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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Vulnerabilidades


Começa quase sempre assim: ninguém acorda querendo falar de vulnerabilidade. A gente prefere falar de força, estratégia, desempenho, superação. Vulnerabilidade soa como algo que deveria ser resolvido rápido, escondido ou, no máximo, tolerado em silêncio. Justamente por isso, falar sobre ela é importante. Porque tudo o que tentamos calar acaba agindo por conta própria. A vulnerabilidade não desaparece quando é ignorada — ela apenas se torna mais confusa, mais dolorosa e menos consciente.

Vulnerabilidade como condição, não como defeito

Hannah Arendt ajuda a deslocar o tema do campo da fraqueza para o da condição humana. Para ela, viver é estar exposto: ao outro, à palavra, à ação, ao imprevisível. Agir e falar em público — no sentido amplo da vida compartilhada — nos coloca inevitavelmente em risco. Não há ação sem vulnerabilidade, porque não há controle total sobre os efeitos do que fazemos ou dizemos.

Isso desmonta uma ilusão muito comum no cotidiano: a de que ser forte é ser impermeável. Na prática, quanto mais alguém tenta se blindar, mais frágil se torna internamente. A vulnerabilidade não é o oposto da força; é o preço de existir em relação.

O cotidiano da exposição

No trabalho, a vulnerabilidade aparece quando admitimos não saber tudo, quando uma ideia pode ser rejeitada, quando dependemos do reconhecimento alheio. Nas relações, ela surge quando gostamos de alguém, quando pedimos algo, quando dizemos o que sentimos sem garantia de resposta. Até o simples ato de mudar de opinião já nos coloca numa posição vulnerável — porque ameaça a imagem que construímos de nós mesmos.

Muitas estratégias modernas de vida são, no fundo, tentativas de eliminar essa exposição: excesso de planejamento, ironia constante, distanciamento emocional, desempenho permanente. O problema é que, ao reduzir o risco, reduzimos também a intensidade da experiência.

A leitura existencial da vulnerabilidade

Em Heidegger, a vulnerabilidade aparece como facticidade: somos lançados no mundo sem manual, sem garantias, sem solo definitivo. Não escolhemos tudo — nascemos em um tempo, em um corpo, em circunstâncias que nos antecedem. Essa condição não é algo a ser superado, mas assumido. Negá-la produz alienação; reconhecê-la abre espaço para autenticidade.

No cotidiano, isso significa aceitar que nem toda insegurança é um erro de cálculo. Às vezes, ela é apenas o sinal de que estamos diante de algo que realmente importa.

Vulnerabilidade e sentido

O ponto decisivo é este: só é vulnerável quem ainda está em relação com a vida. A indiferença absoluta não sofre, mas também não cria, não ama, não se transforma. A vulnerabilidade indica zonas de sentido — lugares onde algo nos afeta porque não é indiferente.

Falar sobre vulnerabilidade é importante porque ela não é um problema a ser eliminado, mas um dado a ser interpretado. Quando reconhecida, ela orienta escolhas, ajusta expectativas, humaniza relações. Quando negada, se converte em cinismo, rigidez ou abandono de si.

No fim, talvez a pergunta não seja “como deixar de ser vulnerável?”, mas outra, mais honesta: o que vale a pena continuar sentindo, mesmo com o risco que isso traz?

sábado, 24 de janeiro de 2026

Teoria da Recepção

Ler é ser lido

Há livros que não mudam em nada — e, ainda assim, mudam tudo. Eles ficam ali, parados na estante, com as mesmas palavras, as mesmas páginas, a mesma capa. Quem muda somos nós. E, curiosamente, quando mudamos, o livro muda junto. Não porque ele tenha se mexido, mas porque o sentido não mora só no texto. Mora no encontro. Um livro assim é Dom Casmurro, li mais de uma vez.

A Teoria da Recepção começa exatamente nesse ponto meio desconfortável: o momento em que percebemos que ler não é um ato neutro. Ler é se colocar em jogo. É permitir que o texto nos toque — mas também tocá-lo de volta.

O sentido como acontecimento

Tradicionalmente, fomos educados a pensar que o sentido de uma obra estava:

  1. ou na intenção do autor (“o que ele quis dizer?”),
  2. ou no próprio texto, como se fosse um objeto fechado.

A Teoria da Recepção bagunça essa arrumação elegante. Para Hans Robert Jauss, o sentido acontece no choque entre a obra e o horizonte de expectativas do leitor. Esse horizonte é histórico, cultural, afetivo. Não é apenas o que sabemos, mas o que esperamos.

Por isso, uma obra nunca chega em terreno neutro. Ela chega em alguém. E alguém é sempre um mundo em andamento.

Aqui, o sentido deixa de ser uma coisa e passa a ser um evento.

As lacunas: onde o leitor entra

Wolfgang Iser aprofunda essa ideia ao mostrar que todo texto é, por natureza, incompleto. Ele possui lacunas, silêncios, indeterminações. O texto sugere, provoca, aponta — mas não entrega tudo.

Essas lacunas não são defeitos. São convites.

Ler, então, não é apenas receber uma mensagem, mas executar a obra, quase como um músico executa uma partitura. A partitura está ali, mas a música só existe quando alguém toca. E cada execução é diferente, mesmo sendo “a mesma” música.

Dom Casmurro como laboratório da recepção

Poucos livros ilustram tão bem a Teoria da Recepção quanto Dom Casmurro. Não porque Machado de Assis tenha escondido uma resposta definitiva sobre Capitu, mas porque construiu um texto que precisa do leitor para funcionar.

Bentinho não é apenas um narrador: é um dispositivo de recepção. Ele nos conta a história enquanto nos testa. Seleciona lembranças, omite gestos, exagera suspeitas. O texto não nos diz se Capitu traiu ou não — ele nos pergunta, silenciosamente, o que fazemos com a dúvida.

Cada leitor chega ao romance com um horizonte distinto:

  • quem confia na memória tende a confiar em Bentinho;
  • quem desconfia do ressentimento vê nele um narrador frágil;
  • quem já amou, perdeu ou foi traído lê o livro com o corpo inteiro.

