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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Questão de Ostentação


Há dias em que a gente não quer nada demais: só um café honesto, uma conversa sem performance e um silêncio que não precise ser explicado. Mas basta abrir o celular para perceber que o mundo anda um pouco mais barulhento do que isso. Não pelo som, mas pela exibição. Tudo parece pedir palco. A refeição, a viagem, o corpo, a opinião, a dor. Ostentar virou um modo de existir — e talvez seja isso que mereça atenção filosófica.

Ostentar não é apenas mostrar

Tradicionalmente, ostentação era associada ao excesso material: ouro, carros, casas grandes demais para poucas pessoas. Hoje, ela se sofisticou. Ostenta-se sensibilidade, engajamento, cansaço, espiritualidade, simplicidade. Há quem ostente até o desprezo pela ostentação. O que mudou não foi o gesto, mas o objeto exibido.

Filosoficamente, a ostentação nasce do olhar do outro. Nada é ostentação em solidão. Ela exige plateia. Nesse sentido, aproxima-se mais do reconhecimento do que do desejo. Não se trata de querer algo, mas de querer ser visto querendo — ou já possuindo.

Hegel já intuía isso quando falava da luta por reconhecimento: o sujeito só se afirma plenamente quando é reconhecido por outro sujeito. O problema começa quando o reconhecimento deixa de ser consequência do que se é e passa a ser a finalidade do que se faz.

O cotidiano como vitrine involuntária

No cotidiano, a ostentação se manifesta em pequenas cenas quase imperceptíveis. O colega que deixa a chave do carro “sem querer” sobre a mesa. A pessoa que menciona o preço antes mesmo de elogiarem o objeto. O discurso casual que inclui viagens internacionais como quem fala do mercado da esquina. Nada disso é inocente, mas também não é, necessariamente, perverso. É humano.

Há também a ostentação moral. Aquela que aparece quando alguém não apenas faz o bem, mas faz questão de documentá-lo. Não basta ajudar; é preciso que se saiba que ajudou. Aqui, a virtude corre o risco de virar adereço. Como diria Aristóteles, a ética deixa de ser hábito silencioso e se transforma em espetáculo.

E há ainda a ostentação do sofrimento. O cansaço elevado a medalha. A agenda lotada como prova de valor. “Estou exausto” já não é um pedido de pausa, mas um atestado de importância.

Ostentação como medo disfarçado

Por trás da ostentação, raramente há plenitude. O que se encontra com mais frequência é insegurança. Ostenta-se para não desaparecer. Para não ser confundido com o comum. Num mundo que mede valor por visibilidade, o anonimato soa como fracasso.

Aqui, a ostentação se revela menos como arrogância e mais como defesa. Um modo de dizer: “eu existo, eu conto, eu importo”. O problema é que, quando a existência depende do aplauso, o silêncio vira ameaça. E a vida, um esforço contínuo de manutenção de imagem.

Byung-Chul Han observa que vivemos numa sociedade da transparência, onde tudo deve ser exposto, compartilhado, mostrado. Nesse cenário, o que não aparece parece não existir. Ostentar torna-se quase uma obrigação social.

A elegância do que não precisa provar nada

Há, contudo, uma força discreta no não ostentar. Uma espécie de elegância ontológica. Quem não precisa mostrar geralmente está ocupado vivendo. Quem não precisa afirmar, já é. Isso não significa ascetismo nem negação do prazer, mas liberdade em relação ao olhar alheio.

No cotidiano, isso aparece na pessoa que usa o mesmo relógio há anos sem jamais mencioná-lo. No profissional competente que não se apresenta com títulos, mas com escuta. No gesto generoso que não vira postagem. São formas de riqueza que não pedem legenda.

Menos vitrine, mais morada

A questão da ostentação não é moralizar o ato de mostrar, mas perguntar: para quem estou vivendo? Se cada escolha precisa ser exibida para ganhar sentido, talvez o sentido esteja fora demais de nós.

Viver não é montar um catálogo de si mesmo. É habitar a própria experiência. E talvez a verdadeira distinção, hoje, esteja justamente nisso: conseguir viver algo que não precise ser mostrado para ser real.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Tecnologia Distante


As telas nos aproximaram de quem está longe — e nos afastaram de quem está perto. O toque virou emoji, o diálogo virou notificação. Estamos conectados, mas nem sempre comunicados.

O problema não é a tecnologia, mas o modo como ela ocupa o silêncio. Preenchemos o vazio com barulho digital, e esquecemos o valor de estar simplesmente junto, sem precisar digitar nada.

Tecnologia distante é aquela que nos conecta e, ao mesmo tempo, nos afasta do que está ao nosso redor. Outro dia, vi meu sobrinho todo concentrado no notebook, os olhos grudados na tela, enquanto a família conversava na sala. Ele respondia mensagens, assistia a vídeos e jogava, mas parecia em outro mundo, separado do cheiro do café, do riso da tia, do toque do cachorro no tapete. É curioso como a tecnologia aproxima pessoas que estão longe e, paradoxalmente, cria uma distância silenciosa entre quem está perto. No fim, ela nos lembra que nem todo contato é contato de verdade.

Byung-Chul Han, filósofo coreano, fala da “sociedade do cansaço” — uma era em que o excesso de estímulos nos exaure. Talvez seja hora de reaprender a desconectar para, enfim, nos conectar de verdade.

A presença continua sendo o melhor sinal de internet.


domingo, 19 de outubro de 2025

Violência Neural

O esgotamento invisível da mente

Outro dia, sentado num café, percebi que quase ninguém olhava para o próprio café. As pessoas estavam ali, mas suas mentes pareciam flutuar em outro lugar, perdidas em notificações, pensamentos fragmentados, urgências silenciosas. Ninguém gritava, ninguém brigava — mas havia uma espécie de violência pairando no ar. Uma violência sem sangue, sem ruído, quase doce: a violência de estar sempre ligado.

Byung-Chul Han, o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, chama isso de “violência neural” — uma forma de agressão que não vem de fora, mas de dentro. É a violência da autoexploração, do excesso de positividade, da cobrança constante por desempenho. Vivemos, segundo ele, numa era em que o poder já não precisa oprimir com força: basta induzir o sujeito a se autoexplorar, acreditando que é livre.

Essa é a ironia trágica: o trabalhador contemporâneo não tem mais um patrão de chicote na mão — ele é o próprio patrão e o próprio escravo. O cansaço, a ansiedade e a exaustão que carregamos não vêm mais de um inimigo externo, mas da nossa própria mente que não consegue parar.

Han observa que saímos da “sociedade disciplinar”, descrita por Foucault — onde o poder se exercia por meio de proibições, deveres e castigos — e entramos na sociedade do desempenho, onde tudo se resume a “poder fazer mais”. Mas esse “poder” virou um dever mascarado. O sujeito acredita que está se realizando, quando na verdade está se consumindo. A positividade virou uma espécie de violência invisível: sorrimos enquanto adoecemos.

