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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Silêncio - Ouçam o Som do Silêncio...se puderem

O professor entrou na sala de aula e pediu a turma que fizesse silêncio, a voz dele se perdeu no vozerio da turma, ninguém conseguia ouvi-lo, nem perceberam que ele entrou, se perceberam não deram importância, a turma acostumada ao desrespeito e ao barulho constante seguiram em seu frenesi, estão cada um focado nos seus interesses, o barulho é causado por suas próprias vozes, ou da música em seus fones de ouvidos, o silêncio é raro, quase impossível, a reação do professor foi ficar ali parado em silêncio de braços cruzados, aguardando que se dessem conta de si mesmos, o silêncio do professor de braços cruzados em pé fitando-os os fizeram congelar por alguns instantes, os alunos ficaram observando aquela criatura em “silêncio” que apenas os observava, eles não estão acostumados com aquela atitude passiva e ao mesmo tempo ativa, ativa pela ausência de gritos por parte do professor, ao calarem o professor diz:  “ouçam o som do silêncio”, o silêncio era puro, conseguia-se ouvir as vozes do silêncio como as batidas do coração, a respiração, um fugaz sussurro, perceberam que por baixo das diversas camadas de ruídos havia um mundo imenso e belo de sons de puro silêncio, este exercício durou dois minutos, esta lição ficou gravada em suas memórias e suas vidas.

O professor de filosofia percebeu que ali estava uma ótima oportunidade para refletirem a respeito da importância do silêncio, então decorridos os dois minutos de silêncio ele passou para o tema da aula que trataria da importância do silêncio em suas vidas.

Os jovens gostam muito de falar, tagarelar, gostam de ser ouvidos, é importante falar, é importante ouvir, é importante ouvir seus sonhos e sua imaginação, mas é do silêncio que nasce o ouvir, só podemos ouvir a verdade e os sonhos do outro se parar de tagarelar.

O som do silêncio é algo anormal para aquelas pessoas, o professor percebeu a aflição pelo movimentar dos olhos, eles não estão acostumados a ouvir o silêncio, é perturbador, nestes breves instantes estão na busca mental por algo que os façam retornar ao frenesi sonoro, as mãos de posse dos seus celulares vivem uma expectativa angustiante por um bip indicando alguma mensagem que os libertasse daquele silêncio “ensurdecedor”, suas mentes ainda não conseguiram relaxar, as engrenagens ainda estavam maquinando, passam-se dois minutos e então dão-se conta da existência de um mundo paralelo, dois minutos de silêncio foi o tempo suficiente para aliviar suas tensões no corpo e no cérebro, se sentiram ligeiramente mais relaxados, este foi o momento ímpar em suas vidas, foi quando se enxergaram e ouviram através do silêncio.

Este foi um relato de um professor que estava entrando pela primeira vez naquela sala de aula com aquela turma barulhenta, a partir desta primeira experiência com o silêncio, aprenderam a ouvir a voz um do outro e a compreender o que cada um dizia e o que cada queria dizer, uma experiência simples, porém muito educativa, a partir dali este exercício de dois minutos de silêncio passou a fazer parte do currículo o aprender a ouvir e a escutar claro, foi um cessar, uma trégua de dois minutos de um combate para se apossar do ouvido do outro.

Penso no silêncio inicialmente como um quadro em branco, o quadro até poderá ficar em branco, mas será necessário muito esforço e meditação para isto, pois nossa mente está sempre ativa querendo colorir o quadro com matizes de lembranças misturando tudo criando uma confusão sem se fixar em qualquer coisa como que querendo impedir que a calem, os sonhos surgem como uma possibilidade de dar sentido ao silêncio estabelecendo uma organização na branquitude do quadro e através do colorido de entusiasmo estará vencendo o medo de se arriscar a dar as primeiras pinceladas na ousadia de criar.

Atualmente há pessoas que pagam para obter silêncio, quem pode e tem grana compra sua casa distante da agitação da cidade, fogem da confusão sonora que o mundo vive, fogem da dor causada pelo excesso de decibéis presentes em sua rotina, o dia a dia é todo preenchido por algum ruído, barulho, conversas cruzadas, música, trabalho, filmes, discussões, reuniões, se não houver barulho procuram algum som que os distraia, e se houver barulho que desagrade, colocam uma música alguns decibéis mais alto, não melhoram nada com isto, apenas somam mais decibéis, com o passar do tempo chegam à conclusão que estão ficando surdos ao exterior e ao interior.

