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sábado, 31 de outubro de 2026

Dúvida Incômoda


 

A gente gosta de acreditar que tem uma identidade estável. Algo sólido, coerente, quase como um núcleo que atravessa o tempo sem se alterar muito. “Eu sou assim”, a gente diz — como se isso resolvesse a questão.

Mas basta encontrar certas pessoas… e alguma coisa muda.

Não é uma mudança gritante, daquelas que todo mundo percebe. É mais sutil. O jeito de falar se ajusta. O humor muda de frequência. Certas opiniões ficam mais fortes, outras desaparecem por um tempo. Às vezes, você sai de um encontro com a sensação estranha de ter sido — por algumas horas — uma versão levemente diferente de si mesmo.

E aí surge a dúvida incômoda: qual dessas versões sou eu?

A resposta mais honesta talvez seja: todas — e nenhuma completamente.

Erving Goffman via a vida social como uma espécie de teatro. Não no sentido de falsidade, mas de adaptação. A gente ajusta o papel conforme o palco, o público, o contexto. Não porque está mentindo, mas porque a identidade não é uma peça única — é um conjunto de possibilidades que se atualizam dependendo da situação.

E algumas pessoas têm o poder de ativar partes nossas que estavam adormecidas.

Tem gente que nos deixa mais leves, mais espontâneos, quase como se facilitasse o acesso a uma versão esquecida da gente. Outras provocam o contrário: nos deixam mais contidos, mais cuidadosos, quase defensivos. Não é só sobre elas — é sobre o que elas despertam.

Talvez a identidade não seja algo que a gente “tem”, mas algo que acontece entre.

Entre você e o outro. Entre o ambiente e o momento. Entre o que você já viveu e o que está vivendo agora.

Zygmunt Bauman falava de uma modernidade líquida, onde tudo é mais instável, mais mutável. A identidade, nesse cenário, não escapa: ela escorre, se ajusta, se recompõe. E, embora isso possa parecer desconfortável, também é o que permite que a gente continue mudando.

Porque imagine o contrário: uma identidade rígida demais. Sempre igual, independentemente de quem esteja na sua frente. Isso não seria autenticidade — seria bloqueio.

O problema não está em mudar. Está em não perceber quando a mudança deixa de ser ajuste e vira dependência.

Quando você começa a precisar da presença de alguém pra ser uma versão que você considera melhor. Quando certas partes suas só existem sob determinadas condições. Quando o outro vira quase um gatilho indispensável pra você se reconhecer.

Aí, talvez, a questão não seja mais identidade — mas ausência dela.

Por outro lado, existe algo bonito nisso tudo.

O fato de que ninguém nos revela completamente sozinho. A gente precisa desses encontros — dessas fricções, desses encaixes — pra descobrir do que é feito.

Talvez cada pessoa funcione como um espelho com uma curvatura diferente. Algumas distorcem. Outras ampliam. Outras mostram ângulos que a gente nunca tinha visto.

E, no fim, a pergunta deixa de ser “por que eu mudo?” e passa a ser outra, mais interessante:

O que, em mim, só existe quando encontro certas pessoas?

Porque talvez a identidade não seja um ponto fixo — mas um mapa que só aparece inteiro quando a gente cruza certos caminhos. Assim, não sou só eu que mudo, os outros também!