No cotidiano, essa lógica aparece nas pequenas coisas. Acordamos e a primeira luz que toca o rosto é a do celular. Antes mesmo de levantar da cama, já respondemos mensagens, conferimos e-mails e deslizamos o dedo por notícias e conteúdos que não escolhemos de fato. O corpo ainda está no quarto, mas a mente já foi sequestrada pelo fluxo ininterrupto de informações. A cada toque, uma descarga de dopamina — e um pouco mais de cansaço.

As redes sociais tornaram-se o grande palco dessa violência. Nelas, todos se transformam em pequenas marcas pessoais, vendendo versões editadas de si mesmos. O sujeito não se expressa mais: se expõe. A fronteira entre vida e performance desapareceu. A ansiedade de ser visto, curtido, compartilhado cria um tipo de vigilância sem vigia — o olhar do outro está sempre presente, mesmo quando não há ninguém por perto.

E o mais curioso é que ninguém nos obriga a isso. Não há coerção externa, apenas uma sedução interna: queremos participar, queremos pertencer, queremos ser reconhecidos. Como diria Han, é um poder que não reprime, mas estimula. E é justamente isso que o torna tão eficaz.

No ambiente de trabalho, a violência neural assume formas ainda mais sofisticadas. O antigo controle do relógio de ponto deu lugar ao culto da produtividade. Já não basta cumprir o expediente: é preciso render, inovar, aprender continuamente. O descanso virou uma ameaça à eficiência. Mesmo fora do horário de trabalho, as pessoas continuam conectadas, respondendo mensagens, planejando entregas, antecipando problemas. O tempo livre se dissolveu na lógica da performance.

Há uma cena recorrente que traduz bem essa sensação: o trabalhador que, à noite, deita exausto e sente culpa por não ter feito mais. Ele não sofreu nenhuma opressão externa — apenas acreditou que poderia ter sido mais produtivo. O fracasso agora é vivido como falha pessoal, não como sintoma de um sistema.

Han chama isso de “autoexploração voluntária”. O sujeito acredita que é autônomo, mas vive preso a um imperativo silencioso: faça mais, mostre mais, seja mais. Essa crença gera o que ele denomina cansaço patológico — um esgotamento que não é físico, mas mental e espiritual. O cérebro, sobrecarregado de estímulos, perde a capacidade de se aquietar.

A consequência é uma epidemia de sofrimento invisível. Depressão, burnout, ansiedade e distúrbios de atenção não são apenas doenças individuais — são sintomas sociais. São expressões de uma estrutura que nos obriga a estar sempre ativos, sempre disponíveis, sempre performando. A violência neural é, portanto, a face psíquica de um sistema que descobriu como explorar sem precisar mandar.

A cada nova tecnologia, acreditamos ganhar tempo — mas, na verdade, perdemos tempo de qualidade. Ganhamos velocidade e perdemos profundidade. Vivemos num presente fragmentado, feito de microinterações, microrecompensas e microfrustrações.

Han sugere que o antídoto não está na resistência agressiva, mas na contemplação. Recuperar a capacidade de estar em silêncio, de suportar o tédio, de habitar o próprio tempo sem culpa. Em A Sociedade do Cansaço, ele diz: “A aceleração e a agitação produzem uma ausência de mundo.” E sem mundo — isto é, sem espaço para reflexão e encontro — a alma se dissolve.

É curioso que, enquanto o Ocidente corre atrás de produtividade, o Oriente — de onde vem o próprio Han — sempre valorizou o repouso da mente. No budismo, fala-se em śamatha, a prática da calma mental. Não é apenas ficar em silêncio, mas permitir que a mente retorne a si mesma, que o pensamento se desacelere até reencontrar o centro. A atenção plena (mindfulness), tão popular hoje, tem essa origem: o gesto simples de estar presente.

Mas o que era um exercício de libertação acabou sendo capturado pelo mercado como mais um produto de eficiência — cursos de “mindfulness corporativo” prometem reduzir o estresse e aumentar a produtividade. Até o silêncio foi transformado em ferramenta de desempenho. A paz interior virou KPI.

Contudo, se voltarmos à raiz da ideia budista, o silêncio não serve para render mais, mas para ser menos — menos ego, menos pressa, menos ruído. É nesse vazio que a consciência reencontra sua dignidade. A mente calma é, nesse sentido, um ato político. É resistência contra a lógica da aceleração.

O filósofo coreano, com sua melancolia elegante, parece nos lembrar que viver é também saber não fazer. Que o tempo que não produz é o tempo que nos devolve humanidade. A violência neural só perde força quando recuperamos o direito de sermos lentos, inúteis, ineficientes — em suma, humanos.

Talvez o primeiro passo seja simples: desligar o celular por algumas horas, olhar o céu, ouvir o vento, deixar o pensamento passar como nuvem. Tomar um café sem precisar postar, sem pensar no que virá depois. A pausa é subversiva, porque interrompe o fluxo que nos esgota.

A verdadeira liberdade, no fundo, pode ser simplesmente poder dizer: hoje não quero render nada. E, nesse ato de aparente improdutividade, talvez a mente volte a respirar.

Como escreve Byung-Chul Han, “a sociedade do cansaço mata o tempo e, com ele, a alma.” Mas o tempo — esse tempo que ainda nos pertence — pode renascer no instante em que recuperamos o direito de simplesmente existir.


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Homens Ocos

Um ensaio sobre o vazio entre o gesto e a alma a partir do poema de T. S. Eliot

 

Talvez você conheça alguém assim.

Uma pessoa que parece inteira, mas algo não encaixa. Não é ausência de fala, nem de gestos. É como se faltasse espessura. Gente que vive com precisão — trabalha, sorri, opina — mas não se deixa atravessar pela vida. Como bonecos bem montados, porém vazios por dentro. São os homens ocos. Não monstros, não maus. Apenas esvaziados.

Ler o poema The Hollow Men de T. S. Eliot — em português, Os Homens Ocos — é como olhar nos olhos de uma estátua: está tudo ali, menos o essencial. O poema é sombrio, mas não apocalíptico no sentido tradicional — ele fala da apatia que precede o fim, da alma que evapora enquanto o corpo ainda está em movimento. E é nesse abismo entre aparência e substância que podemos enxergar um problema filosófico crucial da modernidade: a erosão do ser.

 

O poema — Os Homens Ocos (tradução de Ivan Junqueira)

Epígrafe
Mistah Kurtz — he dead
A penny for the Old Guy

I
Somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
Cheios de palha. Ai de nós!
Nossas vozes secas, quando
Sussurramos juntos,
São calmas e sem sentido
Como vento na grama seca
Ou pés de ratos sobre vidro estilhaçado
Em nossa cave seca.

