Há
dias em que a gente não quer nada demais: só um café honesto, uma conversa sem
performance e um silêncio que não precise ser explicado. Mas basta abrir o
celular para perceber que o mundo anda um pouco mais barulhento do que isso.
Não pelo som, mas pela exibição. Tudo parece pedir palco. A refeição, a viagem,
o corpo, a opinião, a dor. Ostentar virou um modo de existir — e talvez seja
isso que mereça atenção filosófica.
Ostentar
não é apenas mostrar
Tradicionalmente,
ostentação era associada ao excesso material: ouro, carros, casas grandes
demais para poucas pessoas. Hoje, ela se sofisticou. Ostenta-se sensibilidade,
engajamento, cansaço, espiritualidade, simplicidade. Há quem ostente até o
desprezo pela ostentação. O que mudou não foi o gesto, mas o objeto exibido.
Filosoficamente,
a ostentação nasce do olhar do outro. Nada é ostentação em solidão. Ela exige
plateia. Nesse sentido, aproxima-se mais do reconhecimento do que do
desejo. Não se trata de querer algo, mas de querer ser visto querendo — ou já
possuindo.
Hegel
já intuía isso quando falava da luta por reconhecimento: o sujeito só se afirma
plenamente quando é reconhecido por outro sujeito. O problema começa quando o
reconhecimento deixa de ser consequência do que se é e passa a ser a finalidade
do que se faz.
O
cotidiano como vitrine involuntária
No
cotidiano, a ostentação se manifesta em pequenas cenas quase imperceptíveis. O
colega que deixa a chave do carro “sem querer” sobre a mesa. A pessoa que
menciona o preço antes mesmo de elogiarem o objeto. O discurso casual que
inclui viagens internacionais como quem fala do mercado da esquina. Nada disso
é inocente, mas também não é, necessariamente, perverso. É humano.
Há
também a ostentação moral. Aquela que aparece quando alguém não apenas faz o
bem, mas faz questão de documentá-lo. Não basta ajudar; é preciso que se saiba
que ajudou. Aqui, a virtude corre o risco de virar adereço. Como diria
Aristóteles, a ética deixa de ser hábito silencioso e se transforma em
espetáculo.
E
há ainda a ostentação do sofrimento. O cansaço elevado a medalha. A agenda
lotada como prova de valor. “Estou exausto” já não é um pedido de pausa, mas um
atestado de importância.
Ostentação
como medo disfarçado
Por
trás da ostentação, raramente há plenitude. O que se encontra com mais
frequência é insegurança. Ostenta-se para não desaparecer. Para não ser
confundido com o comum. Num mundo que mede valor por visibilidade, o anonimato
soa como fracasso.
Aqui,
a ostentação se revela menos como arrogância e mais como defesa. Um modo de
dizer: “eu existo, eu conto, eu importo”. O problema é que, quando a existência
depende do aplauso, o silêncio vira ameaça. E a vida, um esforço contínuo de
manutenção de imagem.
Byung-Chul
Han observa que vivemos numa sociedade da transparência, onde tudo deve ser
exposto, compartilhado, mostrado. Nesse cenário, o que não aparece parece não
existir. Ostentar torna-se quase uma obrigação social.
A
elegância do que não precisa provar nada
Há,
contudo, uma força discreta no não ostentar. Uma espécie de elegância
ontológica. Quem não precisa mostrar geralmente está ocupado vivendo. Quem não
precisa afirmar, já é. Isso não significa ascetismo nem negação do prazer, mas
liberdade em relação ao olhar alheio.
No
cotidiano, isso aparece na pessoa que usa o mesmo relógio há anos sem jamais
mencioná-lo. No profissional competente que não se apresenta com títulos, mas
com escuta. No gesto generoso que não vira postagem. São formas de riqueza que
não pedem legenda.
Menos
vitrine, mais morada
A
questão da ostentação não é moralizar o ato de mostrar, mas perguntar: para
quem estou vivendo? Se cada escolha precisa ser exibida para ganhar
sentido, talvez o sentido esteja fora demais de nós.
Viver
não é montar um catálogo de si mesmo. É habitar a própria experiência. E talvez
a verdadeira distinção, hoje, esteja justamente nisso: conseguir viver algo que
não precise ser mostrado para ser real.
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