O romance não muda. O veredito, sim.

Machado parece intuir algo que a Teoria da Recepção formularia depois: o sentido não está na resposta, mas na experiência interpretativa. Dom Casmurro não é um enigma a ser resolvido, mas um espelho que devolve ao leitor seus próprios critérios de julgamento.

Quando a filosofia entra na sala

A Teoria da Recepção conversa diretamente com a hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, para quem compreender é sempre um processo de fusão de horizontes. Não há interpretação sem pré-compreensão. Não há leitura sem história pessoal.

No Brasil, essa ideia encontra eco em Paulo Freire, quando afirma que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. O leitor não chega vazio ao texto: ele chega carregado de vida. E é essa vida que faz o texto falar.

Ler, nesse sentido, é também ser lido. O texto nos observa enquanto o observamos. Ele nos revela a nós mesmos.

Recepção não é relativismo

Um equívoco comum é achar que a Teoria da Recepção transforma tudo em “vale qualquer coisa”. Não é bem assim. O texto impõe limites. Ele orienta possibilidades. Nem toda leitura é defensável.

Mas entre o texto fechado e a interpretação arbitrária existe um campo fértil: o campo da responsabilidade interpretativa. O leitor é livre, mas não soberano. Ele dialoga, não domina.

Dom Casmurro, novamente, é exemplar: nem toda leitura se sustenta, mas nenhuma leitura honesta consegue encerrar o romance de forma definitiva.

A obra como espaço de transformação

Talvez o aspecto mais radical da Teoria da Recepção seja este:

uma obra não é apenas algo que entendemos — é algo que nos modifica.

Quando uma leitura nos incomoda, nos desloca ou nos acompanha por anos, não é porque descobrimos “o verdadeiro sentido” do texto, mas porque o texto encontrou algo em nós que ainda estava em formação.

A recepção, então, não é um ato final. É um processo contínuo. Cada releitura é uma reescrita silenciosa.

Conclusão (sem fechar demais)

A Teoria da Recepção nos ensina que a cultura não é um museu de sentidos fixos, mas um campo vivo de encontros. Ler é um ato de presença. Exige atenção, abertura e risco.

Dom Casmurro permanece porque nunca termina de acontecer. Ele apenas espera leitores diferentes para continuar dizendo outra coisa.

No fundo, talvez seja isso:

não somos apenas leitores das obras — somos lugares onde elas acontecem.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Sagrado e Profano


Eu aprendi que o sagrado não mora apenas nos altares, assim como o profano não vive apenas nas quedas. Eles se misturam no mesmo gesto, no mesmo dia, no mesmo corpo. O café tomado em silêncio pode ser mais sagrado que uma oração distraída; uma risada fora de hora pode ser mais verdadeira que uma reverência vazia. O sagrado nasce quando algo nos atravessa com sentido. O profano surge quando repetimos sem presença. No fundo, não é o lugar que decide, nem o ritual, nem a forma — é a qualidade do olhar. E talvez a maturidade consista exatamente nisso: perceber que o sagrado não está acima da vida, mas escondido dentro dela, e que o profano não é o oposto do divino, mas apenas a vida quando esquecemos de senti-la.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Desgarrados


Fiquei remoendo no pensamento a palavra “desgarrados”, certamente associada as minhas observações, percebi que nem toda solidão nasce da ausência de pessoas — algumas nascem da ausência de sentido. Comecei a notar rostos presentes e almas deslocadas, risos que não repousavam em ninguém, conversas que não encontravam morada. E então entendi que havia um tipo de humano que não estava perdido, mas desalojado por dentro. Não por fracasso, mas por excesso de lucidez. Foi desse incômodo silencioso, dessa sensação de não caber sem querer fugir, que surgiu a necessidade de pensar os desgarrados. Não como excluídos, mas como consciências que já não conseguem habitar as certezas que o mundo oferece.

Há pessoas que não se perdem — se desgarram. E há uma diferença profunda entre uma coisa e outra. Quem se perde quer voltar. Quem se desgarra, muitas vezes, nem sabe mais de onde saiu.

Os desgarrados não fazem barulho. Eles caminham à margem, com uma estranha mistura de lucidez e cansaço. Não pertencem por inteiro, mas também não se rebelam o suficiente para romper. São estrangeiros dentro da própria rotina.

O desgarro no cotidiano

O desgarrado pode estar na mesa do almoço em família e sentir-se visitante. Pode estar no trabalho e não se reconhecer no que faz. Pode estar entre amigos e ainda assim sentir solidão. Não por rejeição externa, mas por deslocamento interno.

Ele não se sente excluído. Ele se sente fora de eixo.

E isso é mais silencioso que a exclusão.

Desgarrar-se não é fraqueza

Vivemos numa cultura que exalta pertencimento: tribos, grupos, lados, rótulos, identidades rígidas. O desgarrado é visto como indeciso, estranho, instável. Mas talvez ele seja apenas alguém que percebeu cedo demais que nenhum lugar é completo.

Desgarrar-se é perceber que o mundo oferece papéis, mas não garante sentido.

Albert Camus descreveu esse estado como o sentimento do absurdo: o momento em que o ser humano percebe a distância entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo. Para Camus, o desgarrado não é um derrotado, mas alguém que acordou. Ele não foge da vida, mas se recusa a mentir para ela. O desgarro, então, não é alienação — é lucidez sem anestesia.

O risco e a dignidade do desgarro

O risco do desgarrado é o cinismo. A dignidade é a honestidade. Ele pode cair na indiferença ou transformar o desencaixe em busca. O mesmo desgarro que isola também pode libertar.

Porque quem não pertence por inteiro a lugar nenhum pode, finalmente, pertencer a si.

Desgarrados não são vazios

Eles apenas não aceitam preenchimentos fáceis. Não se contentam com respostas prontas, com pertencimentos automáticos, com verdades herdadas. Eles carregam uma solidão que não é ausência — é espaço.

Espaço para pensar.

Espaço para sentir.

Espaço para reconstruir.

