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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Vulnerabilidades


Começa quase sempre assim: ninguém acorda querendo falar de vulnerabilidade. A gente prefere falar de força, estratégia, desempenho, superação. Vulnerabilidade soa como algo que deveria ser resolvido rápido, escondido ou, no máximo, tolerado em silêncio. Justamente por isso, falar sobre ela é importante. Porque tudo o que tentamos calar acaba agindo por conta própria. A vulnerabilidade não desaparece quando é ignorada — ela apenas se torna mais confusa, mais dolorosa e menos consciente.

Vulnerabilidade como condição, não como defeito

Hannah Arendt ajuda a deslocar o tema do campo da fraqueza para o da condição humana. Para ela, viver é estar exposto: ao outro, à palavra, à ação, ao imprevisível. Agir e falar em público — no sentido amplo da vida compartilhada — nos coloca inevitavelmente em risco. Não há ação sem vulnerabilidade, porque não há controle total sobre os efeitos do que fazemos ou dizemos.

Isso desmonta uma ilusão muito comum no cotidiano: a de que ser forte é ser impermeável. Na prática, quanto mais alguém tenta se blindar, mais frágil se torna internamente. A vulnerabilidade não é o oposto da força; é o preço de existir em relação.

O cotidiano da exposição

No trabalho, a vulnerabilidade aparece quando admitimos não saber tudo, quando uma ideia pode ser rejeitada, quando dependemos do reconhecimento alheio. Nas relações, ela surge quando gostamos de alguém, quando pedimos algo, quando dizemos o que sentimos sem garantia de resposta. Até o simples ato de mudar de opinião já nos coloca numa posição vulnerável — porque ameaça a imagem que construímos de nós mesmos.

Muitas estratégias modernas de vida são, no fundo, tentativas de eliminar essa exposição: excesso de planejamento, ironia constante, distanciamento emocional, desempenho permanente. O problema é que, ao reduzir o risco, reduzimos também a intensidade da experiência.

A leitura existencial da vulnerabilidade

Em Heidegger, a vulnerabilidade aparece como facticidade: somos lançados no mundo sem manual, sem garantias, sem solo definitivo. Não escolhemos tudo — nascemos em um tempo, em um corpo, em circunstâncias que nos antecedem. Essa condição não é algo a ser superado, mas assumido. Negá-la produz alienação; reconhecê-la abre espaço para autenticidade.

No cotidiano, isso significa aceitar que nem toda insegurança é um erro de cálculo. Às vezes, ela é apenas o sinal de que estamos diante de algo que realmente importa.

Vulnerabilidade e sentido

O ponto decisivo é este: só é vulnerável quem ainda está em relação com a vida. A indiferença absoluta não sofre, mas também não cria, não ama, não se transforma. A vulnerabilidade indica zonas de sentido — lugares onde algo nos afeta porque não é indiferente.

Falar sobre vulnerabilidade é importante porque ela não é um problema a ser eliminado, mas um dado a ser interpretado. Quando reconhecida, ela orienta escolhas, ajusta expectativas, humaniza relações. Quando negada, se converte em cinismo, rigidez ou abandono de si.

No fim, talvez a pergunta não seja “como deixar de ser vulnerável?”, mas outra, mais honesta: o que vale a pena continuar sentindo, mesmo com o risco que isso traz?

domingo, 20 de julho de 2025

Lembrar Não Dói

Quando há ausência de emoção como proteção, escolha ou superação

Há quem chore ao lembrar do passado. Há quem sorria. E há quem se cale — não por escolha, mas porque, mesmo lembrando, não sente nada. Esse silêncio emocional diante da memória pode parecer estranho, frio ou até inquietante. Mas nem sempre é sinal de indiferença. Pode ser um mecanismo de defesa, uma estratégia de sobrevivência ou até um sinal de que algo foi resolvido em profundidade.

A pergunta que nos guia aqui é: por que algumas pessoas lembram, mas não sentem?

 

Defesa: quando o corpo decide esquecer o sentir

Em situações de trauma ou dor profunda, o sistema psíquico humano pode adotar o que a psicologia chama de anestesia afetiva. A lembrança permanece, mas a emoção correspondente é suprimida — como se o corpo dissesse: "É melhor não sentir isso agora."