Precisamos aprender a ser mais silenciosos, o silêncio nos convida a ter mais espaço mental, ele nos ensina a dar ouvidos a nossa consciência, no silêncio nós passamos a adjetivar, o silêncio vale ouro, porque ele é raro, e é cada vez mais raro devido ao ritmo que vivemos, as pessoas querem ser ouvidas a qualquer preço invadem as redes sociais, querem ser escutadas e vistas, só querem ouvir os elogios e curtidas, não estão preparadas para as críticas, havendo críticas deletam imediatamente e entram numa instantânea crise existencial, estamos diante de uma invenção da sociedade da aceitação, uma invenção cada vez mais incentivada, até como um competição consigo mesmo, esta necessidade de evidencia e atenção é uma muleta frente ao vazio existencial, se fossem analisados por um psicanalista seriam necessárias horas de analise para desbastar esta crosta que criaram em torno de si e de seu ego, neste caso um bom analista precisará ter a disposição seus ouvidos e seu precioso silêncio para ajudar na retirada desta muleta contemporânea.esta necessidade de evidencia e atenção é uma muleta frente ao vazio existencial, se fossem analisados por um psicanalista seriam necessárias horas de analise para desbastar esta crosta que criaram em torno de si e de seu ego, neste caso um bom analista precisará ter a disposição seus ouvidos e seu precioso silêncio para ajudar na retirada desta muleta contemporânea.

Ensinar e educar a apreciar o silêncio é uma maneira de espiritualização, é no silêncio podemos ouvir as palavras de Deus que nos diz que: “Há quem se cala por não saber falar, e há quem se cala porque reconhece quando é tempo de falar”. Eclesiástico 20

No trabalho quando há silêncio, todo o trabalho é melhor produzido, melhor acabado, o rendimento é maior, o resultado é melhor, ao final também nos sentimos melhores por termos feito o melhor, sem palavras à toa nos permitimos refletir sobre o trabalho, damos oportunidade para a mente focar e escolher as melhores opções, isto vale para toda vida, o silêncio nos ensina uma maneira de nos comportarmos diante da vida com um senso de responsabilidade mostrando que o silêncio, às vezes, é o nosso melhor aliado, inclusive sabermos falar no tempo certo, favorecendo esse senso de responsabilidade com nós mesmos e com os outros. Seja para escapar de uma situação de conflito, ou para deixar reticências no ar, o silêncio pode ser a melhor resposta naquele momento, discussões são positivas se as pessoas respeitarem uma o tempo da outra, dando tempo para refletir aquilo que ouviram e refletirem antes de falarem.

Há dois tipos de silêncio - há o silêncio exterior com a suspensão das palavras, barulhos e agitações, e há também o silêncio interior muito mais exigente, este último é responsável e capaz de melhorar o autoconhecimento, este é o momento mais fácil ter um tempo de reflexão, são os dois minutos (no mínimo) mágicos que farão toda a diferença.

O meu silêncio pode ser o colo que o outro precisa para acolhimento, o meu silêncio pode ser a atenção que o outro precisa naquele momento, conforme a filosofia tao, o não fazer é a forma suprema de fazer, o não falar é a forma de falar ao outro, fale que eu te ouvirei. 

O silêncio demasiado do outro pode ser a forma dele dizer que algo está errado, é quando eu falo quebrando o silêncio fazendo o bom uso das palavras querendo saber se posso ajudar, pelo menos demonstro interesse e que estou disponível para lhe ouvir.

Em um de seus livros Rubem Alves escreveu: “Temos dois ouvidos. Com um escutamos os ruídos do tempo, passageiros, que desaparecem. Com o outro ouvimos a música da alma, eterna, que permanece”, são palavras de quem já havia vivido o suficiente e conquistado a experiência do sábio, são palavras oriundas de profunda contemplação, uma poesia neste mundo barulhento.

 

Fonte: Alves, Rubem. A educação dos sentidos: conversas sobre a aprendizagem e a vida. São Paulo: Planeta Brasil, 2018.