O que ainda nos move a dar e retribuir
Costumamos
pensar que os gestos de dar e receber pertencem ao campo da gentileza, algo
meio perdido no meio do cotidiano apressado: alguém cede o lugar no ônibus,
outro paga o café, um vizinho empresta a furadeira. Coisas simples. Mas, se
olharmos de perto, há algo muito mais profundo acontecendo ali — uma espécie de
economia invisível que Marcel Mauss, no início do século XX, percebeu
com rara lucidez. Não é só o objeto que circula. É um vínculo.
O
que Mauss chama de dádiva não é apenas presente; é um sistema social
inteiro, baseado em três movimentos fundamentais: dar, receber e retribuir.
Para ele, todos os povos — dos mais antigos aos modernos — organizaram suas
relações através desse tripé. Não por cordialidade, mas por necessidade
estrutural: só a circulação de bens, favores, serviços, palavras e até
sentimentos mantém a coesão entre indivíduos e grupos.
A
lógica do presente que nunca é “gratuito”
No
fundo, Mauss desconfia daquilo que chamamos de “presente sem intenção”. Para
ele, todo presente traz um espírito — o hau, como aparece no estudo dos
povos polinésios citado no ensaio. Não é magia metafórica. É a ideia de que o
bem dado continua ligado à pessoa que deu. E por isso o receptor sente
ou reconhece uma obrigação de reciprocidade.
Pense
no cotidiano:
- Você paga o almoço de um amigo. Ele
diz: “Na próxima, é por minha conta.”
- Você empresta o carro. A pessoa
devolve limpo e abastecido.
- Alguém te ajuda na mudança. Você
sente que deve aparecer na casa dessa pessoa quando ela precisar de algo.
Não
se trata de dívida moral pesada, mas de um tipo de circuito simbólico:
para que a relação se mantenha viva, algo precisa circular. A dádiva é o
movimento que impede que as relações fiquem estagnadas.
A
dádiva como cimento social
Mauss
observa que, em sociedades tradicionais, festas, alianças, casamentos e até
guerras são inaugurados por presentes. Quem dá muito adquire prestígio; quem
não retribui perde a honra. A dádiva gera um laço que pode tanto unir quanto
obrigar. Ela cria compromissos — e, por isso, cria sociedade.
Se
olharmos ao redor, veremos que o mesmo acontece hoje, mesmo que disfarçado:
- Redes de troca de favores no
trabalho.
- A política que se estrutura em
apoios, concessões e contrapartidas.
- A vida afetiva, que só prospera
quando ambos dão e recebem na medida do possível.
- Até o simples gesto de indicar alguém
para uma vaga de emprego envolve uma aposta, uma confiança que cria um elo
duradouro.
Por
isso Mauss insiste: não existe relação social sem reciprocidade.
A
ilusão moderna da "autonomia"
O
capitalismo trouxe a ideia de que o contrato, o pagamento e o preço
substituiriam a dádiva. Pagou, acabou. Nada nos liga mais. Em teoria, sim. Na
prática, não.
Quem
compra sempre no mesmo mercadinho do bairro acaba ganhando fiado.
Quem frequenta sempre o mesmo café recebe o “extra” que o barista coloca sem
cobrar.
Quem trata bem os vizinhos tem mais proteção silenciosa que qualquer cerca
elétrica.
Mesmo
na economia formal, o contrato é frio demais para explicar a confiança, a boa
vontade ou os laços que nascem do simples gesto de dar sem calcular
inteiramente.
Mauss
já percebia isso em 1925. Hoje, quando nossa vida é tão monetizada, sua crítica
é ainda mais atual: a dádiva é aquilo que mantém o humano respirando dentro
dos sistemas técnicos.
O
que a dádiva nos revela sobre nós
Dar
é expor-se, é colocar algo de si no mundo. Receber é reconhecer que não somos
autossuficientes. Retribuir é fechar o ciclo e, ao mesmo tempo, abri-lo de novo
para o futuro. Cada gesto desse tipo impede que a vida social se torne puro
interesse ou pura indiferença.
E
talvez por isso sentimos tanta estranheza quando alguém dá demais ou de menos.
Sabemos, instintivamente, que o equilíbrio da dádiva é também o equilíbrio das
relações.
Comentário
filosófico – com Darcy Ribeiro
Para
fechar com um pensador brasileiro, Darcy Ribeiro certa vez afirmou que “a
solidariedade é a ternura dos povos”. A frase é uma síntese perfeita do
espírito da dádiva maussiana: aquilo que damos aos outros não é mero objeto,
mas a forma como reconhecemos que precisamos uns dos outros para continuar
existindo. Darcy diria que uma sociedade onde nada circula — nenhum afeto,
nenhum gesto, nenhum favor — é uma sociedade doente, porque perdeu seu pulso
humano.