Figura sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;

Aqueles que atravessaram
Com olhos retos, para o outro Reino da morte,
Lembram-nos — se é que o fazem — não como almas perdidas
Violentas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II
Olhos que não me encaram na vida
Aparecem como o sol
Sobre uma coluna partida
No outro Reino da morte,
Evitam-me a vida do desejo
Em um campo que não se move.

Ali, a pedra erguida está sob o sol,
E há árvores sussurrantes,
E há um rumor de águas.
E no vento uma canção...
Mais distante e mais solene
Que uma estrela.

Deixai-me mais perto da minha indumentária,
Deixai-me também usar
Tão deliberadamente
Tais disfarces de pele de rato, de vento cruzado,
De um campo moribundo,
De figuras contornadas e reverentes,
No crepúsculo
Este Reino vago.

III
Não é este o Reino final
Andando sozinhos à hora em que estamos
Tremendo com ternura
Lábios que beijariam
Formam orações a pedras quebradas.

IV
Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta mandíbula partida de nossos Reinos perdidos

Neste último dos locais de encontro
Tateamos juntos
E evitamos a fala
Reunidos à margem do rio inchado
Sem ver — a não ser
Pelo resplendor dos olhos que reaparecem
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do Reino crepuscular da morte
A esperança apenas
Dos homens ocos.

V
Aqui vamos nós em volta da figueira
Figueira, figueira
Aqui vamos nós em volta da figueira
Às cinco da manhã.

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o ato
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Cai a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a queda
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino

Pois Teu é
A vida é
Pois Teu é o

É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro.

 

Entre a forma e a sombra: o intervalo que nos esvazia

Cada estrofe do poema faz vibrar uma sensação de descompasso. Eliot aponta para uma espécie de falha espiritual da modernidade: estamos cercados por estruturas — de linguagem, de trabalho, de ritos — mas desprovidos de densidade interior.

“Entre o desejo e o espasmo, entre a essência e a queda, cai a sombra.”

Aqui, a sombra é o vazio que se instala entre o que se é e o que se faz. O homem oco é aquele que vive no intervalo entre a potência e o ato. Ele poderia ser, mas não se atualiza. Ele fala, mas não comunica. Ele ama, mas não se entrega. É o sujeito funcional que abandonou a alma em algum ponto do percurso.

 

O cotidiano como campo de palha

Esse poema parece um delírio poético? Basta observar a vida comum:
– Reuniões cheias de palavras, mas sem escuta.

– Relacionamentos cheios de regras, mas sem presença.

– Redes sociais cheias de imagens, mas sem verdade.

A palha de Eliot é nossa repetição. Nossas frases automáticas. Nossa performance social. E há um risco: que a vida se torne uma sucessão de gestos sem alma, até o ponto em que o sujeito ainda respira, mas não vibra mais.

O filósofo Byung-Chul Han fala do “esvaziamento da interioridade” como marca do nosso tempo. O homem oco é esse homem adaptado à transparência, à hiperconexão e ao cansaço. Ele já não resiste, apenas repete.

 

A sombra que substitui o grito

Eliot anuncia que o mundo não acaba com uma explosão, mas com um suspiro.

“É este o modo como o mundo acaba / Não com um estrondo, mas com um suspiro.”

O fim que nos ameaça não é o da guerra, mas o do sentido. Um fim morno, sem convulsões. O apocalipse não como catástrofe, mas como esvaziamento. É como se a vida, aos poucos, fosse se tornando cenário, sem enredo. E nós, espectadores de nós mesmos.

Nietzsche gritava. Eliot sussurra. E nesse sussurro há algo mais trágico: a desistência. O niilismo aqui não é rebelde — é resignado.

 

Como escapar do oco?

Será possível escapar do destino dos ocos?

O filósofo Kierkegaard dizia que o salto da fé é o único movimento verdadeiro do espírito. É preciso atravessar o medo, escolher mesmo sem garantias, viver com responsabilidade existencial.

Simone Weil propunha uma saída silenciosa: atenção. Estar presente de verdade. Recolher-se da pressa, do ruído, da distração — e ouvir. Olhar. Habitar o gesto com consciência.

Talvez, então, o oposto do homem oco não seja o homem cheio — mas o homem desperto. Aquele que, mesmo ferido, mesmo cansado, ainda ousa sentir.

 

O suspiro que resiste à morte interior

Ler Os Homens Ocos é encarar um espelho escuro. Reconhecemos traços nossos ali. Não para nos culpar, mas para nos despertar.

A tragédia de Eliot é um convite: perceber o oco já é resistir a ele. O gesto reencontra a alma quando não é mais só performance, mas presença.

Se ainda pudermos colocar verdade no olhar, intenção na palavra, amor no gesto — mesmo que breve — talvez o poema ganhe outro fim. Talvez o mundo ainda possa recomeçar. Não com um estrondo, mas com um novo sussurro. Um sussurro que não seja vazio. Um sussurro cheio de ser.


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Contemplação Catártica

Reflexões sobre ver, reconhecer e se libertar

Em meio ao barulho cotidiano, há um gesto antigo e revolucionário: contemplar. Mas nem toda contemplação é passiva. Existe uma forma de olhar que purifica, que destrava o que está entalado no peito — chamemo-la de contemplação catártica. É quando ver se torna uma experiência de libertação.

Diferente da mera observação estética ou da apreciação descomprometida do belo, a contemplação catártica é intensa, quase incômoda. Não se limita a quadros, paisagens ou sinfonias. Pode acontecer diante do rosto de alguém adormecido, de uma casa em ruínas ou de um silêncio que pesa. Nesse olhar, algo se move dentro de nós. E o que antes era represado se dissolve.

Aristóteles, na Poética, descreve a catarse como o processo pelo qual o espectador da tragédia se liberta das paixões por meio do medo e da piedade. Mas podemos ir além do palco. Em nossa vida ordinária, também assistimos a dramas reais. E há momentos em que ver — verdadeiramente ver — nos limpa por dentro. A contemplação catártica ocorre quando reconhecemos a dor do outro, a finitude das coisas, ou até mesmo nossa insignificância diante do tempo, e isso nos transforma. Sentimos tristeza, mas não ficamos presos nela; sentimos espanto, mas não fugimos. Saímos modificados.

Nas relações humanas, a contemplação catártica se manifesta no momento raro em que olhamos alguém sem o filtro do julgamento, do interesse ou da distração. É o instante em que enxergamos o outro como um ser ferido, complexo e igualmente vulnerável. Às vezes, basta ver um amigo chorar em silêncio ou notar a hesitação na fala de um parente para que algo em nós ceda. Contemplar, nesse caso, é acolher a presença do outro sem tentar consertá-lo, é permitir-se ser tocado pela verdade alheia. E isso nos liberta de papéis, máscaras e defesas, criando um espaço de conexão onde, por um segundo, somos profundamente humanos juntos.

