Outro dia me peguei fazendo uma pergunta quase automática: “mas afinal, ele é de que lado?”. Era sobre o antropólogo Antônio Risério, mas poderia ser sobre qualquer um. A pergunta veio sem esforço, como se já estivesse pronta dentro de mim — dessas que a gente não pensa, só repete.
Assisti
no Instagram o seguinte trecho de sua manifestação:
https://www.instagram.com/reel/DX2BUhasmG0/?igsh=MWJranIyaGJ1Mjhjag==
E
aí percebi algo incômodo: talvez a pergunta diga mais sobre mim do que sobre
ele.
No
cotidiano, isso aparece o tempo todo. No grupo de WhatsApp, alguém compartilha
um texto — antes de entender o argumento, já surge a necessidade de
classificar. No trabalho, um colega faz uma crítica qualquer, e a reação
imediata é tentar descobrir “de onde ele fala”, como se o valor da ideia
dependesse do time ao qual ela pertence. A gente não escuta, a gente localiza.
É
curioso, porque isso parece economizar energia. Classificar é mais rápido do
que compreender. Se eu consigo colocar alguém numa caixinha — esquerda,
direita, progressista, conservador — eu não preciso lidar com a complexidade do
que ele está dizendo. Já sei, de antemão, se concordo ou discordo.
Mas
esse conforto tem um preço.
Pensadores
como Antônio Risério incomodam justamente porque escapam dessas
etiquetas. E quando alguém escapa, a gente insiste. Aperta, força, tenta
encaixar. Porque o que está em jogo não é só entender o outro — é manter o
nosso próprio mapa do mundo intacto.
Lembrei
então de Ludwig Wittgenstein, quando ele sugere que muitos dos nossos
problemas vêm de como usamos a linguagem. Talvez “ser de esquerda” ou “ser de
direita” não seja apenas uma descrição — seja uma forma de encerrar a conversa.
Um ponto final disfarçado de pergunta.
E
se, no fundo, essas categorias forem menos sobre verdade e mais sobre
pertencimento?
A
gente quer saber de que lado o outro está porque isso define se ele está
conosco ou contra nós. É quase tribal. Como em um jogo de futebol: antes de
ouvir o argumento, queremos saber qual é a camisa. E, uma vez definida a
camisa, o resto vira detalhe.
Só
que a vida real não joga tão limpo assim.
Uma
pessoa pode defender políticas sociais em um momento e criticá-las em outro.
Pode valorizar tradições culturais e, ao mesmo tempo, questioná-las. Pode
discordar de um campo inteiro sem automaticamente migrar para o campo oposto.
Mas isso exige uma coisa que incomoda: aceitar contradições.
E
aceitar contradições — nos outros e em nós mesmos — dá trabalho.
Porque
aí não basta repetir posições prontas. A gente precisa pensar de verdade.
Precisa sustentar dúvidas, revisar certezas, conviver com zonas cinzentas. E
isso tira aquela sensação confortável de estar sempre “do lado certo”.
Talvez
por isso a pergunta “ele é de esquerda?” seja tão sedutora. Ela promete
simplicidade em um mundo complicado.
Mas,
no fim, ela empobrece mais do que esclarece.
Voltei
então à pergunta inicial, mas reformulada: não “de que lado ele está?”, e sim
“o que ele está tentando ver que eu ainda não vi?”.
Essa
segunda pergunta não resolve rápido. Não cabe em conversa apressada. Não rende
rótulo.
Mas
abre espaço.
E,
talvez, pensar — no sentido mais honesto da palavra — comece exatamente aí.