Mais
de uma vez fotografei esta arvore, perdi a conta de quantas vezes, a imagem
sempre me impressionou, o compartilhamento no abraço que já dura décadas? Não sei,
não é pouco tempo, ela fica na Redenção, Parque Farroupilha em Porto Alegre, ao
lado do lago dos pedalinhos, ela esta sempre lá impressionando os visitantes
observadores.
Há
algo de profundamente perturbador — no melhor sentido — na imagem de duas
árvores que parecem se abraçar. Perturbador porque desloca nossa ideia de
sujeito: não são pessoas, não são animais com intenções claras, e ainda assim
ali está um gesto que reconhecemos imediatamente. Um abraço. Ou melhor, a forma
de um abraço. E talvez seja justamente nesse intervalo — entre forma e intenção
— que a filosofia começa.
O
abraço humano costuma ser entendido como um ato de vontade: decidimos envolver
o outro, acolher, proteger, ou até dominar. Mas quando vemos esse
entrelaçamento vegetal, somos obrigados a abandonar a ideia de que o abraço é
exclusivamente um gesto consciente. Aqui, ele emerge como consequência do
crescimento, da busca por luz, da adaptação ao espaço. Não houve decisão —
houve encontro. Isso sugere uma hipótese inquietante: e se o abraço não for,
essencialmente, um ato de escolha, mas uma propriedade do encontro entre
existências?
As
árvores não se abraçam para comunicar algo; elas se abraçam porque coexistem. O
tronco que cresce encontra outro corpo, e ao invés de recuar, contorna,
envolve, incorpora. Não há recusa. Não há negociação. Há continuidade. Nesse
sentido, o “abraço” vegetal revela uma forma mais radical de relação: uma em
que o outro não é apenas acolhido, mas integrado à própria forma de ser.
Isso
nos leva a repensar o próprio conceito de identidade. No mundo humano, tendemos
a imaginar o eu como algo delimitado, separado, protegido por fronteiras. O
abraço, então, vira exceção — um momento temporário de suspensão dessas
fronteiras. Já na cena das árvores, a fronteira não é suspensa: ela é
redesenhada. O que antes era dois torna-se um sistema compartilhado de forças,
tensões e sustentação. O abraço deixa de ser um evento e passa a ser uma
estrutura.
Há
também uma dimensão temporal que escapa à experiência humana. Um abraço entre
pessoas dura segundos ou minutos; aqui, ele dura anos, décadas, talvez séculos.
Não é um gesto efêmero, mas um processo contínuo. A cada estação, o contato se
aprofunda, as formas se ajustam, a pressão se redistribui. O abraço não
acontece — ele se torna. Isso sugere que, na natureza, as relações mais
significativas não são instantâneas, mas lentas, quase imperceptíveis,
construídas no ritmo do tempo longo.
Mas
há uma ambiguidade inevitável. Esse abraço é acolhimento ou disputa? Uma árvore
envolve a outra para sustentar ou para competir por espaço e luz? A beleza da
imagem está justamente em recusar uma resposta simples. Talvez seja ambos.
Talvez todo abraço carregue essa dualidade: proximidade que nutre e, ao mesmo
tempo, limita; união que protege e também transforma irreversivelmente. A
natureza não separa essas dimensões — somos nós que insistimos em fazê-lo.
O
que essa imagem propõe, então, não é uma metáfora sentimental, mas um
deslocamento ontológico. Ela nos convida a imaginar relações que não dependem
de intenção, afeto ou linguagem, mas que ainda assim produzem formas
reconhecíveis de conexão. Um abraço que não é dado, mas que emerge. Um vínculo
que não se declara, mas se encarna.
Penso
que talvez, no fundo, o que vemos ali não seja duas árvores imitando um gesto
humano. Talvez sejamos nós que, ao abraçar, repetimos — de forma breve e
consciente — algo muito mais antigo: a tendência fundamental da vida de tocar,
envolver e continuar no outro.


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