No fim, todos somos um pouco desgarrados

Em algum momento da vida, todos nos soltamos de algo: de uma crença, de uma pessoa, de uma versão de nós mesmos. Alguns chamam isso de crise. Outros chamam de maturidade. Talvez seja apenas o preço de deixar de viver emprestado.

Os desgarrados não têm mapa.

Mas têm direção: para dentro.

E às vezes, isso já é a forma mais rara de pertencimento.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Vozes Abstratas


Estava em minha caminhada diária e no trajeto entre as arvores do parque dei atenção ao barulho das folhas, elas queriam conversar comigo, em minhas abstrações comecei a dar-lhes ouvidos. Há vozes que não vêm da garganta. Não pedem microfone, não fazem eco nas paredes, mas atravessam o dia como um vento leve que muda a direção do pensamento. São abstratas porque não têm rosto, mas são íntimas porque sabem exatamente onde tocar.

Elas aparecem no silêncio do ônibus, na pausa antes de responder uma mensagem, naquele instante em que o café já esfriou e a gente percebe que estava pensando em outra coisa. Não dizem frases completas. Sugerem. Insinuam. Às vezes só perguntam: é isso mesmo?

As vozes abstratas não mandam — convidam. Uma lembra quem fomos. Outra aponta quem poderíamos ser. Há também a que mente, a que exagera, a que dramatiza. E há a mais rara: a que simplifica.

No cotidiano, a gente aprende a valorizar vozes concretas — chefes, professores, especialistas, algoritmos. Mas são as abstratas que organizam o mapa interno. Elas não explicam o mundo; explicam nossa posição nele.

Talvez por isso incomodem tanto. Porque não podem ser desligadas. Não têm botão, nem volume. Só escuta quem para.

Como diria um filósofo brasileiro pouco lembrado, Vicente Ferreira da Silva, o homem não é apenas aquele que pensa, mas aquele que escuta o sentido se formando dentro dele. As vozes abstratas são justamente esse ensaio de sentido, ainda sem forma, ainda sem nome.

E talvez amadurecer seja aprender a não confundi-las com ordens, nem a ignorá-las como ruído. É deixá-las falar — sem transformá-las imediatamente em certezas.

Porque, no fundo, toda decisão começa como uma voz abstrata. E toda identidade também.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Fadiga de Sentido

 

Cansaço Moral e Fadiga de Sentido

Há um tipo de cansaço que não melhora com sono. A gente dorme, acorda, toma banho, cumpre o roteiro do dia — e mesmo assim algo continua pesado. Não é o corpo: é o sentido. Ou melhor, a falta dele. Esse é o território onde o cansaço moral encontra a fadiga de sentido.

O cansaço moral nasce quando tudo exige uma posição. Opinar, reagir, escolher lados, demonstrar indignação correta, empatia calibrada, discurso ajustado. O mundo virou um teste contínuo de caráter — público, rápido e sem direito a silêncio. Não é que faltem causas justas; é que falta intervalo. Falta o direito de não responder imediatamente a tudo, de não transformar cada acontecimento em identidade.

Já a fadiga de sentido aparece quando, mesmo fazendo “as coisas certas”, nada parece realmente necessário. Trabalha-se, consome-se, fala-se, compartilha-se — mas a pergunta silenciosa insiste: para quê? Não é niilismo declarado; é um esvaziamento discreto. A vida continua funcionando, mas sem densidade.

Byung-Chul Han chama isso de uma sociedade do desempenho que nos adoece não pela proibição, mas pelo excesso de possibilidade. Tudo pode, tudo deve, tudo é projeto. O resultado não é liberdade, é exaustão. Eu acrescentaria: uma exaustão moral, porque até descansar parece um dever mal cumprido.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos. A mensagem que você responde por obrigação, não por desejo. A opinião que você repete porque “é o que se espera”. O incômodo difuso de estar sempre atrasado em relação a alguma causa, algum debate, alguma versão melhor de si mesmo. Não é culpa no sentido clássico — é desgaste ético.

Ailton Krenak oferece um desvio interessante: talvez estejamos cansados porque fomos convencidos de que a vida precisa justificar-se o tempo todo. Produzir, explicar, provar utilidade. Quando o sentido vira planilha, ele cansa. Quando tudo precisa servir para algo maior, nada serve para nos sustentar por dentro.

Talvez a saída não seja encontrar mais sentido, mas reduzir o ruído que o sufoca. Aceitar que nem toda experiência precisa virar posicionamento. Que o silêncio também é uma forma de cuidado. Que não responder já é, às vezes, uma resposta ética.

O cansaço moral não se cura com slogans motivacionais. A fadiga de sentido não se resolve com produtividade. Ambos pedem algo mais simples e mais difícil: reconectar-se com aquilo que não precisa ser exibido, defendido ou explicado. Aquilo que, quando acontece, não cansa — mesmo quando dá trabalho.

No fim, talvez descansar seja reaprender a viver sem estar o tempo todo se justificando para o mundo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Crise de Pertencimento


A crise de pertencimento não costuma anunciar sua chegada. Ela não quebra portas nem levanta a voz; entra devagar, como quem já conhece a casa. Um dia, quase sem perceber, estamos nos lugares certos — no trabalho, entre amigos, na família, nas redes — e, ainda assim, com a sensação incômoda de não estar realmente em lugar nenhum.

Esse mal-estar é difícil de nomear. Não é solidão, porque há pessoas por perto. Não é rejeição, porque ninguém nos expulsou. É algo mais sutil: a impressão de viver como um convidado permanente da própria vida, alguém que participa, mas não habita.

No cotidiano, a crise se revela em gestos pequenos. Rimos na hora certa, mas o riso vem um pouco oco. Concordamos para evitar desgaste. Ajustamos opiniões, afetos e até silêncios para caber nos ambientes. Socialmente, tudo funciona. Interiormente, algo fica em suspenso, como se estivéssemos sempre “de passagem”.