Esse distanciamento não é escolha consciente. É um tipo de desligamento interno. Muito comum em vítimas de violência, abusos, perdas ou situações de estresse extremo. Lembrar sem sentir, nesses casos, é uma forma de seguir em frente sem quebrar por dentro.

 

Congelamento emocional: viver com a torneira fechada

Para outros, a ausência de emoção tem raízes mais longas: infância sem afeto, educação que valoriza o controle emocional, ambientes onde chorar era fraqueza. O afeto foi secando aos poucos. A lembrança, então, vira um arquivo sem cheiro, sem calor, sem lágrimas.

Essas pessoas podem parecer “como máquinas”. Mas o que há nelas, na verdade, é uma torneira emocional travada. Algo que talvez nem saibam destravar — e às vezes nem queiram. Porque não sentir pode parecer mais seguro do que correr o risco de sofrer.

 

Intelectualização: quando a razão toma conta do coração

Alguns lidam com o passado como se fosse um livro de filosofia: analisam, explicam, contextualizam… mas não se emocionam.

É o que chamamos de intelectualização — um recurso comum entre pessoas muito racionais, estudiosas, ou que foram treinadas a confiar mais na mente do que nas entranhas.

Essa ausência de emoção não é vazio — é excesso de controle. É uma blindagem com aparência de lucidez.

 

Superação: quando o sentir se transforma

Há, no entanto, um outro tipo de ausência de dor: aquela que vem depois da aceitação. Quando a memória já foi atravessada, digerida, ressignificada. Não é que a pessoa não sente — ela sente de outra forma.

É como quem perdeu alguém e consegue falar disso com doçura, sem nó na garganta.
Ou como quem foi ferido e, anos depois, consegue olhar para o agressor sem ódio.
Aqui, a lembrança não dói porque já foi vivida até o fim. Já não é prisão, nem sombra. É parte do caminho.

 

Viktor Frankl: sofrimento como caminho para o sentido

O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração nazistas, desenvolveu a Logoterapia, uma abordagem terapêutica baseada no sentido da vida. Ele observou que não é o sofrimento em si que destrói o ser humano, mas a ausência de sentido nele.

Frankl dizia:

“A dor deixa de ser sofrimento no momento em que encontramos um significado para ela.”

Com isso, ele nos ensina que a ausência de emoção diante da lembrança pode, sim, ser um sinal de que o sofrimento foi integrado e superado — transformado em aprendizado, em paz, ou em silêncio fecundo.

 

Afinal, o que essa ausência de emoção nos diz?

Ela pode ser:

  • Um grito silencioso de alguém que não sabe mais como sentir
  • Uma defesa antiga, ainda operando mesmo sem necessidade
  • Uma escolha inconsciente por evitar o contato com a dor
  • Um sinal de maturidade emocional, quando a ferida virou cicatriz

Por isso, a ausência de emoção nunca deve ser julgada às pressas. Cada silêncio carrega uma história. E nem sempre o choro é prova de sensibilidade — assim como a calma não é prova de frieza.

 

E as máquinas nisso tudo?

Talvez as máquinas lembrem sem sentir porque são feitas assim. Mas nós, humanos, às vezes também somos assim — não por natureza, mas por necessidade.

A verdadeira pergunta talvez seja: o que em mim precisou parar de sentir para poder continuar existindo?

E mais ainda: será que posso voltar a sentir com segurança?


quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Prodígios de Hanuman

A figura de Hanuman, o macaco divino da mitologia hindu, é repleta de simbolismo e significado. Ele não é apenas um personagem épico do Ramayana, mas também uma representação profunda de virtudes humanas e espirituais, como devoção, força, humildade e inteligência. Através de seus feitos prodigiosos, Hanuman nos convida a refletir sobre a jornada humana, suas potencialidades e os desafios que enfrentamos em nosso caminho.

A força que desconhecemos

Um dos aspectos mais marcantes de Hanuman é sua força incomensurável, algo que ele próprio esquece até ser lembrado de sua verdadeira natureza. Em certo ponto do Ramayana, Hanuman precisa atravessar o oceano para encontrar Sita, mas hesita, acreditando que não tem essa capacidade. Quando os outros o encorajam, ele percebe que a força já estava dentro dele o tempo todo.

