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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Combates Sociais


Quando falamos em combates sociais, a imagem que surge costuma ser a de confronto direto: ruas ocupadas, greves, protestos, disputas políticas explícitas. Mas essa é apenas a camada mais visível. O combate social não acontece apenas quando há choque aberto — ele também ocorre nas formas silenciosas de resistência, nas negociações cotidianas, nas disputas por reconhecimento e nas lutas por sentido que atravessam a vida comum.

Em seu nível mais profundo, o combate social não é apenas uma luta entre grupos, mas uma disputa sobre como a realidade será organizada. Quem define o que é justo? O que é normal? O que é possível? Essas perguntas não são neutras — elas são campos de batalha simbólicos.

Sob a perspectiva de Karl Marx, o combate social não é acidental, mas estrutural. Ele nasce das contradições materiais entre classes sociais, especialmente na forma como o trabalho, a riqueza e os meios de produção são distribuídos. Para Marx, a história não é um fluxo pacífico de evolução, mas um processo atravessado por conflitos reais entre interesses divergentes.

Isso significa que o combate social não é exceção — é parte constitutiva da vida social.

Mas ele não se limita ao econômico. Os combates sociais também acontecem no campo cultural, simbólico e subjetivo. Eles aparecem na disputa por narrativas, na luta por visibilidade, na contestação de identidades impostas e na redefinição do que conta como humano.

Um exemplo concreto pode ser visto em uma greve de trabalhadores de transporte público em uma grande cidade. À primeira vista, trata-se de uma disputa salarial ou contratual. Mas, na prática, esse evento revela muito mais: expõe a dependência estrutural da sociedade em relação ao trabalho invisibilizado desses trabalhadores, interrompe a rotina urbana e força a população a enxergar aquilo que normalmente permanece naturalizado. Durante a greve, o cotidiano entra em colapso — e esse colapso revela a arquitetura oculta da vida social.

O combate, nesse caso, não é apenas por salário, mas por reconhecimento da própria centralidade de uma função social.

Há também combates sociais que não aparecem como conflito direto, mas como resistência cotidiana.

Uma estudante de primeira geração universitária, por exemplo, ao entrar em um ambiente acadêmico elitizado, pode enfrentar um combate silencioso: adaptar sua linguagem, negociar sua identidade, lidar com expectativas implícitas que não foram feitas para ela. O combate aqui não é declarado, mas vivido no esforço constante de permanecer em um espaço que historicamente não foi pensado para sua presença.

Esses exemplos mostram que o combate social não é apenas explosão — é também permanência.

É sustentação sob tensão.

E é justamente essa multiplicidade de formas que torna o conceito tão complexo. Nem todo combate é visível, nem todo conflito é organizado, nem toda resistência se apresenta como movimento político formal. Muitas vezes, o combate social está disperso no cotidiano, incorporado em pequenas recusas, desvios e reinvenções.

Mas isso não significa diluição do conflito — significa sua difusão.

As estruturas sociais não são estáticas, e por isso estão constantemente sendo contestadas. Mesmo quando não há consciência explícita de luta, há tensões em curso: entre tradição e mudança, entre norma e desvio, entre inclusão e exclusão.

O ponto central é que o combate social não é apenas destruição. Ele também é produção.

Produção de novos direitos, de novas linguagens, de novas formas de vida. Cada conflito abre a possibilidade — ainda que incerta — de reorganização do social.

No entanto, isso não deve ser romantizado. Combates sociais também geram desgaste, violência, retrocessos e fraturas profundas. Não há garantia de progresso automático. O resultado do combate depende das forças envolvidas, das condições históricas e das formas de organização coletiva.

Em termos marxistas, isso significa que o conflito não leva necessariamente a uma solução harmoniosa, mas a novas configurações de poder.

E ainda assim, algo permanece constante: a sociedade nunca está em repouso.

Ela é atravessada por tensões que a mantêm em movimento.

Talvez seja isso que define os combates sociais: eles não são apenas rupturas no tecido social, mas também o próprio modo como esse tecido se reorganiza continuamente.

Viver em sociedade é, de algum modo, viver dentro de um campo de forças em disputa.

E compreender isso não é apenas reconhecer o conflito — é entender que a própria forma do social nasce dele.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Mais Formação


O Paradoxo do Conhecimento sem Consciência

Vamos direto ao ponto: estudar mais não nos torna automaticamente melhores. Se assim fosse, bastaria encher o mundo de diplomas para eliminar corrupção, violência e injustiça. Mas a realidade insiste em contrariar essa esperança confortável. Há pessoas altamente escolarizadas envolvidas em escândalos, fraudes e decisões cruéis. Então, o que está faltando?

A crença de que “mais formação” resolve problemas morais revela uma confusão profunda entre conhecimento e caráter. Saber não é o mesmo que ser.

