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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Solicitude

 

Há pessoas que parecem carregar dentro de si uma espécie de radar silencioso para o sofrimento alheio. Elas percebem quando algo não vai bem mesmo sem ninguém dizer. É aquela colega que nota o cansaço antes de ouvir a queixa, o amigo que pergunta “tá tudo bem mesmo?” com uma ênfase que atravessa a máscara do “tudo ótimo”. Esse gesto — discreto, quase sempre invisível — é a matéria da solicitude. Não se trata de pena, nem de intromissão. É, antes, uma forma de presença atenta, uma disposição do ser para com o outro.

Na pressa do mundo contemporâneo, a solicitude virou quase um luxo. Vivemos tão imersos em nós mesmos — em nossas notificações, tarefas, urgências e distrações — que esquecemos o que Heidegger chamava de Mitsein, o “ser-com”. O filósofo alemão via no cuidado (Sorge) a estrutura fundamental da existência humana: somos seres que cuidam, que se preocupam, que se voltam para o outro e para o mundo. A solicitude, nesse contexto, é uma manifestação concreta desse cuidado compartilhado. Ela é o modo como o ser-com se traduz em gesto, em palavra, em olhar.

Mas Heidegger distingue dois modos de solicitude: uma que “salta no lugar do outro” — substituindo-o, tirando-lhe a responsabilidade — e outra que “salta à frente”, ajudando-o a retomar sua própria capacidade de ser. A primeira é paternalista; a segunda é libertadora. Quando alguém tenta resolver tudo por nós, sufoca nosso poder de agir. Já quando alguém nos estende a mão para que voltemos a caminhar, essa pessoa nos devolve a nós mesmos. A verdadeira solicitude, portanto, não é invadir o espaço do outro, mas abrir espaço com o outro.

No cotidiano, ela aparece nos lugares mais triviais: na professora que percebe o aluno calado demais, no vizinho que segura o elevador para quem chega ofegante, no médico que escuta antes de prescrever. São gestos pequenos, mas têm algo de ontológico — eles dizem: “você existe para mim”.

Em uma sociedade orientada pela eficiência, onde a indiferença se disfarça de objetividade, a solicitude é quase um ato de resistência. Ela exige tempo, silêncio e vulnerabilidade. É preciso desacelerar para enxergar o outro, e coragem para ser tocado por ele.

O filósofo Emmanuel Lévinas amplia essa ideia ao colocar o rosto do outro como fundamento da ética. Para ele, o simples fato de ver o outro — e perceber que ele me olha — já me convoca à responsabilidade. A solicitude nasce justamente dessa convocação: é o reconhecimento de que o outro me afeta, e que não posso permanecer neutro diante de sua existência.

No Brasil, a solicitude se torna ainda mais necessária — e paradoxalmente mais rara — num contexto em que as relações sociais se equilibram entre a cordialidade aparente e a indiferença cotidiana. Nos ambientes de trabalho, por exemplo, a preocupação genuína pelo outro muitas vezes é vista como fraqueza ou perda de tempo: “cada um com seus problemas”. Nas redes sociais, multiplicam-se gestos de solidariedade performática — curtidas, emojis, frases prontas — que pouco têm a ver com a atenção real a alguém. A solicitude, nesse cenário, seria uma contraofensiva silenciosa: um modo de resgatar o humano num país em que a pressa e a desigualdade tendem a desumanizar. Quando paramos para escutar de verdade, sem filtro e sem agenda, criamos o que o filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella chama de “encontros que edificam” — momentos em que a presença se transforma em construção mútua.

No fim das contas, a solicitude é a arte de estar presente sem possuir. É o cuidado que não quer nada em troca, a empatia que não se exibe, a atenção que não pesa. Num mundo que nos ensina a competir, ela nos reaprende a coexistir.

Como escreveu Lévinas, “o eu só se realiza plenamente quando é para o outro”. Talvez seja por isso que as pessoas verdadeiramente solícitas não se destacam — elas simplesmente se misturam à vida, restaurando silenciosamente o que o egoísmo quebra.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Encontros Autênticos

Na selva barulhenta das interações modernas, onde nossas vidas muitas vezes se desenrolam em ritmo frenético e conexões superficiais, Martin Buber emerge como um guia sábio para nos lembrar da beleza transformadora dos verdadeiros encontros. Esqueça as fórmulas acadêmicas e os jargões filosóficos, pois vamos desvendar o pensamento de Buber em uma conversa informal sobre o coração da sua filosofia - o intrigante "Eu-Tu".

Martin Mordechai Buber (1878 – 1965) foi um filósofo existencialista, teólogo, escritor e pedagogo, austríaco naturalizado israelense, tendo nascido no seio de uma família judaica ortodoxa de tendência sionista. Buber era poliglota, em casa aprendeu ídiche e alemão; na escola judaica, estudou hebraico, francês e polonês/polaco. 

