Beleza em Chamas
Tem algo
desconcertante na maneira como a gente olha para a destruição. Incêndios
florestais, cidades inundadas, prédios desmoronando — tudo isso deveria
provocar apenas repulsa. Mas não é bem assim. Existe um segundo movimento, mais
silencioso e difícil de admitir: o fascínio.
A gente
para. Observa. Às vezes até se perde na imagem.
Não é
porque queremos o desastre. É porque há, ali, uma força que escapa do cotidiano
domesticado. A destruição rompe a monotonia, quebra a previsibilidade, desmonta
a ordem que a gente passa tanto tempo tentando manter. E isso, de algum jeito
estranho, tem uma estética.
Edmund
Burke já falava de algo parecido ao pensar o “sublime”:
aquilo que nos causa medo, mas também admiração. Diferente do belo, que é suave
e harmonioso, o sublime nos confronta com o excesso — com o que é grande
demais, intenso demais, incontrolável demais. Um incêndio gigantesco não é
“bonito” no sentido clássico. Mas ele carrega essa dimensão de grandeza
assustadora que prende o olhar.
Hoje,
esse fascínio ganhou uma nova camada. A destruição não é só vista — ela é
compartilhada. Vídeos de desastres circulam, acumulam visualizações, viram
quase um tipo de espetáculo. E aí surge uma questão incômoda: quando
assistimos, estamos informados… ou estamos consumindo?
No
cotidiano, isso aparece de formas pequenas. A gente vê imagens de uma enchente
enquanto janta. Assiste a um documentário sobre colapso ambiental antes de
dormir. Comenta um evento extremo como quem comenta o clima. Existe uma
distância confortável que transforma o impacto em imagem — e a imagem em algo,
de certo modo, apreciável.
Talvez o
problema não seja o fascínio em si, mas o que ele faz com a nossa
sensibilidade. Porque, quanto mais a destruição se torna esteticamente
assimilável, menos ela nos mobiliza eticamente. A gente aprende a olhar sem
agir. A sentir sem se comprometer.
E isso
cria uma espécie de anestesia elegante.
Ao mesmo
tempo, negar completamente esse fascínio seria ingênuo. Há algo profundamente
humano em ser capturado pelo que nos excede. A questão é: o que fazemos depois
de olhar? A imagem nos paralisa ou nos desloca? Nos torna espectadores ou
participantes de alguma forma de resposta?
Talvez a
estética da destruição funcione como um espelho meio cruel. Ela revela não só a
força do mundo em colapso, mas também a forma como nos relacionamos com ele. Se
a gente só contempla, transforma a tragédia em paisagem. Se a gente se deixa
afetar de verdade, talvez a beleza inquietante se converta em outra coisa — uma
espécie de urgência.
No fim, o
incêndio continua queimando, independente do nosso olhar. A enchente segue seu
curso. A estrutura desaba.
A
diferença não está no fenômeno.
Está no
que a gente faz com aquilo que, por um instante, nos pareceu — estranhamente —
belo.