A
ideia de que somos “programados” para aprender a língua, mas não
necessariamente para dizê-la, revela uma fissura intrigante entre capacidade e
realização — entre potência e ato. Essa distinção, que ecoa desde a filosofia
clássica até a linguística contemporânea, sugere que a linguagem não é apenas
um instrumento natural que floresce espontaneamente, mas um campo de tensões
onde biologia, cultura e subjetividade se entrelaçam.
Este
tema é recorrente, sinto que deva retornar a ele sempre que necessário, ainda
mais em tempo da verborragia que sai da boca dos políticos em tempos de
eleições.
Aristóteles
já oferecia uma chave poderosa para essa reflexão ao distinguir dynamis
(potência) e energeia (ato). O ser humano, nesse sentido, nasce com a
potência da linguagem — uma abertura estrutural para o simbólico. Contudo, a
passagem ao ato, o efetivo dizer, não é garantida. Ela depende de
circunstâncias históricas, sociais e afetivas. A linguagem não emerge no vazio;
ela exige interlocutores, contextos e, sobretudo, um desejo de expressão.
Séculos
depois, Noam Chomsky reformula essa intuição ao propor a ideia de uma
“gramática universal”: um conjunto de estruturas cognitivas inatas que tornam
possível a aquisição de qualquer língua humana. Para ele, aprender uma língua é
menos uma questão de imitação e mais um processo de ativação de um dispositivo
interno. No entanto, mesmo essa perspectiva robusta não resolve o problema do
“dizer”: possuir a competência linguística não implica necessariamente
exercê-la plenamente. Há sujeitos que, por trauma, repressão ou exclusão social,
permanecem em silêncio, apesar de sua competência latente.
Aqui,
a contribuição de Ludwig Wittgenstein se torna decisiva. Ao afirmar que
“os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, ele desloca a
questão da linguagem para o campo do uso. Falar não é apenas emitir sons
estruturados; é participar de “jogos de linguagem”, práticas
sociais reguladas por regras implícitas. Assim, não basta estar biologicamente
apto a falar — é preciso estar inserido em formas de vida que autorizem e deem
sentido ao dizer. O silêncio, portanto, não é apenas ausência de fala, mas pode
ser também uma exclusão dos jogos de linguagem.
Essa
exclusão pode ser explorada ainda mais à luz de Michel Foucault, que
analisa como o discurso é atravessado por relações de poder. Nem todos têm o
mesmo direito de falar, nem todas as vozes são igualmente ouvidas. A sociedade
distribui desigualmente as condições do dizer. Assim, mesmo que sejamos
“programados” para aprender a língua, somos socialmente condicionados — e por
vezes limitados — no exercício da fala. O silêncio pode ser imposto,
internalizado ou até mesmo escolhido como forma de resistência.
Por
outro lado, Jacques Derrida nos convida a desconfiar da própria ideia de
um “dizer pleno”. Para ele, a linguagem é sempre diferida, marcada por
ausências e adiamentos. Nunca dizemos exatamente o que queremos dizer; há
sempre um descompasso entre intenção e expressão. Nesse sentido, talvez não
sejamos programados nem mesmo para dizer completamente — apenas para tentar,
incessantemente, aproximar-nos de um sentido que sempre escapa.
Em
tempos de eleições, a verborragia dos políticos se eleva como uma névoa espessa
que encobre a nitidez do pensamento coletivo, transformando palavras em moedas
inflacionadas cujo valor se dissolve à medida que são repetidas. Nesse teatro
de promessas, a linguagem deixa de ser ponte e se torna labirinto, onde o
excesso de discursos não revela verdades, mas as dilui em ecos vazios. O
eleitor, por sua vez, caminha entre frases grandiosas e intenções opacas,
buscando sentido em meio ao ruído, como se a própria realidade estivesse sendo
negociada em retórica. Talvez o verdadeiro silêncio — raro e incômodo —
carregue mais honestidade do que a torrente incessante de discursos, pois é
nele que a palavra recupera seu peso e a consciência, sua lucidez.
O
paradoxo inicial, então, se aprofunda: somos biologicamente preparados para a
linguagem, mas existencialmente lançados em um campo onde o dizer é incerto,
incompleto e, muitas vezes, impedido. A linguagem, longe de ser uma simples
faculdade, é uma travessia. Aprender a língua é apenas o início; dizer é um ato
que envolve coragem, reconhecimento e, sobretudo, um lugar no mundo.
Assim,
a condição humana pode ser pensada como um intervalo entre o poder dizer e o
conseguir dizer. Nesse intervalo, habita o silêncio — não como falha, mas como
parte constitutiva da linguagem. Talvez sejamos, afinal, seres programados não
apenas para falar, mas para lidar com tudo aquilo que escapa à fala.