Essa narrativa ressoa com a experiência humana de subestimar nossas próprias habilidades. Quantas vezes nos deixamos paralisar por medos e dúvidas, esquecendo que possuímos recursos internos para superar obstáculos? Como disse o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: "Torna-te quem tu és." Assim como Hanuman, muitas vezes precisamos de lembretes externos para despertar o poder adormecido dentro de nós.

O ego e a humildade

Apesar de sua força e capacidades extraordinárias, Hanuman é a personificação da humildade. Ele dedica cada um de seus feitos ao serviço de Rama, o herói divino do Ramayana. Para Hanuman, o ego é subordinado à missão, e sua devoção o torna livre de orgulho ou ambição pessoal.

Esse equilíbrio entre poder e humildade é um dilema eterno para a humanidade. A filosofia budista, por exemplo, nos ensina que o ego é uma ilusão que nos afasta da verdadeira realização. Hanuman, ao agir sem apego aos resultados, demonstra como é possível transcender o ego sem negar nossa capacidade de agir no mundo.

A inteligência a serviço do bem

Outro prodígio de Hanuman é sua sabedoria estratégica. Ele não apenas usa sua força física, mas também sua astúcia para superar desafios. Quando se infiltra em Lanka para encontrar Sita, ele o faz com sagacidade e discrição, mostrando que o poder bruto não é suficiente; a inteligência é igualmente crucial.

Aqui, Hanuman nos lembra da importância do discernimento. O filósofo indiano N. Sri Ram observa que o uso consciente da mente é essencial para o progresso humano. Hanuman exemplifica isso ao harmonizar força e inteligência, mostrando que um verdadeiro herói é aquele que age com propósito e sabedoria.

Os prodígios como arquétipo humano

Hanuman é, acima de tudo, um arquétipo do potencial humano. Sua capacidade de crescer, literalmente, em tamanho durante situações de necessidade pode ser vista como uma metáfora para nossa própria expansão em momentos de crise. Quando somos confrontados por desafios, frequentemente descobrimos forças e recursos que nunca imaginamos possuir.

A história de Hanuman também sugere que o verdadeiro poder não é algo que adquirimos, mas algo que reconhecemos em nós mesmos. Como Jung apontou, os mitos e arquétipos são expressões das profundezas de nossa psique. Hanuman, com seus prodígios, é uma manifestação de nossas aspirações mais elevadas.

O espírito de Hanuman em nosso cotidiano

Os prodígios de Hanuman não são apenas histórias épicas; eles carregam lições práticas para a vida. Em cada desafio, podemos perguntar: estamos usando nossa força interior? Estamos agindo com humildade? Estamos alinhando nossas ações com nossos valores mais profundos?

Hanuman nos ensina que, mesmo quando o caminho parece impossível, podemos encontrar dentro de nós mesmos a capacidade de superá-lo. Seja através da devoção, do serviço, ou do despertar de nosso potencial inato, ele nos lembra que somos mais poderosos e resilientes do que imaginamos. Assim, ao invocar o espírito de Hanuman, talvez possamos também realizar nossos próprios prodígios no mundo. 

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Devorar o Devorador

Você já se sentiu como se estivesse preso em uma daquelas situações em que parece que tudo está contra você? Onde não importa o que você faça, parece que sempre há algo ou alguém pronto para te devorar vivo? Bem-vindo ao clube! Todos nós já passamos por isso em algum momento. Mas a grande sacada está em virar o jogo. É hora de devorar o devorador!

Vamos lá, eu sei que você já se viu nessa situação. Talvez seja aquele projeto no trabalho que parece ter mais obstáculos do que a corrida de obstáculos do Ninja Warrior. Você se esforça, trabalha duro, mas parece que sempre há algo ou alguém pronto para derrubá-lo. Ou talvez seja aquele vizinho que adora criticar tudo o que você faz, como se tivesse sido nomeado juiz supremo da vida alheia. Não importa o que seja, todos nós enfrentamos nossos próprios devoradores.

Então, o que fazer? Como enfrentar esses devoradores vorazes que parecem estar sempre à espreita? A resposta está em tomar o controle da situação. É hora de você se tornar o mestre do seu próprio destino, o capitão do seu próprio navio.