O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han, em A Salvação do Belo, aponta que na sociedade atual a estética foi domesticada e anestesiada. O belo perdeu sua capacidade de ferir, de comover, de exigir algo de nós. A contemplação virou consumo rápido. No entanto, Han também sugere que o verdadeiro belo ainda pode nos desestabilizar. A contemplação catártica resgata esse poder: ver algo com tal profundidade que nos obriga a sair de nós mesmos — e, assim, nos reencontrar.

Não se trata de procurar grandes espetáculos. A catarse pode nascer ao assistir a queda de uma folha, ao ouvir alguém contar sua história sem interromper. Trata-se de sustentar o olhar, deixar-se afetar, deixar cair as defesas. Nesse sentido, contemplar é um ato de coragem e de abertura ao que excede o eu.

Em tempos de aceleração e distração, a contemplação catártica é uma forma de resistência. É quando não nos contentamos com o que salta aos olhos, mas permitimos que o mundo nos toque de maneira profunda — e, por isso mesmo, nos purifique. Ela não nos salva do sofrimento, mas nos devolve à inteireza de quem sente, compreende e atravessa.

Filhos do Capitalismo


Às vezes a gente se pega pensando: será que vivemos o capitalismo ou o capitalismo vive através de nós? Crescemos ouvindo sobre “correr atrás dos nossos sonhos”, mas logo entendemos que esses sonhos geralmente vêm com etiqueta de preço. Da mochila da escola com a marca da moda até o celular que dita se estamos ou não atualizados, a vida vai ensinando, de forma sutil, que não basta existir — é preciso consumir para ser reconhecido. E assim, nos tornamos filhos de um sistema que nos molda desde o berço, mas que também herdamos como se fosse uma segunda pele.

O capitalismo não é apenas um modo de produção, como diria Marx, mas um modo de vida. Ele não se limita às fábricas e escritórios: ele invade afetos, amizades e até amores. Quantas vezes já não vimos relações nascerem ou morrerem por causa da falta — ou do excesso — de dinheiro? O capital, como Marx analisou no O Capital, transforma tudo em mercadoria, até aquilo que deveria ser inegociável: o tempo, o corpo, o desejo.

Mas há algo de ainda mais profundo. Somos educados para sermos sujeitos competitivos, para medir nossa dignidade pelo poder de compra, para crer que liberdade significa ter escolha de produtos nas prateleiras. Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, mostra como o capitalismo contemporâneo não precisa mais de um patrão que grite ordens; somos nós mesmos que nos exploramos, correndo atrás de metas pessoais, produtividade, empreendedorismo. O sujeito se torna empresa de si mesmo, e fracassar deixa de ser questão coletiva para ser culpa individual.

No Brasil, Milton Santos trouxe uma leitura ainda mais afiada: vivemos a “globalização perversa”, onde a promessa de modernidade é seletiva. Para poucos, o capitalismo dá asas; para a maioria, grilhões. Isso nos revela que, como filhos desse sistema, somos educados a naturalizar desigualdades, a acreditar que quem não “vence” é porque não se esforçou o suficiente, esquecendo que o jogo já começa viciado.

E é curioso: ser filho do capitalismo não significa apenas obedecer, mas também resistir. Cada gesto de solidariedade fora da lógica da troca, cada encontro que não se mede em dinheiro, é um lembrete de que podemos reinventar a herança recebida. Somos filhos, sim, mas filhos que podem questionar os pais — e talvez criar novos modos de vida.

No fundo, talvez estejamos numa encruzilhada: seguir repetindo o DNA do sistema ou experimentar mutações, criando outros caminhos de ser e viver. Como diria Cornelius Castoriadis, a sociedade não é destino, mas criação. Se o capitalismo nos pariu, cabe a nós decidir se vamos apenas reproduzir sua voz ou se seremos capazes de inventar novas formas de existência.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Ansiedade da Performance

Exaustos de Nós Mesmos: a obrigação de performar o eu na era digital

Numa manhã qualquer, abrimos o celular e já somos lançados num universo de vidas editadas. Sorrisos, conquistas, corpos, viagens, produtividade — tudo embalado num brilho de sucesso contínuo. Não é mais necessário ser feliz; basta parecer. E parecer muito. De preferência com carisma, autenticidade e filtros bem escolhidos. Nessa maratona silenciosa de aprovação, o eu se transforma num projeto de marketing. Vivemos, muitas vezes, menos para estar e mais para mostrar. E o resultado não é glória — é exaustão.

Retomar este tema para reflexão me parece importante, visto que não temos como negar a inundação de situações reais que a cada dia a quantidade supera a do dia anterior, por isto vamos explorar a questão.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, argumenta que a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho trouxe um novo tipo de opressão: a autoexploração disfarçada de liberdade. Hoje, somos pressionados a ser produtivos, criativos, positivos, resilientes e excepcionais — o tempo todo. Não há mais um patrão externo exigindo resultados; somos nós mesmos que nos cobramos, num ciclo ininterrupto de superação. “Yes, we can” (Sim, nós podemos) virou sentença. A liberdade de ser se converteu na prisão do dever constante de melhorar.

No campo da sociologia, Pierre Bourdieu ajuda a entender como essa lógica do desempenho se estrutura socialmente. O prestígio nas redes sociais, por exemplo, é uma forma de capital simbólico — aquele que dá visibilidade e reconhecimento. Curtidas, comentários, seguidores e compartilhamentos são novas formas de moeda. Quem acumula, ganha poder. Quem não participa, some. A obrigação de estar sempre visível cria uma economia da atenção em que a subjetividade se curva aos algoritmos. Não basta viver: é preciso performar a própria existência com consistência e carisma.

Essa lógica de espetáculo já havia sido anunciada por Guy Debord, em sua obra A Sociedade do Espetáculo. Para ele, o mundo moderno substituiu o ser pelo parecer: tudo se torna imagem, inclusive a dor. O luto, a solidão, a superação — tudo pode e deve ser exibido, com a devida estética. Nesse contexto, a vida só ganha sentido social se puder ser consumida. Assim, cada pessoa se torna uma vitrine, e o “eu” vira mercadoria.

Há também um efeito existencial profundo. Em Ser e Tempo, Heidegger discute a existência inautêntica — quando vivemos segundo o que os outros esperam, e não segundo nossa própria verdade interior. Nas redes, essa inautenticidade se amplifica: passamos a nos moldar de acordo com as expectativas alheias, com o que é mais comentado, compartilhado, desejado. O “eles”, como diz o filósofo, passa a nos habitar. Deixamos de ser para nos tornarmos personagens de um script coletivo.

