Existe uma estranha distorção moral no mundo contemporâneo: nem sempre o mal se apresenta como culpa, remorso ou sombra. Às vezes ele entra pela porta da frente, olha nos olhos e ainda se cumprimenta com orgulho. A isso poderíamos chamar, provocativamente, de “autoestima do mal” — não como essência metafísica do mal, mas como fenômeno psicológico e social em que ações destrutivas são acompanhadas de uma narrativa interna de valor, grandeza e até heroísmo.
O
que deveria produzir vergonha, produz identidade. O que deveria fragmentar o
sujeito, o organiza.
Byung-Chul
Han
ajuda a iluminar esse cenário quando descreve a sociedade contemporânea como
uma “sociedade do desempenho”. Nela, o sujeito não é mais apenas
disciplinado por fora, como no modelo clássico de repressão, mas se autoexplora
por dentro. O resultado paradoxal é que até a destrutividade pode ser
convertida em performance. Até o crime, em certos contextos, vira linguagem de
poder, reputação e visibilidade. O mal deixa de ser apenas transgressão e passa
a ser narrativa de si.
Criminosos
famosos, figuras violentas ou moralmente destrutivas muitas vezes não operam
com uma consciência de “queda”, mas com uma consciência de “ascensão”. Não se
veem como falhas éticas, mas como exceções superiores, inteligências
incompreendidas ou agentes de um mundo que “não os merecia”. Aqui a autoestima
não é um saldo de virtudes, mas uma engenharia simbólica: ela se sustenta mesmo
quando o mundo externo colapsa moralmente ao redor do sujeito.
Hannah
Arendt, ao falar da banalidade do mal, desloca
esse problema para outro eixo: o mal nem sempre exige monstruosidade, às vezes
exige apenas ausência de pensamento crítico. Mas há um complemento
contemporâneo importante: hoje o mal não é só banal — ele pode ser também autocongratulatório.
Ele não apenas acontece; ele se narra como necessário, inevitável ou até
virtuoso.
A
“autoestima do mal” nasce quando o sujeito consegue converter suas ações
destrutivas em justificativas morais privadas. É o momento em que a consciência
deixa de ser tribunal e passa a ser assessoria de imprensa. Cada ato encontra
uma legenda: “foi por respeito”, “foi por sobrevivência”, “foi justiça”, “foi
destino”. O mal não precisa mais negar a moral — ele apenas a reescreve.
Zygmunt
Bauman, ao analisar a modernidade líquida, já sugeria que as
referências estáveis de valor se dissolveram. Nesse terreno fluido, identidades
podem ser construídas com grande liberdade narrativa. E onde tudo pode ser
reconstruído, até a culpa perde densidade. O sujeito não precisa mais carregar
seus atos como peso; ele pode editá-los, reinterpretá-los, reposicioná-los no
mercado simbólico da própria história.
Mas
há um ponto mais inquietante: essa autoestima não é apenas individual. Ela pode
ser socialmente reforçada. Certos ambientes celebram a transgressão como
inteligência, a crueldade como força, e a dominação como sucesso. Assim, o mal
deixa de ser apenas um desvio e passa a ser um estilo reconhecido. Quando isso
acontece, a autoestima do mal não é mais exceção — é cultura.
O
problema filosófico central aqui não é que o mal exista, mas que ele consiga se
sentir bem consigo mesmo sem confrontar-se. Uma ética saudável pressupõe
fricção interna: dúvida, hesitação, vergonha possível. Quando essa fricção
desaparece, o sujeito não se torna apenas perigoso — torna-se impermeável.
Penso
que talvez o desafio contemporâneo não seja apenas punir o mal, mas
devolver-lhe a capacidade de se estranhar. Porque um mal que se orgulha de si
mesmo já não se percebe como mal. E um mal que não se percebe, não encontra
limite interno — apenas expansão narrativa.