Imagine a cena: você está no trabalho e aquele projeto problemático está mais uma vez causando estragos. Em vez de se deixar levar pela frustração, respire fundo e pense estrategicamente. Identifique os principais problemas e trabalhe em soluções criativas. Envolva sua equipe, compartilhe ideias e transforme os obstáculos em oportunidades. Em vez de permitir que o projeto o devore, devore o projeto. Torne-o seu, faça-o trabalhar para você.

E quanto ao vizinho intrometido? Em vez de deixar que suas críticas o afetem, transforme-as em combustível para o seu crescimento pessoal. Use suas palavras como uma oportunidade para auto-reflexão. Pergunte a si mesmo se há algo que você poderia fazer de forma diferente ou melhor. E se não houver, simplesmente deixe as críticas passarem por você como água em uma capa de chuva. Em vez de permitir que o vizinho o devore com suas palavras ácidas, devore o devorador com sua indiferença.

E isso não se aplica apenas a situações específicas. Pense em todas as áreas da sua vida onde você se sente constantemente em desvantagem. Seja o seu próprio herói. Assuma o controle e transforme cada desafio em uma oportunidade para crescimento e fortalecimento.

Então, quando se encontrar diante de um devorador voraz, lembre-se: você tem o poder de virar o jogo. Devore o devorador e torne-se o protagonista da sua própria história. O mundo está esperando por você. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Sombras e Amanheceres

No jogo complexo da vida, muitas vezes encontramos consolo e entendimento nas metáforas que a experiência humana nos oferece. Há pouco tempo, após uma conversa com um amigo compartilhando suas tribulações, surgiu em minha mente a imagem poética e a metafórica de que "é sempre mais escuro antes do amanhecer". À medida que meu amigo desabafava sobre seus problemas, essa expressão tomou forma, evocando uma sensação de esperança nas palavras. A escuridão da noite, pensei, é como as dificuldades que enfrentamos, mas, assim como o nascer do sol que ilumina o horizonte, a luz da superação e renovação muitas vezes está à espreita nos momentos mais sombrios.

Assim como a escuridão da noite precede a luz do dia, nossas maiores dificuldades muitas vezes antecedem nossos momentos mais brilhantes. É como se a vida nos lembrasse de que, nos momentos mais desafiadores, a transformação e o crescimento estão prestes a acontecer. É como se estivéssemos passando por uma espécie de 'noite escura da alma', onde a verdadeira luz de nossas capacidades e potenciais começa a emergir. Então, nos momentos mais difíceis, talvez estejamos apenas nos preparando para o nosso próprio amanhecer pessoal.

“É sempre mais escuro antes do amanhecer”: O que Nietzsche teria a nos dizer?

Friedrich Nietzsche, conhecido por sua abordagem perspicaz sobre a vontade de poder e a superação pessoal, é hipoteticamente convidado a explorar a metáfora "é sempre mais escuro antes do amanhecer" em um contexto cotidiano. Vamos imaginar como Nietzsche poderia interpretar essa expressão em suas reflexões sobre a existência humana e a busca constante pela autossuperação.

A Vontade de Poder Nietzscheana: Nietzsche acreditava que a vida é impulsionada pela "vontade de poder", uma força fundamental que motiva os seres humanos a buscar o crescimento, a superação e a afirmação de si mesmos. Ao considerar a metáfora, Nietzsche poderia relacioná-la à sua concepção da vontade de poder, sugerindo que a escuridão simboliza os desafios e adversidades que precisamos enfrentar para alcançar níveis mais elevados de existência.

Para Friedrich Nietzsche, o conceito de poder (em alemão, "Macht" ou "Will to Power") é central em sua filosofia. Nietzsche desenvolveu uma abordagem única sobre o poder, indo além das interpretações convencionais desse termo. Ele acreditava que a vida é fundamentalmente impulsionada por uma "vontade de poder". Essa vontade de poder não se refere apenas a uma busca por dominação sobre os outros, mas sim a uma força interna que motiva os indivíduos a buscar o crescimento, a afirmação de si mesmos e a superação de desafios. O poder, para Nietzsche, está intrinsecamente ligado à ideia de autossuperação. Ele via os seres humanos como seres em constante evolução, buscando constantemente ultrapassar seus próprios limites. O poder, nesse contexto, é a capacidade de afirmar a própria existência e transcender obstáculos.

