Vou
falar sobre persistência, repetição e transformação
Tem
dias em que parece que nada acontece. Acordamos, fazemos o café, respondemos
mensagens, voltamos ao trabalho — e o mundo continua igual. Mas, se olharmos de
perto, veremos que o chão sob nossos pés já não é o mesmo. Mesmo o passo
repetido sobre a calçada de sempre carrega algo de diferente, mesmo que sutil:
uma sensação nova, um pensamento que brota, uma dor que antes não existia. É
sobre isso que vou falar aqui — sobre os passos constantes, essas batidas
ritmadas que desenham nossa vida sem alarde, mas com profundidade. Então, por
que não retornar a este tema como alguém que também observa o passar do tempo,
e cada vez que escreve alguma coisa que já escreveu, sinto que muda e/ou já
mudou como teria dito Heráclito.
A
Constância como Ato Filosófico
A
modernidade nos ensinou a valorizar a mudança brusca, a inovação disruptiva, os
saltos que transformam tudo da noite para o dia. No entanto, há uma filosofia
silenciosa que emerge do que permanece. Não do que estagna, mas do que insiste.
O passo constante, nesse sentido, não é um hábito automático, mas uma postura
de resistência e maturação.
Nietzsche
dizia que nos tornamos quem somos através de longas repetições — e não por
rupturas. Para ele, o “eterno retorno” não é punição, mas oportunidade: repetir
não é apenas repetir, é reencontrar a si mesmo sob novas luzes.
Exemplos
Cotidianos: Onde Moram os Passos Constantes
1.
A mãe que repete gestos silenciosos
Ela
acorda antes de todos, prepara o café, organiza a lancheira, põe o uniforme na
cadeira. Ninguém vê esse roteiro como algo heroico, mas é nele que se constrói
o vínculo, a presença, a sustentação da casa. Ela repete porque ama — e amar,
nesse nível, é insistir.
2.
O trabalhador que pega o mesmo ônibus
Todos
os dias, o mesmo trajeto, o mesmo banco da janela, as mesmas ruas. E, ainda
assim, há algo novo: uma música diferente nos fones, uma pessoa nova que senta
ao lado, uma paisagem que muda com a luz do dia. O passo constante não é sempre
igual — ele permite o surgimento do novo.
3.
O terapeuta que escuta as mesmas dores
Em
sessões semanais, durante meses ou anos, o psicólogo ouve relatos que parecem
repetir-se. Mas nesse movimento de repetição, algo amadurece — uma palavra que
antes não era dita, um gesto de compreensão que antes não vinha. A constância
aqui é o solo da escuta verdadeira.
4.
O estudante que não desiste
Ele
não tem talento fácil, não entende rápido, mas continua. Refaz provas, busca
ajuda, estuda quando ninguém mais acredita. O mundo gosta dos gênios relâmpago,
mas é esse que caminha devagar que carrega uma sabedoria silenciosa: a de não
desistir de si.
Quando
a Constância se Torna Coragem
Seguir
em frente, mesmo sem grandes recompensas imediatas, exige coragem. Num mundo de
estímulos instantâneos, manter o passo é uma espécie de ato subversivo. É negar
a pressa imposta e confiar num tempo mais orgânico, em que os frutos não brotam
por exigência, mas por amadurecimento.
Como
nos lembra Simone Weil, “a atenção prolongada é a forma mais rara e pura
de generosidade”. E atenção é isso: manter-se presente, passo a passo, mesmo
quando tudo nos distrai ou convida à fuga.
O
Olhar de Rubem Alves: Constância como Espera Fecunda
Rubem
Alves, educador e pensador brasileiro, falava da educação
como um ato de “esperança paciente”. Em seus textos, ele recorria à metáfora do
jardineiro: quem planta não tem poder sobre o tempo da colheita, apenas sobre o
cuidado diário. A constância, portanto, não é controle — é confiança.
Em
seu livro Ostra Feliz Não Faz Pérola, Alves escreve:
“O
que nos transforma não são os grandes acontecimentos, mas as repetições
pequenas e silenciosas, como o trabalho do tempo sobre a pedra.”
Para
ele, os passos constantes são também uma forma de amar: só ama de verdade quem
é capaz de permanecer, de repetir gestos aparentemente inúteis, de continuar
quando não há aplausos.
Filosofia
dos Ciclos
Os
passos constantes têm a sabedoria das estações. São como as ondas do mar que
esculpem a pedra, como o vento que molda a montanha ao longo dos séculos. É por
isso que não devemos desprezar o que se repete: ele guarda dentro de si a
potência de tudo o que muda.
Se
há uma revolução verdadeira, talvez ela esteja menos nos gritos e mais na
persistência de quem faz o que precisa ser feito, mesmo quando ninguém vê.
Epílogo:
O Poder de Continuar
Se
o mundo de hoje celebra o instantâneo, talvez devêssemos reaprender o valor do
demorado. Dos processos. Das escadas em vez dos elevadores. Dos livros relidos,
das amizades cultivadas, das ideias maturadas com o tempo.
A
vida não é feita apenas de clímax — mas de passagens discretas, de pequenos
avanços quase invisíveis. E talvez a filosofia dos passos constantes seja essa:
viver não como quem corre atrás de tudo, mas como quem caminha fielmente com
aquilo que importa.
Há
uma beleza modesta e poderosa em continuar. Em não desistir. Em repetir os
passos, não como quem gira em círculos, mas como quem sobe uma espiral
invisível. Os passos constantes não são estáticos — eles são discretamente
ascendentes.
E é neles que mora a verdadeira transformação.