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sábado, 23 de agosto de 2025

Alienações do Trabalho


No meio da correria do dia, muita gente já se pegou pensando: “mas afinal, o que estou fazendo da minha vida dentro desse emprego?” É como se a pessoa acordasse, pegasse ônibus lotado, batesse o ponto, cumprisse ordens, e no final do mês recebesse um salário que mal cobre as contas. O estranho é que, no processo todo, ela sente que pouco ou nada dela mesma está presente. O trabalho está lá, mas a pessoa parece estar em outro lugar. Essa sensação tem nome antigo e pesado: alienação.

Alienar-se é afastar-se de si, é ver sua energia criativa ser sugada para algo que não tem rosto, cheiro ou significado. Pense em um operário que monta cem peças por dia, mas nunca vê o produto final. Ou no motorista de aplicativo que roda até a madrugada, sem reconhecer a cidade que cruza porque tudo se tornou quilometragem e tarifa. Até no escritório de vidro, com ar-condicionado e café expresso, a alienação pode morar: quando alguém passa horas preenchendo relatórios sem nunca entender a finalidade deles.

Karl Marx descreveu quatro formas de alienação: do produto (não reconhecemos aquilo que fazemos), do processo (não controlamos como fazemos), da nossa essência (perdemos a criatividade e a humanidade no trabalho), e dos outros (transformamos colegas em competidores). No fundo, é como se o trabalho, que deveria ser espaço de realização, fosse sequestrado pela lógica da sobrevivência.

No Brasil, a alienação tem ainda um sabor particular. Como lembra o crítico e pensador Roberto Schwarz, a desigualdade social molda nossa relação com o trabalho: aqui, muitas vezes, trabalhar não é caminho para emancipação, mas apenas um jeito de se manter à tona. Assim, a alienação não é só uma sensação abstrata — ela se confunde com a realidade concreta de milhões que vivem de bicos, subempregos ou de jornadas intermináveis.

O mais curioso é que, mesmo diante disso, muitos ainda encontram brechas de resistência: um pedreiro que canta enquanto levanta uma parede, uma professora que inventa jogos para ensinar mesmo com falta de recursos, ou um vendedor que cria amizades sinceras no meio das metas sufocantes. Nessas pequenas rachaduras, a alienação não desaparece, mas é lembrada de que não venceu completamente.

Em resumo, falar de alienações do trabalho é falar de um paradoxo: aquilo que deveria nos aproximar da vida, muitas vezes, nos afasta dela. O desafio está em transformar o trabalho em algo que devolva sentido — nem sempre possível, mas sempre desejável.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Alienação

A vida na superfície é tentadora. É fácil seguir o fluxo, passar de um evento para o outro, sem nunca parar para refletir. Há quem navegue nas ondas cotidianas como se estivesse em uma prancha de surfe, deslizando sem esforço por compromissos, encontros e distrações. Mas o que acontece quando nunca olhamos para o abismo que existe dentro de nós? Alienado de si mesmo, aquele que não se permite um mergulho interior vive na superficialidade, onde o profundo é ignorado, e a própria essência se torna um estranho.

Surfando a Superfície da Vida

Imagine uma pessoa que segue a maré do dia a dia: acorda, trabalha, participa de conversas sem profundidade, e no fim do dia se anestesia com entretenimento. Nunca questiona suas motivações, nunca se pergunta o porquê de seus comportamentos. Vive num estado de piloto automático, respondendo aos estímulos externos como um reflexo, sem realmente parar para se entender. Esse modo de existir é uma forma de alienação, mas uma alienação não do mundo, e sim de si mesmo. Não é raro encontrarmos quem nunca se fez a pergunta: "Quem sou eu, além do que aparento ser?"

Pensadores como Søren Kierkegaard falaram sobre esse tipo de vida, onde o indivíduo evita enfrentar as questões fundamentais de sua própria existência. Para Kierkegaard, a maior tragédia de uma vida é nunca ter se confrontado com essas questões. Ele chamava isso de "desespero", um estado em que o ser humano vive sem perceber sua própria falta de autenticidade.

O Conforto da Superfície

Surfar a vida na superfície traz conforto. É um mundo de certezas fáceis e respostas rápidas, onde nunca precisamos encarar os dilemas e as contradições internas. É fácil permanecer na zona de conforto, onde as perguntas mais dolorosas — "Estou vivendo de acordo com quem realmente sou?" ou "Estou satisfeito com a minha existência?" — são constantemente abafadas por distrações.

As redes sociais, por exemplo, são um reflexo perfeito dessa vida na superfície. Vemos as versões editadas de nossos próprios dias, a perfeição estética nas fotos, as opiniões simplificadas em poucas palavras. Mas, por trás dessas imagens, há um vazio que muitos evitam encarar. Viver alienado de si mesmo é como vestir uma máscara todos os dias e esquecer que há um rosto real por trás dela.

A Negação do Mergulho Interior

Há uma espécie de medo em olhar para dentro. O mergulho nas profundezas de si mesmo pode revelar sentimentos desconfortáveis, memórias que preferimos evitar ou mesmo o reconhecimento de que não estamos vivendo a vida que desejamos. Talvez seja essa a razão pela qual muitos evitam esse encontro consigo mesmos. Fica mais fácil acreditar que a vida é simplesmente o que acontece na superfície, e que o interior é um mistério que não vale a pena desvendar.

Mas, como alertava Carl Jung, aquele que evita conhecer seu interior está condenado a ser guiado por ele. Os aspectos reprimidos de nossa psique não desaparecem, apenas se manifestam de maneiras que muitas vezes não entendemos. As frustrações, ansiedades e insatisfações que surgem sem explicação podem ser indícios de que a pessoa está alienada de sua verdadeira essência.

Resgatando a Autenticidade

Quem olha para dentro, por outro lado, começa a se reconectar com sua autenticidade. O mergulho interior é um processo de autodescoberta, onde enfrentamos tanto nossas sombras quanto nossa luz. Não é um caminho fácil, mas é aquele que leva a uma vida mais plena e consciente.

Por exemplo, a prática de momentos de reflexão, seja por meio da meditação, da escrita ou simplesmente de momentos de silêncio, pode nos reconectar com o que realmente importa. Em vez de seguir o fluxo das expectativas externas, começamos a ouvir nossa própria voz interior, que muitas vezes foi abafada pela correria do cotidiano.

Como dizia Platão, "Conhece-te a ti mesmo". É uma frase tão antiga quanto fundamental, mas poucos a colocam em prática. Olhar para dentro é uma jornada que requer coragem, pois podemos descobrir que nem sempre somos quem pensávamos ser. No entanto, é a única forma de escapar da alienação de si mesmo e começar a viver de maneira mais autêntica e consciente.

Surfar na superfície da vida pode ser fácil, mas essa facilidade tem um custo: a desconexão consigo mesmo. Aqueles que nunca param para refletir, que nunca questionam suas motivações mais profundas, estão condenados a uma vida alienada, onde o verdadeiro eu permanece desconhecido. Ao mergulhar no abismo interior, mesmo que inicialmente assustador, é possível reencontrar a própria autenticidade e viver uma existência mais significativa. Afinal, como dizia Jung, "Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta."