RESENHA do TEXTO “OS SETE SABERES NECESSÁRIOS À EDUCAÇÃO DO FUTURO” DE EDGAR MORIN
A presente resenha foi por mim elaborada e apresentada para atender tarefa solicitada pela professora Camila Dalcin junto a disciplina de
A transversalidade dos temas filosóficos na Educação Básica I (Modulo 5) relativo ao curso de Pos Graduação em Filosofia na UFPEL - Universidade Federal de Pelotas.
Propõe-se apresentar, neste trabalho resenha crítica do texto escrito por
Edgar Morin, intitulado: “Os sete saberes necessários à educação do futuro”. Inicialmente
cabe breve apresentação de Morin. Edgar Morin é um sociólogo e filósofo francês, pesquisador emérito do CNRS (Centre
National de la Recherche
Scientifique). Formou-se em Direito, História e Geografia, realizou
estudos em Filosofia, Sociologia, Epistemologia e Educação. Autor de mais de trinta livros, entre eles o
tema da presente resenha.
O livro intitulado Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro foi
o resultado de uma solicitação da UNESCO, em 1999, a Edgar Morin com o
propósito de que ele aprofundasse a visão transdisciplinar da educação, que
expusesse suas ideias sobre a educação do amanhã. Com esse fim, o autor
após profunda reflexão expõe os seus sete saberes imprescindíveis a uma
educação integral e de qualidade como desejava a UNESCO.
Partindo da ideia de que a educação do futuro deve se aproximar mais das
questões humanas, englobando cada vez mais aspectos do quotidiano e tomando o
ser humano como referencial para o ensino, Morin nos apresenta caminhos que se
abrem a todos os que pensam e fazem educação, e que estão preocupados com o
futuro das crianças e adolescentes.
No texto, Morin lista sete aspectos que denomina de “saberes” para a
educação. Tais aspectos ou saberes são ideias que proporcionariam uma
priorização na humanização da educação e tirariam os atuais processos
educativos do estado de inércia, fazendo com que esses evoluíssem de forma
compassada com as atuais e novas realidades sociais a nós apresentadas.
Os “sete saberes” descritos por Morin são os seguintes:
O primeiro saber: “As cegueiras do conhecimento” – O erro e a
ilusão, convida o educando e educador a compreender a essência e a origem
dos processos de conhecimento. Inicialmente Morin trabalha a ideia de erro, a
ideia de que todo conhecimento comporta o risco do erro e também da ilusão,
porque a ciência sempre buscou afastar o erro de sua concepção, sendo assim
tudo aquilo que era considerado como erro deveria ser retirado da criação do
conhecimento. Conforme Morin, "O dever principal da educação é preparar
cada um para enfrentar os não saberes com lucidez", ou seja, a necessidade
de integrar os erros nas concepções para que o conhecimento possa avançar.
O outro fator abordado neste saber seria a ilusão, ou como somos iludidos
sobre o mundo e sobre nossa realidade, que o acaba sendo permeado por nossas
percepções, acaba traduzindo o conhecimento de acordo como nós entendemos. Ao buscar
e considerar os erros e as ilusões deste conhecimento constantes nas concepções,
conseguiríamos compreender e avançar para um conhecimento verdadeiro;
Conforme Morin, “A educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla
face do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro: a
maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão”;
O segundo saber: “Os princípios do conhecimento pertinente”
focam na necessidade de inserir os conhecimentos assimilados em questões dos
micros e macro-ambientes, estabelecendo as mútuas relações entre as partes,
buscando trabalhar a ideia de conhecimento pertinente, o qual entre em
contraposição com a ideia que para aprendemos temos que fragmentar, ou seja
quando mais nos fragmentamos as disciplinas mais o conhecimento consegue
avançar, ou seja, Morin defende a ideia que não é preciso acabar com a ideia da
disciplina, mas rearticular a ideia de disciplina em outros contextos. A ideia
central deste saber remonta a necessidade de que o todo é mais que a soma das
partes temos que "pensar as relações entre o todo e as partes", onde
a educação do futuro busca estimular a inteligência geral e o conhecimento do
todo, portanto o conhecimento pertinente é uma ideia contra a fragmentação e o
isolamento disciplinar.
O terceiro saber: “Ensinar a condição humana” tem a ideia
de retornar à educação ao seu principal foco que é o ser humano, fazendo com
que as diversas disciplinas convirjam nesse único objetivo. É necessário
aprender que o ser humano possui multidimensionalidades, além de seres
culturais que somos, também somos naturais, psíquicos, físicos, míticos e
imaginários, toda esta unidade complexa é desintegrada na educação por meio de
disciplinas, tornando-se difícil aprender o que realmente significa ser humano.
Para situar o ser humano no universo é preciso então, conhecê-lo com e em sua
complexidade, se quisermos avançar para um ensino que não seja “apenas
fragmentado e não conectado”.
O quarto saber: “Ensinar a
identidade terrena” é preciso determinar a necessidade da promoção do
estudo da história da humanidade, identificando seus principais aspectos “evolutivos”
e a “identidade planetária” constituída a partir de então, bem como os
problemas em comum de todas as nações originários destes aspectos, tal como a
ideia da sustentabilidade, precisamos ver que nosso pequeno planeta precisa ser
sustentado, afinal a Terra é a nossa pátria e daqui não temos para onde sair.