Há um paradoxo cruel nisso tudo: quanto mais tentamos pertencer a todos os lugares, menos pertencemos a algum. O pertencimento verdadeiro exige risco — o risco de destoar, de sustentar diferenças, de não ser imediatamente aceito. E esse risco cansa. Por isso, tantas vezes preferimos a adaptação silenciosa à fricção de sermos quem somos.

Essa crise também tem uma dimensão temporal. Não pertencemos apenas a grupos, mas a histórias. Quando a narrativa que contamos sobre nós mesmos deixa de combinar com a vida que levamos, surge uma fratura interna. É como morar numa casa que um dia foi familiar, mas cujos cômodos já não reconhecemos. Continuamos ali por hábito, não por sentido.

Um exemplo muito atual dessa crise aparece no mundo do trabalho híbrido ou remoto. Muita gente tem emprego, salário, reuniões semanais, metas claras — e, ainda assim, sente que não faz parte de nada. Não pertence mais ao escritório, que virou um espaço ocasional, quase simbólico. Tampouco pertence totalmente à casa, transformada em extensão do expediente. Vive-se entre telas, agendas e notificações, sem chão.

Essa sensação aparece em detalhes banais: ligar a câmera e sentir que está encenando um papel profissional; participar de decisões sem perceber que sua voz realmente pesa; não saber se o colega é parceiro, concorrente ou apenas um avatar cordial. Externamente, tudo parece em ordem. Internamente, surge a pergunta silenciosa e corrosiva: “se eu sair daqui, o que exatamente eu era aqui?”

Esse tipo de crise é típico do nosso tempo porque não nasce da exclusão explícita, mas da diluição dos vínculos. Não há conflito aberto, apenas uma ausência de raízes. A pessoa não é rejeitada — ela é substituível, e sabe disso. O pertencimento não é negado; ele é esvaziado.

Mas há algo importante a reconhecer: a crise de pertencimento não é necessariamente um fracasso. Muitas vezes, ela surge quando amadurecemos o suficiente para perceber que pertencer não é apenas estar presente, mas ser reconhecido — e se reconhecer — naquele lugar. Não basta ocupar um espaço; é preciso que ele faça sentido.

No fundo, talvez essa crise não seja sobre encontrar onde nos encaixar, mas sobre escutar o que em nós não quer mais se encaixar. O desconforto, então, deixa de ser um problema a ser eliminado e passa a ser um sinal. Um convite difícil, mas honesto, a reorganizar vínculos, escolhas e narrativas.

A crise de pertencimento dói porque desmonta certezas. Mas, às vezes, é justamente ela que nos devolve algo raro: a possibilidade de pertencer, não a todos os lugares, mas ao próprio caminho.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Espiritualidade Sem Rótulo


Há gente que, quando ouve a palavra espiritualidade, já procura um crachá: religioso, místico, ateu, agnóstico, “meio espiritual, meio cético”. Parece que sem um rótulo a experiência não existe, como se a alma precisasse de legenda para ser levada a sério. Mas a verdade é que muita gente vive algo profundamente espiritual sem jamais usar essa palavra — e talvez exatamente por isso viva de modo mais honesto.

Imagine alguém parado no trânsito, preso há quarenta minutos, atrasado, irritado. De repente, olha para o céu entre os prédios e percebe a luz mudando, quase imperceptível. Por alguns segundos, a pressa se dissolve. Não houve oração, mantra, nem reflexão elaborada. Só um silêncio interior breve, mas real. Aquilo foi espiritualidade? Se perguntarmos, talvez a pessoa diga apenas: “dei uma respirada”.

A espiritualidade sem rótulo costuma surgir assim: sem anúncio, sem discurso, sem sistema. Ela não pede filiação nem exige coerência teórica. Ela acontece antes de qualquer explicação.

Há algo de espiritualmente denso em cuidar de alguém doente, mesmo reclamando do cansaço. Em preparar comida simples com atenção. Em ouvir alguém falar sem interromper. Nenhuma dessas ações precisa ser elevada a “prática espiritual” para ter profundidade. Aliás, quando rotulamos demais, às vezes esvaziamos a experiência: passamos a agir para parecer espirituais, e não porque algo nos toca de verdade.

No cotidiano, a espiritualidade sem rótulo se manifesta como uma ética do gesto pequeno. Ela não quer salvar o mundo — quer não endurecer por dentro.

Filosoficamente, rotular é uma forma de organizar o caos. Mas também é uma forma de controle. Quando dizemos “isso é espiritualidade”, imediatamente surgem fronteiras: isso é válido, aquilo não é; isso é profundo, aquilo é superficial. A experiência viva, porém, não respeita essas linhas.

Muitos rejeitam a espiritualidade não porque rejeitam o sentido, o mistério ou o silêncio, mas porque rejeitam os pacotes prontos. O rótulo vira uma porta estreita demais para algo que é largo.

Para alguns, a espiritualidade sem rótulo não aponta “para cima”, mas “para dentro” ou “para o lado”. Ela não precisa de um além-mundo. Basta uma atenção radical ao aqui.

Uma pessoa que caminha todos os dias pelo mesmo trajeto e, de repente, nota uma árvore que sempre esteve ali — e se sente estranhamente acompanhada por essa presença silenciosa — está vivendo algo que nenhuma doutrina explica melhor do que o próprio silêncio explica.

Viver sem rótulo é arriscado. Dá mais trabalho do que aderir a um sistema pronto. Não há frases decoradas para momentos difíceis. Não há respostas automáticas para o sofrimento. A espiritualidade sem rótulo exige uma sinceridade constante: o que, de fato, me move?

No trabalho, isso aparece quando alguém se recusa a desumanizar colegas em nome da eficiência. Na família, quando se escolhe o cuidado em vez da vitória numa discussão antiga. Não é heroísmo — é atenção moral cotidiana.

Talvez a pergunta não seja “qual é a sua espiritualidade?”, mas “o que em você ainda não endureceu?”. Onde você ainda é capaz de se espantar, de escutar, de mudar de ideia?

A espiritualidade sem rótulo não quer ser defendida, nem propagada. Ela só quer espaço para existir. E, curiosamente, quanto menos falamos dela, mais ela se infiltra na vida comum — no jeito de andar, de trabalhar, de errar, de pedir desculpas.