Nietzsche via o poder não apenas como uma força destrutiva ou dominadora, mas também como uma força criativa. Ele destacava a importância da criatividade, da arte e da expressão como manifestações da vontade de poder. A capacidade de criar novos valores e significados era vista como uma expressão elevada dessa força vital. Ele questionou as noções tradicionais de moralidade e ética, argumentando que muitas dessas ideias eram construções que limitavam a expressão plena da vontade de poder. Ele via a moralidade convencional como uma tentativa de enfraquecer a força vital em prol da conformidade social.

O conceito do Übermensch representa a ideia de um ser humano que transcende as limitações convencionais, criando seus próprios valores e definindo sua própria moralidade. O caminho para o Übermensch envolve a plena expressão da vontade de poder e a superação das influências tradicionais e limitadoras. Para Nietzsche, o poder é uma força dinâmica que permeia a vida, impulsionando os seres humanos a buscar a afirmação de si mesmos, a autossuperação e a criação de significado em um mundo muitas vezes caótico e desafiador. Essa concepção do poder é fundamental para entender sua filosofia e sua crítica à moralidade tradicional e aos valores estabelecidos.

O Caos Necessário: Nietzsche poderia argumentar que a escuridão antes do amanhecer representa um estágio caótico e desafiador na jornada humana. Ele poderia sugerir que é no confronto com o caos e a escuridão que as capacidades humanas são testadas e forjadas. Nietzsche, conhecido por sua visão sobre a "afirmação da vida", poderia enfatizar que é justamente nesse caos que encontramos a oportunidade de afirmar nossa existência de maneira mais vigorosa.

O Übermensch e a Transformação: Explorando o conceito do Übermensch (Além-Homem ou Super-Homem), Nietzsche poderia relacionar a metáfora ao processo de se tornar algo mais, algo além do humano comum. O Übermensch é aquele que abraça a escuridão, os desafios e a incerteza da vida, usando-os como oportunidades para criar e recriar a si mesmo. A jornada para o Übermensch, então, seria como a passagem da escuridão para a luz, uma metamorfose constante. o termo "Além-Homem" (Übermensch em alemão) é frequentemente traduzido como "Super-Homem" em português. Ambos os termos se referem ao conceito central na filosofia de Friedrich Nietzsche. O Übermensch é uma figura que transcende as limitações e as normas convencionais da sociedade, criando seus próprios valores e significados.

 

Nietzsche e Super-Homem

É importante notar que o termo "Super-Homem" pode gerar confusão devido à associação popular com personagens de histórias em quadrinhos, como Superman, que têm poderes sobre-humanos. A ideia de Nietzsche não está relacionada a superpoderes físicos, mas sim à superação das limitações morais, culturais e filosóficas impostas pela sociedade. O Übermensch é alguém que abraça a plenitude da experiência humana, que rejeita valores herdados e cria seu próprio sistema de valores. Em muitos aspectos, Nietzsche usou o termo para representar a visão de um ser humano autônomo e criativo, capaz de afirmar a vida em sua totalidade, sem se submeter a normas e padrões que limitam a expressão plena da vontade de poder.

Além da Moral Convencional: Nietzsche, crítico da moral tradicional, poderia argumentar que é na escuridão que questionamos e desafiamos as normas estabelecidas. Ele poderia encorajar a transvaloração de valores, convidando-nos a encontrar nossa própria luz além das concepções morais convencionais. A escuridão, sob essa perspectiva, é um terreno fértil para a criação de novos valores e significados.

Nossa imaginação é capaz de criar elucubrações hipotéticas como estas onde o filósofo compareceu dando-nos aquela ajudinha, então, se Nietzsche fosse abordar a metáfora "é sempre mais escuro antes do amanhecer" em suas reflexões filosóficas, é provável que ele a interpretasse como uma narrativa simbólica da jornada humana em direção à autossuperação, transformação e afirmação da vida. A escuridão seria vista não como um obstáculo a ser evitado, mas como um terreno onde a vontade de poder pode se manifestar de maneiras mais profundas e significativas. Penso que alguém após ler Nietzsche e por acaso esteja enfrentando problemas, talvez encontre nas palavras dele e em seu modo de escrever único e distintivo, combinando elementos filosóficos, poéticos e provocativos, quem sabe encontrar aquele insight para dar a virada de chave para o novo ano que se avizinha.

