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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Normalização da Instabilidade


Durante muito tempo, a instabilidade foi tratada como uma exceção: uma fase ruim, um desvio temporário, algo a ser rapidamente corrigido para que a vida “voltasse ao normal”. O curioso é que, silenciosamente, fizemos o caminho inverso. Hoje, o que era exceção virou regra. O instável se normalizou.

Percebo isso nas conversas mais banais. Ninguém mais pergunta “como vai o trabalho?”, mas “até quando dura esse projeto?”. Relações começam já com data de validade implícita. Moradia, carreira, amizades — tudo vem acompanhado de um asterisco invisível: sujeito a mudanças.

No cotidiano, a instabilidade ganhou uma estética própria. Currículos não contam histórias contínuas, mas colagens. Vidas são administradas como aplicativos em constante atualização. A sensação não é mais a de estar perdido, mas a de estar permanentemente provisório. E isso cansa de um jeito novo: não pela queda, mas pela ausência de chão.

O problema não é a instabilidade em si — afinal, o mundo sempre foi móvel. Heráclito já dizia que não se entra duas vezes no mesmo rio. O problema começa quando transformamos a instabilidade em valor moral, quase uma virtude. Adaptar-se vira obrigação constante; cansar-se, um defeito; desejar permanência, um sinal de atraso.

No trabalho, isso aparece quando a insegurança é vendida como “flexibilidade”. Na vida pessoal, quando o medo de se comprometer é rebatizado de “liberdade emocional”. Tudo é compreensível, tudo é fluido — exceto a necessidade humana de algum tipo de continuidade.

Zygmunt Bauman chamou esse cenário de modernidade líquida: relações, instituições e identidades que não mantêm forma por tempo suficiente para criar raízes. Mas talvez hoje já tenhamos ido além da liquidez. Não é só que tudo muda; é que esperamos que tudo mude — e rápido. Quando algo permanece, causa estranhamento.

Mesmo assim, há pequenos gestos de resistência quase invisíveis: o hábito mantido apesar da agenda caótica, a amizade que atravessa fases, o trabalho feito com cuidado mesmo sem garantias. São formas discretas de dizer que nem tudo precisa ser instável para ser vivo.

Talvez a questão não seja eliminar a instabilidade — isso seria ilusório —, mas recusar sua normalização total. Reconhecer que há algo de profundamente humano no desejo por continuidade, por vínculos que não precisem ser renegociados a cada semana.

Em um mundo que se orgulha de não prometer nada, talvez o verdadeiro ato radical seja sustentar alguma coisa. Mesmo que seja pequena. Mesmo que seja frágil. Mesmo que não esteja na moda.

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Mutação Social

Quando a pele da sociedade troca de lugar com a alma

Outro dia, esperando o ônibus, percebi algo curioso. As pessoas não estavam apenas olhando para o celular — elas viviam dentro dele. Era como se o ponto de ônibus fosse apenas um cenário provisório, uma pausa entre dois mundos digitais. De repente, pensei: e se o que estamos chamando de “mudança social” já não for mais uma simples transformação, mas uma mutação? Algo mais profundo, quase biológico, em que o tecido da vida coletiva se reorganiza em outro código?

Mutação social não é apenas troca de valores, modas ou hábitos. É quando a estrutura de sentir e pensar de uma época muda de tal forma que a própria ideia de “humano” precisa ser revista. Foi isso que Michel Foucault tentou mostrar quando analisou como o homem moderno nasceu no século XVIII como uma figura de discurso, destinada um dia a “desaparecer como um rosto de areia na beira do mar”. A mutação, para ele, acontece nas condições do saber, nas formas pelas quais o sujeito se reconhece como parte do mundo. O que muda não é só o comportamento — é o campo de possibilidades do pensamento.

Hoje, vivemos outra dessas mutações. Zygmunt Bauman chamou o nosso tempo de “modernidade líquida” — uma era em que nada permanece sólido por muito tempo. Os vínculos escorrem, as identidades se dissolvem, e as instituições se adaptam à velocidade das conexões. O que antes era base (família, trabalho, religião) se tornou plataforma. Cada um é um projeto em atualização constante, e o sentido da vida parece depender da última versão disponível.

Mas há também uma dimensão mais sutil. Edgar Morin diria que vivemos uma metamorfose civilizacional. Mutação não é apenas desintegração, mas também criação — a possibilidade de uma nova forma de solidariedade, mais complexa, mais consciente da interdependência planetária. Morin fala de uma “via para o futuro” que não seja apenas técnica, mas ética: uma humanidade capaz de se reinventar sem perder a noção de limite.