No fim, talvez o mais espiritual seja justamente isso: viver de modo que a vida não precise de explicação para fazer sentido.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Espanto e Reverência


Como quem pensa alto, penso que há dias em que nada acontece — e, ainda assim, alguma coisa nos atravessa. Não é alegria, nem tristeza. É um silêncio com peso. A gente abre a janela, vê o céu fazendo o que sempre fez, e sente um leve desconforto: como isso continua existindo sem pedir explicação? É nesse intervalo estranho, entre o banal e o inexplicável, que moram o espanto e a reverência. Não como sentimentos raros, mas como modos de estar no mundo que desaprendemos a usar.

Vivemos treinados para reagir, não para nos espantar. Para dominar, não para reverenciar. O ensaio que segue é um convite a desacelerar o gesto automático e reaprender dois movimentos antigos do espírito: o espanto que abre, e a reverência que sustenta.

Desde Aristóteles sabemos — quase de cor, mas pouco de corpo — que a filosofia nasce do thaumázein, do espanto. Mas o que raramente se diz é que o espanto não nasce do extraordinário: ele nasce quando o ordinário falha em se explicar sozinho.

O espanto é uma fratura no hábito. É quando algo, sem fazer barulho, desarma nossas categorias.

No cotidiano, ele aparece de forma discreta:

  • quando uma criança faz uma pergunta óbvia demais (“por que as pessoas envelhecem?”) e nenhuma resposta funciona;
  • quando um pai percebe, de repente, que a voz do filho mudou;
  • quando alguém, no ônibus lotado, olha um rosto desconhecido e se dá conta de que ali há uma vida inteira inacessível.

O espanto não é ignorância; é lucidez súbita. Ele nos mostra que sabemos menos do que fingimos — e isso, paradoxalmente, nos torna mais atentos.

Mas o espanto, sozinho, é instável. Ele pode virar curiosidade superficial, consumo de novidade, ansiedade por mais estímulos. Para não se perder, ele precisa de um segundo gesto: a reverência.

A palavra reverência costuma causar desconforto moderno. Parece coisa de religião antiga, hierarquia rígida, obediência cega. Mas filosoficamente, reverenciar não é se diminuir — é reconhecer a medida do que não nos pertence.

Reverência é aceitar que nem tudo está à disposição da nossa vontade.

No dia a dia, ela se manifesta de modos quase invisíveis:

  • no cuidado ao entrar em um hospital, falando mais baixo sem que ninguém peça;
  • no respeito espontâneo diante de um idoso que não conhecemos;
  • no silêncio que se impõe quando alguém conta uma dor real.

Reverenciar é saber quando não transformar tudo em opinião, piada ou postagem. É conter o impulso de explicação total. Onde o espanto pergunta “o que é isso?”, a reverência responde: “talvez não seja tudo para mim”.

Aqui, espanto e reverência se encontram: o primeiro abre o mundo; a segunda impede que o fechemos rápido demais.

Nossa época sofre menos por falta de respostas e mais por saturação delas. Tudo é comentado, analisado, ranqueado. O mistério virou falha técnica; o silêncio, constrangimento.

O resultado é um mundo sem espanto e, portanto, sem reverência.

Se nada nos espanta, nada nos exige cuidado.

Isso aparece:

  • no consumo apressado de tragédias como se fossem notícias equivalentes;
  • na ironia constante diante de qualquer grandeza;
  • na incapacidade de permanecer diante de algo sem transformá-lo em conteúdo.

Sem espanto, perdemos a pergunta.

Sem reverência, perdemos o limite.

E sem ambos, a experiência empobrece: tudo é vivido, mas pouco é realmente encontrado.

Recuperar o espanto e a reverência não exige mudar de vida, mas mudar de ritmo. É uma ética do olhar lento.

Ela se ensaia em gestos simples:

  • olhar alguém falando sem antecipar a resposta;
  • aceitar que certos acontecimentos não “servem para nada”;
  • suportar a estranheza de não entender imediatamente.

Nesse sentido, o espanto não nos tira do mundo — ele nos devolve a ele. E a reverência não nos cala — ela nos ensina quando falar seria uma violência.

Talvez maturidade não seja acumular certezas, mas aprender onde colocá-las com delicadeza.

Espanto e reverência não são estados elevados reservados a místicos ou filósofos. São disposições esquecidas, sufocadas pela pressa e pela necessidade de controle.

Espantar-se é permitir que o mundo nos desinstale.

Reverenciar é não correr para se reinstalar no comando.

Entre um e outro, surge uma forma mais densa de presença: menos ansiosa por sentido, mais disponível para recebê-lo.

E talvez — só talvez — seja aí que a vida, sem fazer anúncio, volte a falar.

domingo, 16 de novembro de 2025

Labirinto Profissional


Quando começamos a vida profissional, imaginamos um caminho reto, feito de esforço e recompensa. Mas logo percebemos que é um labirinto. As portas que pareciam abertas se fecham, e as que não esperávamos se escancaram. A profissão, às vezes, parece ter vontade própria. Lembro quando comecei no primeiro emprego, a partir daí aprendi a seguir pelo labirinto de oportunidades, elas surgiam como recompensas pelo meu empenho e dedicação, me trouxeram longe, levaram onde jamais poderia ter imaginado ir.

No início, há entusiasmo e curiosidade. Depois, surgem metas, prazos, pressões. A rotina vai tomando o espaço do sonho — e é aí que muitos se perdem de si mesmos. Trabalham muito, mas já não sabem por quê.

O labirinto profissional é mais do que o cansaço do trabalho: é o desafio de manter o sentido em meio às exigências. É lembrar que o ofício, quando vivido com presença, ainda pode ser um espaço de criação, não apenas de sobrevivência.

Hannah Arendt dizia que “trabalhar é humanizar o mundo”. Mas isso só acontece quando o trabalho também nos humaniza. O perigo é transformar a vocação em função, o talento em tarefa. O labirinto só se revela saída quando a gente volta a se escutar.

