Pesquisar este blog

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Uma homenagem a minha falecida mãe!

 


Em oito de junho de 1932 nascia ÓRIA, nasceu no seio de uma família pobre, riograndina, de médiuns, ela nasceu com o dom divino da mediunidade, demonstrou ter esta habilidade desde tenra idade, com o passar do tempo desenvolveu sua habilidade de clarividência.

Seu desenvolvimento espiritual ocorreu através do batismo e comunhão na igreja católica, a mediunidade foi trabalhada nos terreiros de umbanda e orixás, estudou a doutrina kardecista. Quando comprovou sua habilidade de clarividência, foi no terreiro que conquistou o axé de “cartas”, passando a fazer a leitura de cartas em baralho cigano.

Ela foi uma ótima cartomante, não precisava do baralho para fazer a leitura das aflições dos consulentes, bastava olhar para sentir e interpretar.

Sob influência dos espíritos de luz passou a atender as pessoas com algum tipo de questionamento interno e essencial, seja através da leitura de cartas ou nas reuniões espíritas, incorporava entidades desenvolvidas do plano superior, trazendo conforto e coragem na tomada de decisões, atendia a todos que a procuravam pedindo ajuda, sua filosofia consistia na valorização da pessoa no aspecto de potencial interior de cada um.

Ao longo de sua vida, atendeu milhares de pessoas, com ajuda do baralho cigano estabelecia um contato mais próximo com as pessoas, ajudando-os a olhar o presente com seus questionamentos pessoais, para depois então procurar olhar para o futuro com fins adivinhatórios, o baralho era como uma ferramenta do mais alto nível e dentro do devido contexto dava a devida orientação, utilizava o baralho como instrumento, como um intermediário que tinha a possibilidade de olhar o passado, presente e futuro, quase como uma máquina do tempo de vivências.

Algumas perguntas que seguidamente faziam a ela era se havia livre-arbítrio ou apenas destino? Pois se existe livre-arbítrio, como podemos acreditar que há destino? Se existe destino, como podemos fazer escolhas? São perguntas filosóficas até hoje são objeto de questionamento. Na academia, no curso de filosofia me deparei com este tipo de questionamento, na hora lembrei da resposta da cartomante que era a senhora minha mãe!

A resposta que ela dava e eu aprendi, trago comigo como um aprendizado era a seguinte:

 

Toda a pessoa tem a possibilidade de conduzir seu próprio destino, a questão do livre-arbítrio e do predeterminismo continua e continuará nos afligindo, entendemos que todos sem exceção somos regidos por leis cósmicas. Mas para que complicar o que pode ser descomplicado e simples, dentro do possível e de limites cósmicos podemos circular dentro de um perímetro limitado, essa limitação é o que chamamos de destino de cada um conforme seus karmas construídos em vidas passadas e em outras encarnações, logo consciente de que o que se faz hoje refletira no futuro, nossas escolhas estabelecem e estabelecerão o perímetro que poderemos circular no futuro e com suas possibilidades de escolhas. Não estamos sozinhos neste mundo, viemos para cá cientes que estaremos sendo assistidos pela providência divina e seus colaboradores de planos superiores que trabalham e atuam no mundo físico de modo a nos ajudar com a melhor escolha, sendo nossa a decisão a ser tomada.

Talvez esta resposta possa servir para alguém, para mim é significativa e responde de forma pedagógica. Esta questão e outras que surgiram ao longo de minha vida foram respondidas por ela, por seu espírito iluminado, como um curso de graduação de longo prazo, num tipo de treinamento a oráculo da modernidade.


Concordo com a explicação dela, penso correto rejeitar o determinismo, o determinismo como “inércia” sustentadora – se alguém não seja responsável por suas ações e atitudes, a vontade de agir de modo saudável, e não de um modo não benéfico, é reprimida. Por outro lado, devemos também rejeitar o indeterminismo, quando ele declara que todas as experiências e eventos surgem devido ao puro acaso, sem depender de quaisquer causas ou condição. Há de fato um espaço, um perímetro onde posso atuar conforme minhas escolhas do passado e as atuais escolhas que me trouxeram até aqui e para onde eu daqui para frente quiser seguir, devo então fizer a minha parte fazendo as melhores escolhas, vivemos num gigantesco tabuleiro de xadrez onde as regras, são regras da vida, e uma destas regras nos permite participar da construção de nosso destino, se não sabem outro nome de Deus é destino.