Já se perguntou por que algumas conversas tocam nossa alma enquanto outras são esquecidas no momento seguinte? Buber nos oferece uma lente única através da qual podemos explorar essa questão. Sua distinção entre os mundos do "Eu-Tu" e "Eu-Isso" não é apenas uma abstração filosófica, mas uma bússola para navegar nas águas tumultuadas de nossas relações cotidianas. Em seu tratado seminal, "Eu e Tu", Buber nos convida a transcender a frieza do "Eu-Isso", onde vemos as pessoas como objetos a serem usados ou compreendidos, e a abraçar a autenticidade dos encontros "Eu-Tu". Aqui, a mágica acontece. Este não é um convite para um diálogo tedioso sobre teoria; é uma chamada para ação no palco vibrante das nossas interações diárias. Então, vamos dar uma espiada no mundo encantador e muitas vezes esquecido do "Eu-Tu" de Buber. Porque, afinal, em um mundo inundado de notificações e likes, talvez a verdadeira essência da vida resida na simplicidade transformadora de um autêntico "Tu". Parte superior do formulário

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Na vasta paisagem da filosofia do século XX, Martin Buber emerge como uma voz distinta, desafiando-nos a repensar a essência de nossos relacionamentos. Longe dos jargões acadêmicos e da rigidez das teorias, Buber nos convida a uma conversa informal sobre o coração de sua filosofia: o conceito de "Eu-Tu". Buber, um pensador judaico-austríaco, acreditava que a verdadeira riqueza da vida reside nos encontros autênticos, nos momentos em que nos conectamos genuinamente com os outros. Então, afinal o que é esse "Eu-Tu"?

Vamos então imaginar isso como um convite para transcender as limitações do "Eu-Isso", onde vemos o mundo e as pessoas como objetos a serem usados ou compreendidos. No reino do "Eu-Tu", somos convidados a encarar os outros não como coisas, mas como seres únicos e inefáveis, cada um com sua própria essência. Pode parecer filosoficamente poético demais, mas a verdade é que Buber nos convoca a escapar das interações superficiais e abraçar a autenticidade. Ele nos lembra de que "Toda vida real é encontro", uma máxima que ressoa em tempos de conexões digitais e relacionamentos virtuais.

E o que esses encontros significam? Buber argumenta que é através dessas experiências que nos tornamos "todo pessoa". Em um mundo onde somos frequentemente reduzidos a papéis e etiquetas, Buber nos encoraja a nos tornarmos plenamente humanos através da conexão significativa com os outros. A filosofia de Buber também se estende à esfera religiosa. Para ele, a religião não é apenas um conjunto de rituais e regras, mas uma experiência viva de diálogo entre o humano e o divino. Em vez de dogmas rígidos, ele propõe uma fé que brota do encontro pessoal com o transcendental.

Ele é conhecido por suas contribuições para a filosofia da religião e a filosofia do diálogo. Ele explorou temas como o relacionamento entre o eu e o outro, bem como a relação entre o humano e o divino. Aqui estão algumas declarações notáveis associadas a ele, resumindo:

Eu-Tu e Eu-Isso: Buber é talvez mais conhecido por sua distinção entre "Eu-Tu" (I-Thou) e "Eu-Isso" (I-It). Ele argumenta que o relacionamento "Eu-Tu" é um encontro direto, autêntico e significativo com outra pessoa ou entidade, enquanto o relacionamento "Eu-Isso" é uma abordagem objetiva, onde vemos o outro como um objeto a ser usado ou compreendido. Ele dividiu a relação em dois tipos, o primeiro representa o toma-lá-dá-cá entre iguais, enquanto o segundo é possessivo e manipulador, como entre pessoa e um objeto, sabemos que numa relação saudável precisamos principalmente de interações Eu-Tu, mas frequentemente cometemos o erro de tratar as outras pessoas como coisas, objetos, criando uma dinâmica Eu-Isso, é grosseiro, mas as vezes é assim.

"Toda vida real é encontro.": Buber enfatizava a importância dos encontros autênticos e significativos com os outros. Ele via esses encontros como centrais para uma vida verdadeiramente plena e rica.

"O homem se torna toda pessoa através de encontros.": Para Buber, a pessoa se desenvolve e se realiza por meio de relacionamentos e encontros genuínos com os outros. Essas interações são fundamentais para a formação da identidade e significado na vida.

Religião do Diálogo: Ele propôs uma abordagem religiosa baseada no diálogo entre o humano e o divino, em vez de uma abordagem baseada em regras e rituais. Ele destacou a importância de uma relação pessoal e viva com Deus.

"Tudo real é encontro.": Buber acreditava que a verdadeira realidade se manifesta nos encontros interpessoais, onde as pessoas se conectam e compartilham experiências genuínas. Estas são apenas algumas das ideias centrais de Martin Buber, e suas obras, como "Eu e Tu" (Ich und Du), são essenciais para uma compreensão mais profunda de sua filosofia.

Então, por que isso importa para nós que vivemos em um mundo acelerado, muitas vezes mais preocupados com nossos smartphones do que com as pessoas ao nosso redor? A resposta está na simplicidade transformadora de suas ideias. Buber nos desafia a desacelerar, a olhar além das máscaras que usamos e a realmente ver uns aos outros. Em um tempo onde as conexões superficiais se tornam a norma, suas palavras ecoam como um lembrete para buscarmos a profundidade, a autenticidade e o significado em nossas interações. Então, da próxima vez que você estiver imerso em uma conversa, lembre-se de Martin Buber e seu convite para o "Eu-Tu". Porque, afinal, é nos encontros autênticos que a magia da vida verdadeiramente acontece.

“Ficar liberto da crença de que não existe liberdade é, na verdade, ser livre.” Martin Buber

 

Fonte:

Buber, Martin, 1878 – 1965. Eu e tu / Martin Buber. Tradução do alemão, introdução e notas por Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo: Centauro, 2001