No fim, o trabalho não é o que fazemos para viver, mas o que fazemos para existir com propósito.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Almas Vazias


Tem dias em que olhamos ao redor e sentimos que há algo estranho no ar. As conversas parecem roteiros ensaiados, os sorrisos funcionam como protocolos sociais, e as palavras voam sem deixar rastro. É como se estivéssemos cercados por pessoas que estão ali, mas não estão. Presenças sem presença. Algo falta, mas o quê? Talvez estejamos lidando com aquilo que podemos chamar de almas vazias.

O que seria, afinal, uma alma vazia? Não se trata de ausência de sentimentos ou de inteligência. Muitos dos que se enquadrariam nessa definição são funcionais, articulados e, por vezes, até bem-sucedidos. No entanto, carregam um certo vazio existencial, uma desconexão com a própria interioridade. Vivem sem um eixo que os amarre a algo genuíno, sem um fogo interno que ilumine sua jornada.

Nietzsche falava do homem do rebanho, aquele que simplesmente segue as tendências, sem nunca questioná-las. Mas talvez a alma vazia seja um passo além: não apenas segue, mas o faz sem sentir, sem se apropriar do próprio caminho. Não há um projeto pessoal de vida, apenas uma adesão mecânica ao que já está estabelecido.

No dia a dia, podemos identificar essas almas no olhar perdido no trânsito, nas interações automáticas nos escritórios e nas redes sociais lotadas de discursos vazios. A vida é reduzida a uma performance constante, sem um verdadeiro sentido. Quando se conversa com alguém assim, sente-se uma ausência de profundidade. As palavras são ditas, mas não há um real envolvimento. Como se a interioridade tivesse sido substituída por um eco de expectativas alheias.

Mas o que causa essa esterilidade do espírito? Podemos pensar em uma série de fatores. O excesso de informação sem assimilação real, o culto à produtividade sem espaço para contemplação, o medo de enfrentar o próprio silêncio. No fundo, uma alma vazia talvez seja uma alma que parou de dialogar consigo mesma. Sem reflexão, sem mergulho interior, sem contato com aquilo que nos torna únicos.

Há saída? A questão não é simples. Reencontrar a própria alma exige uma ruptura com a superficialidade imposta pelo mundo. Exige se permitir o incômodo da dúvida, o risco do questionamento, a coragem de abandonar máscaras. Exige se abrir para o que é autêntico, mesmo que isso signifique romper com aquilo que sempre foi confortável.

No fim das contas, talvez almas vazias não sejam irremediavelmente vazias. Talvez estejam apenas adormecidas, esperando um chamado. E esse chamado pode vir de uma conversa inesperada, de um livro que sacode certezas, de um instante de pura contemplação. Tudo depende de um passo: o desejo de reencontrar o que um dia foi esquecido dentro de si.


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Pequenas Coisas

Quando o extraordinário se esconde no cotidiano

Há dias em que a vida parece se dissolver no automático: acordar, correr, resolver, responder. Tudo tão urgente que até o silêncio se sente invadido.

E é curioso — porque justamente nesses dias em que mais procuramos um “grande sentido” para continuar, ele costuma se esconder nas frestas do cotidiano.

 

Um gesto simples que muda o dia

Lembro de uma manhã qualquer. O ônibus atrasou, o café esfriou, e a pressa parecia guiar o mundo.
Foi quando uma senhora, sentada ao meu lado no ponto, me ofereceu um pão de queijo.

Sem dizer nada, apenas estendeu a mão.

O gesto foi pequeno, quase banal — mas naquele instante senti que havia mais vida ali do que em muitas metas ou discursos motivacionais.

Talvez a vida seja isso: uma sucessão de pequenos gestos que nos lembram que estamos juntos nesse mistério.

 

Viktor Frankl e a descoberta do sentido

O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, escreveu em Em busca de sentido que a vida nunca deixa de ter significado, mesmo diante do sofrimento.

Para ele, o ser humano é movido não pelo prazer ou pelo poder, mas por uma “vontade de sentido”.
Não se trata de inventar um propósito, e sim de descobrir o que já está presente — mesmo em situações simples ou dolorosas.

“Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como.” — Viktor Frankl

 

A ilusão do grande propósito

Vivemos em uma época em que todos buscam um propósito épico:
a carreira perfeita, a viagem transformadora, o amor que vai justificar tudo.

Mas o sentido, se existe, é tímido.
Ele aparece no cuidado com uma planta que floresce, na risada que escapa no meio do caos, na conversa breve com alguém cansado demais para falar.

A vida cochicha o que realmente importa — e o curioso é que quase nunca é algo extraordinário.

 

Três caminhos para encontrar o sentido

Frankl dizia que o sentido pode ser encontrado em três dimensões:

  • No trabalho, quando fazemos algo com amor;
  • No amor, quando nos entregamos de verdade;
  • No sofrimento, quando damos uma resposta digna ao inevitável.

Isso significa que até o que parece insignificante pode conter grandeza, desde que vivido com presença.

 

Estar presente é um ato filosófico

Talvez o que mais falte hoje seja presença — não a física, mas aquela atenção tranquila que acolhe o instante.
Quando conseguimos estar de corpo e alma no que fazemos, até varrer o chão pode ser um ato filosófico.

A vida deixa de ser uma lista de tarefas e volta a ser o que sempre foi: um convite para perceber.

 

Conclusão: não busque o sentido, viva-o

O sentido da vida não está num destino distante, mas no modo como olhamos o agora.
Não é algo a ser encontrado, e sim algo que se revela quando paramos de correr atrás dele.

Quem sabe o segredo não seja procurar o sentido da vida,
mas permitir que a vida faça sentido através de nós.


domingo, 5 de outubro de 2025

Expressão Íntima

Pensar, falar e escrever: uma dança da consciência, da linguagem e da emoção

Vira e mexe retomo o tema, cada tentativa de falar me parece ter uma mesma dificuldade, entrar na expressão com sentido e se possível reunir tudo, (pensar, falar e escrever) numa palavra só, a moda dos egípcios, não é fácil, mas é saboroso pensar e escrever a respeito, então vamos lá saborear mais esta tentativa. Em principio a palavra que talvez reúna isto tudo seja “expressão”, uma palavra forte e carrega outras formas de demonstrar e externar o vai dentro de nós.