Esse movimento não se restringe aos jovens ou aos influenciadores. Ele se espalha pelo mundo do trabalho, onde cada profissional precisa “vender sua imagem” com inteligência emocional, marca pessoal e presença digital ativa. Os currículos foram substituídos por portfólios públicos. A naturalidade, pelo networking constante. Mesmo a pausa virou performance: descanso com propósito, viagem com storytelling, silêncio com legenda.

Na juventude, a pressão é pelo destaque. Ninguém quer ser mediano. O ordinário virou sinônimo de fracasso. Na velhice, o dilema é outro: manter-se relevante. Muitos se sentem expulsos de um jogo cuja linguagem já não dominam. A obsolescência social não é mais só tecnológica — é existencial. O tempo se tornou um concorrente, e a idade, um risco de invisibilidade.

Mas talvez ainda haja uma saída. Não grandiosa, não revolucionária, mas sutil e silenciosa. Pode começar com um gesto pequeno: escolher não publicar um feito, não responder uma provocação, não performar o descanso. Recuperar o gosto pelo anonimato, pela insignificância produtiva, pela liberdade de simplesmente existir — sem que isso precise virar conteúdo. Como escreveu o poeta Manoel de Barros:

“O que a gente não inventa, vira.”

E talvez seja isso que nos falte: menos invenção de si e mais vir-a-ser.

Menos brilho e mais verdade.

Menos performance e mais presença.


terça-feira, 12 de agosto de 2025

Primeira Selfie

Estava assistindo a publicação do Instagram do jacobpetry e após assistir pensei sobre o que disse faz todo o sentido, e por que não trazer o que ele falou e mais um pouco para nossas reflexões, fica ai o link, vale a pena seguir o “cara”.

(https://www.instagram.com/reel/DNIVNVZunFt/?utm_source=ig_web_copy_link)

Podemos pensar o mito de Narciso como uma das primeiras narrativas sobre a fascinação com a própria imagem — e talvez a “primeira selfie” da história não tenha sido capturada por uma câmera, mas por um lago silencioso. Hoje, a tela do celular substituiu a superfície da água; o reflexo deixou de depender da natureza para ser produzido por um dispositivo portátil que cabe na palma da mão. Mas a essência do gesto — parar para se olhar e eternizar esse momento — continua surpreendentemente semelhante. Não é fantástico o que a filosofia faz com nossos pensamentos? Quanto mais nos aventuramos em seu território, mais somos atraídos a nos aprofundarmos em seu labirinto.

No mito, Narciso não se reconhece como quem olha e é olhado. Ele vê um outro, mas é ele mesmo. A selfie repete esse paradoxo: embora saibamos que a foto é nossa, ela vem com a ilusão de ser um “objeto” separado de nós, algo que podemos manipular, filtrar, enquadrar, repetir até que o reflexo agrade. O gesto de segurar o celular na frente do rosto é, de certa forma, um ritual moderno de afirmação: “eu sou assim” — ou, mais exatamente, “eu quero ser visto assim”.

O filósofo francês Jean Baudrillard nos alertou sobre o risco do “hiper-real” — um mundo em que a imagem já não representa, mas sim substitui a realidade. Nesse sentido, a selfie não é apenas registro, é também construção. Ela cria uma versão editada do eu que pode, com o tempo, rivalizar com o que realmente somos. Se Narciso se perdeu no reflexo, hoje há quem se perca na imagem filtrada que publica, vivendo mais na superfície digital que na presença concreta.

Byung-Chul Han observa que, na sociedade da transparência e da exposição constante, a autoimagem torna-se um capital social. O que era fascínio íntimo com o próprio rosto, como no lago de Narciso, agora é moeda de troca: curtidas, seguidores, relevância. Olhar-se não é apenas um prazer estético, mas uma necessidade estratégica.

Curiosamente, no mito, Narciso morre ao tentar se fundir com o reflexo. No mundo contemporâneo, não morremos fisicamente por tirar selfies — mas há uma morte simbólica possível: a perda de contato com a complexidade interna, reduzida a poses. Como advertiu Sêneca, “nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige” — e quando navegamos apenas pelo mar das aparências, corremos o risco de nunca ancorar.

Talvez o que falte à “primeira selfie” moderna seja o gesto que Narciso não conheceu: o afastar-se do reflexo para mergulhar na vida. Porque, ao contrário da água imóvel, o mundo se move, e nele há mais beleza do que qualquer câmera pode capturar.

 


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Espoliação do Tempo

A gente costuma dizer que está sem tempo como quem diz que perdeu a carteira — com pressa, indignação e certo pânico. Mas o tempo não é uma moeda que a gente carrega no bolso. Ele nos atravessa, escorre pelas ações, pelas distrações, pelas pausas mal aproveitadas e até pelas obrigações alheias que vamos aceitando em nome da convivência, da produtividade ou da culpa. Talvez não seja que nos falta tempo, mas que ele nos é tomado — espoliado, como se houvesse uma constante pilhagem silenciosa acontecendo dentro do nosso cotidiano.

Espoliar o tempo é mais do que desperdiçá-lo. É ser roubado em plena luz do dia, sem sequer notar que estamos sendo levados — em atenção, em presença, em sentido. É o scroll infinito das redes, o acúmulo de reuniões que poderiam ser silêncios, os compromissos vazios de propósito. E mais: é o modo como o tempo dos outros se impõe sobre o nosso, como se houvesse um direito tácito de ocupá-lo.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra A Sociedade do Cansaço, oferece uma lente potente para pensar isso. Ele mostra como o sujeito contemporâneo, ao se tornar empreendedor de si mesmo, entra numa lógica de autoexploração. Não é mais o patrão que toma seu tempo — é você mesmo, convertido em gerente e escravo ao mesmo tempo. A espoliação, então, deixa de ser um ato externo e passa a ser um consentimento interno, um assalto com autorização.

A inovação necessária talvez seja recuperar o tempo como um bem coletivo interior. Como propôs o próprio Han, precisamos reaprender a “habitar o tempo”, e não apenas geri-lo. Isso significa voltar a dar valor ao ócio contemplativo, ao ritmo próprio das coisas, à escuta do corpo e à desobediência temporal — dizer “não” ao cronograma imposto, recusar o convite para correr onde não há urgência real.

Ser senhor do próprio tempo, hoje, é quase um ato revolucionário. Reivindicar minutos livres de finalidade, horas sem culpa, dias em que o tempo nos pertence por inteiro. Porque enquanto não cuidarmos do tempo como quem cuida da própria alma, ele continuará sendo espoliado — e nem perceberemos o que estamos perdendo.


domingo, 27 de julho de 2025

Consumo e Lazeres

Máscaras de escravidão: Quando a folga vira coleira

Sabe aquele momento em que finalmente chega o fim de semana, e a gente pensa: “agora sim, vou descansar”? Mas, em vez de repouso, vem uma lista invisível de coisas que precisamos fazer para “aproveitar o tempo livre”: maratonar séries, visitar o novo restaurante da moda, comprar algo em promoção, postar uma foto sorridente com filtro. Parece descanso, mas será mesmo? Ou será que colocamos máscaras de lazer que escondem novas formas de cansaço — e até de escravidão?