Desde Sócrates, existe a ideia de que o conhecimento conduz à virtude. Para ele, ninguém faria o mal conscientemente — o erro seria fruto da ignorância. No entanto, essa visão otimista encontra limites evidentes no mundo contemporâneo. Hoje sabemos que pessoas instruídas podem agir contra o que sabem ser correto. O problema, portanto, não é apenas ignorância.

Hannah Arendt oferece uma chave perturbadora ao analisar a “banalidade do mal”. Em seu estudo sobre Adolf Eichmann, ela mostra que grandes atrocidades podem ser cometidas não por monstros irracionais, mas por indivíduos comuns, capazes de raciocínio técnico, porém incapazes de reflexão ética profunda. O mal, nesse sentido, não nasce da falta de inteligência, mas da ausência de pensamento crítico sobre as próprias ações.

Essa lógica não está distante do presente. No Brasil contemporâneo, escândalos envolvendo corrupção administrativa em diferentes esferas do poder público mostram que formação acadêmica elevada não impede condutas antiéticas. Operações de investigação envolvendo políticos, gestores e empresários frequentemente revelam perfis altamente escolarizados, com MBAs, doutorados e carreiras técnicas sofisticadas, mas ainda assim envolvidos em esquemas de desvio de recursos, superfaturamento e favorecimento ilícito. O problema não é ausência de conhecimento técnico — é o uso estratégico dele sem compromisso ético.

Já Immanuel Kant propõe que a moralidade não depende do conhecimento acumulado, mas da capacidade de agir por dever, segundo princípios universais. Uma pessoa pode ser extremamente instruída e, ainda assim, escolher agir por interesse próprio. A formação intelectual, isoladamente, não garante compromisso moral.

No campo da sociologia, Zygmunt Bauman alerta que a modernidade produziu sistemas altamente racionais que, paradoxalmente, facilitaram práticas desumanas. A eficiência técnica pode coexistir com a indiferença moral. Em outras palavras, quanto mais sofisticada a organização social, maior o risco de que responsabilidades sejam diluídas — e com elas, a consciência.

No Brasil, isso aparece também em dinâmicas institucionais cotidianas. Em sistemas burocráticos complexos — como saúde, educação e assistência social — decisões são frequentemente tomadas com base em metas, indicadores e protocolos que podem desumanizar o atendimento. Profissionais bem formados, pressionados por produtividade e cortes orçamentários, acabam operando estruturas que excluem silenciosamente quem mais precisa de cuidado. A crueldade, aqui, não é necessariamente intenção individual, mas resultado de sistemas que substituem responsabilidade por procedimento.

Jessé Souza amplia essa leitura ao argumentar que a elite instruída muitas vezes utiliza seu capital cultural não para promover justiça, mas para justificar privilégios. No contexto brasileiro, isso aparece quando discursos técnicos são usados para legitimar desigualdades — por exemplo, ao atribuir pobreza exclusivamente a “falta de mérito” ou “baixa qualificação”, ignorando desigualdades históricas e estruturais.

Outro exemplo contemporâneo é o debate sobre segurança pública. Em muitos casos, políticas são formuladas por especialistas altamente qualificados, mas focadas quase exclusivamente em repressão, sem atacar causas estruturais como desigualdade urbana, racismo e falta de oportunidades. O resultado é uma formação técnica sofisticada aplicada a soluções incompletas ou ineficazes.

Isso nos leva a uma provocação inevitável: formação para quê?

Se a educação for apenas técnica — voltada ao desempenho, à produtividade e ao acúmulo de informações — ela pode, inclusive, reforçar desigualdades e legitimar comportamentos antiéticos. Uma mente treinada para competir, mas não para refletir, pode ser eficiente, porém perigosa.

Por outro lado, Paulo Freire propõe uma educação voltada à consciência crítica. Para ele, formar não é apenas transmitir conteúdos, mas desenvolver a capacidade de ler o mundo, questioná-lo e transformá-lo. Aqui, a formação deixa de ser acúmulo e passa a ser despertar.

O problema, então, não é a formação em si, mas o tipo de formação que valorizamos.

Uma educação que ignora ética, empatia e responsabilidade social pode produzir indivíduos altamente capacitados — e profundamente desconectados das consequências de seus atos. Por outro lado, uma formação que integra conhecimento e consciência pode não eliminar o mal, mas ao menos cria condições para reconhecê-lo e resistir a ele.

No fim, talvez seja necessário abandonar a ilusão de que mais educação, por si só, nos salvará. O desafio não é formar mais, mas formar melhor — ou, mais radicalmente, formar humanos capazes de pensar sobre o que fazem.

Porque, no fundo, não é a quantidade de conhecimento que define quem somos, mas o uso que fazemos dele.

E isso, nenhuma formação garante automaticamente.


Causas Identitárias


Entre Reconhecimento e Fragmentação

Hoje em dia, parece impossível entrar em qualquer debate público sem esbarrar em alguma causa identitária. Seja nas redes sociais, na política ou na cultura, estamos constantemente discutindo gênero, raça, sexualidade, pertencimento. E isso não é por acaso. Durante muito tempo, essas dimensões foram silenciadas ou tratadas como irrelevantes. Agora, elas voltam com força — não como detalhe, mas como centro.

