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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Dois Lados

Outro dia me peguei fazendo uma pergunta quase automática: “mas afinal, ele é de que lado?”. Era sobre o antropólogo Antônio Risério, mas poderia ser sobre qualquer um. A pergunta veio sem esforço, como se já estivesse pronta dentro de mim — dessas que a gente não pensa, só repete.

Assisti no Instagram o seguinte trecho de sua manifestação:

https://www.instagram.com/reel/DX2BUhasmG0/?igsh=MWJranIyaGJ1Mjhjag==

E aí percebi algo incômodo: talvez a pergunta diga mais sobre mim do que sobre ele.

No cotidiano, isso aparece o tempo todo. No grupo de WhatsApp, alguém compartilha um texto — antes de entender o argumento, já surge a necessidade de classificar. No trabalho, um colega faz uma crítica qualquer, e a reação imediata é tentar descobrir “de onde ele fala”, como se o valor da ideia dependesse do time ao qual ela pertence. A gente não escuta, a gente localiza.

É curioso, porque isso parece economizar energia. Classificar é mais rápido do que compreender. Se eu consigo colocar alguém numa caixinha — esquerda, direita, progressista, conservador — eu não preciso lidar com a complexidade do que ele está dizendo. Já sei, de antemão, se concordo ou discordo.

Mas esse conforto tem um preço.

Pensadores como Antônio Risério incomodam justamente porque escapam dessas etiquetas. E quando alguém escapa, a gente insiste. Aperta, força, tenta encaixar. Porque o que está em jogo não é só entender o outro — é manter o nosso próprio mapa do mundo intacto.

Lembrei então de Ludwig Wittgenstein, quando ele sugere que muitos dos nossos problemas vêm de como usamos a linguagem. Talvez “ser de esquerda” ou “ser de direita” não seja apenas uma descrição — seja uma forma de encerrar a conversa. Um ponto final disfarçado de pergunta.

E se, no fundo, essas categorias forem menos sobre verdade e mais sobre pertencimento?

A gente quer saber de que lado o outro está porque isso define se ele está conosco ou contra nós. É quase tribal. Como em um jogo de futebol: antes de ouvir o argumento, queremos saber qual é a camisa. E, uma vez definida a camisa, o resto vira detalhe.

Só que a vida real não joga tão limpo assim.

Uma pessoa pode defender políticas sociais em um momento e criticá-las em outro. Pode valorizar tradições culturais e, ao mesmo tempo, questioná-las. Pode discordar de um campo inteiro sem automaticamente migrar para o campo oposto. Mas isso exige uma coisa que incomoda: aceitar contradições.

E aceitar contradições — nos outros e em nós mesmos — dá trabalho.

Porque aí não basta repetir posições prontas. A gente precisa pensar de verdade. Precisa sustentar dúvidas, revisar certezas, conviver com zonas cinzentas. E isso tira aquela sensação confortável de estar sempre “do lado certo”.

Talvez por isso a pergunta “ele é de esquerda?” seja tão sedutora. Ela promete simplicidade em um mundo complicado.

Mas, no fim, ela empobrece mais do que esclarece.

Voltei então à pergunta inicial, mas reformulada: não “de que lado ele está?”, e sim “o que ele está tentando ver que eu ainda não vi?”.

Essa segunda pergunta não resolve rápido. Não cabe em conversa apressada. Não rende rótulo.

Mas abre espaço.

E, talvez, pensar — no sentido mais honesto da palavra — comece exatamente aí.