A tríade pensar, falar e escrever pode parecer, à primeira vista, uma sequência simples: primeiro nasce o pensamento, depois ele é expresso na fala, e finalmente fixado na escrita. Mas essa cadeia esconde uma complexidade fascinante, onde corpo, linguagem e emoção se entrelaçam para revelar a condição humana em sua plenitude.

Para aprofundar essa reflexão, recorremos a dois filósofos centrais do século XX: Ludwig Wittgenstein e Maurice Merleau-Ponty. Enquanto Merleau-Ponty nos ajuda a compreender a dimensão encarnada e emocional do pensamento e da expressão, Wittgenstein nos convida a pensar o funcionamento e os limites da linguagem no mundo.

O pensamento e seus limites: a visão de Wittgenstein

Em seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein afirmou que “os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”. Para ele, o pensamento é intrinsecamente ligado à linguagem — ou melhor, ao uso da linguagem. Não existe um pensamento puramente separado da linguagem, pois pensar é, em grande medida, articular sentidos e possibilidades dentro de um sistema linguístico.

Mas Wittgenstein também nos adverte que nem tudo pode ser dito; há aspectos do pensar que ficam “para além” das palavras — os sentimentos, as experiências vividas, o que é mostrado, mas não pode ser explicado. Isso cria um espaço entre pensar e falar, onde a emoção e a experiência pessoal são vividas, mas nem sempre verbalizadas com precisão.

Falar: o jogo da linguagem e a expressão

Wittgenstein propõe que a linguagem é um “jogo”, com regras que variam conforme o contexto e a prática social. Falar é, portanto, mais do que transmitir informações — é participar de um jogo que dá sentido e valor às palavras. O falar transforma o pensamento em algo público e compartilhado, mas sempre limitado pelo jogo de regras, pela interpretação e pela intenção.

A fala é um ato performativo, e a emoção permeia esse ato, colorindo o tom, o ritmo e a força das palavras. Essa dimensão de vivência torna o falar uma ponte entre o mundo interior do pensamento e o mundo exterior da comunicação.

Escrever: a materialização do sentido e da subjetividade

A escrita, por sua vez, é uma fixação da linguagem — uma forma de tornar permanente o que na fala é efêmero. No entanto, essa fixação traz a ambivalência de solidificar sentidos e, ao mesmo tempo, abrir espaços para novas interpretações, pois a escrita existe para além do momento da criação, sendo relida e ressignificada.

Merleau-Ponty acrescenta que escrever é um gesto do corpo, um ato que contém emoção e intenção, e que revela a subjetividade do autor mesmo nos traços das letras.

Merleau-Ponty e a corporeidade da tríade

Para Merleau-Ponty, pensar, falar e escrever são manifestações da consciência encarnada — um corpo que sente, percebe e se expressa. Pensar é um processo vivo, cheio de emoções e sensações que se manifestam no falar e no escrever, unindo corpo e linguagem.

A emoção, portanto, é o fio invisível que conecta pensar, falar e escrever, dando vida e profundidade ao processo de comunicação.

Entre limites e sentidos, o movimento da linguagem

Integrar Wittgenstein e Merleau-Ponty nos ajuda a compreender que a tríade pensar, falar e escrever é uma dinâmica complexa, onde:

  • O pensamento é tanto possível quanto limitado pela linguagem (Wittgenstein).
  • A fala é um jogo de sentidos permeado pela emoção e pelo corpo (Wittgenstein e Merleau-Ponty).
  • A escrita é a materialização da subjetividade e do fluxo emocional da consciência (Merleau-Ponty).

Desenhar essa tríade é tentar capturar um movimento que é interior e exterior, um gesto de criação que nos conecta a nós mesmos e aos outros, numa dança contínua entre o que se pode dizer e o que permanece para além da palavra.


segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Princípio do Sentido


De manhã cedo, ao acordar, ninguém precisa que lhe ensinem a respirar. Mas quase todos precisam, em algum momento da vida, se perguntar: “Por que levantar hoje?” O que nos move não é só a sobrevivência biológica, mas a busca por algum sentido — uma razão que costure as horas e dê peso às escolhas. Esse impulso é tão fundamental que poderia ser chamado de um princípio: algo que antecede e organiza nossa experiência.

O filósofo Viktor Frankl, em Em busca de sentido, mostrou isso com clareza brutal: nos campos de concentração, aqueles que encontravam um “porquê” suportavam quase qualquer “como”. Para ele, o ser humano é, antes de tudo, um buscador de sentido — e quando essa busca falha, abre-se espaço para o vazio existencial.

Mas o sentido não é apenas individual. Na sociologia, Émile Durkheim já havia percebido que rituais, religiões e tradições fornecem à coletividade um horizonte de significados. É por isso que uma festa nacional ou até o campeonato de futebol podem dar à vida cotidiana um gosto de pertencimento. O sentido, nesse caso, é partilhado, costurado pelas narrativas coletivas que nos dizem: “você faz parte de algo maior”.

No entanto, o princípio do sentido no capitalismo contemporâneo se vê tensionado. O sistema oferece mil possibilidades de consumo, mas pouco responde às perguntas essenciais: quem somos? Para onde vamos? O filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Busca do Sentido da Vida, lembra que o verdadeiro sentido não pode ser reduzido a conquistas externas ou acúmulo de bens; ele brota da capacidade de autoconhecimento e de ligação com o outro.

No dia a dia, esse princípio se manifesta em detalhes. Alguém que cozinha para a família encontra sentido no cuidado. Outro que se dedica ao trabalho voluntário vê ali um lugar para sua existência. Até o estudante que encara provas e trabalhos exaustivos o faz não só pela nota, mas porque imagina um futuro em que isso terá significado.

