenientes, porque as vezes nos damos ao direito de tentar corrigir, afinal de que serviria a palavra se ela não tiver sentido, Wittigenstein já nos alertava sobre isto, o que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio.

Nossos passos, tornam-se passadas, o presente torna-se passado, certas coisas só se mostram para quem está no presente, nossa arena é o cotidiano, nele percebemos apenas parte do todo que vivemos, a maioria das pessoas não deliberam antes das ações, vivem no automático, as palavras ditas são também como passos nos conduzindo ao futuro de consequências, as palavras certas e com sentido terão um resultado próximo ao esperado, as palavras soltas sem domínio, serão como pandorga sem rabo, sem direção, sem domínio e as consequências geralmente inesperadas.

O tempo em nossas vidas é elemento crucial, nele foram escritas experiências e hábitos as quais carregamos e herdamos geneticamente de nossos antepassados, nossas famílias são como constelações, deles trazemos as maneiras de vermos a vida, de sentirmos o presente, replicamos quase que automaticamente hábitos indesejados.

Nosso olhar procura e encontra semelhanças que nos encorajam a replicar situações desconfortáveis, neste caso viver o presente talvez precise da análise do passado ancestral para poder nos libertar de hábitos indesejados, as palavras bem ditas e mal ditas fazem parte desta construção, nossos filhos e netos também dependerão em parte da herança genética que estaremos deixando, então alguns ciclos de maus hábitos deverão ser quebrados, quem sabe aprimorando os estudos não estejamos construindo novas formas de pensamento?

Já pensou que ninguém sai desta vida como entrou? Nós seres humanos vamos despertando da ignorância a medida que o conhecimento vai nos envolvendo, chegamos num ponto que devemos fazer escolhas entre deixar a vida me levar ou decidir em tomar as rédeas dela, o conhecimento que nos ilumina é como nossos pais que nos conduzem pela vida quando ainda somos jovens, com eles tivemos os primeiros ensinamentos de como funciona a linguagem, este jogo de palavras, a comunicação oral ligada a comunicação corporal são nossos primeiros contatos com o conhecimento, assim vamos aprendendo como funciona o código das palavras e gestos. Bem ou mal vamos aprendendo a falar e a nos comunicar e é a partir do conhecimento familiar que é replicado ano após ano, de geração para geração, isto até chegar o momento em que procuramos decodificar o verdadeiro conceito das palavras e seus sentidos, para isto escolhemos nossas profissões e interesses de estudos, obviamente a caminhada que iniciamos com o primeiro passo nos transformou e determinou que não sairemos desta vida como entramos.

Nosso tempo muitas vezes é desprezado, o desprezo se dá pela falsa ideia que a morte é algo muito distante, quase inatingível, optamos muitas vezes pelo desperdício de tempo ampliado  e vivido por nossa inconstância e falta de foco, isto retarda nosso crescimento nesta breve vida, cada excitação nos obriga a recomeçar constantemente, sem darmo-nos conta vamos vivendo a vida em pedacinhos e módulos, viver uma breve vida fracionada é viver uma vida sem reflexão, filosofar nesta hora é importante pelas revelações do que realmente importa ser vivido, nossa emancipação das supostas necessidades criadas pela modernidade meritocracia é uma escolha pelo domínio sobre nós mesmos e sem pensamentos vagos e agitados que fomentam a inconstância. 

A natureza já se encarregou sabiamente de proporcionar aos seres humanos seu desenvolvimento psicodinâmico em ciclos, ciclos da vida humana identificados por Erikson e Eizirik como estágios, que vão desde a infância (criança), latência, puberdade, adolescência, adultos jovens, meia-idade, velhice e a morte, neste universo existem uma imensa complexidade de crises psicossociais, cada fase carrega sua própria consciência e desejos conforme a maturidade, o olhar muda conforme a fase, as ideias a respeito das coisas e do tempo também, certamente na velhice não temos mais os desejos de criança e vice-versa, a ideia de tempo na velhice é diferente da ideia de tempo vivido na juventude, na velhice cada dia é vivido como a vida toda, sem que deixemo-nos apegar a ele como se fosse o último, mas o contemplamos como se pudesse também ser o último.

O tempo é importante, nele nos aquietamos e nos entregamos aos nossos pensamentos e meditamos sobre alguma coisa útil, ensinar aos jovens a aquietar a mente, contemplar, meditar, é importante no seu desenvolvimento, a dispersão é um mal verificado nos jovens, muitos são diagnosticados com algum tipo de TDAH, levados a tomar medicamentos na tentativa de lhes proporcionar atenção e foco, filosofar sobre coisas do cotidiano pode ser uma boa formula para os jovens focarem nas situações que vivem, muitas emoções e sentimentos são responsáveis por seu comportamento responsável consigo mesmo e a sociedade, faz toda diferença no presente e em suas fases da vida, suas passadas nesta caminhada poderá ser mais saudavel.

 

Uma boa escolha nestas passadas é o estudo de Filosofia, penso que todos deveriam dar uma passada neste mundo de reflexão, nela podemos encontrar todo o tipo de discussão e orientações daqueles que já estiveram aqui antes de nós, os autores são como parentes que deixaram por escrito formulas e experiências muito profundas. Ler é sempre um bom hábito, nele o tempo presente é bem aproveitado.