No Brasil, esse movimento ganha intensidade própria. Aqui, identidade nunca foi apenas uma questão simbólica: ela está diretamente ligada à história, à desigualdade e à sobrevivência cotidiana.

Reconhecimento e história: o caso racial

As causas identitárias no Brasil não podem ser compreendidas sem considerar o legado da escravidão e do racismo estrutural. O movimento negro, por exemplo, tem sido central na denúncia de desigualdades persistentes.

Um marco importante foi a implementação das cotas raciais em universidades públicas e concursos. Essas políticas ampliaram o acesso de estudantes negros ao ensino superior, alterando significativamente o perfil das instituições. No entanto, o debate permanece acirrado: críticos questionam critérios e defendem uma abordagem exclusivamente econômica, enquanto defensores ressaltam que a desigualdade racial não se reduz à renda.

Aqui, o pensamento de Axel Honneth ajuda a compreender que não se trata apenas de redistribuição, mas de reconhecimento. O acesso à universidade não é só uma questão econômica, mas também simbólica: quem pode ocupar espaços historicamente negados?

Gênero e violência: visibilidade e reação

Outro exemplo central é o avanço das pautas feministas no combate à violência de gênero. Leis como a Lei Maria da Penha e o debate crescente sobre feminicídio trouxeram à tona uma realidade antes naturalizada.

Campanhas nas redes sociais, como denúncias de assédio e movimentos de exposição de abusos, ampliaram a visibilidade do problema. Ao mesmo tempo, geraram reações: acusações de “exagero”, disputas narrativas e polarização.

Nesse contexto, Michel Foucault nos ajuda a perceber como o discurso redefine o que é aceitável. O que antes era silenciado passa a ser nomeado — e, ao ser nomeado, torna-se campo de disputa.

Povos indígenas: identidade e território

As causas identitárias também se manifestam de forma contundente nas lutas indígenas. Aqui, identidade está diretamente ligada à terra, à cultura e à sobrevivência física.

Disputas sobre demarcação de terras, preservação ambiental e direitos culturais revelam um conflito profundo entre diferentes projetos de sociedade. Para povos indígenas, a identidade não é apenas uma questão simbólica, mas uma forma de existência coletiva.

Esse caso evidencia um ponto crucial: as causas identitárias nem sempre são apenas reivindicações de reconhecimento individual; muitas vezes, envolvem formas de vida inteiras em risco.

Cultura e representatividade

No campo cultural, a questão da representatividade tem ganhado destaque. A presença de artistas negros, periféricos e LGBTQIA+ em espaços de visibilidade — como música, cinema e televisão — tem reconfigurado o imaginário coletivo.

O crescimento de produções vindas das periferias, o sucesso de artistas independentes e a valorização de narrativas antes marginalizadas mostram uma mudança importante. No entanto, essa inclusão muitas vezes ocorre dentro de estruturas ainda concentradas.

Aqui, a reflexão de Stuart Hall é fundamental: identidade é também disputa por narrativa. Quem conta a história importa tanto quanto a história contada.

Política e polarização

As causas identitárias também se tornaram centrais no debate político brasileiro. Elas aparecem tanto em propostas de inclusão quanto em discursos que as criticam como divisivas.

Essa polarização revela uma tensão profunda: enquanto alguns veem nas pautas identitárias um avanço civilizatório, outros as percebem como ameaça à ideia de unidade nacional. O resultado é um debate frequentemente marcado por simplificações e conflitos.

Nesse ponto, Nancy Fraser oferece um alerta importante: focar apenas na identidade pode obscurecer desigualdades econômicas estruturais. No Brasil, onde a desigualdade social é extrema, essa tensão se torna ainda mais evidente.

Entre avanços e limites

Apesar das tensões, é inegável que as causas identitárias produziram avanços concretos no Brasil. Elas ampliaram o debate público, deram visibilidade a injustiças históricas e pressionaram por mudanças institucionais.

No entanto, também revelam limites. A inclusão simbólica nem sempre se traduz em transformação material. A representatividade pode coexistir com desigualdade. E o reconhecimento pode, às vezes, se fragmentar em disputas que dificultam alianças mais amplas.

Concluindo...

No Brasil contemporâneo, as causas identitárias são um campo de disputa central. Elas não apenas revelam desigualdades, mas também reconfiguram a forma como pensamos justiça, pertencimento e convivência.

Talvez o desafio mais urgente não seja escolher entre identidade e universalidade, mas construir pontes entre elas. Reconhecer diferenças sem perder a capacidade de agir coletivamente — esse pode ser o verdadeiro horizonte de transformação.

Penso que, no fim, as causas identitárias nos colocam diante de uma pergunta difícil: como fazer da diversidade não um campo de conflito permanente, mas uma base para um novo tipo de comum?