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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Vulnerabilidades


Começa quase sempre assim: ninguém acorda querendo falar de vulnerabilidade. A gente prefere falar de força, estratégia, desempenho, superação. Vulnerabilidade soa como algo que deveria ser resolvido rápido, escondido ou, no máximo, tolerado em silêncio. Justamente por isso, falar sobre ela é importante. Porque tudo o que tentamos calar acaba agindo por conta própria. A vulnerabilidade não desaparece quando é ignorada — ela apenas se torna mais confusa, mais dolorosa e menos consciente.

Vulnerabilidade como condição, não como defeito

Hannah Arendt ajuda a deslocar o tema do campo da fraqueza para o da condição humana. Para ela, viver é estar exposto: ao outro, à palavra, à ação, ao imprevisível. Agir e falar em público — no sentido amplo da vida compartilhada — nos coloca inevitavelmente em risco. Não há ação sem vulnerabilidade, porque não há controle total sobre os efeitos do que fazemos ou dizemos.

Isso desmonta uma ilusão muito comum no cotidiano: a de que ser forte é ser impermeável. Na prática, quanto mais alguém tenta se blindar, mais frágil se torna internamente. A vulnerabilidade não é o oposto da força; é o preço de existir em relação.

O cotidiano da exposição

No trabalho, a vulnerabilidade aparece quando admitimos não saber tudo, quando uma ideia pode ser rejeitada, quando dependemos do reconhecimento alheio. Nas relações, ela surge quando gostamos de alguém, quando pedimos algo, quando dizemos o que sentimos sem garantia de resposta. Até o simples ato de mudar de opinião já nos coloca numa posição vulnerável — porque ameaça a imagem que construímos de nós mesmos.

Muitas estratégias modernas de vida são, no fundo, tentativas de eliminar essa exposição: excesso de planejamento, ironia constante, distanciamento emocional, desempenho permanente. O problema é que, ao reduzir o risco, reduzimos também a intensidade da experiência.

A leitura existencial da vulnerabilidade

Em Heidegger, a vulnerabilidade aparece como facticidade: somos lançados no mundo sem manual, sem garantias, sem solo definitivo. Não escolhemos tudo — nascemos em um tempo, em um corpo, em circunstâncias que nos antecedem. Essa condição não é algo a ser superado, mas assumido. Negá-la produz alienação; reconhecê-la abre espaço para autenticidade.

No cotidiano, isso significa aceitar que nem toda insegurança é um erro de cálculo. Às vezes, ela é apenas o sinal de que estamos diante de algo que realmente importa.

Vulnerabilidade e sentido

O ponto decisivo é este: só é vulnerável quem ainda está em relação com a vida. A indiferença absoluta não sofre, mas também não cria, não ama, não se transforma. A vulnerabilidade indica zonas de sentido — lugares onde algo nos afeta porque não é indiferente.

Falar sobre vulnerabilidade é importante porque ela não é um problema a ser eliminado, mas um dado a ser interpretado. Quando reconhecida, ela orienta escolhas, ajusta expectativas, humaniza relações. Quando negada, se converte em cinismo, rigidez ou abandono de si.

No fim, talvez a pergunta não seja “como deixar de ser vulnerável?”, mas outra, mais honesta: o que vale a pena continuar sentindo, mesmo com o risco que isso traz?