As próximas gerações dependerão de nossas atitudes, a educação deve abraçar o
conceito de sustentabilidade de maneira que entendam a ideia desta condição ser
primordial para sobrevivência de todo ser vivo na Terra.
O quinto saber: “Enfrentar as
incertezas” tem o intuito de advertir
que os empregos da ciência nos processos educativos apenas nos fizeram entrar
em contato com certezas geradas por ela, mas ignoraram as várias incertezas que
também foram descobertas nesses mesmos casos, culminou por excluir a
possibilidade de um preparo para o enfrentamento de imprevistos. É cabível o
ensinamento do princípio da incerteza no qual o conhecimento cientifico nunca é
o produtor absoluto de certezas, ao contrário, tudo aquilo que foi criado pelo
homem foi a partir da ideia de incerteza. A incerteza pode comandar o avanço preparando
educador e educando para enfrentar as situações imprevistas.
O sexto saber: “Ensinar a
compreensão” recomenda e propõe a compreensão mútua entre os seres humanos,
afim de gerar bases mais seguras de educação para a paz, promovendo, para isso,
reformas das mentalidades. A reforma das mentalidades é no sentido de que a
compreensão deva ser o meio e o fim da comunicação humana, e a comunicação
voltada para compreensão, num ciclo onde as disciplinas que brigam entre si,
departamentos que não se entendem com os outros, áreas de conhecimento que não
se falam com outras, finalmente consigam se comunicar, portanto a comunicação
humana é imprescindível e entenda não apenas o micro, mas entenda o macro ambientes
de educação. É preciso entender e trabalhar a nova mentalidade de que é
necessário introduzir o ensino da compreensão nas unidades de ensino em
qualquer nível que elas exerçam, inclusive e principalmente a ideia da
compreensão pode e de ser estendido ao nosso planeta que precisa de mais
compreensão, onde infelizmente o que prejudica o avanço é a atual incompreensão
politicas, ideológicas e econômicas.
E finalmente, o sétimo saber: “A
ética do gênero humano” tem a intenção de conduzir a educação através do
caminho da “antropoética”, que é a ética do gênero humano (ética pode ser
resumida em: não desejar para os outros, aquilo que não desejo para mim, ideia
presente no imperativo categórico kantiano), sendo ensinada e reintroduzida nas
escolas, fazendo com que a ética seja formada nas mentes, não através e apenas de
lições de moral, mas com base na pedra fundamental instalada na consciência de
que o ser humano é indivíduo (micro) e, ao mesmo tempo, parte da sociedade e a
espécie (macro). A religação do indivíduo, sociedade e espécie, dependem da
construção de uma antropoética.
Morin apresentou suas ideias como inspirações que motivariam o educador a
repensar seu posicionamento na docência, com sua relação com os outros
discentes, frente a grade curricular, na relação da disciplina em si e na sua
relação com o processo avaliativo, no entanto Morin não resolveu o problema do
“como” aplicar os sete saberes na esperada reforma da educação, na qual ainda se
está a discutir e tentando decidir junto as instituições de ensino soluções
para o problema. Em princípio estamos cientes que os sete saberes poderão
contribuir para união das disciplinas fragmentadas, o que foi proposto por
Morin seria uma redefinição dos currículos que integram os saberes e assim
propiciem a formação e as ações de um novo educador, inclusive estimulando o
diálogo entre “diferentes”, reconhecendo que poderá haver relações de tensão
entre os opostos (singular e universal, local e global, sujeito e objeto).
Entretanto, vejo a implementação de tais saberes com dúvida e relativa
descrença, pois isto deveria promover uma verdadeira mudança na consciência e comportamento
social das pessoas e não apenas dos processos educativos, o que sabemos seja
difícil, pois vivemos numa sociedade individualista, consumista e pouco
solidária, onde valores éticos estão como que amortecidos.
A sociedade tem se importado mais com os casos de corrupção do que com a
educação (veja-se que STF trabalha quase todo o tempo para discutir casos de
corrupção, onde as decisões do STF são vistas com profundo ceticismo), os
noticiários do mundo relatam fatos da falta de ética, falta de compreensão,
dificuldades de comunicação. Nas escolas encontramos o desmantelamento do
ensino com baixos índices de aprendizagem, currículo confuso, desestímulo dos
docentes em prosseguir na carreira de docentes, a quebra da autoridade da
escola e consequentemente dos docentes que seria o mínimo necessário para
contribuir numa melhor educação, isto tudo está afetando os processos
educativos que ora estão bastante aquém da contemplação dessas necessidades.
Entendo que a difusão dos “sete saberes” de Morin deve tornar-se um
referencial para cada educador em suas ações, que a sociedade (macro) ampare e
assimile urgentemente a proposta de Morin, e que por atitudes possam chegar no
educando (micro). Estamos cientes que será desencadeado um processo lento de
mudança de mentalidade, até que esses “saberes” realmente exerçam alguma
influência na forma de educar e, consequentemente, nas bases da sociedade
nacional e mundial.
Bibliografia:
Morin, Edgar, 1921- Os sete saberes necessários à educação do
futuro / Edgar Morin ; tradução de
Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya ; revisão
técnica de Edgard de Assis Carvalho. – 2. ed. – São Paulo : Cortez ; Brasília,
DF : UNESCO, 2000.