Há também o fenômeno curioso da multidão que se move em bloco, mesmo quando acredita estar agindo por vontade própria. Como gado em pastagem, todos vão onde todos vão, como se o simples fato de muitos estarem fazendo algo já fosse um selo de autenticidade. O novo lugar “instagramável”, o festival do momento, o destino turístico da vez — nada disso é escolhido por real desejo, mas por contágio. A mesmice se disfarça de tendência, e o medo de ficar de fora empurra cada um para dentro da trilha marcada. Romper com isso exige não só coragem, mas uma vontade rara de andar em sentido contrário, de suportar o incômodo de pensar o próprio caminho.

 

Liberdade embalada a vácuo

Ao longo da história, os momentos de lazer foram associados à liberdade. Os gregos antigos, por exemplo, valorizavam o ócio criativo — o tempo livre para contemplar, refletir, filosofar. Hoje, porém, o lazer se mistura com a lógica do mercado. O que chamamos de “tempo livre” muitas vezes é apenas o tempo em que não estamos produzindo diretamente, mas continuamos girando a engrenagem econômica: consumimos conteúdos, compramos experiências, alugamos sensações.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama isso de “sociedade do desempenho”, em que até o prazer precisa ser eficiente. A academia vira palco de sofrimento voluntário; o turismo, um check-list apressado; os hobbies, vitrines de produtividade. Somos livres para escolher — contanto que sigamos os caminhos traçados pelo algoritmo, pelo marketing, pela necessidade de sermos vistos.

 

Lazer como distração, consumo como alívio

Essa dinâmica cria uma espécie de dopamina social: cada compra, cada passeio, cada like nos dá uma breve euforia que logo se esgota. Como numa dependência, buscamos de novo. O lazer, em vez de nos renovar, nos anestesia. Não sentimos o tempo passar, mas ele escorre — e a vida vai ficando para depois.

Pior: quando estamos exaustos, recorremos ao consumo como se fosse cura. Um sapato novo para compensar o estresse. Um filme bobo para esquecer o vazio. Um aplicativo de entrega para evitar pensar. Tudo rápido, prático e... superficial. A escravidão aqui é sutil: não há correntes visíveis, apenas uma constante fuga de si.

 

As máscaras da liberdade

O mais perverso é que tudo parece escolha. Afinal, ninguém nos obriga a gastar o sábado no shopping ou as férias em um resort com wi-fi. Mas será que estamos realmente escolhendo? Ou apenas reproduzindo desejos que nem sabemos de onde vieram?

O filósofo francês Gilles Deleuze dizia que o capitalismo não reprime os desejos — ele os fabrica. Assim, mesmo quando acreditamos estar nos libertando da rotina, podemos estar apenas obedecendo a outras rotinas, mais sofisticadas e camufladas.

O lazer vira máscara: atrás do riso está o tédio, atrás da selfie está a solidão, atrás da compra está a angústia.

 

Desmascarar-se para viver

Talvez o verdadeiro lazer — aquele que liberta — seja o que não se pode vender nem programar. Uma conversa sem pressa. Um silêncio sem culpa. Uma caminhada sem destino. Atos que não rendem conteúdo nem curtidas, mas nos reconectam com a própria existência.

Repensar o consumo e os lazeres não significa negá-los, mas desmascará-los. Olhar para eles sem a maquiagem da publicidade, sem a ansiedade da performance. E, quem sabe, redescobrir que o tempo livre pode ser mesmo nosso — quando deixamos de obedecer à lógica de que tudo precisa valer a pena.

A escravidão mais difícil de romper

A escravidão mais profunda é aquela que se apresenta como liberdade. E o lazer, quando capturado pelo consumo, vira disfarce de um sistema que exige produtividade até no descanso. Libertar-se disso é tarefa difícil — mas necessária, se quisermos não apenas sobreviver, mas viver.

Como dizia Nietzsche, “há mais ídolos do que realidades no mundo”. Talvez o lazer moderno seja um desses ídolos. E só ao quebrá-lo, podemos, enfim, descansar. De verdade.

sábado, 19 de julho de 2025

Sentido Esquecido


Um ensaio sobre a perda de direção no mundo contemporâneo

Tem dias em que a gente acorda e tudo parece funcionar bem: o café está quente, o celular carrega, as notificações pulam na tela. O dia começa. Mas, lá no fundo, algo parece fora do lugar. Um incômodo leve — como uma pedra no sapato da alma. Está tudo certo… mas nada está bem.

Essa sensação é mais comum do que parece. E não é frescura moderna. É um sintoma. Um indício de que talvez estejamos perdendo algo essencial: o sentido. Não o sentido da vida como pergunta grandiosa e inalcançável, mas o sentido cotidiano, aquele que organiza o que fazemos, escolhemos e amamos.

Vivemos, mas para quê?

A pressa que esvazia

No tempo das redes e da produtividade, ninguém mais tem tempo de perguntar por que está correndo tanto. E mais: nem coragem. Questionar demais dá medo, porque podemos descobrir que estamos vivendo a vida de outro — ou nenhuma em especial.

Estamos ocupados demais para pensar. Produzimos, entregamos, performamos. Como diz Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano que vive na Alemanha, entramos na era da autoexploração voluntária. Somos os algozes e as vítimas de nós mesmos. Trabalhamos como se fôssemos máquinas otimistas que nunca quebram — até quebrarmos.

Essa engrenagem precisa que a gente não pense. Pensar atrapalha o desempenho. E mais perigoso ainda: pensar pode gerar vontade de mudar.

O vazio decorado

A sociedade atual decorou o vazio. Tornou-o instagramável. Disfarçou a falta de sentido com filtros, metas, mantras de autoajuda e recompensas instantâneas. É um vazio bonito, organizado, motivado — mas ainda assim vazio.

Falta algo que conecte nossas ações a uma ideia de valor. Valor, aqui, não é preço. É propósito. Um tipo de alicerce invisível que sustenta os porquês.

Nietzsche já nos alertava: matar Deus (no sentido simbólico, ou seja, perder as referências maiores) não nos torna livres — nos lança no deserto. Um deserto ético, emocional, espiritual. Sem bússola, tudo vira areia.

