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quinta-feira, 26 de março de 2026

Multidão Solitária

A expressão multidão solitária parece um paradoxo — mas basta sair de casa (ou abrir o celular) pra perceber que ela descreve bem o nosso tempo.

A ideia ficou famosa com o sociólogo David Riesman, no livro The Lonely Crowd (A Multidão Solitária). Ele observava um fenômeno curioso: quanto mais conectadas e organizadas as sociedades modernas se tornavam, mais os indivíduos pareciam perder um senso interno de direção — e, junto com isso, uma certa profundidade nas relações.

É como se estivéssemos sempre cercados… e ainda assim, estranhamente sós.

Eu penso nisso quando entro num café — aquele lugar que, pra mim, sempre teve algo de santuário. Gente por todos os lados: conversas, risadas, xícaras tilintando. Mas aí você repara melhor. Cada um no seu mundo. Fones de ouvido. Olhos grudados na tela. Presenças físicas, ausências silenciosas.

Uma multidão… solitária.

O próprio David Riesman falava de um tipo de pessoa “orientada pelos outros” — alguém que vive calibrando seu comportamento com base no olhar alheio. Hoje isso ganhou um turbo. Curtidas, visualizações, comentários. A gente não só vive entre os outros — a gente vive para os outros.

Mas aí acontece um fenômeno curioso: quanto mais buscamos validação, menos nos sentimos realmente vistos.

O sociólogo Zygmunt Bauman diria que nossas relações ficaram “líquidas” — fáceis de entrar, fáceis de sair, difíceis de sustentar. Conexões rápidas, vínculos frágeis. Estamos sempre conectados, mas raramente vinculados.

E isso aparece em pequenas cenas do cotidiano:

  • grupos de amigos onde ninguém realmente escuta
  • conversas que viram monólogos paralelos
  • encontros que são registrados em fotos, mas pouco vividos de fato
  • gente que tem dezenas de contatos… mas não sabe pra quem ligar quando algo desmorona

A multidão solitária não é falta de gente. É falta de encontro.

E talvez o mais inquietante seja isso: não é que as pessoas estejam se evitando. Elas estão ali. Próximas. Mas algo invisível cria uma distância — como se todos estivessem usando uma versão socialmente aceitável de si mesmos, enquanto o que realmente importa fica guardado.

Nesse ponto, dá até pra cruzar com a ideia da “máscara do anonimato” tema que foi tratado num ensaio que tratei anteriormente. Lá, a máscara permitia revelar. Aqui, a presença constante do outro faz esconder.

Duas situações opostas… e o mesmo problema: a dificuldade de ser visto de verdade.

Talvez por isso momentos simples ganhem tanto valor:

  • uma conversa sem pressa
  • alguém que realmente escuta
  • o silêncio confortável entre duas pessoas
  • a sensação rara de não precisar performar

No meio da multidão, esses momentos são quase atos de resistência.

E no fim, fica uma pergunta que não é coletiva — é íntima:

Você está cercado de pessoas… ou realmente acompanhado?

Porque a solidão mais pesada não é a de estar sozinho.

É a de não conseguir deixar de estar sozinho, mesmo quando o mundo inteiro está ao seu redor.