O risco maior talvez seja esquecer que o princípio do sentido é uma necessidade constante, e não algo dado de uma vez por todas. Sentido não é herança; é tarefa. Ele se renova, se transforma, às vezes se perde para depois ser redescoberto. Como dizia Camus, ao refletir sobre o absurdo, não há sentido pronto no universo, mas nós é que o inventamos a cada passo — e nesse ato criador reside a dignidade humana.

Assim, o princípio do sentido é a fonte invisível que nos sustenta: lastimamos, rejubilamos, amamos, sofremos, trabalhamos e descansamos, sempre tentando costurar uma narrativa que nos faça dizer, mesmo em silêncio: “valeu a pena ter levantado hoje”.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Douta Ignorância

A gente vive colecionando certezas como quem acumula bugigangas na estante. E, quanto mais a estante se enche, mais difícil fica perceber a poeira sobre as ideias. No entanto, há um tipo de sabedoria que não se exibe como troféu nem se impõe com arrogância: é a douta ignorância, o saber que se sabe não saber, como diria Nicolau de Cusa, o teólogo e filósofo que cunhou essa expressão lá no século XV.

Cusa nos ensina que há limites no conhecer humano, e que reconhecer esses limites é, paradoxalmente, um ato de altíssima sabedoria. A ignorância aqui não é burrice — é lucidez. É quando o sujeito percebe que, por trás de cada certeza conquistada, há um novo abismo de perguntas sem resposta. Como nas palavras de Sócrates: “só sei que nada sei”, o que não é um lamento, mas uma postura aberta e desarmada diante do mistério das coisas.

Esse tipo de ignorância é um antídoto contra a arrogância dos especialistas que julgam ter a última palavra sobre tudo. A douta ignorância convida ao diálogo, à escuta, à dúvida fecunda. Ela se parece mais com o espanto de uma criança do que com o discurso de um manual técnico. E, como diria Edgar Morin, saber é sempre inacabado, tecido por complexidades e incertezas que a razão linear insiste em varrer para debaixo do tapete.

Nos tempos de respostas rápidas e opiniões em caixa alta, reaprender a ignorar — no sentido mais sábio da palavra — talvez seja o começo de um pensamento mais honesto. Porque quem sabe de tudo já não tem mais nada a aprender. E isso, convenhamos, é o pior tipo de ignorância: a que se veste de saber.


segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Argumento Cosmológico

E se tudo tivesse mesmo começado por Alguém?

Já teve aquele momento de insônia em que você fica olhando para o teto e se perguntando: "Por que existe algo e não o nada?" Não é só coisa de quem tomou café demais. Essa pergunta atravessa os séculos. E lá na Idade Média, São Tomás de Aquino, um pensador que juntava fé e razão como quem costura céu e chão, tentou dar uma resposta com o que chamamos hoje de argumento cosmológico.

Mas calma. Não precisa vestir túnica nem aprender latim. Vamos tentar entender o que ele disse — e repensar com olhos de hoje, num mundo que fala de Big Bang, simulações de computador e multiversos.

 

Nada se move sozinho: a Primeira Via

Tomás de Aquino parte de algo bem cotidiano: tudo se move, mas nada se move por si mesmo. Um cachorro corre porque quis, mas esse querer é uma cadeia de vontades, desejos, impulsos... E mesmo o vento que bate na janela não se move por mágica. Ele também vem de algo — e esse algo, de outro algo.

É a tal da cadeia de movimentos, ou de causas. E ele diz: essa cadeia não pode ser infinita para trás, senão nunca teria começado. Logo, deve haver um primeiro motor imóvel, que move tudo, mas não é movido por nada. Tomás dá a esse motor o nome que já era conhecido: Deus.

 

O Big Bang... ou o Big Alguém?

Aí você pode dizer: "Ah, mas hoje a ciência já explicou o começo de tudo com o Big Bang." Sim, e é fascinante. Mas mesmo essa teoria parte de uma explosão inicial. E aí vem a pergunta inevitável de Aquino, ecoando pelos séculos: quem ou o que causou isso?

O argumento cosmológico não é tanto sobre "como as coisas começaram", mas por que elas começaram, ou melhor, por que elas existem. A ciência explica o mecanismo, mas não responde ao porquê último da existência. Nesse espaço entre o que se vê e o que se pergunta, entra a filosofia.

 

Inovando: e se o motor fosse uma ideia?

Agora, vamos ousar: e se atualizássemos o argumento cosmológico para o século XXI? Em vez de pensar Deus como uma entidade separada, com barba e trono, e se pensássemos o "primeiro motor" como a ideia que sustenta o ser? Como uma lógica fundante, uma consciência cósmica, ou um campo de informação primordial?

Afinal, no mundo da física quântica e da informação, o que move pode ser menos matéria e mais inteligência subjacente — como se tudo fosse código de um programa, e o motor fosse o próprio algoritmo invisível que sustenta o real.

Aí, o "Deus de Aquino" ganha uma nova roupa. Não mais o arquiteto com compasso, mas o princípio racional do universo, o porquê silencioso de tudo existir em vez de nada. Um Deus talvez mais próximo de Spinoza, ou até da física teórica.

 

O argumento ainda respira?

Sim, e talvez mais do que nunca. O argumento cosmológico não tenta provar um Deus pessoal com nome e endereço. Ele tenta dizer: não faz sentido que o ser venha do nada. Alguma coisa sempre existiu — e essa coisa deve ser necessária, não contingente. Não pode depender de outra.

Se antes isso parecia teologia pura, hoje volta a surgir, disfarçado nas conversas sobre consciência cósmica, origem do tempo, campos unificados. Não provamos Deus, mas sentimos que há algo que precisa estar lá para que tudo mais seja possível.

 

Um início sem começo

O argumento cosmológico de São Tomás continua relevante não porque dá uma resposta fechada, mas porque abre a maior das perguntas: de onde vem tudo isso? Num mundo acostumado a causas, algoritmos e impulsos, a ideia de que há algo sem causa, que causa tudo, ainda intriga, desafia, instiga.

E talvez, quando olhamos para o teto à noite e sentimos que há mais do que o vazio, estamos justamente vivendo essa experiência filosófica — uma intuição silenciosa de que, no fundo de tudo, há um motivo para o ser.