Contudo, se olharmos para o Brasil, a mutação social ganha uma coloração particular. Marilena Chaui observa que a sociedade brasileira é atravessada por um tipo de ideologia que se apresenta como natural — uma ideologia que disfarça desigualdades sob a aparência de cordialidade. Para ela, o Brasil vive um “autoritarismo social” disfarçado de harmonia, no qual a obediência, a hierarquia e o privilégio se reproduzem sem precisar de coerção explícita. Assim, mesmo quando as formas sociais parecem mudar — com novos discursos de cidadania, liberdade ou inclusão — as estruturas simbólicas do poder permanecem.

Chaui nos ajuda a perceber que nem toda mutação é emancipatória. Há mutações que apenas atualizam velhas formas de dominação, agora travestidas de modernidade digital ou de meritocracia neoliberal. Quando o discurso da “autonomia” se transforma em obrigação de “empreender-se a si mesmo”, o indivíduo se torna cúmplice da própria exploração — o que Byung-Chul Han chama de autoexploração voluntária.

Nesse sentido, a mutação social contemporânea pode ser vista como uma contradição viva: produzimos discursos de liberdade enquanto ampliamos a servidão invisível; multiplicamos as vozes enquanto reforçamos o silêncio estrutural. Como diria Chaui, o desafio está em “transformar a mudança em transformação”, ou seja, fazer com que as novas formas de vida não apenas se adaptem ao poder, mas criem novas possibilidades de experiência e de consciência.

Talvez toda sociedade precise passar por mutações para continuar viva. Como o corpo, que se adapta, se regenera e, às vezes, precisa adoecer para mudar. O perigo está em confundir mutação com progresso. Pois nem toda evolução é ascensão — às vezes, é apenas fuga.

E, enquanto o ônibus finalmente chega, percebo que essa mutação social é como a própria viagem: ninguém sabe ao certo o destino, mas todos estão em movimento, com o olhar preso à tela e o corpo na estrada — acreditando que seguir é o mesmo que mudar.


sábado, 16 de agosto de 2025

Contracultura

O Inédito Viável em Chamas

Feche os olhos. Sinta o cheiro de tinta fresca na parede recém-pichada, ouça o som rachado de uma guitarra feita em casa, sinta a vibração de vozes que não pedem licença para existir. Contracultura é isso: uma recusa polida não serve; o que vale é o “não” dito com o corpo inteiro. Não é moda alternativa, não é só o figurino dos anos 60 ou 70 — é uma pulsação que surge sempre que alguém decide que não vai seguir a coreografia ensaiada pelo mundo.

Quando Theodore Roszak, em The Making of a Counter Culture, descreveu a explosão juvenil que misturava rock psicodélico, filosofia oriental e protestos contra a guerra, ele captou algo maior do que um momento histórico: captou o impulso de reinventar a percepção. Michel Foucault, com seu faro para as engrenagens invisíveis do poder, nos lembraria que esse gesto é sempre mais do que estética — é contra-coreografia, uma tentativa de mudar o passo antes que a música da ordem termine.

No Brasil, contracultura é tropicalismo misturando guitarra elétrica e berimbau, é o improviso que Hermano Vianna enxerga como traço identitário, é o espaço produzido pela troca humana que Milton Santos descreveu como antídoto contra a pasteurização do mundo. Renato Janine Ribeiro vai mais longe: resistir culturalmente é ato político e poético ao mesmo tempo.

Hoje, ela não mora só nos cartazes amassados de festivais independentes. Está nas bandas que gravam no quarto e lançam no Bandcamp, recusando o crivo de gravadoras; nos slams que ocupam praças e fazem do asfalto um palco; nos coletivos de mídia como a Mídia Ninja que narram os fatos a partir de uma lente própria. Está no agricultor que troca sementes crioulas para driblar a lógica industrial e no programador que cria software livre para que o conhecimento não tenha dono. Está na aldeia indígena que transmite, via celular, um ritual ancestral — e transforma o 4G em ponte cultural.

A contracultura digital é, talvez, sua encarnação mais intrigante: não foge da tecnologia, mas a subverte. Hackers que defendem criptografia como direito, artistas que usam inteligência artificial não para repetir estéticas pré-fabricadas, mas para questionar o próprio papel da máquina na criação.

Ela é líquida, difusa, atravessa o feed e o rio, o bit e o batuque. E, no entanto, conserva sua essência: recusar o script e escrever a própria cena, improvisando luz e cenário se for preciso. É, como dizia Paulo Freire, o “inédito viável”: aquilo que ainda não existe, mas pode nascer se alguém ousar imaginar — e tiver coragem de colocar as mãos, o corpo e o risco nesse nascimento.

No fundo, contracultura não é apenas contra algo. É a favor de um mundo que ainda não foi permitido, mas que insiste em aparecer pelas frestas. É um sopro de ar fresco em corredores abafados. É um riso fora de hora na reunião séria. É a flor que cresce na rachadura do concreto — e recusa ser arrancada.