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Lógica contra a Moral do Espertinho

 
Pensar em educação é necessária reflexão, a reflexão necessita de conhecimento que é adquirido a partir de muita pesquisa, leitura e estudo, a partir deste método a formação de idéias próprias podem surgir com maior consistência e coerência. Nesta construção de idéias inspiradas na inspiração e pensamento de filósofos que já fizeram o mesmo processo. Outros encontram dentro de si mesmos idéias originais, no entanto originalidade também surge a partir do pensamento de outros, dando inicio a uma maneira diferente de entender ou resolver algum problema, não invalidando a originalidade, ou seja, tão original quanto.
Em muitas de minhas reflexões lembro imediatamente de pensadores como Aristóteles, pela familiaridade com muitos de seus pensamentos entranhados na educação, construídos pelo primeiro pensador lógico, que é claro: ARISTOTELES. Este filósofo faz parte da grande vertente realista, foi ele o fundador da ciência que hoje é chamada de lógica, e realidade e lógica são amigas contemporâneas desde a antiguidade.
A lógica esta presente e entranhada em nosso cotidiano, e fundamentalmente na educação, nossos professores mesmo sem conhecer os filósofos trabalham sob influencia deste e de muitos outros pensadores, na forma como suas idéias foram incorporadas na pratica pedagógica.
O primeiro lógico via na educação escolar o caminho para vida publica e o exercício da ética.
As principais obras de Aristóteles de onde se pode extrair informações pedagógicas são as que tratam de política e ética, que em ambos os casos, o objetivo final era obter a virtude.
Para Aristóteles, o propósito da vida humana é a obtenção do que ele chamava de vida boa, isso significava aos mesmo tempo vida “do bem” e vida “harmoniosa.” Ou seja, par Aristóteles, ser feliz e ser útil a comunidade eram dois objetivos sobrepostos, e ambos estavam presentes na atividade publica.
Ele afirmava que o melhor governo seria “aquele em que cada um melhor encontra o que necessita para ser feliz”, e a educação é um caminho para a vida publica, cabendo a educação a formação do caráter do aluno.
Perseguir a virtude significava, em todas as atitudes, buscar o “justo meio”.
A prudência e a sensatez se encontrariam no meio termo, ou medida justa – “o que não é demais nem muito pouco”.
Na lógica aristotélica, significa pensar que duas proposições contraditórias não podem ser verdadeiras e que não é possível afirmar e negar simultaneamente a mesma coisa.
A partir desta maneira de pensar me fez recordar de uma de minhas aulas, numa de minhas conversas iniciais de sondagem junto aos jovens alunos da 8ª serie do ensino fundamental, na faixa etária de 14 anos.
Durante a aula fiz a seguinte pergunta para a turma:
Imaginem a situação que vocês ao irem ao cinema tenham pago o ingresso, quando o caixa por um engano lhes deu troco a maior, tendo vocês verificado o equivoco no ato, o que fariam?; Devolveriam o valor a maior para o caixa?; 
A resposta não me surpreendeu, apenas um aluno na turma disse que devolveria, os demais “disseram que não devolveriam, seria um problema do funcionário do caixa ser um boca aberta”.
Argumentei junto aos alunos dizendo que o caixa é um trabalhador assalariado, e que toda importância que faltasse no caixa seria descontada de seu salário. Mesmo assim os alunos permaneceram irredutíveis, cada um expressando a sua maneira.
Resolvi colocá-los na posição inversa, sendo ele o caixa, que por sua vez eles teriam se enganado dando troco a maior e a importância lhes seria descontada do salário. Óbviamente todos se manifestaram contrários alegando que isto não estava certo, pois no caso deles era diferente.
Neste momento, Aristóteles me falou ao ouvido, sussurrando cadê a ética?, aqui há uma contradição, e Aristóteles precisa entrar em ação e fazer com que a lei da afirmação e negação ao mesmo tempo não era lógico, resolvi provocar uma discussão apresentando um texto, e este texto seria representado em forma de peça. O texto de Weber é chamado “Usando a Lógica Contra a Moral do Espertinho”. Solicitei a manifestação de alguns alunos voluntários para representarem na próxima aula o dito texto com viés ético.  
A peça foi centrada no seguinte texto:

