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terça-feira, 5 de maio de 2026

Mistura Tensa

Miscigenação: riqueza ou mito confortável?

Tem uma cena muito comum no Brasil: alguém fala com orgulho que “somos um povo miscigenado”, e a conversa ganha um ar quase automático de celebração. Parece um ponto pacífico, quase indiscutível. A miscigenação vira sinônimo de riqueza, de diversidade, de algo que nos diferencia positivamente.

Mas sempre me incomodou a rapidez com que a gente concorda.

Se você puxa um pouco o fio — numa conversa de bar, numa sala de aula, ou mesmo em silêncio — a pergunta começa a mudar de forma: essa mistura que tanto exaltamos foi um encontro… ou também foi imposição?

Lembrei de Antônio Risério, que costuma olhar para a cultura brasileira com um certo fascínio pela complexidade, sem cair nem na celebração ingênua nem na condenação simplista. E talvez seja justamente aí que a questão ganha densidade: a miscigenação não é uma coisa só.

No cotidiano, isso aparece de formas quase invisíveis. A gente ouve que “no Brasil não tem racismo como lá fora” porque “todo mundo é misturado”. Mas, ao mesmo tempo, sabe — pela experiência direta — que a cor da pele, o traço do rosto, o jeito de falar ainda organizam oportunidades, olhares, distâncias.

Ou seja: a mistura não apagou as diferenças. Em alguns casos, só as tornou mais difíceis de nomear.

É aí que a ideia de “mito confortável” começa a fazer sentido. Não porque a miscigenação seja falsa — ela é real, concreta, visível. Mas porque a narrativa em torno dela pode funcionar como um amortecedor. Um jeito elegante de dizer: “somos complexos demais para termos conflitos estruturais”.

E talvez isso nos poupe de enfrentar certas tensões.

Por outro lado, reduzir tudo a um problema também parece insuficiente. Porque há algo de genuinamente criativo na mistura. Basta olhar para a música, para a culinária, para a linguagem. O Brasil não é apenas um lugar onde culturas se chocaram — é também um lugar onde elas se transformaram em algo novo.

Então ficamos nesse meio desconfortável: a miscigenação como potência e como ferida ao mesmo tempo.

Aqui, o pensamento de Gilberto Freyre aparece quase como um fantasma inevitável. Ele ajudou a construir a ideia de que a mistura brasileira tinha algo de harmonioso, quase exemplar. E, por muito tempo, essa visão ofereceu uma espécie de orgulho nacional. Mas hoje ela também é questionada — não exatamente por estar errada, mas por talvez ser incompleta.

O problema não é dizer que houve mistura. É parar aí.

Porque quando a gente para aí, a mistura vira resposta — quando deveria ser ponto de partida.

No fundo, a pergunta “riqueza ou mito confortável?” talvez seja mal colocada. Porque pressupõe uma escolha, como se fosse preciso decidir de que lado ficar. E a realidade raramente se deixa dividir assim.

Talvez a miscigenação seja justamente o lugar onde o Brasil evita escolher. Onde convivem, ao mesmo tempo, criação e violência, encontro e assimetria, beleza e desconforto.

E talvez o mais honesto não seja resolver essa tensão, mas sustentá-la.

Porque, no fim, chamar algo de “riqueza” pode ser uma forma de admirar.

Mas também pode ser uma forma de não olhar de perto demais.


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Dois Lados

Outro dia me peguei fazendo uma pergunta quase automática: “mas afinal, ele é de que lado?”. Era sobre o antropólogo Antônio Risério, mas poderia ser sobre qualquer um. A pergunta veio sem esforço, como se já estivesse pronta dentro de mim — dessas que a gente não pensa, só repete.

Assisti no Instagram o seguinte trecho de sua manifestação:

https://www.instagram.com/reel/DX2BUhasmG0/?igsh=MWJranIyaGJ1Mjhjag==

E aí percebi algo incômodo: talvez a pergunta diga mais sobre mim do que sobre ele.

No cotidiano, isso aparece o tempo todo. No grupo de WhatsApp, alguém compartilha um texto — antes de entender o argumento, já surge a necessidade de classificar. No trabalho, um colega faz uma crítica qualquer, e a reação imediata é tentar descobrir “de onde ele fala”, como se o valor da ideia dependesse do time ao qual ela pertence. A gente não escuta, a gente localiza.

É curioso, porque isso parece economizar energia. Classificar é mais rápido do que compreender. Se eu consigo colocar alguém numa caixinha — esquerda, direita, progressista, conservador — eu não preciso lidar com a complexidade do que ele está dizendo. Já sei, de antemão, se concordo ou discordo.

Mas esse conforto tem um preço.

Pensadores como Antônio Risério incomodam justamente porque escapam dessas etiquetas. E quando alguém escapa, a gente insiste. Aperta, força, tenta encaixar. Porque o que está em jogo não é só entender o outro — é manter o nosso próprio mapa do mundo intacto.

Lembrei então de Ludwig Wittgenstein, quando ele sugere que muitos dos nossos problemas vêm de como usamos a linguagem. Talvez “ser de esquerda” ou “ser de direita” não seja apenas uma descrição — seja uma forma de encerrar a conversa. Um ponto final disfarçado de pergunta.

E se, no fundo, essas categorias forem menos sobre verdade e mais sobre pertencimento?

A gente quer saber de que lado o outro está porque isso define se ele está conosco ou contra nós. É quase tribal. Como em um jogo de futebol: antes de ouvir o argumento, queremos saber qual é a camisa. E, uma vez definida a camisa, o resto vira detalhe.

Só que a vida real não joga tão limpo assim.

Uma pessoa pode defender políticas sociais em um momento e criticá-las em outro. Pode valorizar tradições culturais e, ao mesmo tempo, questioná-las. Pode discordar de um campo inteiro sem automaticamente migrar para o campo oposto. Mas isso exige uma coisa que incomoda: aceitar contradições.

E aceitar contradições — nos outros e em nós mesmos — dá trabalho.

Porque aí não basta repetir posições prontas. A gente precisa pensar de verdade. Precisa sustentar dúvidas, revisar certezas, conviver com zonas cinzentas. E isso tira aquela sensação confortável de estar sempre “do lado certo”.

Talvez por isso a pergunta “ele é de esquerda?” seja tão sedutora. Ela promete simplicidade em um mundo complicado.

Mas, no fim, ela empobrece mais do que esclarece.

Voltei então à pergunta inicial, mas reformulada: não “de que lado ele está?”, e sim “o que ele está tentando ver que eu ainda não vi?”.

Essa segunda pergunta não resolve rápido. Não cabe em conversa apressada. Não rende rótulo.

Mas abre espaço.

E, talvez, pensar — no sentido mais honesto da palavra — comece exatamente aí.