Durante
muito tempo, a instabilidade foi tratada como uma exceção: uma fase ruim, um
desvio temporário, algo a ser rapidamente corrigido para que a vida “voltasse
ao normal”. O curioso é que, silenciosamente, fizemos o caminho inverso. Hoje,
o que era exceção virou regra. O instável se normalizou.
Percebo
isso nas conversas mais banais. Ninguém mais pergunta “como vai o trabalho?”,
mas “até quando dura esse projeto?”. Relações começam já com data de
validade implícita. Moradia, carreira, amizades — tudo vem acompanhado de um
asterisco invisível: sujeito a mudanças.
No
cotidiano, a instabilidade ganhou uma estética própria. Currículos não contam
histórias contínuas, mas colagens. Vidas são administradas como aplicativos em
constante atualização. A sensação não é mais a de estar perdido, mas a de estar
permanentemente provisório. E isso cansa de um jeito novo: não pela queda, mas
pela ausência de chão.
O
problema não é a instabilidade em si — afinal, o mundo sempre foi móvel.
Heráclito já dizia que não se entra duas vezes no mesmo rio. O problema começa
quando transformamos a instabilidade em valor moral, quase uma virtude.
Adaptar-se vira obrigação constante; cansar-se, um defeito; desejar
permanência, um sinal de atraso.
No
trabalho, isso aparece quando a insegurança é vendida como “flexibilidade”. Na
vida pessoal, quando o medo de se comprometer é rebatizado de “liberdade
emocional”. Tudo é compreensível, tudo é fluido — exceto a necessidade humana
de algum tipo de continuidade.
Zygmunt
Bauman chamou esse cenário de modernidade líquida: relações,
instituições e identidades que não mantêm forma por tempo suficiente para criar
raízes. Mas talvez hoje já tenhamos ido além da liquidez. Não é só que tudo
muda; é que esperamos que tudo mude — e rápido. Quando algo permanece, causa
estranhamento.
Mesmo
assim, há pequenos gestos de resistência quase invisíveis: o hábito mantido
apesar da agenda caótica, a amizade que atravessa fases, o trabalho feito com
cuidado mesmo sem garantias. São formas discretas de dizer que nem tudo precisa
ser instável para ser vivo.
Talvez
a questão não seja eliminar a instabilidade — isso seria ilusório —, mas
recusar sua normalização total. Reconhecer que há algo de profundamente humano
no desejo por continuidade, por vínculos que não precisem ser renegociados a
cada semana.
Em
um mundo que se orgulha de não prometer nada, talvez o verdadeiro ato radical
seja sustentar alguma coisa. Mesmo que seja pequena. Mesmo que seja frágil.
Mesmo que não esteja na moda.