A volta da filosofia prática

Diante disso, uma proposta ousada: trazer a filosofia de volta para o cotidiano. E não como luxo acadêmico, mas como instrumento de sobrevivência. Perguntas como “o que é uma vida boa?”, “o que me move?” ou “o que vale a pena?” precisam voltar para a mesa do café, para os corredores do trabalho, para os grupos de WhatsApp.

Precisamos reaprender a pensar. E pensar junto. Porque o sentido não nasce do ego isolado — ele floresce no encontro: com o outro, com o mundo, com algo maior do que a própria agenda pessoal.

Um novo começo

Não se trata de negar a técnica, nem fugir da modernidade. Mas de recuperar o humano dentro do mundo técnico. De voltar a valorizar o invisível: o cuidado, o silêncio, a amizade, o tempo lento.

O “sentido esquecido” não está perdido para sempre. Está apenas soterrado — sob metas, algoritmos e distrações. Recuperá-lo exige uma pequena coragem: parar. E perguntar. Só isso já é revolucionário.

Talvez a pergunta mais urgente do nosso tempo não seja “o que vamos fazer com o mundo?”, mas “o que o mundo está fazendo com a gente?”. E se a resposta for desconfortável, ótimo. Porque é do desconforto que nasce o verdadeiro pensamento.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Cacofonia de Individualidades

Um ensaio sobre a colisão das vozes do eu no mundo contemporâneo

No meio do ônibus lotado, alguém conversa alto no celular. Outro escuta música sem fone. Uma senhora resmunga sozinha, um jovem grava um vídeo com voz de radialista. E você? Está ali, tentando pensar. Mas pensar em quê, com tanto barulho?

Vivemos cercados por vozes — reais, digitais, internas. Cada uma quer ser ouvida, cada uma acredita ter algo único a dizer. Mas o resultado, muitas vezes, é mais ruído que música. A isso podemos chamar de cacofonia de individualidades: um mundo onde todos têm algo a expressar, mas poucos têm tempo, espaço ou silêncio para escutar.

A ascensão do indivíduo que se afirma

A modernidade nos ensinou que ser indivíduo é uma conquista. Desvencilhar-se do grupo, da família, da tribo, da religião — para tornar-se um eu. Um eu com desejos próprios, gostos, opiniões, selfies, slogans. A filosofia moderna, de Descartes a Nietzsche, deu o tom: “penso, logo existo”; “torna-te quem tu és”.

Mas a partir do momento em que todos querem ser “quem são”, o mundo se enche de vozes que não necessariamente dialogam — elas competem, se sobrepõem, se atropelam. O resultado não é sinfonia, mas cacofonia. Um ruído constante, um excesso de presença que ameaça até mesmo a presença mais íntima: a de si consigo mesmo.

Individualidades que não se integram

A cacofonia surge porque os sujeitos não se afinam. Não há harmonia entre as individualidades quando cada uma toca um instrumento para si, sem escuta ou regência comum. A lógica da diferenciação extrema — tão valorizada na cultura atual — torna-se contraproducente quando esvazia a possibilidade de comunidade.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han afirma que vivemos em uma “sociedade da performance”, onde o sujeito precisa se afirmar constantemente, se mostrar interessante, diferente, produtivo, autêntico. O problema é que, nesse esforço contínuo de singularização, as conexões reais se rarefazem. Tornamo-nos ilhas sonoras.

A escuta como ato filosófico

Há, porém, uma saída. E ela não é o silêncio forçado, nem a submissão ao coletivo. A escuta pode ser um gesto radical. Ouvir o outro — verdadeiramente — é permitir que a sua individualidade me afete, que sua melodia me altere, que nossas notas dissonantes formem outra coisa que não apenas gritos sobrepostos.

O filósofo Martin Buber dizia que o encontro autêntico acontece quando há um “Eu-Tu” — uma relação onde o outro não é reduzido a função, objeto ou distração. Escutar, nesse sentido, é a base para qualquer possibilidade de comunhão entre vozes. É o começo da harmonia.

O coro possível

A cacofonia pode ser um estágio. Um estágio inicial, bruto, de um mundo que ainda está aprendendo a ser múltiplo. Se há muitas vozes, há também a matéria-prima para uma nova forma de convivência. Mas isso exige regência — e não no sentido autoritário, e sim poético: quem será o maestro que ensina a pausa, o tempo certo, o contraponto?

Talvez a filosofia não deva dar respostas, mas propor escutas. Um novo tipo de ética, onde a singularidade não é o fim, mas o ponto de partida para relações mais afinadas. Onde a diferença não vira ruído, mas se transforma em harmonia possível.

Epílogo: no meio do barulho

Você está ainda no ônibus. E começa a reparar: a senhora que resmunga tem um rosto cansado, o rapaz que grava vídeos repete frases de impacto como quem precisa se afirmar. Cada um desses sons carrega uma história. Cada um, um motivo para existir.

De repente, o barulho não desaparece. Mas você começa a escutar diferente.

E isso muda tudo.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Caminho Órfico

A alma quer voltar pra casa: ecos órficos no corpo moderno

Há dias em que acordamos com o corpo inteiro, mas com a alma ausente. O rosto no espelho está lá, os compromissos também, mas alguma parte nossa parece não ter voltado da noite. Essa sensação estranha, esse deslocamento íntimo, pode ser um resquício órfico — uma memória antiga, talvez mitológica, de que não pertencemos totalmente a este mundo.

O Orfismo, movimento religioso e filosófico surgido na Grécia arcaica, não é apenas uma curiosidade antiga: é uma chave para interpretar uma das maiores inquietações do presente. Segundo seus ensinamentos, estamos divididos: corpo e alma não são a mesma coisa, e a alma, por sua vez, tem sede de um lugar que não é este. Para os órficos, a vida terrena é um exílio, e o corpo é prisão. O objetivo da existência é, portanto, a purificação da alma para que ela não precise mais reencarnar. Em tempos modernos, talvez estejamos longe dos rituais secretos e das lamelas de ouro, mas não do sentimento de estranheza existencial.

Zygmunt Bauman, por exemplo, ao falar da “modernidade líquida”, aponta que vivemos num tempo de instabilidade, onde tudo escapa: relações, crenças, pertencimentos. Nessa liquidez, muitos se sentem suspensos, sem raízes — ou seja, sem casa interior. E não é isso que dizia o Orfismo, ao lembrar que a alma caiu no mundo e esqueceu de onde veio?

Assim como Orfeu desceu ao mundo dos mortos para buscar Eurídice, hoje muitos descem aos porões de si mesmos tentando resgatar algo perdido: sentido, paz, silêncio. Alguns buscam isso na terapia, outros no consumo, outros na fé — outros ainda no colapso. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve a alma contemporânea como exausta, sobrecarregada de positividade, desempenho e estímulos. Ele fala de uma alma que não descansa — mas, se lermos à moda órfica, talvez estejamos diante de uma alma que não se purifica.