USANDO A LÓGICA CONTRA A MORAL DO ESPERTINHO (Cínara Nahra e Ivan Hingo Weber – Livro: Através da Lógica – Ed. Vozes)

    Pedro e Maria são colegas na Escola. Pedro é um excelente aluno, presta atenção as aulas, matem seu caderno em dia, é esforçado e, principalmente, é uma pessoa de ótimo caráter. Maria, ao contrário, além de não querer saber nada do estudo, acha que pode ser dar bem, bancando a “espertinha”. Para a prova final, Maria, mais uma vez, não estudou e tenta apelar aos bons sentimentos de seu amigo Pedro para que ele lhe dê “cola”.
    Pedro, entretanto, é um garoto que sabe o que é certo. E sabe, portanto, que não é justo que ele, aplicado e estudioso, entre em férias no mesmo dia em que Maria entrará em férias. Pedro sabe que, se ele estudou ao longo do ano, deve passar por média e Maria deve fazer exames e entrar em férias mais tarde. Isto é o certo.
    Maria, porém não quer saber o que é o certo. Ela quer passar de ano e para isso é capaz de fazer qualquer chantagem e usar qualquer argumento. Pedro, no entanto, estudou lógica e assim tornou-se capaz de descobrir todas as falácias dos argumentos de Maria. Vejamos o diálogo que eles travam:

M – Eu tenho que passar para o primeiro ano.

P – Mas você acha que estudou para isso?

M – Claro que não. Eu não sou “trouxa”.

P – Então você acha que quem estuda é “trouxa”?

M – Acho.

P – E como você pretende passar sem estudar?

M – Ora! Você vai me ajudar, não? Vai me dar cola, não é, Pedro?

P – Claro que não!

M – Mas, Pedro, você é meu amigo!

P – Sou seu amigo, mas não vou lhe dar cola.

M - Mas se você é meu amigo, então você tem que me dar cola.

P – Essa premissa não é boa.

M – Como?

P – Eu quis dizer que posso ser seu amigo e, no entanto, não lhe dar cola, exatamente porque sou seu amigo. Eu acho que a premissa boa é: “Se eu sou seu amigo, então devo lhe aconselhar a fazer sempre o certo”.

M – Eu não estou entendendo, Pedro.

P – Claro! Você não estudou Lógica! Aliás, não estudou nada.

M – Pára de me incomodar, Pedro! Estou só lhe pedindo cola. Você é meu amigo...

P – Já lhe disse que esta sua condição de que “Se você é meu amigo, então você deve me dar cola” não é boa. Sei disso, não porque estudei Lógica, mas porque minha família me deu uma boa educação.

M – Pedro, você esta se tornando muito “chato”.

P – Pode me chamar de “chato”, mas sei que o argumento bom é: “Se sou seu amigo, então devo lhe mostrar o certo. Se eu fizer o que você quer, ou seja, não lhe mostrar o certo, segue-se que eu não seria seu amigo”.

M – Está querendo me enrolar...

P – Absolutamente. Só estou querendo lhe mostrar o que é certo. E o certo é que quem não estuda não pode e não deve passar de ano.

M – Mas isso é egoísmo seu. Se você sabe tudo, o que custa me ajudar?

P – Eu teria o maior prazer em lhe ajudar, mas ajudar a aprender a matéria. Se eu lhe der cola, Maria, eu não lhe ajudo em nada. Eu quero lhe ajudar; logo, não posso lhe dar cola.

M – Mas estou desesperada, Pedro!

P - Schiii! Este é o típico argumentum ad misericordiam (apelo à piedade). É a falácia que se comete quando se apela para piedade ou compaixão para conseguir que determinada conclusão seja aceita.

M – Idiota! Trouxa!