Ela acreditava que quando jogava as cartas ciganas, usava como um jogo de autoconhecimento do ser humano, pensava como se fosse uma terapia para confrontar a insegurança, medo, angustias, tristezas, durante as consultas discutiam as possibilidades de escolhas e assim fortaleciam a possibilidade do livre-arbítrio.

 

Benzedeira de “mãos cheias”, cheias de luz, era muito procurada para benzer contra mal olhado, espinhela caída, quebrante, cobreiro, agitação, e outros males físicos e espirituais. Movia sua mão em sinal da cruz e recitava as rezas de benzimento, com galho de arruda movia de um lado a outro como um maestro regendo uma música vital, compartilhava o que aprendeu e era ensinado desde muitas gerações.

 

Ela representa o que havia de melhor nesta geração de ferro que está findando, foi ela sem estudos que nos educou para a vida e para os estudos, aquela que, apesar da falta de tudo nunca deixou que nos faltasse o essencial em casa.

Me ensinou a amar os livros e os estudos!

Me ensinou o significado e a diferença entre sentir pena ou compaixão!

Algumas pessoas como ela nasceram e desenvolveram o dom divino da mediunidade, conviver com ela foi um privilégio, tive a felicidade e privilégio em nascer, viver numa família de médiuns. Convivi muito próximo de experiências transcendentais e metafísicas, minha mentora, minha mãe que iluminou e ainda ilumina minha vida através de minhas memórias, já não está mais neste plano, ela desencarnou há seis anos atrás, em trinta de abril de 2015.

Aprendi com ela que existem outros planos além deste que habitamos, este plano é um mundo de provas e expiações em fase de mudança para um mundo de regeneração.

Aprendi que a leitura das cartas ciganas não é um ato de falta de fé, basta não duvidar de que Deus nos reserva será sempre o que for para nosso melhor, olhar para o futuro pode ser utilizado para fins terapêuticos, como forma de estudar as possibilidades de nossas novas atitudes, aprender a lidar com os bloqueios emocionais e seus reflexos negativos, ajudando o consulente a resgatar o entusiasmo pela vida, resolver conflitos emocionais, entre tantos outros benefícios.

Conviver com este espírito iluminado foi um curso de filosofia e psicologia!

Deixei por último o que mais importa...


Nos ensinou o significado de educação, criou e educou três filhos e uma filha, protegendo-nos com conselhos, estabelecendo valores que nos guiariam por toda a vida, deixando-nos tomar nossas próprias decisões, encorajando-nos quando caiamos, e era firme quando deveria sem proteger demais, foi ela que nos socializou com o mundo.
 
Ainda lembro do cheiro do alho amassado na faça fritando junto com a cebola cortada bem miudinha, e uma folha de louro para preparar um feijão solteiro. A couve e a chuleta, o arroz branco,  tudo preparado com capricho e muito amor! Eta saudade! Eta saudade, dor que não passa! É como chuva, vái e vem, ora amena, ora forte e torrencial! A saudade como a chuva vem para nos dizer que a vida é assim, faz nos lembrar que somos gente, pessoas, seres humanos, somos todos assim! 
 
Saudade tem o cheiro do pão assando, sempre que o sentimos vibramos! Saudade também tem o olfato do coração.
 
Saudade não é prisão, saudade é o amor que foi e é reciproco! 

Mesmo diante de todas as dificuldades materiais, ela nos compensava com muito amor, dizia-nos: o pouco com qualidade é o mais importante, estamos juntos, vivendo, e compensando a falta com o amor de cada um, quando criança não entendíamos direito, mas sentíamos que naquelas palavras havia a sabedoria de mãe, de nossa mãe.

Através de seu exemplo sempre nos encorajou e repetia seguidamente: nunca percam a fé em Deus! Tenham sempre fé no grande Pai!

Não nos ensinou a temer a Deus, nos ensinou a amar Deus!

Estas são apenas uma pitada de lembranças que me acompanham!