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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Questão de Ostentação


Há dias em que a gente não quer nada demais: só um café honesto, uma conversa sem performance e um silêncio que não precise ser explicado. Mas basta abrir o celular para perceber que o mundo anda um pouco mais barulhento do que isso. Não pelo som, mas pela exibição. Tudo parece pedir palco. A refeição, a viagem, o corpo, a opinião, a dor. Ostentar virou um modo de existir — e talvez seja isso que mereça atenção filosófica.

Ostentar não é apenas mostrar

Tradicionalmente, ostentação era associada ao excesso material: ouro, carros, casas grandes demais para poucas pessoas. Hoje, ela se sofisticou. Ostenta-se sensibilidade, engajamento, cansaço, espiritualidade, simplicidade. Há quem ostente até o desprezo pela ostentação. O que mudou não foi o gesto, mas o objeto exibido.

Filosoficamente, a ostentação nasce do olhar do outro. Nada é ostentação em solidão. Ela exige plateia. Nesse sentido, aproxima-se mais do reconhecimento do que do desejo. Não se trata de querer algo, mas de querer ser visto querendo — ou já possuindo.

Hegel já intuía isso quando falava da luta por reconhecimento: o sujeito só se afirma plenamente quando é reconhecido por outro sujeito. O problema começa quando o reconhecimento deixa de ser consequência do que se é e passa a ser a finalidade do que se faz.

O cotidiano como vitrine involuntária

No cotidiano, a ostentação se manifesta em pequenas cenas quase imperceptíveis. O colega que deixa a chave do carro “sem querer” sobre a mesa. A pessoa que menciona o preço antes mesmo de elogiarem o objeto. O discurso casual que inclui viagens internacionais como quem fala do mercado da esquina. Nada disso é inocente, mas também não é, necessariamente, perverso. É humano.

Há também a ostentação moral. Aquela que aparece quando alguém não apenas faz o bem, mas faz questão de documentá-lo. Não basta ajudar; é preciso que se saiba que ajudou. Aqui, a virtude corre o risco de virar adereço. Como diria Aristóteles, a ética deixa de ser hábito silencioso e se transforma em espetáculo.

E há ainda a ostentação do sofrimento. O cansaço elevado a medalha. A agenda lotada como prova de valor. “Estou exausto” já não é um pedido de pausa, mas um atestado de importância.

Ostentação como medo disfarçado

Por trás da ostentação, raramente há plenitude. O que se encontra com mais frequência é insegurança. Ostenta-se para não desaparecer. Para não ser confundido com o comum. Num mundo que mede valor por visibilidade, o anonimato soa como fracasso.

Aqui, a ostentação se revela menos como arrogância e mais como defesa. Um modo de dizer: “eu existo, eu conto, eu importo”. O problema é que, quando a existência depende do aplauso, o silêncio vira ameaça. E a vida, um esforço contínuo de manutenção de imagem.

Byung-Chul Han observa que vivemos numa sociedade da transparência, onde tudo deve ser exposto, compartilhado, mostrado. Nesse cenário, o que não aparece parece não existir. Ostentar torna-se quase uma obrigação social.

A elegância do que não precisa provar nada

Há, contudo, uma força discreta no não ostentar. Uma espécie de elegância ontológica. Quem não precisa mostrar geralmente está ocupado vivendo. Quem não precisa afirmar, já é. Isso não significa ascetismo nem negação do prazer, mas liberdade em relação ao olhar alheio.

No cotidiano, isso aparece na pessoa que usa o mesmo relógio há anos sem jamais mencioná-lo. No profissional competente que não se apresenta com títulos, mas com escuta. No gesto generoso que não vira postagem. São formas de riqueza que não pedem legenda.

Menos vitrine, mais morada

A questão da ostentação não é moralizar o ato de mostrar, mas perguntar: para quem estou vivendo? Se cada escolha precisa ser exibida para ganhar sentido, talvez o sentido esteja fora demais de nós.

Viver não é montar um catálogo de si mesmo. É habitar a própria experiência. E talvez a verdadeira distinção, hoje, esteja justamente nisso: conseguir viver algo que não precise ser mostrado para ser real.