P – Tudo o que não sou é idiota e trouxa. Você disse no começo que “quem estuda é trouxa”, não? Pois eu estudo. E, se assim é, completando seu argumento, se todos os que estudam são “trouxas”, e eu estudo, então sou trouxa, não?

M – Não foi isso o que eu quis dizer, Pedro.

P – Mas foi isso o que a Lógica me ajudou a concluir. Você não disse isto, mas certamente é isso que pensa, mesmo que não tenha se dado conta. Eu penso diferente, Maria. Eu penso que quem estuda está fazendo o que deve ser feito e quem faz o que deve ser feito está construindo uma vida melhor para si e para o mundo. Eu estudo e, assim, estou construindo uma vida melhor para mim e para os outros. Tchau, Maria. Bons exames. Ano que vem a gente se vê, porque, como eu já passei por média, só aparecerei por aqui no ano que vem.

A apresentação teatral obteve atenção, interesse, participação, discussões  e também disputas para quem iria representar, em resumo foi uma ótima aula.
Acredito que a maneira Aristotélica “ninguém nasce virtuoso”, e que a virtude é uma pratica e não um dado da natureza de cada um, tampouco o mero conhecimento do que é virtuoso como para Platão.
A virtude deve ser praticada diariamente desde a tenra idade, deve ser constante, precisa se tornar um habito, devendo a escola também ser o formador do caráter, e é neste mundo que vivemos e temos a oportunidade de melhorarmos a cada dia.
Para o grupo, é necessário que a sociedade seja formada a partir de verdades lógicas, como determinar uma verdade comum a todos os componentes, sendo a lei reguladora daquilo que é bom, justo e melhor para a sociedade.
Como Aristóteles acredito que o núcleo inicial da organização das cidades, e claro a primeira instancia da educação da criança seja na família.
Atualmente o estado tenta regular e vigiar o funcionamento das famílias, saúde e educação.
O que a sociedade esta precisando são de bons exemplos, pelo exemplo e imitação que os demais se inspiram para agir, porem o que esta em demonstração são políticos corruptos e cidadãos querendo levar vantagem em tudo sobre todos, é um por um e nenhum por todos.
A lógica aristotélica é negada e aplicada diariamente por seus cidadãos, há contradição em oferecer o mal e esperar o bem em troca.
Vivemos numa sociedade competitiva, ser melhor que o outro é o pensamento que prima, é necessário mudar os valores e procurar o outro como semelhante.
Há muitos que primeiro negam a filosofia e pensamento dos antigos, assim negam a utilidade do pensamento de pensadores como Aristóteles, negam a aplicação deste conhecimento no entendimento dos problemas contemporâneos, alegando que o pensamento deles aplicava-se apenas a problemas da época e momento deles.
Entendo que pensar desta forma é apenas a forma de banalizar o que no pais da bananas a banalização é muito comum e normal.
Banalizamos e rimos com todo humor brasileiro de atos cruéis que contrariam séculos de pensamentos entranhados em nossa educação, a pergunta é: Por que mesmo assim insistimos em contrariar a educação, ou será que estamos contrariando o conhecimento, ou ainda contrariamos apenas dados e não o conhecimento e a educação?
O que é o conhecimento senão um amontoado de dados, compilados e entendidos, contrariar o conhecimento é negar a coerência lógica da realidade, quando banalizamos acontecimentos estamos sendo cruéis conosco, banalizar a educação e o conhecimento é desconstruir séculos de conhecimento.
Sabemos que o caminho da ética e da moral, tem lógica existencial, e sair deste caminho é muito arriscado, que ao menor movimento demonstra a instabilidade das instituições e principalmente da família. O equilíbrio esta presente no justo meio de viver, e viver nos extremos é querer se perder.
Numa aparente inocente pergunta, a resposta serve como indicador de que as coisas não estão indo bem, a formação do caráter que inicia no seio familiar reflete e refletirá no tipo de sociedade que temos e teremos.
Neguem ou não a aplicabilidade das idéias de Aristóteles, pelo que ele escreveu ainda são assunto, e assunto dos mais atuais e importantes.
Conclusão: A Lógica muitas vezes cede lugar para a ética, que é a ciência que estuda o dever ser, é ela que terá autoridade para nos dizer se é certo ou errado agir de certa maneira.