No
meio da correria do dia, muita gente já se pegou pensando: “mas afinal, o
que estou fazendo da minha vida dentro desse emprego?” É como se a pessoa
acordasse, pegasse ônibus lotado, batesse o ponto, cumprisse ordens, e no final
do mês recebesse um salário que mal cobre as contas. O estranho é que, no
processo todo, ela sente que pouco ou nada dela mesma está presente. O trabalho
está lá, mas a pessoa parece estar em outro lugar. Essa sensação tem nome
antigo e pesado: alienação.
Alienar-se
é afastar-se de si, é ver sua energia criativa ser sugada para algo que não tem
rosto, cheiro ou significado. Pense em um operário que monta cem peças por dia,
mas nunca vê o produto final. Ou no motorista de aplicativo que roda até a
madrugada, sem reconhecer a cidade que cruza porque tudo se tornou
quilometragem e tarifa. Até no escritório de vidro, com ar-condicionado e café
expresso, a alienação pode morar: quando alguém passa horas preenchendo
relatórios sem nunca entender a finalidade deles.
Karl
Marx
descreveu quatro formas de alienação: do produto (não reconhecemos aquilo que
fazemos), do processo (não controlamos como fazemos), da nossa essência
(perdemos a criatividade e a humanidade no trabalho), e dos outros
(transformamos colegas em competidores). No fundo, é como se o trabalho, que
deveria ser espaço de realização, fosse sequestrado pela lógica da
sobrevivência.
No
Brasil, a alienação tem ainda um sabor particular. Como lembra o crítico e
pensador Roberto Schwarz, a desigualdade social molda nossa relação com
o trabalho: aqui, muitas vezes, trabalhar não é caminho para emancipação, mas
apenas um jeito de se manter à tona. Assim, a alienação não é só uma sensação
abstrata — ela se confunde com a realidade concreta de milhões que vivem de
bicos, subempregos ou de jornadas intermináveis.
O
mais curioso é que, mesmo diante disso, muitos ainda encontram brechas de
resistência: um pedreiro que canta enquanto levanta uma parede, uma professora
que inventa jogos para ensinar mesmo com falta de recursos, ou um vendedor que
cria amizades sinceras no meio das metas sufocantes. Nessas pequenas
rachaduras, a alienação não desaparece, mas é lembrada de que não venceu
completamente.
Em
resumo, falar de alienações do trabalho é falar de um paradoxo: aquilo que
deveria nos aproximar da vida, muitas vezes, nos afasta dela. O desafio está em
transformar o trabalho em algo que devolva sentido — nem sempre possível, mas
sempre desejável.