Outro autor importante para reflexão é Roberto Assagioli, o psiquiatra italiano foi o criador da Psicossíntese, que entende a alma como um centro que precisa ser reconhecido, integrado e harmonizado com as várias partes do ser humano. A psicossíntese propõe exercícios para essa reconexão interior, como meditação, visualização e auto-observação — formas práticas de buscar a “casa interior” órfica.

A obsessão moderna com o corpo (fitness, dietas, longevidade) pode ser vista, curiosamente, como um eco distorcido do ideal órfico: não mais a negação do corpo como prisão, mas a tentativa de eternizá-lo, controlá-lo, torná-lo invencível. Mas essa tentativa falha, porque a insatisfação profunda continua. E é nesse ponto que o Orfismo reaparece, não como dogma antigo, mas como sensibilidade existencial: o reconhecimento de que algo em nós é maior que a matéria, e que o barulho do mundo não silencia a busca do retorno.

Ao revisitar o mito de Dionísio Zagreu — o deus despedaçado pelos Titãs — percebemos que, segundo os órficos, os humanos nasceram da fusão do divino com o titânico. Somos, portanto, ambíguos: temos dentro de nós uma centelha dos deuses e uma herança de violência e queda. No cotidiano, essa dualidade se revela em nossas contradições: queremos amar, mas também dominar; queremos paz, mas produzimos ruído; buscamos sentido, mas também sabotamos a própria jornada.

Mas é preciso lembrar que essa linguagem órfica — que fala da alma como exilada, do corpo como prisão e da existência como purificação — não nasceu apenas na Grécia. Muitos de seus elementos parecem ter ecoado de tradições mais antigas, como o Egito faraônico, onde já se falava da alma que deveria atravessar o mundo dos mortos e passar por provas antes de alcançar a eternidade. Textos como o Livro dos Mortos orientavam o espírito a declarar sua pureza diante de juízes divinos, em algo que lembra as lamelas órficas enterradas com os iniciados. Também na Mesopotâmia, com os mitos de Inanna, e na Índia védica, com a ideia de samsara (o ciclo de renascimentos), a alma era vista como um princípio que precisava se libertar da repetição e do esquecimento. O Orfismo, nesse sentido, é uma síntese grega de um sentimento espiritual mediterrânico mais antigo, que cruzou desertos, rios e montanhas até ganhar a forma de hinos secretos e ritos iniciáticos atribuídos a Orfeu.

O Orfismo é, assim, uma filosofia do retorno. E o verbo "voltar", hoje, tem ganhado força: voltar para si, voltar para o essencial, voltar para a natureza, voltar a ter tempo. O mundo contemporâneo, ainda que sem confessar, vive à procura de caminhos órficos, mesmo que disfarçados de autocuidado, minimalismo ou espiritualidade pop.

Talvez a pergunta que o Orfismo nos lança hoje não seja religiosa nem metafísica, mas existencial: o que em mim está perdido e quer voltar pra casa? E a casa, nesse caso, não é um lugar geográfico, mas um estado da alma: leve, limpa, em paz.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Pensamentos de Segunda

Um ensaio filosófico sobre o começo que parece pesar.

Segunda-feira não é um dia: é um estado de espírito. Ela não chega apenas pelo calendário, mas invade o corpo com o peso das escolhas que fizemos no fim de semana, dos boletos que vencem no fim do mês e da vida que insiste em continuar, mesmo quando gostaríamos de uma pausa mais longa que o domingo.

Há uma espécie de solidez na Segunda-feira. Ao contrário da fluidez do sábado ou da leveza artificial do domingo, a Segunda é bruta. O despertador toca mais alto. O café parece menos saboroso. O caminho para o trabalho é um corredor de pequenas desistências. Quem nunca se perguntou, ainda na cama, se poderia simplesmente não ser hoje?

E, no entanto, há algo profundamente filosófico nesse recomeçar forçado. A Segunda-feira revela a tensão entre o tempo cíclico — das semanas que se repetem — e o tempo linear da nossa vida, que segue, implacável, em direção ao fim. Numa crônica do cotidiano, ela é o lembrete de que a existência não nos dá muitas escolhas: há que viver, mesmo quando não se quer.

Pensamentos de segunda-feira são como pão amanhecido: duros de engolir e meio sem graça. A mente acorda em modo avião, o corpo quer rebobinar o fim de semana e o espírito está preso no trânsito emocional entre “não quero” e “não posso fugir”. Surge aquela dúvida existencial no espelho: “Será que se eu ficar bem quietinho, ninguém percebe que eu não estou mentalmente aqui?” Segunda é o tutorial da semana, só que ninguém leu o manual — e mesmo assim a gente finge que sabe o que está fazendo.

A ilusão da liberdade no início da semana

Durante o fim de semana, nos sentimos livres. É um curto período em que não se vive para o outro, para o chefe, para o sistema — ou pelo menos se tenta. Mas a Segunda-feira expõe a fragilidade dessa liberdade: somos, quase todos, prisioneiros de um ritmo que não escolhemos. Mesmo os que dizem amar a Segunda-feira (e existem, curiosamente) o fazem porque encontraram alguma forma de se alinhar a esse ritmo — ou porque, talvez, transformaram a rotina em refúgio.

Mas o incômodo maior está na consciência de que vivemos de Segundas-feiras. A vida adulta se mede em semanas úteis. Os sonhos se adaptam ao calendário. E até o ócio é agendado.

Um pensador para comentar: Byung-Chul Han e o peso da performance

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han nos ajuda a entender por que a Segunda-feira é tão difícil. Em obras como A Sociedade do Cansaço, ele argumenta que vivemos numa era onde não somos mais explorados por um outro, mas por nós mesmos. Somos sujeitos de desempenho, cobrando de nós uma produtividade constante. A Segunda-feira é o altar onde sacrificamos o descanso em nome da performance.

Segundo Han, não é o trabalho em si que nos esgota, mas o fato de sermos nós mesmos os vigilantes da nossa produtividade. A Segunda-feira, então, não é o retorno ao trabalho: é o retorno à cobrança, à comparação, à sensação de insuficiência que se agrava com cada nova lista de tarefas.

Reinventar a Segunda-feira?

Talvez o desafio filosófico seja encontrar uma maneira de redimir esse dia da semana. Não no sentido ingênuo de decorá-lo com frases motivacionais ou fingir que ele é alegre — mas de reconhecer nele uma chance. A Segunda-feira pode ser o símbolo de que, apesar de tudo, ainda estamos vivos. Ainda podemos começar. Ainda há tempo para mudar o curso, por mais que ele pareça definido.

Se aceitarmos que a Segunda-feira é inevitável, podemos também aceitar que ela contém, em si, a força do recomeço. E recomeçar, no fundo, é um dos atos mais humanos que existem.